Pierangelo Sequeri: o programa do novo decano do Instituto “João Paulo II”.

Fundamental ler o artigo abaixo à luz da matéria publicada anteriormente – As 30 moedas dos Judas hodiernos. 

IHU – “Pierangelo Sequeri não é teólogo moralista, não está ligado a movimentos eclesiais, é um homem de fé e de cultura, não ideológico e não maximalista. Ele não faz uma teologia de farmacêutico, não usa a ‘balança’, não lê a Escritura com crivo fundamentalista, não tem a ansiedade da definição objetiva. Ele propõe uma ‘hermenêutica sapiencial da tradição’, mesmo daquela matrimonial e familiar.”

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 18-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Assim que soubemos da notícia da nomeação de Pierangelo Sequeri como decano do Pontifício Instituto João Paulo II para os Estudos sobre a Teologia do Matrimônio e da Família, demo-nos conta da reviravolta que esse nome trazia para o âmbito dessa tradição. Depois de Caffara, Scola e Melina, agora Sequeri. A passagem é grande, forte, surpreendente. Principalmente porque acontece paralelamente com algumas evoluções gerais dos últimos anos, sobre as quais é preciso refletir.

O Instituto “João Paulo II”

O Instituto “João Paulo II” nasceu em 1981, no mesmo ano da Familiaris consortio, com a intenção de estudar e aprofundar a teologia e a filosofia do matrimônio e da família, que emergia poderosamente como prioridade no pontificado de João Paulo II. Constituiu-se com sede em Roma, mas com outras sedes nos cinco continentes: em Roma, junto à Pontifícia Universidade Lateranense (sede central); em Washington, Estados Unidos, junto à Catholic University of America; emCotonou, Benin; em Salvador da Bahia, Brasil; em Thuruthy, Changanassery,Kerala, Índia; na Cidade do México, México; em Guadalajara, México; emMonterrey, México; em Leon, Guanajuato, México; em Valência, Espanha; emMelbourne, Austrália (sede associada).

Nesses 35 anos, o instituto formou milhares e milhares de teólogos, bispos, presbíteros, agentes pastorais, professores, no campo da “teologia e antropologia do matrimônio”. Trata-se de uma contribuição que se caracterizou, desde o início, por uma abordagem muito “clássica”, mas que, progressivamente, adquiriu um forte perfil apologético e, depois da Veritatis splendor (1994), uma progressiva acentuação de um maximalismo moral que marcou fortemente a produção dos últimos 20 anos.

As recentes incompreensões

Mas o que deve ser observado, acima de tudo, embora em uma realidade grande e nunca redutível a um único ponto de vista, aconteceu nos últimos três anos, a partir do fim do pontificado de Bento XVI, quando os tons do instituto se tornaram cada vez mais impacientes e polêmicos em relação à “Igreja em saída” desejada pelo Papa Francisco.

O máximo da tensão foi registrado a partir da experiência sinodal, quando professores de primeiro plano do instituto se inclinaram abertamente contra as aberturas sinodais, até o pequeno “escândalo” de um texto do decano do instituto, que, no fim de março, antes da apresentação oficial da Amoris laetitia, enviava a todos os estudantes um “comentário redutivo” sobre o texto da exortação apostólica. Sem falar de algumas lições que, depois de abril, se tornaram o lugar do descrédito aberto sobre as aberturas sinodais e papais em âmbito de pastoral familiar. A tentação de considerar a Familiaris consortio como as “Colunas de Hércules” da teologia do matrimônio tinha assumido, nos últimos meses, uma forma quase patológica.

Sequeri e a tradução da tradição

Agora, com a nomeação de Pierangelo Sequeri, esse desvio chega ao seu justo termo. E, simbolicamente, depois de uma fase de 35 anos, iniciada com a Familiaris consortio, abre-se uma fase nova, a poucos meses da Amoris laetitia. Não sem continuidade com o bom que foi feito, mas também com nítida descontinuidade com todos os limites daquela experiência.

Sequeri não é teólogo moralista, não está ligado a movimentos eclesiais, é um homem de fé e de cultura, não ideológico e não maximalista. Ele não faz uma teologia de farmacêutico, não usa a “balança”, não lê a Escritura com crivo fundamentalista, não tem a ansiedade da definição objetiva. Ele propõe, creio eu, uma “hermenêutica sapiencial da tradição”, mesmo daquela matrimonial e familiar.

O programa do novo decano: algumas ideias

Para dar uma ideia daquilo que o instituto poderá se tornar nos próximos anos, podemos ler a “síntese geral” que Sequeri escreveu do belo volume Famiglia e Chiesa. Un legame indissolubile [Família e Igreja. Um laço indissolúvel] (LEV, 2015, p. 475-490), onde ele apresenta de modo profundo e amplo algumas considerações decisivas no que diz respeito ao modo com o qual deve ser organizada uma reflexão teológica e antropológica sobre a família. E faz isso em relação ao Sínodo, que, há um ano, estava na fase intersinodal. Tentemos ler algumas afirmações centrais dele, sem predeterminar nada de necessário, mas inferindo o possível com base em declarações precisas e argumentadas:

a) Reconhecer questões novas

Em primeiro lugar, esclarece-se que o Sínodo se move sobre o tema do matrimônio/família no qual:

“Há interrogações reais a serem aprofundadas e questões novas a serem respondidas (…) formulações que devem ser desenvolvidas com maior precisão, disposições que devem ser remetidas a uma maior coerência, atitudes que devem ser exercidas com mais eficácia” (p. 477).

b) A relação entre direito e teologia sistemática

Destacando-se a exigência de um debate mais estreito entre as diversas disciplinas teológicas, no campo do diálogo entre direito canônico e dogmática, afirma-se que:

“A doutrina canônica não pode ser forçada a substituir a instrução teológica da fé revelada e a definir o horizonte mais amplo da sua elaboração pastoral” (p. 481).

c) A relação entre teologia moral e pastoral

No que se refere, depois, ao debate entre moral e pastoral, Sequeri afirma:

“Por isso, seria totalmente surpreendente – e, na verdade, motivo de escândalo – se a fraqueza e o pecado do homem induzissem a Igreja à impotência e à resignação da perda dos seus filhos e filhas. No momento em que eles são traídos, abandonados, feridos e até mesmo aprisionados na sua culpa e incapazes de reparar o fracasso, a Igreja não se isenta do seu sincero pedido de compreensão, de proximidade, de resgate. A Igreja sabe o caminho. A Igreja o encontra” (p. 485).

d) O papel da “lei” e os seus limites

Mais em geral, Sequeri sublinha a utilidade preciosa, mas também o limite intrínseco, de uma configuração confiada apenas ao conceito e à lei:

“O logos e o nomos, o conceito e a norma, trazem à economia da mediação a vantagem da precisão e do juízo, sem a qual é simplesmente impossível afirmar e discernir a respeito do verdadeiro e do falso, do bem e do mal. A sua parte fraca, porém, é a inevitável inclinação a evitar a relação de qualidade moral com a concretude da consciência e com a historicidade da vivência (…) a função integrativa da hermenêutica sapiencial da vida é, precisamente, o lugar onde é honrada a tarefa da necessária conciliação” (p. 487).

e) Compreender e reformular a tradição

E, depois, acrescenta, de modo significativo:

“A atual complexidade da cultura e do costume, quanto às relações com a dignidade pessoal do homem e da mulher, a natureza relacional da sexualidade e da geração, o relevo eclesial e social do matrimônio e da família, interpelam irrefutavelmente de modo novo essa função integrativa da hermenêutica sapiencial da Igreja, em acordo coerente com o rigor e a eficácia da sua mediação doutrinal da Palavra de Deus. A pastoral é o conjunto dessa verdade sinfônica da fé, que move a história frequentando-a, e não dissociando-se dela: compreensão e reformulação, linguagem e práxis, verificação e estilo” (p. 487).

Em síntese, um pequeno-grande programa, ao menos para os próximos 20 anos de trabalho do instituto. Muda-se de rota, zarpa-se do porto, navega-se em mar aberto. O capitão conhece a rota. E não tem medo. Quem se beneficiará com isso será a cultura familiar, não só eclesial, mas também civil. Que, talvez, igualmente precisa disso. Falar também a essa cultura tornou-se, novamente, de repente, possível.

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