Cardeal Caffarra sobre Casamento, Família, Amoris Laetitia, e confusão na Igreja.

Por Maike Hickson, One Peter Five, 11 de julho de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Apresentamos uma entrevista exclusiva com o Cardeal Carlo Caffarra, conduzida pelo Dr. Maike Hickson de OnePeterFive. O Cardeal Caffarra é Arcebispo Emérito de Bolonha e ex-membro do Pontifício Conselho para a Família. Foi em uma carta para o Cardeal Caffarra que a Irmã Lúcia de Fátima revelou que “a batalha final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre o casamento e a família.”

Maike Hickson (MH): O senhor falou, em uma entrevista recente, sobre a exortação papal Amoris Laetitia, e o senhor disse que especialmente o capítulo 8 não é claro e já tem causado confusão mesmo entre os bispos. Se o senhor tivesse a oportunidade de falar com o Papa Francisco sobre essa matéria, o que o senhor diria a ele? Qual seria sua recomendação sobre o que o Papa Francisco poderia e deveria fazer agora, dado que há tanta confusão?

Cardeal Caffarra

Cardeal Caffarra

Cardeal Caffarra (CC): Na Amoris Laetitia [308] o Santo Padre Francisco escreve: “Eu entendo aqueles que preferem um cuidado pastoral mais rigoroso que não deixa espaço para confusão.” Eu concluo dessas palavras que Sua Santidade percebe que os ensinamentos da Exortação levantariam confusão à Igreja. Pessoalmente, desejo – e que é como tantos dos meus irmãos em Cristo (cardeais, bispos, e os fiéis leigos igualmente) também pensam – que a confusão deveria ser removida, não porque eu prefiro um cuidado pastoral mais rigoroso, mas porque, em vez disso, eu simplesmente prefiro um cuidado pastoral mais claro e menos ambíguo. Isso dito –  com todo o devido respeito, afeição e devoção que sinto a necessidade de manter para com o Santo Padre –  eu diria a ele: “Santidade, por favor esclareça estes pontos. a) Quanto do que Vossa Santidade disse na nota de rodapé 351, do parágrafo 305, também é aplicável aos casais divorciados e recasados que desejam ainda de alguma maneira continuar a viver como marido e mulher; e assim quanto do que foi ensinado pela Familiaris Consortio No. 84, pela Reconciliatio Poenitentia No. 34, pela Sacramenttum unitatis No. 29, pelo Catecismo da Igreja Católica No. 1650, e pela doutrina teológica comum, deve ser considerado agora abrogado? b) O constante ensinamento da Igreja – como foi também recentemente reiterado na Veritatis splendor, No. 79 – é que há normas de moral negativa que não permitem exceções, porque elas proíbem atos que são intrinsecamente desonrosos e desonestos – tais como, por exemplo, o adultério. Esse ensinamento tradicional ainda se acredita ser verdadeiro, mesmo após a Amoris Laetitia?” Isso é o que eu diria ao Santo Padre.  

Se o Santo Padre, em seu supremo julgamento, tiver a intenção de intervir publicamente para remover essa confusão, ele tem à sua disposição muitos meios diferentes de fazer isso.

MH: O senhor é um teólogo moral. Qual o seu conselho para os católicos confusos a respeito do ensinamento moral da Igreja Católica sobre o matrimônio e a família? Como deve agir uma consciência magisterialmente (lit. authoritatively) bem formada quando ela se depara com questões como contracepção, divórcio e “recasamento”, bem como a homossexualidade?

CC: A condição na qual o próprio matrimônio se encontra hoje no Ocidente é simplesmente trágica. Leis civis mudaram a definição, porque elas erradicaram a dimensão biológica da pessoa humana. Elas separaram a biologia da geração da genealogia da pessoa. Mas, devo falar sobre isso mais tarde.  Para os fiéis católicos que estão confusos sobre a Doutrina da Fé a respeito do matrimônio, eu simplesmente digo: “Leia e medite sobre o Catecismo da Igreja Católica nn.1601-1666. E quando você ouvir alguém conversar sobre casamento – mesmo se (isso for) feito por padres, bispos, cardeais – e você então verificar que não está em conformidade com o Catecismo, não os ouça. Eles são cegos guiando cegos.”

MH: O senhor poderia nos explicar, nesse contexto, a concepção moral de que nada que é ambíguo vincula a consciência católica, e especialmente então quando está provado ser intencionalmente ambíguo?

CC: A lógica nos ensina que uma proposição é ambígua quando pode ser interpretada em dois significados diferentes e/ou contrários. É óbvio que tal proposição não pode ter nem nosso assentimento teórico nem nosso assentimento prático, porque não tem um significado certo e claro.

MH: Para ajudar os católicos neste tempo de tanto equívoco ambíguo e “reserva mental”, haveria algo que o Papa Pio XII poderia ainda especialmente ensinar-nos, com respeito a questões de matrimônio e divórcio, e sobre a formação das criancinhas para a Vida Eterna, uma vez que se tem escrito tão amplamente sobre essas matérias?

CC: O Magistério de Pio XII sobre o matrimônio e a criação dos filhos era muito rico e freqüente. E com efeito, depois da Sagrada Escritura, ele é o autor mais citado pelo Vaticano II. Parece-me que há dois discursos que são particularmente importantes para responder à sua questão. O primeiro é a “Rádio Mensagem sobre a correta formação de uma consciência cristã na juventude,” 23 de março de 1952, in AAS vol. 44, 270-278. A segunda é a “Allocution to the Fédération Mondiale des Jeunesses Feminines Catholiques,” (n.t. Alocução à Federação Mundial da Juventude Feminina Católica) ibid. 413-419. Essa carta é de grande importância magisterial, pois ela trata de situações éticas.

MH: O jesuíta alemão padre Klaus Mertes, disse em uma entrevista a um jornal alemão que a Igreja Católica “deveria agora ajudar a estabelecer um direito humano à homossexualidade.” Qual deveria ser a resposta adequada da Igreja a tal proposta? Inclusive a sanção disciplinar adequada, bem como a doutrina moral.

CC: Eu honestamente não posso entender como um teólogo católico pode pensar e escrever sobre um direito humano à homossexualidade. No sentido preciso, um direito (individual) é uma faculdade moralmente legítima e legalmente protegida para realizar uma ação. O exercício da homossexualidade é inerentemente irracional e portanto desonesto. Um teólogo católico não pode – não deve – pensar que a Igreja tem de lutar para “estabelecer um direito humano à homossexualidade.”

MH: Mais fundamentalmente, em que medida os homens devem ter um direito humano – p. ex., um clamor por justiça – para fazer o que é errado aos olhos de Deus, tal como, por exemplo, praticar a poligamia?

CC: A questão dos direitos individuais agora mudou substancialmente em seu significado. Ela identifica o direito com seus próprios desejos. Mas, não temos aqui o espaço para abordar essa questão do ponto de vista do legislador humano.

MH: Uma vez que o Padre Mertes enfatizou em sua entrevista a importância de separar a procriação do matrimônio para tornar o caminho livre para a homossexualidade – o senhor poderia explicar-nos o ensino moral tradicional da Igreja sobre os fins ordenados do matrimônio e o primado da procriação e educação das crianças para o Céu? Por que a procriação é um propósito tão importante do matrimônio? Por que não poderia ser que o amor mútuo e o respeito entre os casais viesse primeiro e tomasse a precedência? O senhor vê as conseqüências práticas se são invertidos os fins do matrimônio – principalmente, se se põe o amor mútuo e o respeito acima da procriação dos filhos para o Céu?

CC: Eu preferiria dar uma resposta sintética às três questões colocadas nessas duas [perguntas anteriores]. Elas de fato tocam em uma grande questão que é de fundamental importância para a vida da Igreja e da sociedade civil. O relacionamento entre os aspectos de amor conjugal de um lado, e da procriação e educação de crianças por outro, é uma correlação, diriam os filósofos. Que quer dizer: é um relacionamento de interdependência entre duas realidades distintas. O amor conjugal que está sendo sexualmente expresso quando os dois esposos se tornam uma só carne no único local eticamente digno para dar vida a uma nova pessoa humana. A capacidade para dar vida a uma nova pessoa humana está inscrita no exercício da sexualidade conjugal, que é a linguagem esponsal de recíproco doar-se através dos esposos. Em resumo: conjugalidade e dom da vida são inseparáveis.

O que aconteceu especialmente após o Concílio? Contra o ensinamento do próprio Concílio, insistiu-se tanto no amor conjugal, que se considerou a procriação meramente sendo a conseqüência colateral do ato de amor conjugal. O Bem-aventurado Paulo VI corrigiu semelhante visão na encíclica Humanae Vitae julgando-a contrária à reta razão e à fé da Igreja. E São João Paulo II, na última parte de sua bela catequese sobre o Amor Humano, mostrou o fundamento antropológico do ensinamento de seu predecessor: principalmente, o ato de contracepção é objetivamente uma mentira dizendo isso com a linguagem do corpo dos esposos. Quais são as conseqüências da rejeição desse ensinamento? A primeira e mais séria conseqüência foi a separação entre sexualidade e procriação. Começou-se com “sexo sem bebês,” e chegou-se a “bebês sem (a intermediação de) sexo”: a separação é completa. A biologia de geração é separada da genealogia da pessoa. Isso leva a “produzir” crianças em laboratório; e à afirmação do (suposto) direito a uma criança. Sem sentido. Não há direito a uma pessoa, mas somente a coisas. Nesse ponto, houve todas as premissas para enobrecer a conduta homossexual, porque não se vê mais sua íntima irracionalidade, e toda a séria e intrínseca desonestidade da união homossexual. E assim chegamos a modificar a definição de casamento porque nós a desenraizamos da biologia da pessoa. Realmente, a Humanae Vitae foi uma grande profecia!

MH: Qual é, em sua essência, o propósito do casamento e da família?

CC: É a legítima união de um único homem e uma única mulher à luz da procriação e da educação das crianças. Se os dois são batizados, essa mesma realidade – não outra – torna-se um símbolo real da união Cristo-Igreja. Isso lhes dá um status na vida pública da Igreja, com um ministério próprio deles: a transmissão da fé às suas crianças.

MH: No contexto da corrente crescente de confusão moral: em que medida o indiferentismo religioso (ex, a afirmação de que se pode ser salvo em qualquer religião) leva ao relativismo moral? Para ser mais específico, se uma religião favorece a poligamia mas é considerada salvífica, não há então a conclusão de que a poligamia não é ilícita, afinal?  

CC: Relativismo é como uma metástase. Se você concorda com seus princípios, cada experiência humana, seja ela pessoal ou social, será ou se tornará corrompida. O ensinamento do Bem-aventurado J. H. Newman tem aqui grande atualidade. Próximo ao fim de sua vida, ele disse que o patógeno que corrompe o senso religioso e a consciência moral é “o princípio liberal,” como ele o chama. Quer dizer, com respeito à adoração que nós devemos a Deus, é irrelevante o que nós pensamos dEle; a crença de que todas as religiões têm o mesmo valor. Newman considera o princípio liberal assim entendido como sendo completamente contrário ao que ele chama “o princípio dogmático,” que é a base da proposição e afirmação cristãs. Do relativismo religioso para o relativismo moral, há só um passo curto. Não há assim nenhum problema no fato de que uma religião justifique a poligamia, e outra a condene. De fato, (para o relativismo) não existe supostamente verdade absoluta sobre o que é bom e o que é mau.

MH: O senhor poderia fazer um comentário sobre a recente observação do Cardeal Christoph Schönborn de que a Amoris Laetitia é doutrina vinculante e que os documentos magisteriais anteriores concernentes ao matrimônio e à família têm agora de ser lidos à luz da Amoris Laetitia?

CC: Eu respondo com duas simples observações. A primeira é: não se deve apenas ler o Magistério anterior sobre o casamento à luz da Amoris laetitia (AL), mas deve-se também ler a Amoris laetitia à luz do Magistério anterior. A lógica da Tradição Viva da Igreja é bipolar: ela tem duas direções, não uma. A segunda parte é mais importante. Em sua [recente] entrevista ao Corriere della Sera, meu caro amigo Cardeal Schönborn não leva em consideração o que aconteceu na Igreja desde a publicação da Amoris Laetitia. Bispos e muitos teólogos fiéis à Igreja e ao Magistério argumentam que, especialmente em um ponto específico – mas muito importante – não há uma continuidade, mas, em vez disso, uma oposição entre AL e o Magistério anterior. Além do mais, esses teólogos e filósofos não dizem isso com um espírito degradante ou revoltante para com o próprio Santo Padre. E nesse ponto, como segue: AL diz que, sob algumas circunstâncias, o intercurso sexual entre os divorciados civilmente recasados é moralmente legítimo. Mais ainda, ela diz que, o que o Segundo Concílio do Vaticano disse sobre os esposos – referente à intimidade sexual – também se aplica a eles (aos divorciados civilmente recasados) (ver nota de rodapé 329). Então: quando se diz que um relacionamento sexual fora do casamento é legítimo, isso é então um clamor contrário à doutrina da Igreja sobre a sexualidade; e quando se diz que o adultério não é um ato intrinsecamente desonesto – e que então deve haver circunstâncias que o tornam não-desonesto – isso, também, é uma afirmação contrária à Tradição e Doutrina da Igreja. Em uma tal situação como esta, o Santo Padre, em minha opinião – e como já escrevi – tem então de esclarecer a matéria. Pois, quando eu digo “S é P,” e então digo “S não é P,” a segunda proposição não é um desenvolvimento da primeira proposição, mas, antes sua negação. Quando alguém diz: a doutrina permanece, mas é somente sobre cuidar de alguns poucos casos, eu respondo: a norma moral “Não cometer adultério” é uma norma NEGATIVA ABSOLUTA que não permite exceção alguma. Há muitas maneiras de fazer o bem, mas há somente um caminho para não fazer o mal: não fazer o mal.

MH: Qual é a recomendação geral do senhor, como pastor, para nós fiéis leigos, sobre o que nós devemos fazer agora para preservar a Fé Católica íntegra e inteira para elevar nossas crianças para a vida eterna?

CC: Caffarra: Direi a você francamente que não vejo outro lugar fora da família onde a fé que você tem de acreditar e viver pode ser suficientemente transmitida. Além do mais, na Europa durante o colapso do Império Romano e durante as posteriores invasões bárbaras, o que os monastérios Beneditinos então fizeram pode da mesma maneira ser feito agora pelas famílias crentes, no reino atual de um novo barbarismo espiritual-antropológico. E graças a Deus elas [as famílias fiéis] existem e ainda resistem.

Um pequeno poema escrito por Chesterton me leva a essa reflexão; ele o escreveu no começo do século vinte: A Balada do Cavalo Branco. É uma grande meditação poética sobre um fato histórico. Ele teve lugar no ano 878. O Rei da Inglaterra, Alfredo o Grande, já tinha derrotado o Rei da Dinamarca, Guthrum, que primeiro tinha invadido a Inglaterra. E assim veio um momento de paz e serenidade. Mas durante a noite após a vitória, o Rei Alfredo teve uma terrível visão [no Livro VIII: 281-302]: ele vê a Inglaterra invadida por um outro exército, que é descrito como segue: “… Que embora venham com rolo (de papel) e caneta [um estranho exército, é, de fato, aquele que não tem armas, mas caneta e papel – Cardeal Caffarra], E grave como um escriturário barbeado, Por este sinal devereis conhecê-los, Que eles arruínam e fazem treva; Por todos os homens ligados a Nada….  Conheçais o velho bárbaro, O bárbaro vem de novo.”

As famílias que crêem são as verdadeiras fortalezas. E o futuro está nas mãos de Deus.

9 Comentários to “Cardeal Caffarra sobre Casamento, Família, Amoris Laetitia, e confusão na Igreja.”

  1. … “Leia e medite sobre o Catecismo da Igreja Católica nn. 1601-1666. E quando você ouvir alguém conversar sobre casamento – mesmo se (isso for) feito por padres, bispos, cardeais – e você então verificar que não está em conformidade com o Catecismo, não os ouça. Eles são cegos guiando cegos.”
    No texto acima resume-se o que se deve aceitar ou não, como afirmou, de alguém que seja realmente da Igreja ou que desejaria passar por tal, mesmo que seja um dos Altos Hierárquicos, no caso de nos apresentar uma doutrina diferente da que sempre foi ensinada e ratificada pela Igreja em seus 2000 anos – não lhe dê atenção, desconsidere-o!
    “Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema. Gl 1 8-9.
    Num discurso aos bispos da França em 21/09/2008, o papa Bento XVI lamentava a situação atual precaria do mundo no tocante às relações familiares, aderindo ostensivamente ao relativismo e assim doutrinou em certa parte de sua alocução:
    … ” A Igreja quer permanecer indefectivelmente fiel ao mandato que lhe foi confiado pelo seu Fundador, o nosso Mestre e Senhor Jesus Cristo. Com Ele, não cessa de repetir: “O que Deus uniu, não o separe o homem” (Mt 19, 6). Não foi a Igreja que se impôs a si mesma esta missão: recebeu-a. Sem dúvida, ninguém pode negar a existência de provações, por vezes muito dolorosas, que alguns lares atravessam. Será necessário acompanhar as famílias em dificuldade, ajudá-las a compreender a grandeza do Matrimónio e encorajá-las a não relativizar a vontade de Deus e as normas de vida que Ele nos deu. Uma questão particularmente dolorosa, bem o sabemos, é a dos divorciados re-casados. A Igreja, que não pode opor-se à vontade de Cristo, conserva fielmente o princípio da indissolubilidade do Matrimónio, embora circundando da maior estima os homens e mulheres que, por razões diversas, não chegam a respeitá-lo. Por isso, não se podem admitir as iniciativas que visam abençoar as uniões ilegítimas. A Exortação apostólica Familiaris consortio indicou o caminho aberto por um pensamento respeitador da verdade e da caridade.
    Nesse caso, o papa Bento XVI ressaltou: … e encorajá-las a não relativizar a vontade de Deus e as normas de vida que Ele nos deu. … conserva fielmente o princípio da indissolubilidade do Matrimónio, embora circundando da maior estima os homens e mulheres que, por razões diversas, não chegam a respeitá-lo.
    Nesses 2 locais observem-se os termos que foram simultaneamente convites á conversão e idem advertencias – sem concessões!

  2. “CC: A lógica nos ensina que uma proposição é ambígua quando pode ser interpretada em dois significados diferentes e/ou contrários. É óbvio que tal proposição não pode ter nem nosso assentimento teórico nem nosso assentimento prático, porque não tem um significado certo e claro”.

    Resposta excelente.

    E esse é um dos motivos pelos quais o CVII não pode obrigar os fiéis:
    sua ambiguidade premeditada.

    No mais, o tradutor do artigo foi muito feliz em deixar entre parênteses
    o termo técnico-teológico: authoritatively.
    A tradução literal é “autoritativamente” e isso, em teologia, quer dizer que
    o Papa impôs um ensinamento com autoridade, ou seja, trata-se de um ensino
    que exige assentimento obrigatório dos fiéis.

    Esse tipo de ensinamento papal (o autoritativo, às vezes também
    chamado “autêntico”), por exigir assentimento interno, está protegido
    contra toda forma de heresias, e contra os erros mais graves.

    É por isso que podemos ler os documentos papais pré-CVII sem qualquer
    possibilidade de encontrarmos ali qualquer erro grave. A clareza, a refutação
    dos erros e o apontamento do caminho correto são características que
    identificamos em qualquer documento pré-CVII, e são essas
    características que deixam evidente que o ensinamento ali contido é autoritativo.

    Isso porque a imposição da autoridade é perceptível pelo modo como
    é expressa, como nas Escrituras:

    “Quando ele terminou estas palavras, as multidões ficaram admiradas com seu ensinamento. De fato, ele as ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas” (Mt 7, 28-29).

    “Quando Efraim falava com dureza, era autoridade em Israel. Mas depois começou a pecar com Baal e se acabou” (Os 13, 1).

  3. O pontificado de Bergoglio tem promovido a apostasia tremendamente, indo claramente na contramão do “depositum fidei”. Deus se apiede da Santa Igreja e suscite para nós santos pastores. Que nos venha o triunfo do Coração Imaculado de Maria.

    P.S.: Sra. Gercione,

    Caso passe o olhar sobre este texto, um pedido: quando estamos a tratar da vidente de Fátima irmã Lúcia, a senhora considera que seja possível que do fim dos anos 1950 até 2005, como alguns especulam, se nos tenha apresentado uma impostora? Fisicamente, parece-me tratar-se de “duas Lúcias”, bastante distintas na fisionomia facial. Além disso, a suposta “segunda Lúcia” contradisse a “primeira” ao dizer, por exemplo, que a consagração feita por João Paulo II atendia ao pedido da Virgem (sabemos que isso é uma inverdade); ela chegou também a confirmar a alocução de Sodano quando da revelação da (incompleta) terceira parte do Segredo; chegou a declarar, inclusive, que não era de fato exigência da Mãe celeste que o Segredo não passasse de 1960 sem ser integralmente revelado. Que pensa a senhora a respeito? Grato. Minhas preces por sua saúde. “Benedicat nobis Dominus.”

    • Quem vive num país com a dimensão de Portugal e conhece a dinâmica relacional intrínseca às famílias portuguesas, principalmente aquelas cuja base está no meio rural, facilmente percebe as razões pelas quais essa tese não tem grande sustentabilidade. A Ir. Lúcia foi proibida de dar entrevistas, mas nunca cortou relações com a família, uma família bem numerosa por sinal. Poderia a sua família deixar-se enganar dessa maneira? Não me parece.

      Uma de suas irmãs, aliás com algumas parecenças físicas, ainda não há muitos anos, estava sempre lá em Aljustrel (Fátima) e falava com as pessoas que ali se deslocavam em peregrinação. Uma sobrinha sua seguiu o caminho da tia e hoje é também freira, lá em Fátima, foi ela que recebeu a toalha que a minha mãe ofereceu em promessa para o altar da capelinha das aparições no ano passado.

      É verdade que depois da sua última entrevista livre, com o Pe. Fuentes, os seus contactos foram altamente condicionados. Também é verdade que a evolução fisionómica da irmã é extraordinária e suscita estranheza mas não deve ser um caso único. Agora, aquela tese da irmã que morreu ou, pior ainda, que foi assassinada (em algumas versões com KGB à mistura) para ser substituída por uma outra pessoa… Que pessoa poderia ser? Portuguesa e ninguém a conhecia? Onde teria estado até então? Quem ofereceria uma vida inteira ao serviço de uma fraude?

      Enfim, posso estar enganado, e não me leve a mal, mas essa tese defendida por alguns grupos sedvacantistas parece mais um romance policial americano. Não tem cabimento.

      pax erit vobis

  4. Só peço a Deus que, antes de eu passar para eternidade, permita que eu veja esse lixo chamado A. L. sendo rechaçado pelo sucessor de Bergóglio, Papa, em questão de Doutrina, totalmente indigno do Papado…
    Ele e a sua trupe lançou alguma nota sobre os sacrilégios que os maometanos estão praticando na Itália, dizendo que o fazem com o consentimento dele?

    Falem o que quiser, mas, esse Papa é um FLAGELO para Igreja!!!!!

    2017 vem aí…mesmo com o silêncio tenebroso dele que, ao contrário, prefere falar em comemorar os 500 anos da DEFORMA PROTESTANTE…. Vá Bergóglio, vá…aproveite para beijar a mão da “bispa” luterana, afinal, em cenas de impacto e escabrosas para chamar a atenção o senhor é perito….

  5. Se um Cardeal não ousa dar nome aos bois, como pode pedir a um reles fiel que defenda a Doutrina? (Aqui todos sabem o nome dos bois!)

  6. Excelente entrevista! É como disse o Cardeal, vivemos o tempo de um novo barbarismo espiritual-antropológico. Até msm dentro da Igreja, lamentavelmente!! Que Deus tenha misericórdia de nós

  7. A desonesta tática de semear ambiguidades nos documentos da Igreja foi amplamente usada no sínodo “Vaticano Dois”. À época, muitos Bispos católicos denunciaram a manipulação.

    D. Proença Sigaud (1909-1999), arcebispo de Diamantina, participou da resistência católica no “Concílio” essa resistência foi neutralizada (e mesmo ridicularizada) pelos manipuladores apoiados por Paulo VI, o sofredor…

    Disse, por exemplo, Sigaud:

    “O equívoco tem por resultado expor ao perigo de interpretações falsas e permitir
    desenvolvimentos que não são seguros no pensamento dos Padres Conciliares.
    Algumas “formulações” são novas e até completamente inesperadas. A nosso ver,
    elas chegam ao ponto de parecerem não conservar “o mesmo sentido e o mesmo
    alcance” das que a Igreja empregava até aqui. Para nós, que quisemos nos mostrar
    dóceis à Encíclica Humani Generis, nossa perplexidade é grande”

    “[…] a doutrina da Igreja deve ser expressa sem ambiguidade, que é respeitando
    esta exigência que ela levará as luzes novas necessárias ao nosso tempo, sem
    nada sacrificar dos valores que ela já dispensou ao mundo, e sem se expor a servir
    de pretexto a um ressurgimento de erros sem cessar reprovados há mais de um
    século”.

    Pois é.

  8. Basto, salve Maria! Muito lhe agradeço a gentileza da resposta, da explicação. Cordial e fraterno abraço. Sit tecum pax Domini.