Poucos presbíteros celibatários? Então, abramos as portas para os homens casados.

Escrevíamos em abril deste ano: “FratresInUnum.com recebe confirmação segura de que Francisco pretende mesmo tratar do tema do celibato sacerdotal no próximo Sínodo dos Bispos. Estamos em condições de afirmar que o assunto foi pauta de reunião privativa dos bispos na Assembléia da CNBB de 2015, sendo capitaneado por Dom Cláudio Hummes. Então, o arcebispo emérito pediu que os bispos do Brasil fizessem uma “proposta concreta” a Francisco sobre o tema. A recém-eleita presidência da CNBB não demonstrou nenhum empenho especial pela causa, por conta divisão do episcopado brasileiro a respeito”. 

* * *

IHU – É o remédio no qual pensam o cardeal Hummes e o Papa Francisco devido à falta de clero, começando pela Amazônia. Mas também na China do século XVII os missionários eram poucos e a Igreja florescia. Sobre isso escreve a revista La Civiltà Cattolica.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada por Chiesa.it, 21-09-2016. A tradução é de André Langer.

Há alguns dias, o Papa Francisco recebeu em audiência o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, acompanhado pelo arcebispo de Natal, Jaime Vieira Rocha.

Hummes, de 82 anos, anteriormente arcebispo de São Paulo e prefeito daCongregação vaticana para o Clero, é atualmente o presidente tanto da Comissão para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), como da Rede Pan-Amazônica, que reúne 25 cardeais e bispos dos países vizinhos, além de representantes indígenas das diversas etnias locais.

E é assim que se sustenta, entre outras coisas, a proposta de solucionar a falta de sacerdotes celibatários em áreas imensas como a Amazônia conferindo a ordem sagrada também a “viri probati” – ou seja, a homens de provada virtude, casados.

Por conseguinte, a notícia da audiência fez pensar que o Papa Francisco discutiu comHummes sobre esta questão e, em particular, sobre um sínodo “ad hoc” das 38 dioceses da Amazônia, que efetivamente está em fase avançada de preparação.

E há mais. Ganhou nova força a voz segundo a qual Jorge Mario Bergoglio quer confiar ao próximo sínodo mundial dos bispos, programado para 2018, precisamente a questão dos ministérios ordenados, bispos, sacerdotes, diáconos, inclusive a ordenação de homens casados.

A hipótese foi lançada logo depois do encerramento do duplo Sínodo sobre a Família.

E avançou rapidamente.

E agora parece ganhar terreno. Curiosamente, pouco antes que o Papa recebesseHummes, Andrea Grillo – um teólogo ultrabergogliano, professor no Pontifício Ateneu Santo Anselmo de Roma, cujas intervenções são sistematicamente reproduzidas e enfatizadas pelo sítio Il Sismografo, próximo ao Vaticano – chegou inclusive a antecipar um detalhe do próximo sínodo sobre o “ministério ordenado na Igreja”, que divide em três subtemas:

– o exercício colegial do episcopado e a restituição ao bispo da plena autoridade sobre a liturgia diocesana;

– a formação dos presbíteros, reconsiderando a forma tridentina no seminário, e a possibilidade de ordenar homens casados;

– a teologia do diaconato e a possibilidade de um diaconato feminino.

A autoridade a que fazem referência tanto Grillo como o resto dos reformistas clérigos e leigos quando formulam esta ou outras propostas é o falecido cardeal Carlo Maria Martini, com a intervenção que lançou no Sínodo de 1999.

O então arcebispo de Milão, jesuíta e líder indiscutível da ala “progressista” da hierarquia, disse que “teve um sonho”: o de “uma experiência de confronto universal entre bispos que servisse para desfazer alguns dos nós disciplinares e doutrinais que aparecem de tempos em tempos como pontos candentes no caminho das Igrejas europeias, mas não exclusivamente”.

Estes são os “nós” por ele enumerados:

“Penso em geral no aprofundamento e no desenvolvimento da eclesiologia de comunhão do Vaticano II. Penso na falta, às vezes dramática, em alguns lugares, de ministros ordenados e na crescente dificuldade que alguns bispos têm para dispor do número suficiente de ministros do Evangelho e da eucaristia para prover o cuidado das almas em seu território. Penso em alguns temas que dizem respeito à posição da mulher na sociedade e na Igreja, na participação dos leigos em algumas responsabilidades ministeriais, na sexualidade, na disciplina do matrimônio, na prática penitencial, nas relações com as Igrejas irmãs da Ortodoxia e, mais em geral, na necessidade de reacender a esperança ecumênica; penso na relação entre democracia e valores e entre leis civis e lei moral”.

Da agenda martiniana, os dois sínodos convocados até agora pelo papa discutiram, de fato, sobre a “disciplina do matrimônio” e “a visão católica da sexualidade”.

O novo sínodo poderia resolver “a falta de ministros ordenados” abrindo as portas para a ordenação de homens casados e de diáconos mulheres; este último já foi posto em marcha pelo Papa Francisco com a nomeação, em 02 de agosto passado, de umacomissão de estudo.

* * *

O principal argumento em apoio à ordenação de homens casados é o mesmo já expresso pelo cardeal Martini: “a crescente dificuldade que alguns bispos têm para dispor do número suficiente de ministros do Evangelho e da eucaristia para prover o cuidado das almas em seu território”.

A Amazônia seria, então, um destes “territórios” imensos em que os poucos sacerdotes ali presentes são capazes de chegar a núcleos remotos de fiéis não mais de duas a três vezes ao ano. Portanto, com grande prejuízo – sustenta-se – para “o cuidado das almas”.

Deve-se dizer, no entanto, que uma situação deste tipo não é exclusiva dos tempos atuais. De fato, caracterizou a vida da Igreja ao longo dos séculos e nas mais diversas regiões.

Mas, tem mais. A falta de presbíteros nem sempre foi um prejuízo para o “cuidado das almas”. Pelo contrário, em alguns casos coincidiu inclusive com o florescer da vida cristã. Sem que a ninguém ocorresse de ordenar homens casados.

Foi o que aconteceu, por exemplo, na China no século XVII. A isso faz referência um amplo artigo escrito pelo sinólogo jesuíta Nicolas Standaert, que leciona naUniversidade Católica de Louvaina, e que foi publicado na revista La Civiltà Cattolica, em seu número de 10 de setembro último. Trata-se, portanto, de uma fonte livre de qualquer suspeita vista sob o vínculo estreitíssimo e estatutário que a revista tem com os Papas e, em particular, com o atual, que acompanha pessoalmente a sua publicação, em acordo com o diretor da mesma, o jesuíta Antonio Spadaro.

No século XVII, na China, havia poucos cristãos e estavam dispersos. Escreve Standaert: “Quando Matteo Ricci morreu em Pequim, em 1610, depois de 30 anos de missão, havia aproximadamente 2.500 cristãos chineses. Em 1665, os cristãos chineses eram, provavelmente, cerca de 80 mil e em 1700 aproximadamente 200 mil; quer dizer, eram ainda poucos comparados com toda a população, entre 150 milhões e 200 milhões de habitantes”.

E os presbíteros eram muito poucos: “Quando Matteo Ricci morreu, em toda a Chinahavia apenas 16 jesuítas: oito irmãos chineses e oito padres europeus. Com a chegada dos franciscanos e dos dominicanos, em cerca de 1630, e com um pequeno aumento dos jesuítas no mesmo período, o número de missionários estrangeiros passou dos 30 e permaneceu constante nos seguintes 30 ou 40 anos. Na sequência, houve um aumento, atingindo o pico de quase 140 missionários entre 1701 e 1705. Mas depois, por causa da controvérsia sobre os ritos, o número de missionários diminuiu para quase a metade”.

Em consequência, o cristão comum via o presbítero não mais de “uma ou duas vezes ao ano”. E nos poucos dias que durava a visita, o sacerdote “conversava com os chefes e os fiéis, recebia informações sobre a comunidade, interessava-se pelos doentes e os catecúmenos. Confessava, celebrava a eucaristia, pregava e batizava”.

Depois, o sacerdote desaparecia durante meses. Mas, as comunidades se mantinham. Além disso, conclui Standaert: “transformaram-se em pequenos, mas sólidos centros de transmissão da fé e da prática cristã”.

Seguem, na sequência, os detalhes dessa fascinante aventura, assim como relatada pela revista La Civiltà Cattolica.

Sem elucubrações sobre a necessidade de ordenar homens casados.

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“O missionário aparecia uma ou duas vezes ao ano”, por Nicolas Standaert, SJ, da La Civiltà Cattolica n. 3989, de 10 de setembro de 2016

No século XVII, os cristãos chineses não estavam organizados em paróquias, ou seja, em unidades geográficas em torno do edifício de uma igreja, mas em “associações”, as quais eram dirigidas por leigos. Algumas destas eram uma mistura de associação chinesa e de congregação mariana, de inspiração europeia.

Parece que estas associações estavam mais difundidas. Por exemplo, por volta de 1665 havia cerca de 40 congregações em Xangai, ao passo que havia mais de 400 congregações de cristãos em toda a China, tanto nas grandes cidades como nas aldeias.

O estabelecimento do cristianismo a este nível local se fez na forma de “comunidades de rituais eficazes”, grupos de cristãos cuja vida se organizava em torno de determinados rituais (missa, festividades, confissões, etc.). Essas eram “eficazes”, porque construíam um grupo e porque eram consideradas pelos membros do grupo como capazes de proporcionar sentido e salvação.

Os rituais eficazes estavam estruturados em base ao calendário litúrgico cristão, que incluía não apenas as principais festas litúrgicas (Natal, Páscoa, Pentecostes, etc.), mas também as celebrações dos santos. A introdução do domingo e das festas cristãs fez com que as pessoas vivessem segundo um ritmo diferente do calendário litúrgico utilizado nas comunidades budistas ou taoístas. Os rituais mais evidentes eram os sacramentos, sobretudo a celebração da eucaristia e da confissão. Mas a oração comunitária – sobretudo a oração do terço e das ladainhas – e o jejum em determinados dias constituíam os momentos rituais mais importantes.

Essas comunidades cristãs revelam também algumas características essenciais da religiosidade chinesa: eram comunidades muito orientadas para a laicidade com dirigentes leigos; as mulheres tinham um papel importante como transmissoras de rituais e de tradições dentro da família; uma concepção do sacerdócio orientado para o serviço (presbíteros itinerantes, presentes apenas por ocasião das festas e de celebrações importantes); uma doutrina expressada de maneira simples (orações recitadas, princípios morais claros e simples); fé no poder transformador dos rituais.

Pouco a pouco, as comunidades chegaram a funcionar de maneira autônoma. Um presbítero itinerante (inicialmente eram estrangeiros, mas já no século XVIII eram, majoritariamente, sacerdotes chineses) costumava visitá-las uma ou duas vezes ao ano. Normalmente, os dirigentes das comunidades reuniam os diversos membros uma vez por semana e presidiam as orações, que a maior parte dos membros da comunidade conhecia de cor. Os dirigentes liam também os textos sagrados e organizavam a instrução religiosa. Muitas vezes havia reuniões exclusivas para mulheres. Além disso, havia catequistas itinerantes que instruíam as crianças, os catecúmenos e os neófitos. Na ausência de um presbítero, os dirigentes locais administravam o batismo.

Durante a visita anual, que durava alguns dias, o missionário conversava com os dirigentes e os fiéis, recebia informações sobre a comunidade, interessava-se pelos doentes e os catecúmenos, etc. Confessava, celebrava a eucaristia, pregava, batizava e rezava com a comunidade. Quando partia, a comunidade retomava a sua prática habitual de rezar o terço e as ladainhas.

Por conseguinte, o cristão comum via o missionário uma ou duas vezes por ano. O verdadeiro centro da vida cristã não era o missionário, mas a própria comunidade, com seus dirigentes e catequistas como vínculo principal.

Principalmente no século XVIII e começo de século XIX, estas comunidades se transformaram em pequenos, mas sólidos, centros de transmissão da fé e de prática cristã. Por causa da falta de missionários e de presbíteros, os membros da comunidade – por exemplo, os catequistas, as virgens e outros guias leigos – assumiam o controle de tudo, desde a administração financeira às práticas rituais, passando pela direção das orações cantadas e pela administração dos batismos.

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16 Comentários to “Poucos presbíteros celibatários? Então, abramos as portas para os homens casados.”

  1. Não sei nem o que dizer…

  2. Concordo com o teor material do post, mas não com sua finalidade. De fato, não é por causa de uma suposta necessidade ou de problemas que o peso da obrigatoriedade deve ser retirado do celibato, mas pelo simples fato de que existem vocacionados tanto à vida sacerdotal quando matrimonial.

  3. Realmente… também não consigo expressar o que estou sentindo. Só digo que não é nada bom!

  4. Os candidatos ao sacerdócio ou à vida religiosa, vivendo positivamente a castidade, preparam-se para afirmar de forma ostensiva e na práxis o primado do amor de Deus e do amor ao próximo na própria vida, sem divisões, como o propôs S Paulo!
    Abaixo: que sonho “inspirado”, D “Grillo”, para nós brasileiros que usamos esse termo para outros sentidos, quanto grilo!
    “Penso em geral no aprofundamento e no desenvolvimento da eclesiologia de comunhão do Vaticano II. Penso na falta, às vezes dramática, em alguns lugares, de ministros ordenados e na crescente dificuldade que alguns bispos têm para dispor do número suficiente de ministros do Evangelho e da eucaristia para prover o cuidado das almas em seu território. Penso em alguns temas que dizem respeito à posição da mulher na sociedade e na Igreja, na participação dos leigos em algumas responsabilidades ministeriais, na sexualidade, na disciplina do matrimônio, na prática penitencial, nas relações com as Igrejas irmãs da Ortodoxia e, mais em geral, na necessidade de reacender a esperança ecumênica; penso na relação entre democracia e valores e entre leis civis e lei moral”.
    Todo esse enredo de supressão do celibato é urdido pela maçonaria por meio de seus agentes infiltrados atuantes dentro do Vaticano!
    O Jornal do Recife, órgão da Maçonaria, na edição de 18 de Setembro de 1897, lançou esta pergunta: “O que adianta, que utilidade tem a Missa?” “A Missa é uma mentira convencional como outra qualquer”. Ainda do mesmo jornal: “O celibato clerical é um absurdo! o voto da castidade, uma blasfêmia!… (Livro “Um Cristão Católico” – Recife – 1898).
    Trata-se de gradativamente de supressão do celibato como sucede no relativismo protestante, paulatinamente montando uma nova igreja caricaturada de católica, similar á Igreja católica de sempre para imporem os dogmas do relativismo modernista e adequação dessa a todas as outras crendices atendentes da estrategia de uma religião única da NOM-ONU-anticristo!

  5. Um outro ponto, é que esse quadro descrito na China não foi muito diferente do que ocorreu em vastas regiões de nosso país da época colonial até o final do século XIX, ou, pelo menos, da expulsão dos jesuítas até o fim dos oitocentos. Em áreas como Minas Gerais e o sertão nordestino confrarias de leigos (muitas vezes com inspiração franciscana ou carmelita) tiveram grande papel na preservação e expansão da fé (em certos casos, como no sertão, certas figuras sociais, como as dos grupos de “beatas e beatos” lembram muito o monasticismo nascente dos primeiros séculos).

    Também pode-se fazer uma analogia com a vivência de muitas comunidades tradicionalistas espalhadas pelo mundo, que preservam a fé, com a visita ocasional de um sacerdote (mas faz uns cinco ou seis anos que a FSSPX vem tentando controlar mais de perto essas realidades socio-eclesiais quando aceitam ser guiadas por seus padres, depois que certas disputas ocorreram na França). No caso do México, isso favoreceu em muito os grupos sedevacantistas, pois várias igrejas históricas são da propriedade de associações de leigos vinculadas a tribos indígenas que rejeitaram as “reformas” pós-conciliares e entregaram (não sem resistência dos bispos) o funcionamento delas a padres tradicionalistas.

  6. Porque não será bom? se o oriente pode porque nós não? acaso são melhores do que nós?

  7. Miserere nobis. Esse pontificado não acaba nunca!!!

  8. Informação muito interessante esta, sobre as primeiras missões na China. Na impossibilidade de um sacerdote residente, abre-se um precedente legítimo ao 1º Mandamento da Igreja: Ouvir missa inteira aos domingos e dias santificados.

    A mesma realidade é vivida por muitos dos católicos tradicionais, no Brasil e no mundo, tendo que se conformar com visitas esporádicas dos sacerdotes e com lideranças laicas presidindo reuniões e orações.

  9. Isso parece uma piada!

    Estou lendo a vida de São José de Anchieta e Pe. Manuel da Nóbrega, e fico os imaginando casados…

    Investir em bons seminários e coroinhas (meninos!!!), eis a solução. Pra mim, o resto não passa de revolução cultural.

    • Imagine então que o Apostolo Pedro era casado (Cristo curou a sua sogra – São Marcos 1:29,30,31). Houveram outros Papas casados antes a até depois da ordenação. O Papa Adriano II vivia com a esposa e a filha no Palácio de Latrão. O celibato sacerdotal não é um dos dogmas imutáveis e infalíveis, a igreja permite padres casados no Rito Oriental, isso deveria ser questão de foro intimo do sacerdote, mas o fim do celibato não pode ser usado como desculpa para a falta de padres. A igreja pode e deve usar recursos tecnológicos para levar a mensagem a todos; Alias muitas pessoas hoje por várias razões inclusive de saúde, não podem ir á igreja com frequência e assistem as missas pela TV ou online.

  10. Poderíamos até dizer em nossa boa fé que “a falta de ministros ordenados” abrindo as portas para a ordenação de homens casados e de diáconos mulheres; é outro importante exemplo de lei das consequências não-pretendidas.
    É claro que nenhum dos arautos do Vaticano II poderia ter vislumbrado que ao promoverem uma constante mudança de paradigmas sugerindo que a Igreja fosse chamada de “Povo de Deus”, sem nenhuma distinção entre ministérios, o sacerdócio seria um dos primeiros a entrar em crise e até desapareceria em alguns lugares!
    Não, eles não pretendiam nada disso! Ninguém poderia ter previsto que ao insistirem em colocar mulheres no altar e homens na sacristia, isso acabaria por fazer com que os poucos “viri probati” que ainda arriscavam ir à missa dominical permaneceriam no máximo no átrio ou na porta de entrada!
    Poderíamos até dar-lhes o benefício da dúvida, afinal o próprio Paulo VI desabafou-se com seu amigo Jean Guitton dizendo que ele “pensava que depois do Concílio viriam dias de Sol para a história da Igreja, mas que por alguma fissura a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus”.
    Talvez o coitado até acreditasse que depois de ter mutilado a Missa transformando-a em uma ceia protestante, a nova igreja do Vaticano II seria como uma árvore, em primavera perpétua, produzindo sem cessar novas flores e novos frutos.
    Existe uma linguagem moral para três das quatro possíveis combinações de intenção e resultado. Vício e virtude são fáceis, são os termos comuns para discutir a moralidade ou conveniência de nossas ações quando os resultados correspondem às intenções. Mas e quando não correspondem? Temos aí a categoria de “negligência” quando causamos resultados negativos que não pretendíamos.
    Então vamos imaginar que Paulo VI foi apenas negligente…não sabia de nada, o inocente! Só que o resultado negativo da revolução do Vaticano II está aí diante de nossos olhos. Insistir neles já não pode ser chamado “negligência” e sim o mistério da iniquidade a todo vapor.
    Dito isso, o que eu posso dizer é que nada se fez e nem se fará pra conter a sangria. Não há interesse algum por parte da impostura em promover vocações sacerdotais, mesmo porque o modelo de “igreja como hospital de campanha” precisa de menos batinas e mais aventais. E pra usar esses jalecos de assistentes sociais eclesiais qualquer um serve: casado, solteiro, adúltero, mulheres idôneas e outras nem tanto!
    Há muito tempo atrás eu “militei” nesse modelo de igreja bergogliana que tem como fonte de orientação a famigerada teologia da libertação. O padre belga, comunista até a medula fazia questão de pegar os homens casados, líderes de comunidade e praticamente forçá-los em funções clericais como ministros da eucaristia, servos do altar ou pagava-lhes um cursinho na PUC e pouco tempo depois eram ordenados como “diáconos casados”.
    Me lembro bem que eu nunca vi sair dali uma única vocação sacerdotal. Simplesmente os jovens da tal Pastoral da Juventude não eram estimulados a “servir” numa igreja que eles sempre diziam que tinha função de serviço.
    A coisa era tão ridícula que os rapazes que tocavam timbal naquelas celebrações comandadas por leigos, só serviam de verdade nos terreiros de candomblé em dias de festa como “ogãs de terreiro”. E aquele sincretismo era estimulado em nome da aculturação.
    Agora, tomar como exemplo a falta de presbíteros na China lá pelos anos 1600 pra justificar a ordenação de homens casados é a típica desonestidade de um charlatão como Spadaro querendo defender o indefensável: mais uma revolução bergogliana a caminho.
    Tanto na China como no Japão, depois da terrível perseguição e até martírio dos cristãos, eles ficaram até mais de 200 anos sem ver a cara de um sacerdote e no entanto mantiveram a fé. Alguns fatores contribuíram pra isso, como o fato de que a fé era transmitida e preservada nas famílias quase que num caráter de anonimato e além do mais, esses eram grupos reduzidos e isolados naquelas terras onde o Cristianismo nunca foi a religião predominante.

  11. O grande problema dos progressistas foi, é e sempre será a preocupação primária com número (número de fiéis, igreja cheia etc), e não com a qualidade dos números que se supõe ter. Esta é uma grande característica da Igreja progressista (pós-Vaticano II). Para conseguir este número elevado de adeptos, esta Igreja se mundanizou, isto é, transformou-se no mundo. Não há mais uma distinção clara entre a Igreja e o mundo, pois agora a Igreja é parte do mundo; a Igreja é mundo.

    A eclesiologia do Vaticano II é nitidamente desvantajosa à Igreja e estranhamente vantajosa às outras religiões, até então tidas por seitas e paganismos. Quando esta teologia se refere à Igreja, ela sempre busca servir-se de termos ásperos e desedificantes, enquanto o contrário ocorre com as outras religiões. Isto é notável sobretudo na Lumen gentium e no Unitatis redintegracio.

    Outro princípio muito insistido pelo Vaticano II, especialmente na Sacrosanctum concilium, é a inculturação do Evangelho.

    Ao contrário de contribuírem para a edificação da Igreja, estes princípios contribuem para a desedificação dela.

    Com isto, não se consegue criar uma sociedade com as condições necessárias para o nascimento da Igreja. E assim, a Igreja não nasce. Também não nascem o que a Igreja crê e tudo aquilo que ela é e possui.

    É muito evidente nas letras do Vaticano II o desejo de se conservar, nos povos de cristianização recente, o máximo possível de elementos culturais, morais e até mesmo religiosos. Tudo isto impede o surgimento de uma sociedade nova, com os elementos necessários para o nascimento da Igreja. Isto vale também para a questão da Amazônia.

    Acredita-se que a Igreja se faz presente numa multidão de nativos no meio da floresta. Porém, o fato pode ser que a Igreja não existe ali, não está presente, porque ainda não nasceu. E, sem Igreja, não tem como haver vocações sacerdotais.

    O método jesuíta proporcionava o nascimento da Igreja, porque reformava a sociedade nativa de tal modo que eram criadas as condições para o nascimento da Igreja.

    Também a inexistência da Igreja ocorre em grande parte do mundo industrializado e moderno, embora se acredite que a Igreja se faça presente por causa dos números.

    Assim como se deve criar o habitat do Espírito Santo na alma humana, tem-se também que criar o habitat da Igreja na sociedade. Sem este habitat, a Igreja não é alimentada.

    Um grupo de velhos acredita que a ordenação de homens casados vai resolver o problema.

    Mas, se não se encontra vocação sacerdotal entre celibatários ou solteiros, por que encontrar-la-ia mais facilmente entre os casados? Não tem lógica! Pois está claro que o celibatário é o mais apropriado para receber as credenciais da vocação sacerdotal, conforme 1 Cor. 7, 32-34; Mt. 19, 10; Mt. 19, 12; Mt. 19, 27.

    Quando Pedro disse a Jesus: “Eis que deixamos tudo para te seguir. Que haverá então para nós?” (Mt. 19, 27). Jesus respondeu: “Em verdade vos declaro: …todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mt. 19, 28.29). O que equivale a dizer: Bem-aventurados os que livremente deixaram irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras, casas por minha causa! Grande será sua recompensa! Receberão mais porque agradaram mais a Deus.

    Na discussão com os saduceus, que negavam a ressureição, foi perguntado a Jesus: “Na ressurreição, a quem desses pertencerá a mulher? Pois os sete a tiveram por mulher.” (Mc. 12, 23). E Jesus responde: “Na ressurreição dos mortos, os homens não tomarão mulheres, nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos nos céus.” (Mc. 12, 25). Pela revelação de Jesus, ficou claro que o futuro dos que herdarão o reino dos céus será um estado de celibato e ausência de casamento. Logicamente, o celibato ou o “não-casamento” agrada a Deus e, mais do que isso, se será o futuro no céu (em maior união com Deus), é o que mais agrada a Deus. Também ficou claro que o “não-casamento” ou celibato é o ideal para a humanidade. A humanidade deve caminhar em direção a este ideal.

    Ao receber o anúncio do anjo “Eis que conceberás e darás à luz um filho” (Lc. 1, 31), mesmo dizendo o anjo de que filho se tratava, isto é, mesmo o anjo dizendo que se tratava do Messias, do Cristo, do Filho do Altíssimo e que Ela seria rainha, Maria entretanto, preocupada, perguntou-lhe: “Como se fará isso, pois não conheço homem?” (Lc. 1, 34). Tudo indica que esta foi a provação de Maria, pela qual Ela confirmaria Sua vocação dada por Deus. Maria pretendia permanecer sempre virgem e, se preciso fosse, deixaria de ser Mãe de Deus para permanecer virgem. O anjo esclareceu-A como seria o processo, porque sabia que Ela tinha um compromisso com Sua virgindade. Ela então acreditou no anjo. Deus confirmou Sua virgindade e Ela aceitou a Maternidade Divina.

    Pela Sagrada Escritura e pela Sagrada Tradição, está claro e evidente que o celibato é o estado mais perfeito para a humanidade, tanto para os que têm, quanto para os que não têm vocação sacerdotal – Dogma de Fé. Por isso, a colocação da questão: Se está faltando vocação sacerdotal entre os celibatários, por que ela não estaria faltando também entre os casados?

    Além disso, é pertinente colocar a revelação feita por Nossa Senhora à Beata Jacinta Marto: “Muitos matrimônios não são bons, não agradam a Nosso Senhor e não são de Deus” [O que se poderia dizer da união fora do casamento???!!!]. “A mãe de Deus quer mais almas virgens, que se liguem a Ela pelo voto de castidade.” (vide De Marchi, Walsh etc).

    A Igreja progressista tenta, por meio de seus velhos [que morrerão daqui a uns 10 ou 15 anos], propor suas incompetentes e irresponsáveis soluções para os gravíssimos problemas que ela mesma criou…

    Há estudos que demonstram que grande parte dos jovens de hoje, que serão os velhos de amanhã, não pretende abraçar nem o casamento, nem o sacerdócio e nem a vida religiosa. Então, coloca-se: Será que vale mesmo apena dar importância para as possíveis soluções que a Igreja progressista propõe para resolução da falta de vocações sacerdotais?

    Att,

  12. É melhor para a realização do Reino contar com um sacerdote uma ou duas vezes ao ano, verdadeiramente entregue a Cristo, que dê testemunho (“martyrios”), estando sempre pronto a doar toda a vida, até o derramamento de sangue se preciso for, do que ter numa arquidiocese 200 “bon vivants”, mais preocupados com frequentar academias, participar de festas, viagens e manter o próprio guarda roupa na moda… Não falta quantidade de padres. Falta qualidade. E “abrir as portas” para a ordenação de homens casados (leigos que já têm atribuições demais nesta igreja pós-conciliar e modernista…) é fechar ainda mais as portas do Céu para um número incalculável de almas, a começar pelas dos sacerdotes, simplesmente porque estaríamos descumprindo o que Cristo deixou como sendo o Seu Sacerdócio (basta ver a trajetória de Pedro e dos demais apóstolos, que antes de Cristo eram casados, e o que fizeram após Pentecostes).

  13. Quantos católicos “modernos” se dispõem a manter a família do padre com seu dízimo, para garantir a necessária independência do sacerdote?

  14. Baseada no comentário acima: “O método jesuíta proporcionava o nascimento da Igreja, porque reformava a sociedade nativa de tal modo que eram criadas as condições para o nascimento da Igreja”, me pergunto se não é isso que Francisco está tentando fazer de uma maneira um tanto confusa. Precisamos rezar muito, para que o resultado esteja de acordo com a necessidade da Igreja.