Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Vantagens e fecundidade da vida interior.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

A contemplação segundo a belíssima descrição de São Bernardo: “Esta é a vida pura, santa e imaculada na qual o homem vive com mais pureza, cai mais raramente, levanta-se com mais rapidez, anda com mais cautela, é consolado do céu com mais frequência, descansa mais seguro, morre mais confiado, purga-se mais depressa e é premiado com mais vantagem”.

No outro artigo sobre o tema, já vimos as primeiras vantagens da vida de contemplação:

1º – O homem de vida interior cai mais raramente, porque premune contra os perigos do ministério e repara as forças que o apostolado porventura fez perder; multiplica, outrossim, as energias e os méritos.

A vida interior é fonte de alegria e consolação. Favorecido pelo recolhimento, alimentado pela Eucaristia, o padre, caçador ou pescador de almas, sente aumentar o seu amor a Jesus Cristo e sente inefável alegria em poder colaborar com Ele nesta obra divina de salvar almas, podendo dar assim a maior alegria ao Coração de Jesus. Além do mais, a vida do padre interior é vida de oração. Ora, “vida de oração, exclama o Santo Cura d’Ars, que felicidade! É a grande felicidade da terra. Ó bela união com Nosso Senhor! A vida interior é um banho de amor em que a alma mergulha”.

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A vida interior é um escudo contra o desânimo. A vida do homem apostólico é uma trama de trabalhos, privações, sofrimentos. Se não tiver muito espírito de fé que é o fruto da vida interior, haverá horas tristes, horas de contradição, de humilhação, enfim, de sofrimentos. “Quando Deus quer, diz Bossuet, que uma obra seja toda d’Ele, de sua mão, começa por reduzir tudo à impotência, ao nada, depois age”. Então o homem de vida interior, de fé, no meio das ruínas, fica firme de pé, porque sabe que trabalha por amor de Deus e das almas. Sabe também que as provações generosamente aceitas são elementos de fecundidade na virtude e proporcionam a Deus maior glória. Então não desanima. Reza mais ainda, aceita tudo como graça de Deus. E como diz D. Chautard, qual abelha infatigável, ele há de, por certo, reconstruir com alegria novos favos na colmeia devastada.

A vida interior é fonte de fecundidade. Ilude-se o “americanismo” pensando que contribui para a maior glória de Deus visando principalmente aos resultados exteriores. “Aqueles que oram, fazem mais pelo mundo do que aqueles que combatem, e, se o mundo caminha cada vez pior, é porque há mais batalhas que orações” (Donoso Cortês).

“As mão erguidas, diz Bossuet, desbaratam mais batalhões do que as mãos que ferem”.

“Ordinariamente, diz D. Chautard, uma oração curta, mas, fervorosa, contribui muito mais para apressar uma conversão do que longas discussões e excelentes discursos. Aquele que ora trata com a Causa Primeira, opera diretamente sobre ela. Tem, desta sorte, em mãos todas as causas segundas, visto como estes somente deste princípio superior recebem sua eficácia. Por isso o efeito desejado é então obtido com maior segurança e rapidez”.

Diz ainda o autor do admirável livro “A ALMA DE TODO APOSTOLADO”: “Dez mil hereges, no dizer de uma revelação respeitável, foram convertidos por uma só oração inflamada da seráfica Santa Teresa d’Ávila”.

Daí os princípios:

1º – A vida ativa deve proceder da vida contemplativa, traduzida e continuada exteriormente, desligando-se dela o menos possível;

2º – Como toda causa é superior ao seu efeito, logo, para aperfeiçoar os outros é mister uma perfeição maior do que para qualquer um se aperfeiçoar simplesmente a si mesmo.

“Como a mãe, diz D. Chautard, não pode amamentar o filho senão na medida em que ela própria se alimenta, assim também os confessores, diretores de almas, os pregadores etc., devem primeiramente assimilar a substância com que hão de nutrir em seguida os filhos da Igreja. A verdade e o amor de Deus são elementos desta substância. E só a vida interior traduz a verdade e a caridade divinas de maneira a torná-las verdadeiro alimento capaz de engendrar a vida”.

O apóstolo deve acumular em si a vida de oração, porque na medida em que for o primeiro a viver do amor de Nosso Senhor, nesta proporção será também capaz de inflamar os ardores deste amor nos corações do próximo.

“Que os homens devorados de atividade, que julgam poder arrastar o mundo inteiro pelas suas pregações e obras exteriores, reflitam um instante. Compreenderão, sem dificuldade que seriam muito mais úteis à Igreja e agradáveis a Deus, sem falar do bom exemplo que dariam em redor de si, se consagrassem mais tempo à oração e aos exercícios de vida interior. A oração lhes mereceria esta graça e lhes alcançaria as forças espirituais de que precisam para produzir tais frutos” (S. João da Cruz).

“Sem oração mental, diz S. Vicente de Paulo, pode haver muito barulho, mas pouco fruto, porque o missionário sem oração é um soldado sem arma, um apóstolo pintado, um cadáver”.

Não podemos deixar de citar S. Pio X que tanto se preocupou com a vida interior dos clérigos: “Para restaurar todas as coisas em Cristo, pelo apostolado das obras, é preciso a graça divina e o apóstolo não a recebe se não for unido a Cristo. É somente depois de formar Cristo em nós que poderemos dá-Lo facilmente às famílias e à sociedade. Todos os que participam do apostolado devem ter uma verdadeira piedade”.

Lembro, outrossim, que não há vida interior completa, sem uma verdadeira e terna devoção à Maria Imaculada, o canal de todas as graças e, como tal principalmente da graça de escol que é a íntima união com Jesus Cristo. Maria Santíssima é o vínculo entre nós e seu Divino Filho. Jesus veio a nós por Maria (Deus é que assim o quis), por Maria devemos ir a Jesus.

Oração: Ó minha Mãe Imaculada, foi para vós me ajudardes a conservar meu coração unido mediante Jesus à Santíssima Trindade que, no Calvário a palavra do vosso Filho me proclamou filho vosso. Quero que as invocações, cada vez mais frequentes, que vos hei de dirigir, visem sobretudo a guarda do meu coração, a fim de purificar as tendências, as intenções, os afetos e os desejos dele, e assim ajudado e guiado por Vós, em tudo eu vise unicamente a maior honra e glória de vosso Divino Filho. Amém!

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3 Comentários to “Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Vantagens e fecundidade da vida interior.”

  1. Hans Urs von Balthasar, apesar que estaria envolvido numa serie de procedimentos que o colocaria mais á margem que dentro da Igreja, tem também pontos aproveitaveis, pois consistiria numa expressão nova e original ao primado de Deus, que viria expresso pelo lugar de Maria na Igreja.
    “Comparando o respectivo papel das figuras de N Senhora e de S Pedro, aquela é o amor, a graça, a santidade; enquanto esse é figura da autoridade e ordem, vem depois, sendo na Igreja apenas funcional e transitório. Se acrescentarmos a figura de Paulo, como representante da missão apostólica, poderíamos dizer que, igualmente em relação ao “princípio paulino”, o “princípio mariano” leva a dianteira, assim como o “discípulo” vem antes do “missionário”. N Senhora é, pois, o coração da Igreja e é desse coração pulsante de amor e adoração que provém todo seu fervor missionário e todo o seu zelo apostólico”.
    Decorre disso que vale muito mais o sacerdote orante que o ativista e, nesse século de “resultados” e de privilegiar o espalhafatoso e extasiante de multidões, cada vez mais se perde por resumir-se em si e a coisas que o cercam.
    No presente, quem disse que os sacerdotes que ajuntam multidões ao redor de si evangelizam em mais que aqueles que, pela vida interior e de preces contínuas? Esses, em geral anônimos, têm o poder de tocar os corações e de fato os converter, comparados aos midiáticos, como o arrebatador de imensas plateias, como Pe Fabio de Melo; reúnam-se alguns convertidos daqueles, desses e avaliem como cada grupo estará em direção inversa ao outro!
    *A revolução da mística para a práxis e deu-se por antes o ideal ser de Deus e da religião que sempre vinha em primeiro lugar. Já na modernidade foi o ideal do homem e de sua ação demiúrgica que tomou o comando. Quanto a Deus, este foi inicialmente posto à margem (séc. XVII), depois dispensado (séc. XVIII) e finalmente expulso (séc. XIX e XX). Esse foi o caminho da modernidade hegemônica, a de tipo francês – pois há de reconhecer que houve também outra modernidade, a de tipo anglo-saxão, que, embora marginal, manteve-se aberta à dimensão religiosa da vida.
    * Frei Clodovis Boff

  2. Maravilhoso ensinamento! Deveria ser utilizado para a formação nos seminários, conventos e para os padres que pregam e pensam que apostolado é desdobrar-se em atividades. Como nós católicos precisamos de orientações como esta.
    Muito obrigado por esta preciosidade Pe. Elcio.

  3. Que texto maravilhoso!

    Muito obrigada, padre Elcio! Deus lhe pague!