Reflexões da Sagrada Escritura: Tríplice amor do Redentor para com o gênero humano: divino, humano-espiritual e humano-sensível.

“Daí vem que ele deveu em tudo ser semelhante a seus irmãos, a fim de ser diante de Deus um Pontífice misericordioso e fiel (no seu ministério), para expiar os pecados do povo. Pois que, porque ele mesmo sofreu e foi tentado, é que pode socorrer aqueles que são tentados” (Heb. 2, 17-18).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

  1. Mas, afim de, na medida em que é isto dado aos homens mortais, poderdes ‘compreender com todos os santos qual é a largura e comprimento, a altura e profundidade’ (Ef 3,18) da insondável caridade do Verbo encarnado para com seu Pai celestial e para com os homens manchados de tantas culpas, convém ter bem presente que o amor não foi unicamente espiritual, como convém  a Deus visto que ‘Deus é espírito’ (Jo 4, 24). Indubitavelmente, de índole puramente espiritual foi o amor nutrido por Deus para com nossos progenitores e para com o povo hebreu; por isso, as expressões de amor humano, quer conjugal, quer paterno, que se lêem nos Salmos, nos escritos dos profetas e no Cântico dos Cânticos, são indícios e símbolos de um amor verdadeiríssimo, mas totalmente espiritual, com que Deus amava o gênero humano; ao contrário, o amor que se exala do Evangelho, das Epístolas dos Apóstolos e das páginas do Apocalipse, onde se descreve o amor do Coração de Jesus, não compreende somente a caridade divina, mas se estende também aos sentimentos do afeto humano. Para todo aquele que faz profissão de fé católica, esta verdade é indiscutível. Com efeito, o Verbo de Deus não tomou um corpo ilusório e fictício, com já no primeiro século da era cristã ousaram afirmar alguns hereges, que atraíram a severa condenação do Apóstolo S. João: ‘Visto que se hão descoberto no mundo muitos impostores que não confessam haver Jesus Cristo vindo em carne, negar isto é ser um impostor e um
    anticristo’ (2 Jo, 7); porém Ele, o Verbo de Deus , uniu à sua Divina Pessoa uma natureza humana indivídua, íntegra e perfeita, concebida no seio puríssimo de Maria Virgem por obra do Espírito Santo (cf. Lc 1, 35). Nada, pois, faltou à natureza humana assumida pelo Verbo de Deus; em verdade, Ele a possui sem nenhuma diminuição, sem nenhuma alteração, tanto nos elementos constitutivos espirituais quanto nos corporais, a saber: dotada de inteligência e de vontade e demais faculdades cognoscitivas internas e externas; dotada igualmente das potências afetivas sensitivas e das suas correspondentes paixões. É isto o que ensina a Igreja Católica, por estar sancionado e solenemente confirmado pelos Romanos Pontífices e pelos Concílios Ecumênicos: ‘Inteiro nas suas propriedades, inteiro nas nossas’ (S. Leo Magnus, Epist. dogm. “Lectis delectionis tuae” ad Flavianum Const. Patr. 13 Jun. a. 449; cf. PL. 54, 763); ‘perfeito na divindade e perfeito Ele próprio  na humanidade’ (Conc. Chalced. a. 451; cf. Mansi. Op. cit. VII, 115 B); ‘todo Deus (feito) homem, e todo o homem (subsistente em) Deus’ (S. Gelasius Papa, Tract II: ‘Necessarium’ de duabus naturis in Christo, cf. A. Thiel, Epist. Rom, Pont. a S. Hiláriousque ad Pelagium II, p. 532).
  2. Não havendo, pois, dúvida alguma de que Jesus possuía um verdadeiro corpo humano, dotado de todos os sentimentos que lhe são próprios, entre os quais campeia o amor, do mesmo modo é muito verdade que Ele foi provido de um coração físico em tudo semelhante ao nosso, não sendo possível que a vida humana, privada deste excelentíssimo membro do corpo, tenha a sua natural atividade afetiva. Por conseguinte, o Coração de Cristo, unido hipostaticamente à Pessoa divina do Verbo, sem dúvida deve ter palpitado de amor e de qualquer outro afeto sensível; contudo, estes sentimentos eram tão conformes e estavam tão em harmonia com a vontade humana, trasbordante de caridade divina, e com o próprio amor infinito que o Filho tem comum com o Pai e com o Espírito Santo, que jamais se interpôs a mínima oposição de discórdia entre estes três amores (cf. S. Thom., “Summa Theol”., III, q. 15, a. 4; q. 18, a. 6; ed. Leon. t. XI, 1903, pp. 189 e 237).
  3. Sem embargo, o fato de haver o Verbo de Deus assumido uma verdadeira e perfeita natureza humana, e de lhe ter sido plasmado e como que modelado um coração de carne que, não menos do que o nosso, fosse capaz de sofrer e de ser ferido, este fato, dizemos, se não é visto e considerado à luz que emana não só da união hipostática e substancial, mas também da verdade da Redenção humana, que é, por assim dizer, o complemento daquela, a alguns poderia parecer “escândalo” e “loucura”, como de fato aos judeus e gentios pareceu “Cristo crucificado” (cf. 1 Cor 1, 23). Ora, os símbolos da fé, perfeitamente concordes com as Divinas Escrituras, asseguram-nos que o Filho Unigênito de Deus assumiu a natureza passível e mortal com a mira posta principalmente no sacrifício cruento da cruz, que Ele desejava oferecer com o fim de realizar a obra da salvação do homem. Além disso, esta é a doutrina exposta pelo Apóstolo das Gentes: “Porque aquele que santifica, e os santificados, todos tiram de um a sua origem. Razão pela qual ele não se dedigna de lhes chamar irmãos, dizendo: Eis-nos aqui eu e meus filhos, que Deus me deu. E por isso que os filhos têm comuns a carne e o sangue, Ele também participou das mesmas coisas… Pelo que, em tudo teve de se assemelhar a seus irmãos, a fim de ser um pontífice misericordioso e fiel para com Deus, em ordem a expiar os pecados do povo. Já que, em razão de haver Ele mesmo padecido e de ter sido tentado, pode também dar a mão aos que são tentados” (Heb 2, 11-14; 17-18).” (Encíclica “HAURIETIS AQUAS” de Pio XII)

 

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One Comment to “Reflexões da Sagrada Escritura: Tríplice amor do Redentor para com o gênero humano: divino, humano-espiritual e humano-sensível.”

  1. ” o fato de haver o Verbo de Deus assumido uma verdadeira e perfeita natureza humana .. a alguns poderia parecer “escândalo” e “loucura”, como de fato aos judeus e gentios pareceu “Cristo crucificado” ”

    Em minhas meditações sobre a paixão de Cristo e meus exames de consciência, as dificuldades de se compreender a Humanidade de Deus tem sido superadas por meio de considerações sobre a humildade,sobretudo fazendo-se criança diante de Deus.Uma criança confia em seus pais mas não deixa de raciocinar e de questionar. O que a faz tão dócil, tão cheia de ternura a ponto de atrair o carinho de todos que a cercam é esta entrega cheia de amor e simplicidade.
    Observo isto em meus filhos e por meio deles, compreendo porque Jesus comparou os eleitos do Céu às crianças.
    Talvez seja exatamente esta falta de ternura e carinho que afaste os hereges e infiéis da Verdade.