Biquíni ou Burquini? Uma tragicomédia digna de Voltaire.

Por Cristina Siccardi | Corrispondenza Romana, 24 de agosto de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com –  No Tratado sobre a Tolerância, uma das mais famosas obras de Voltaire, publicada na França em 1763, encontramos não só os fundamentos da inconclusiva e luciferina incultura contemporânea, mas, infelizmente, também os pressupostos que permitiram que muitos homens da Igreja e muitos padres do Concílio Vaticano II abraçassem, a despeito de uma divina e sábia tradição bimilenar, a liberdade religiosa como um bem universal.

Hoje chegamos a tal ponto que, diante de uma Igreja que não diz uma palavra sobre os ostensivos e indescritíveis maus hábitos contemporâneos, vemos o primeiro-ministro francês Manuel Valls sair em defesa da proibição lançada por algumas prefeituras francesas  contra o uso de burquinis, uma roupa de banho criada em 2004 com enorme sucesso comercial entre os muçulmanos ao redor do mundo, por uma estilista australiana de origem libanesa, Aheda Zanetti. Valls declarou que o pudico burquini é “incompatível com os valores da França” e que não é uma roupa de banho, mas “a expressão de uma ideologia que se fundamenta na submissão da mulher”. O biquíni ou outras formas de ofensa indecente ao pudor, no entanto, são parte integrante dos “valores” da França, que faz da liberdade religiosa uma de suas jóias mais gloriosas. E eis que só entre 2000-2013 foram destruídas 20 igrejas na França e, de acordo com um relatório do Senado francês, outras 250 terão o mesmo destino. Silêncio total da parte de Roma.

Assim, impotentes, tivemos que assistir à polícia de Paris com sua tropa de choque, arrastando à força sacerdotes e coroinhas para evacuá-los da Igreja de Santa Rita que, em breve, será demolida para dar lugar a um estacionamento, enquanto as mesquitas legais e ilegais crescem como cogumelos por toda a Europa, essa mesma Europa com cada vez menos filhos por causa de uma taxa de natalidade buscada por uma ideologia que destrói famílias e que favorece o aborto. No entanto, o liberalismo não denominacional começa a pagar um preço por sua irracionalidade porque a revolução devora os seus próprios filhos, abrindo espaço para aqueles que não abrem mão de sua identidade, como é o caso dos muçulmanos.

Valls e, com ele, os políticos e homens da Igreja não nos fazem lembrar a oração a Deus, feita pelo “bonzinho” Voltaire  exatamente no seu Tratado sobre a Tolerância? Entre aqueles desabafos nefastos, portadores de inúmeras desgraças e catástrofes, dizia o guru dos jacobinos guilhotinadores:

 “Já não é, portanto aos homens que me dirijo; mas a Vós, Deus de todos os seres, de todos os mundos, de todos os tempos (…) Dignai-vos olhar com misericórdia os erros que derivam da nossa natureza. Fazei com que esses erros não gerem a nossa desgraça. Vós não nos doastes um coração para que nos odiássemos uns aos outros, nem as mãos para que degolássemos uns aos outros; fazei com que possamos ajudar-nos uns aos outros a suportar o fardo de uma vida penosa e passageira. Fazei com que as pequenas diferenças entre as roupas que cobrem nossos corpos fracos, incluindo aí todas as nossas linguagens inadequadas, todos os nossos costumes ridículos, todas as nossas leis imperfeitas, todas nossas opiniões insensatas sobre as nossas convicções, tão desiguais aos nossos olhos, e tão iguais diante de vós, em suma, que todas essas pequenas nuances que distinguem os átomos chamados “homens” não se tornem sinais de ódio e perseguição. Fazei com que aqueles que acendem velas em pleno dia para vos celebrar suportem aqueles que se contentam apenas com a luz do teu sol; que aqueles que cobrem suas roupas com um linho branco para dizer que devemos vos amar não detestem aqueles que dizem a mesma coisa sob um manto de lã negra; que seja igual adorar-vos em uma língua morta ou em uma mais nova (…) Que todos os homens lembrem-se que são irmãos! Temos horror à tirania exercida sobre as almas (…) Se são inevitáveis os flagelos da guerra,  que não nos odiemos ou nos dilaceremos em tempo de paz, e que empenhemos o breve instante de nossa existência para abençoar juntos em mil línguas diferentes, de Sião à Califórnia, a vossa bondade que nos deu este instante”.

Enquanto o “deus” de Voltaire nos conduziu às desgraças atuais de corrupção civil e religiosa, o verdadeiro Deus Uno e Trino sacrificou Seu único Filho para a salvação de cada um de nós. Tem toda a razão Sergio Romano, no prefácio ao Tratado sobre a Tolerância (RCS 2010), quando ele o denomina um “jornalista”. Um jornalista que, com suas paixões intelectuais, sua grande cultura, sua maneira inteligente de narrar, seu estilo irônico e brilhante, sua curiosidade sobre os acontecimentos de seu tempo, foi diabolicamente capaz de mudar o rumo do pensamento europeu com suas picaretagens e descristianizar, depois de algumas gerações, as nações onde ainda se despontavam abadias, catedrais, igrejas de extraordinário poder e beleza interior e exterior.

Antes, Lutero, no século XVI, e depois Voltaire, no século XVII,  ambos trabalharam juntos com as forças do mal para combater a Igreja Romana, Una, Santa, Católica e Apostólica. Se desde o início as teses voltairianas resultaram vitoriosas porque havia um inimigo a ser abatido, já no século XX os seus resultados, na prática, começam a se fragmentar, a deteriorar-se dentro de uma multiplicidade de contradições, distribuídas em um enorme labirinto de paredes tragicômicas: biquínis e/ou burquinis? Sacerdotes e/ou imãs nas igrejas? Paternidade ou não a casais homossexuais?… Perguntas que denotam a monstruosidade fora de sua mente desprovida de consciência.

As ambições modernas da Dignitatis Humanae, um documento conciliar teologicamente tão discutido como independente quanto destacado dos parâmetros da verdadeira e pacífica tolerância Católica, oferecem agora um fruto amargo que pode ser ativamente explorado pelos prolíficos invasores muçulmanos.

A tragicomédia é bem conveniente à nossa era, aquela mesma que o mestre barroco do gênero, Pierre Corneille, ilustrou da seguinte forma: “Eis aí um monstro estranho (…) O primeiro ato é apenas um prólogo, os três seguintes são uma comédia imperfeita , o último é uma tragédia, e tudo isto costurado junto é uma comédia. O Reino de Deus é outra coisa, uma apoteose de grandeza e harmonia, de bem-aventurança na terra (como demonstraram os santos) e bem-aventurança na eternidade: aqui fé e razão não ofuscam a mente e a alma paira no céu sereno sulcado pela Verdade trazida pelo Filho de Deus. Nada a ver com os abismos profundos lavrados pelo “jornalista” Voltaire, que se contentava apenas com “este momento presente.”

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