Reflexões da Sagrada Escritura: As provas dos Santos Padres em favor dos afetos sensíveis do Verbo Encarnado

“Porque aquele que santifica, e os santificados, todos tiram de um a sua origem. Razão pela qual ele não se dedigna de lhes chamar irmãos, dizendo: Anunciarei teu nome a meus irmãos…” (Heb 2, 11-14).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

  1. Os Santos Padres, testemunhas verazes da doutrina revelada, advertiram muito oportunamente o que já S. Paulo Apóstolo claramente significara, a saber: que o amor divino é como o princípio e a culminância da obra da Encarnação e Redenção. Lê-se frequentemente nos escritos deles que Jesus Cristo tomou em si a natureza humana perfeita e o nosso corpo frágil e caduco, para nos proporcionar a salvação eterna e manifestar e patentear em forma sensível o seu infinito amor a nós.
  2. Fazendo-se eco da voz do Apóstolo das gentes, S. Justino escreve o seguinte: “Amamos e adoramos o Verbo nascido de Deus inefável e que não tem princípio; já que ele se fez homem por nós para que, tornado participante das nossas doenças, nos proporcionasse o seu remédio” (Apol. 2, 13; P. G. 6, 465). E S. Basílio, o primeiro dos três Padres da Capadócia, afirma que os afetos sensíveis de Cristo foram verdadeiros e ao mesmo tempo santos: “É manifesto que o Senhor possuiu os afetos naturais em confirmação da sua verdadeira, e não fantástica, encarnação; manifesto é também que ele repeliu como indignos da divindade os afetos viciosos, que mancham a pureza da nossa vida” (Epist. 261, 3; P. G. 32, 972). Igualmente, S. João Crisóstomo, luminar da Igreja antioquena, confessa que as emoções sensíveis de que o Senhor deu mostra provam irrecusavelmente haver ele possuído integralmente a nossa natureza humana: “A não haver ele possuído a nossa natureza, não teria experimentado, uma e mais vezes, a tristeza” (“In Jonn.” Homil. 63, 2; P. G. 59, 350).
  3. Entre os Padres latinos, merecem lembrança os que hoje a Igreja venera como Doutores máximos. S. Ambrósio afirma que a união hipostática é a origem natural dos afetos e sentimentos que o Verbo de Deus Encarnado experimentou: “Portanto, já que ele tomou a alma, tomou as paixões da alma; pois Deus, como Deus que é, não podia perturbar-se nem morrer” (“De fide ad Gratianum” II, 7, 56; P. L. XVI, 594).
  4. Nestas mesmas reações apóia S. Jerônimo o principal argumento para provar que Cristo assumiu realmente a natureza humana: Nosso Senhor entristeceu-se realmente, para manifestar a sua humana natureza (cf. “Super Math.” 26, 37; P. L. 26, 205).
  5. Particularmente S. Agostinho faz notar a íntima união existente entre os sentimentos do Verbo Encarnado e finalidade da Redenção humana: “O Senhor revestiu-se dos afetos da fragilidade humana, do mesmo modo que aceitou a fragilidade da nossa carne e a morte desta, não por necessária coação, mas sim pelo estímulo da sua misericórdia, para assimilar a si o seu corpo, que é a Igreja, da qual ele se dignou de ser a cabeça, ou seja assimilar seus membros em seus santos fiéis; de modo que, se por efeito das tentações humanas algum deles se entristecesse e sofresse, nem por isso pensasse estar privado do influxo da sua graça; e, assim como um coro se acorda com a voz que lhe dá o tom, assim também o seu corpo soubesse da sua cabeça que, por si mesmos, tais movimentos não são pecado, senão somente indício da humana fragilidade  (“Enarr. in Os. 87, 3”; P. L. 37, 1111).
  6. Com maior concisão e não menor força estas passagens de S. João Damasceno atestam a doutrina da Igreja: ” O Deus todo tomou todo o homem, e o todo se uniu ao todo para proporcionar a salvação do homem todo. De outra maneira não teria ele podido sanar aquilo que não assumiu” (De Fide orth.”, 3, 6; P. G 94, 1006). “Tomou, pois, tudo para santificar tudo” (Ibid. 3, 20; P. G. 94, 1081). (Encíclica “HAURIETIS AQUAS” de Pio XII).