Papa Francisco fracassou?

Por Matthew Schmitz, The New York Times, 28 de setembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Quando o papa Francisco subiu à cátedra de São Pedro, em março de 2013, o mundo olhou com admiração. Aqui, finalmente, estava um papa alinhado com os tempos, um homem que preferia gestos espontâneos ao invés da formalidade dos rituais. Francisco pagava sua própria conta do hotel e se livrou dos sapatos vermelhos. Ao invés de se mudar para os grandiosos apartamentos papais, instalou-se na aconchegante pousada para os visitantes do Vaticano. Além disso, ele estabeleceu um novo tom não dogmático com declarações, como “Quem sou eu para julgar?”.

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Observadores previram que o calor, a humildade e o carisma do novo papa daria impulso ao chamado “efeito Francisco” – trazendo de volta Católicos descontentes com uma Igreja que já não parece tão fria e cheia de proibições. Após três anos de seu papado, as previsões continuam. No inverno passado, Austen Ivereigh, o autor de uma excelente biografia do Papa Francisco, escreveu que essa postura mais suave do papa sobre a comunhão aos divorciados recasados “poderia desencadear um retorno às paróquias em grande escala.” Em seus primeiros tempos, a ordem Jesuíta de Francisco trabalhou para trazer os protestantes de volta ao rebanho da Igreja. Poderia Francisco fazer o mesmo com os Católicos cansados de manchetes sobre abuso infantil e guerras culturais?

Em certo sentido, as coisas mudaram. Percepções sobre o papado, ou pelo menos sobre o papa, melhoraram. Francisco é bem mais popular do que seu predecessor, o Papa Bento XVI. Sessenta e três por cento dos Católicos norte-americanos aprovam Francisco, enquanto apenas 43 por cento aprovavam Bento no auge de sua popularidade, de acordo com uma pesquisa de opinião do New York Times em 2015 e da CBS News. Francisco também colocou uma grande ênfase em buscar os Católicos descontentes.

Mas os Católicos estão realmente voltando? Pelo menos nos Estados Unidos, isso não aconteceu. Novas pesquisas do Centro Georgetown de Pesquisa Aplicada em Apostolado sugerem que não houve nenhum efeito Francisco – pelo menos, nenhum positivo. Em 2008, 23 por cento dos Católicos norte-americanos assistiam missa todas as semanas. Oito anos mais tarde, a participação semanal na missa manteve-se estável ou diminuiu ligeiramente, em 22 por cento.

É claro, os Estados Unidos são apenas uma parte de uma Igreja global. Mas os pesquisadores da Georgetown descobriram que certos tipos de prática religiosa entre os jovens Católicos americanos estão mais fracas agora do que sob Bento XVI. Em 2008, 50% da geração deste milênio relatou o recebimento de cinzas na Quarta Feira de Cinzas, e 46% disseram que fizeram algum sacrifício, além da abstenção de carne às sextas-feiras. Este ano, apenas 41%  relatou o recebimento de cinzas e apenas 36% disseram que fizeram um sacrifício extra, de acordo com o Centro Georgetown de Pesquisa Aplicada em Apostolado. Apesar da popularidade pessoal de Francisco, os jovens parecem estar se afastando da fé.

Por que a popularidade do papa não revigorou a igreja? Talvez seja muito cedo para julgar. Nós provavelmente não teremos uma medida completa de qualquer efeito Francisco até que a Igreja seja dirigida por bispos nomeados por ele e padres que adotam sua abordagem pastoral. Isso vai levar anos ou décadas.

No entanto, existe algo mais fundamental que atravanca o caminho do efeito Francisco. Francisco é um Jesuíta, e como muitos membros de ordens religiosas Católicas, ele tende a ver a Igreja institucional, com as suas paróquias, dioceses e formas assentadas, como um obstáculo à reforma. Ele descreve os párocos como “monstrinhos” que “atiram pedras” no pobres pecadores. Ele deu aos funcionários da Cúria um diagnóstico de “doença espiritual de Alzheimer”. Ele repreende ativistas pró-vida por sua “obsessão” contra o aborto. Ele chama os Católicos que colocam ênfase em ir à missa, frequentar confissão e fazer orações tradicionais de “Pelagianos” – ou seja, pessoas que acreditam hereticamente que podem ser salvos por suas próprias obras.

Tais denúncias desmoralizam os Católicos fiéis, sem dar aos descontentes qualquer motivo para voltar. Afinal, por que participar de uma igreja cujos sacerdotes são pequenos monstros e cujos membros gostam de atirar pedras? Quando o próprio Papa põe mais ênfase em estados espirituais internos do que na observância do ritual, há pouca razão para entrar na fila da confissão ou acordar para ir à missa.

Mesmo os fãs mais ardorosos de Francisco preocupam-se e acham que sua agenda está atrasada. Quando foi eleito, Francisco prometeu fazer uma faxina nas finanças corruptas do Vaticano. Três anos depois, ele começou a recuar em face da oposição, abrindo mão de uma auditoria externa e tirando poderes de seu homem escolhido a dedo. Francisco também se esquivou de grandes mudanças em questões doutrinárias. Em vez de endossar explicitamente a comunhão para os casais divorciados e recasados, ele calmamente incentivou-os com uma piscadela de olho e um aceno de cabeça.

Francisco construiu sua popularidade às custas da Igreja que ele lidera. Aqueles que desejam ver uma Igreja mais forte terão que esperar por um tipo diferente de papa. Em vez de tentar suavizar a doutrina da Igreja, tal homem teria que falar de um modo que a sólida disciplina possa conduzir à liberdade. Confrontar uma era hostil com as estranhas afirmações de Fé Católica pode não ser popular, mas, com o tempo, pode provar ser eficaz. Até mesmo Cristo foi recebido com as vaias pela multidão.

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16 Comentários to “Papa Francisco fracassou?”

  1. A conclusão do artigo é simplesmente estarrecedora: um articulista profano escreve em um jornal maçônico esquerdista anti-cristão sugerindo que seria melhor se o Papa parasse de tentar agradar o mundo e passasse simplesmente a pregar o Evangelho e o convite à conversão.
    Isso é IMPRESSIONANTE !!!!
    Um jornal profano sugerindo que a Igreja deveria voltar a fazer aquilo para o qual Ela foi criada….
    Como não ver nas palavras deste articulista algo de sobrenatural? Lembra-me o homicida Caifás profetizando a morte de Cristo sob inspiração Divina.
    Como não ver nestas palavras a prova cabal e definitiva do fracasso do ecumenismo, do relativismo religioso e do multiculturalismo?
    Como sustentar ainda a decadente e fracassada igreja da nova teologia dos anos 70?
    Essa moribunda agoniza nos últimos instantes de vida enquanto seus asseclas movem mundos e fundos para mante-la viva enquanto ainda podem.
    O tempo está acabando…

    • Alcleir, os benefícios ou os “estragos” de um Pontificado perduram por muitas gerações. Nestes tempos conturbados tanto se recorreu ao Magistério de Papas anteriores para, quem sabe, buscar respostas para tantos enigmas. Quero dizer que o “efeito Francisco” causará MUITO barulho mesmo depois que ele for sucedido.

    • Estou assinando embaixo deste comentário. Exatamente a minha opinião.

  2. Que saudade do padre António, ele atirava pedras e apontava o dedo dentro da igreja, as pessoas murmuravam, alguns tinham até medo, mas todos tinham respeito por aquele sacerdote, nas suas missas aos domingos, quem chegasse tarde ficava da porta pra fora porque não cabia mais ninguém. Outro dia, saudosista daqueles velhos tempos de mais de 40 anos, fui à missa na igreja que ele cuidava melhor que a menina dos olhos, uma lástima, o prédio decadente, os sinos sumiram e se houvesse 10 pessoas presente era muito…

  3. A Igreja, quando procuraria chegar à maioria e arrebanhar multidões sem grandes exigencias, parecendo capitular a certas normas intocaveis da propria fé por meio de algum entusiasta de seu meio, nem sempre medindo as eventuais consequencias negativas, há indicios que não teria tido bom êxito até ao presente, pois nessa rede aparecem muitos peixes indesejaveis, que não se adequarão ao meio e teriam de ser descartados.
    Dentre esses no momento estão os radicais inimigos da Igreja e, se a estão apreciando, tornando-se até possíveis “católicos”, como assim se expressou o carniceiro Raúl Castro, dentre mais extasiados com os novos modelos de “evangelização”, não é por se disporem a se mudar, ao inverso, sentiriam que a Igreja teria se rendido a eles!
    Nesse mix de apoiadores da “nova igreja” se incluiriam teólogos modernistas, os hilariantes franco-maçons aplaudindo ostensivamente as novas medidas que desprezavam os ensinamentos dos papas anteriores!
    Nesse pacote de liberalistas ajuntaram-se os “progressistas”, como a esquerdista TL, seus partners comunistas; mesmo os protestantes viram aí nova oportunidade para o diálogo e aplaudiram as adaptações da Igreja aos “novos tempos”, de certa forma aprovando o que a “Reforma Protestante” prestou de “bem” ao cristianismo!
    Achei oportuno recordar – mais aparentaria como que profetizando pelo que adviria após o papa Bento XVI deixar(?) o pontificado – parecendo de antemão prever pelo que aconteceria internamente:
    *”O papa não é um soberano absoluto, cujo pensamento e vontade são lei. Ao contrario: o ministerio do papa é a garantia de obedencia a Cristo e à Sua Palavra. Não deve proclamar suas proprias ideias senão vincular-se constantemente a si mesmo e à Igreja na obediencia à Palavra de Deus, frente a todas as intenções de adaptação e alteração, assim como frente a todo oportunismo!
    *Bento XVI, Homilía em S João de Latrão – 07/05/2005.

  4. O autor do editorial é um conhecido intelectual católico que escreve regularmente no site conservador “First Things”, que é ótimo, por sinal. O editorial é inteiramente consistente com outros artigos do mesmo autor. Veja-se, por exemplo:

    https://www.firstthings.com/blogs/firstthoughts/2016/09/catholics-face-a-choice

  5. Penso que não seja fracasso do Papa Francisco.
    Nesse mundo tenebroso em que vivemos,onde há uma cultura totalmente refratária ao cristianismo,qualquer forma de catolicismo vem fracassando aos olhos do mundo.
    Até mesmo a tradição católica,humanamente falando,não consegue consquistar mentes e corações nesse mundo corrompido.

  6. Há um sério conflito entre a ordem deixada por Cristo e, é o que se percebe como a intenção do Bergóglio. O conflito está nos objetivos: Cristo quer a evangelização para a salvação eterna; Bergóglio busca a provação popular, objetivos terrenos.

  7. A proposta de Bento XVI era muito clara e consistia em reafirmar a identidade católica, degradada de diversas maneiras desde os tempos de Paulo VI. A grande burrice das reformas que então se implementaram foi a de apostar no secularismo e secularização quando se precisava fazer justamente o contrário.

    Enquanto meia dúzia intelectuais de gabinete inventavam uma igreja nova, secularizada e com vergonha de seu passado, as multidões procuravam, equivocadamente, saciar sua sede de Transcendência no primeiro ralo que encontram – Horóscopo, Tarô, técnicas de meditação búdica, queima de incenso à Gaia Mãe Terra, valorização de rituais africanos, a pregação messiânica dos militantes de esquerda, as práticas pentecostais – tudo isso serviu de chamarisco para milhões de pessoas se desinteressarem da Igreja católica por não aguentarem o culto barulhento, vulgar e imbecilizante que o clero excogitou do auge do seu surto de onipotência e autoritarismo.

    E, no entanto, a Igreja tinha e tem tudo, do bom e do melhor, à disposição no seu passado…

    Vai chegar um tempo, se é que já não chegou, que a degradação dos ambientes conciliares será tamanha que, neles, não restará mais nada de reconhecível da Religião católica. E assim como as coisas opostas, quando colocadas uma ao lado da outra, nos fazem perceber melhor a diferença que as separam, assim também a “experiência da Tradição” e a aventura do V2 hão de se confrontar cada vez mais, mostrando, pelos frutos, onde está o ramo sadio e onde está o ramo doente e quase seco, pronto para ser cortado.

    Ninguém é maior que a verdade, e nenhum mortal pode rasgar as páginas do Evangelho sem ver a si e a seus planos reduzidos ao pó e ao mais completo esquecimento.

  8. “Como sustentar ainda a decadente e fracassada igreja da nova teologia dos anos 70?
    Essa moribunda agoniza nos últimos instantes de vida enquanto seus asseclas movem mundos e fundos para mante-la viva enquanto ainda podem.
    O tempo está acabando…” ( II )

    O efeito desse pontificado desastroso será lembrado por muitos anos, o relativismo descarado e amoral da tal A. L., o “quem sou eu pra julgar”, o blasfemo crucifixo foice, a bagunça total na Cúria Romana, a caça aos “conservadores”, tudo isso servirá de combustível para os padrecos e teórlogos doutores e dortoras tucunzados(as) dos nossos institutos de teorlogia levarem muitas almas para o caminho duvidoso que há anos vem sendo proposto pela trupe infernal da tl maldita que grassa a Igreja no Brasil…

    Falem o que quiser, mas, é impossível a um Católico descente não sentir a desorientação no leme da Igreja… Será que la Salete está se cumprindo quando disse que “Roma se tornaria sede do anti cristo?”

    Parece que o Biso de Fátima pediu a Francisco para consagrar o mundo ao Imaculado Coração de Maria em outubro…NOSSA SENHORA PEDIU A CONSAGRAÇÃO DA RÚSSSIIIAAAAA…..

    “Por fim meu Imaculado Coração Triunfará”…

  9. Oi. O nome “Centro Georgetown de Pesquisa Aplicada em Apostolado” demonstra uma incompreensão na tradução: o correto seria “O Centro de Pesquisa Aplicada no/em Apostolado, da Universidade de Georgetown”. Fica a dica.

  10. Interessante a análise, de forma global, mas ao menos uma exceção deve ser feita: o Papa insiste, sim, bastante, sobre a necessidade da Confissão e da ameaça constante que nos vem dos demônios. De fato, ele parece tocar nesses assuntos — tanto a Confissão quanto a existência e atuação dos demônios — de forma ainda mais constante que seus predecessores.

    • Mas não adiantaria insistir nesses 2 casos da ação do demonio e da confissão, e deixar que mais corram soltos, como em uniões ilícitas, por ex.; nesse caso não teria a ação do demonio, não é o que daria impressão?
      Confissões prá que nesse caso, se na realidade sairá pior que entrou?

    • Paulo Bissexto também falava de demônio, e “são” João Paulo Segundo também e João embalsamado Vinte e Três, no leito de morte, quis parar o concílio.
      Muitos paradoxos, como, por exemplo, os únicos a estudarem os documentos do concílio serem os católicos. Pois os outros, da igreja conciliar, já o consideram ultrapassado.
      Falar é fácil…

  11. A ordem dos fatores não altera o produto. Se o nome fosse “Centro Unicamp de Pesquisa Aplicada em Apostolado” ou “O Centro de Pesquisa Aplicada em Apostolado da Unicamp” daria na mesma. Ambas as formas estariam corretas e perfeitamente compreensíveis. Fica a dica.

  12. Meu campo acadêmico é o das Letras e da Linguística. Gostaria de contribuir para uma elucidação relativa ao comentário do Sr. Isaque G. C. (isaquegc). Há, do ponto de vista científico, tipologias distintas de tradução. Uma boa e fidedigna tradução não obriga, nem se limita, ao que se pode designar “metáfrase”, isto é, à tipologia de verter vocábulo por vocábulo da língua de partida para a de chegada. Portanto, não se verifica problema em se ter posto ‘Centro Georgetown de Pesquisa Aplicada em Apostolado’, e não, metafrasicamente, ‘Centro de Pesquisa Aplicada em Apostolado[,] [da Universidade] de Georgetown’ (salvo, naturalmente, se já houvesse uma versão oficial do nome do órgão ou instituição em nossa língua portuguesa, o que não é o caso, ou se houvesse um desvio na informação traduzida). Como salientou a Sra. Gercione Lima, de maneira bastante esclarecedora (por sinal, aprecio muitíssimo os seus comentários e traduções), a ordem dos fatores não alterou a indicação da informação, o produto final. Ao blog Fratres in Unum nossas felicitações e agradecimentos pelo bom serviço (a propósito, dedicado, atualíssimo e gratuito serviço) prestado aos católicos com as matérias e traduções publicadas na página.