Reflexões da Sagrada Escritura: O simbolismo natural do Coração de Jesus Cristo afirmado veladamente na Sagrada Escritura e nos Santos Padres.

“…N’Ele habita corporalmente a plenitude da Divindade” (Col. II, 9). “

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

  1. Bem verdade é que nem os autores sagrados nem os Padres da Igreja que citamos, e outros semelhantes, embora provem abundantemente que Jesus Cristo esteve sujeito aos sentimentos e afetos humanos, e que, por isso precisamente, tomou a natureza humana a fim de nos proporcionar a eterna salvação, contudo não atribuem concretamente ditos afetos ao seu coração fisicamente considerado, apontando nele o símbolo do seu amor infinito.
  2. Embora os evangelistas e os outros autores sacros não nos descrevam abertamente o Coração do nosso Redentor não menos vivo e sensível do que o nosso, e as palpitações e estremecimentos devidos às diversas emoções e afetos da sua alma e à ardentíssima caridade da sua dupla vontade, todavia frequentemente põem em relevo o seu divino amor e as emoções sensíveis com ele relacionadas: o desejo, a alegria, a tristeza, o temor e a ira, consoante as expressões do seu olhar, das suas palavras e dos seus gestos. E principalmente o rosto adorável de nosso Salvador foi, sem dúvida, o índice e como que o espelho fidelíssimo dos afetos que, comovendo-lhe de vários modos a alma, à semelhança das ondas que se entrechocam, chagavam ao seu coração santíssimo e lhe excitavam as pulsações. Na verdade, a propósito da Jesus vale também o que o Doutor Angélico, ensinado pela experiência, observa em matéria de psicologia humana e dos fenômenos dela derivados: “A turbação que a ira produz repercute nos membros externos, e principalmente naqueles em que mais se reflete a influência do coração, como são os olhos, o semblante, a língua” (Summa Theol.”, I-II, q. 48, a. 4; ed. Leon. t. VI, 1891, p. 306).
  3. Com muita razão, pois, o coração do Verbo Encarnado é considerado índice e símbolo do tríplice amor com que o divino Redentor ama continuamente o Eterno Pai e todos os homens. Ele é, antes de tudo, símbolo do divino amor, que n’Ele é comum com o Pai e com o Espírito Santo, e que só n’Ele, como Verbo Encarnado, se manifesta por meio do caduco e frágil instrumento humano, “já que n’Ele habita corporalmente a plenitude da Divindade” (Col. 2, 9). Ademais, o Coração de Cristo é símbolo de ardentíssima caridade, que, infundida em sua alma, constitui o precioso dote da sua vontade humana, e cujos atos são dirigidos e iluminados por uma dupla e perfeitíssima ciência, e beatífica e a infusa (cf. “Summa Theol.”, III, q. a. 1-3; ed, Leon. t. 11, 1903, p. 142).
  4. Finalmente, e isto de modo mais natural e direto, o Coração de Jesus é símbolo do seu amor sensível, já que o corpo de Jesus Cristo, plasmado no seio castíssimo de Virgem Maria por obra do Espírito Santo, supera em perfeição, e portanto em capacidade perceptiva, qualquer outro organismo humano (cf. ibid, III, q. 33, a. 2, ad 3m; q. 46, a. 6, ed. Leon. t. 11, 1903, pp. 342, 433).
  5. Instruídos pelos Sagrados Textos e pelos símbolos da fé sobre a perfeita consonância e harmonia reinante na alma santíssima de Jesus Cristo, e sobre o fato de haver Ele dirigido com finalidade redentora todas as manifestações do seu tríplice amor, com toda segurança podemos contemplar e venerar no Coração do Redentor divino a imagem eloquente da sua caridade e o testemunho da nossa Redenção, e como que uma mística escada para subir ao amplexo “de Deus Nosso Senhor” (Tito 3, 4). Por isso, nas palavras, nos atos, nos ensinamentos, nos milagres, e especialmente nas obras mais esplendorosas do seu amor par conosco, como a instituição da Divina Eucaristia, a sua dolorosa paixão e morte, a benigna doação de sua Santíssima Mãe, a fundação da Igreja para proveito nosso, e finalmente a missão do Espírito Santo sobre os Apóstolos e sobre nós em todas estas obras, repetimos, devemos admirar outros tantos testemunhos do seu tríplice amor, e meditar as pulsações do seu Coração, com a quais Ele quis medir os instantes da sua peregrinação terrena até o momento supremo em que, como atestam os evangelistas, “clamando com grande voz, disse: “Tudo está consumado, e, inclinando a cabeça entregou o espírito” (Mat 27, 50; Jo, 19, 30). Então o seu coração parou e deixou de bater, e o seu amor sensível permaneceu como que suspenso, até que, triunfando da morte, Ele se levantou do sepulcro.
  6. Depois que seu corpo conseguiu o estado da glória sempiterna e se uniu novamente à alma do Divino Redentor, vitorioso da morte, o seu Coração sacratíssimo nunca deixou nem deixará de palpitar com imperturbável e plácida pulsação, nem tampouco cessará de demonstrar o tríplice amor com que o Filho de Deus se une a sue Pai eterno e à humanidade inteira, de quem com pleno direito Ele é cabeça mística”. (Encíclica “HAURIETIS AQUAS” de Pio XII).
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