Terremotos e castigos divinos.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza romana, 05-11-2016 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comA partir de 24 de agosto deste ano, a Itália foi sacudida por uma série de terremotos violentos que, transcorridos dois meses, não dão sinal de diminuir. São milhares, segundo os sismólogos, com intensidade e magnitude diversas. Até o momento eles provocaram um número limitado de vítimas, mas sérios danos a igrejas e edifícios públicos e privados, despojando dezenas de milhares de italianos de seus bens e de suas casas.

san_benedtto_norcia-468x278O terremoto de 30 de outubro, o mais grave desde o de 24 de agosto, foi sentido em toda a Itália, de Bari a Bolzano, e teve seu símbolo no colapso da Basílica de Núrsia. A notícia de sua destruição correu o mundo. Construída sobre o local de nascimento de São Bento, dela restou apenas uma frágil fachada. Todo o resto desapareceu em uma nuvem de poeira. Muitos meios de comunicação, como a CNN americana, enfatizaram a natureza simbólica do acontecimento, exibindo a imagem da catedral desmoronada na página inicial de seus sites.

Houve um tempo em que os homens eram capazes de ler as mensagens de Deus em todos os acontecimentos que escapavam à vontade deles, cada um dos quais tem um significado expresso na linguagem do símbolo, que não é uma representação convencional, mas a mais profunda expressão do ser das coisas.

O racionalismo moderno, de Descartes a Hegel e de Marx ao neocientificismo, quis racionalizar a natureza, substituindo a verdade do símbolo pela interpretação puramente quantitativa da natureza. O racionalismo está hoje em crise, mas, abeberando-se em suas fontes intelectuais, do nominalismo ao evolucionismo, a cultura pós-moderna criou um novo sistema simbólico que, ao contrário dos antigos sistemas, não se reporta à realidade das coisas, mas a deforma como num jogo de espelhos. O código simbólico que se exprime em todas as formas de comunicações pós-modernas, dos tweets aos talk-shows, visa criar emoções e despertar sentimentos, recusando-se a compreender a razão profunda das coisas.

A Basílica de Núrsia, por exemplo, é um símbolo da arte, da cultura e da fé, cuja destruição evoca para os meios de comunicação a perda do patrimônio artístico da região central da Itália, mas não a imagem do colapso da fé ou dos valores fundamentais da civilização cristã.

Por exemplo, embora o vocábulo “terremoto” seja usado na linguagem cotidiana para indicar transtornos culturais e sociais, para a mídia ele nunca pode significar uma intervenção divina, porque Deus só pode ser apresentado como misericordioso, jamais como justo.

Os que falam de “castigo divino” incorrem imediatamente na difamação da mídia, como aconteceu com o padre Giovanni Cavalcoli, cujas recentes palavras na Rádio Maria foram definidas pelo substituto da Secretaria de Estado, Mons. Angelo Becciu, como “declarações ofensivas aos crentes e escandalosas aos não crentes”.

Mas, se há escândalo, é aquele causado pela tomada de posição do prelado vaticano, que demonstra ignorar a teologia católica e o ensinamento dos Papas, como Bento XVI, que na audiência de 18 de maio de 2011, falando sobre a oração de intercessão de Abraão por Sodoma e Gomorra, as duas cidades bíblicas punidas por Deus pelos seus pecados, afirma:

“O Senhor estava disposto a perdoar, desejava fazê-lo, mas as cidades estavam fechadas num mal totalizador e paralisador, sem sequer poucos inocentes, a partir dos quais começar para transformar o mal em bem. Pois é precisamente este o caminho da salvação, que também Abraão pedia: ser salvos não quer dizer simplesmente evitar a punição, mas ser libertados do mal que habita em nós. Não é o castigo que deve ser eliminado, mas o pecado, aquela rejeição de Deus e do amor que já traz em si o castigo. O profeta Jeremias dirá ao povo rebelde: «Valeu-te este castigo a tua malícia, e as tuas infidelidades atraíram sobre ti a punição. Sabe, portanto, e vê como te foi funesto e amargo abandonar o Senhor teu Deus» (Jr 2, 19).”

Como esquecer que entre agosto e setembro de 2016 foram celebradas na Itália as primeiras uniões civis? “Reconstruiremos tudo”, disse o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi.

Mas, em 23 de julho de 2016, o mesmo Renzi apôs sua assinatura no decreto de aplicação da Lei nº. 76/2016, ou Lei Cirinnà, que legaliza o casamento homossexual na Itália. Esta lei é um terremoto moral, porque abate as paredes da lei divina natural. Como imaginar que essa lei calamitosa seja privada de consequências? Aqueles que não renunciaram ao bom senso percebem-no imediatamente. Hoje o homem se rebela contra Deus e a natureza se rebela contra o homem. Ou melhor, o homem se rebela contra a lei natural, que tem o seu fundamento em Deus, e a desordem da natureza explode.

A lei Cirinnà não destrói as casas, mas a instituição da família, produzindo uma devastação moral e social não menos grave do que aquela material causada pelo terremoto. Quem pode negar-nos o direito de pensar que a desordem da natureza é permitida por Deus como consequência da negação da ordem natural praticada pelas classes dirigentes do Ocidente? E, uma vez que os símbolos permitem diversas leituras, como culpar aqueles que veem na fachada de uma basílica o símbolo daquilo que hoje, sob o aspecto humano, parece restar da Igreja Católica: uma pilha de escombros? As declarações de Mons. Becciu, um dos colaboradores mais próximos do Papa Francisco, são a expressão de um mundo eclesiástico em ruínas que atrai sobre si outras ruínas.

Da promulgação da Exortação Amoris Laetitia às honras prestadas a Lutero em Lund, o Papa Francisco certamente não ajudou a restaurar a ordem neste mundo em frangalhos.

O Papa repetiu que não se devem construir muros, mas derrubá-los. Pois bem, as paredes colapsam, mas com elas desmoronam a fé e a moral católica, rui a civilização cristã, que em Núrsia, local de nascimento de São Bento, tem o seu berço simbólico.

Ainda assim, se a basílica caiu, a estátua de São Bento permaneceu de pé, no centro da praça em frente. Em torno dela reuniu-se um grupo de monges, freiras e leigos, rezando o terço. Esta é também uma mensagem simbólica, que nos fala da única reconstrução possível: aquela que se faz de joelhos, rezando.

Além da oração, deve também haver ação, luta, testemunho público da própria fé na nossa Igreja e na Civilização cristã, que ressurgirão dos escombros. Nossa Senhora o prometeu em Fátima. Mas antes do triunfo do Coração Imaculado, a Santíssima Virgem também previu um castigo planetário para a humanidade impenitente. Devemos ter a coragem de lembrá-lo. 

6 Comentários to “Terremotos e castigos divinos.”

  1. O terremoto devastador na região central da Italia e que a tantas dezenas de pessoas vitimou, além dos imensos prejuízos materiais, mais lamentável ainda seria o simbolismo de atingir a Basilica de S Bento, em Nursia, bem que poderia com probabilidades que teria sido resultado de uma revolta via natureza do Senhor Deus por causa dos desafios às sua leis – e poderiam ser uma advertencia!
    A Italia no presente está imersa em todo tipo de perversões e não faltam políticos anti cristãos que as apoiem e contestem publicamente a Igreja de sempre!
    A questão de ela mesma abrir os muros aos imigrantes seria até castigo: o que a Europa está pagando pelo preço de aderir ao globalismo imigracionista para instalar os inimigos dos ocidentais em seus territorios já lhe custou com os esses mais de 150 000 ocorrencias policiais apenas nesse ano na Alemanha; a policia já se sente impotente para os coibirem!
    Os infratores de todas as modalidades, após darem as declarações, em geral serem soltos, bem parecido com o método que o mafioso PT usava aqui de apoio à bandidagem!
    Os cristãos nas terras conflitivas do Oriente Medio, os quais deveriam ter absoluta prioridade em os retirar dos carniceiros do Islã – que explodam – para usar outro termo vulgar que expressaria essa indignação por tanta traição ao cristianismo!
    SERIAM OS SISMOS PELO SANGUE DESSES POR SI MESMO CLAMANDO POR VINGANÇA – BEM POSSÍVEL!
    Aliás, as policias já não entram mais em determinadas regiões, particularmente na França, Alemanha e Iglaterra, mesmo na Italia, desses países “acolhedores” – governos de orientação esquerdista e como tais, traidores do povo – e as regiões onde se instalam em nada estão se diferenciado dos morros do Rio e o tráfico e uso de drogas está incontrolável.
    Breve tem mais: cerca de 150 000 alemães em 2015 deixaram o pais e nesse ano a previsão é ainda maior!

  2. Uma das verdades mais negadas pelo clero atual é a existência de castigos divinos. Eu acredito que, se fosse perguntado ao clero atual se eles acreditam que Deus castiga, 99% diria peremptoriamente que não!

    Outra coisa que o clero dos dias de hoje também nega de maneira vigorosa é que macumba e outros tipos de bruxaria pega. Mas isso já é outro assunto.

  3. Pois é Alex, atualmente o clero modernista não acredita e tampouco fala em castigos, penitências, inferno e purgatório. Hoje só tem as homilias água com açúcar que falam que todos podem ir ao Céu, como no protestantismo bastando apenas “aceitar Jesus” em suas vidas.

  4. Lendo esse post, recordei-me de um comentário de Santo Afonso Maria de Ligório, em sua obra “A Selva”, em que este, tratando dos castigos merecidos pela celebração sacrílega da Missa, cita uma revelação particular e a relaciona com um grande terremoto que afligira o povo italiano alguns anos antes. Fala o santo:
    “Que horror causa a Deus e aos anjos uma missa celebrada em pecado mortal! Fê-lo o Senhor compreender um dia, em 1688, à sua fiel serva, a irmã Maria Crucificada, de Palma, na Sicília, conforme se lê na sua vida [e segue-se o relato da visão]. Depois duma visão tão terrível, permaneceu a serva de Deus de tal modo aterrada e abatida pela dor, que não pôde fazer outra coisa senão chorar. O autor da sua Vida nota que foi precisamente no mesmo ano de 1688 que se deu o grande terremoto, que tantos estragos fez na cidade de Nápoles e seus contornos, donde se pode concluir que tal castigo foi efeito da celebração desta missa sacrílega.” (https://catholicatraditio.files.wordpress.com/2010/09/sto-afonso-de-ligorio-a-selva.pdf)

  5. Deus sempre envia mensagens de alertas para a humanidade, seja através dos profetas (Jonas, ir. Lúcia…), seja por meio dos “act of God” (natureza: terremoto…).

    Senão, vejamos:

    1989 – Queda do muro de Berlim (+ou- após 70 anos das aparições de Fátima), após a consagração do mundo feita pelo santo João Paulo II (1981/1984)

    Significado: Fim do Comunismo.

    11/set/2001 (atentado nos EUA) – queda das torres gêmeas: WTC.

    Significado: Fim do Capitalismo

    Detalhe: em 01/jan/2001, em Mediugórie, a “mãe de Deus” nos alertou que Satanás estava livre de suas correntes e convidou-nos a consagrar ao Imaculado Coração de Maria e ao Sagrado Coração de Jesus para sermos protegidos por Deus.

    E o que ocorreu desde então: no mesmo ano (11/set/01) atentado nos EUA e na sequência, a renúncia do papa Bento XVI (fev/13). E agora dois papas…

    2016: Terremotos na área central da Itália (inclusive Roma)

    Significado: Desmoronamento da Igreja católica.

    Diz uma antiga lenda:

    “Enquanto o Coliseu permanecer de pé, Roma resistirá; quando o Coliseu cair, Roma cairá; e quando Roma cair, o mundo cairá”.

    Meus queridos irmãos em Cristo,

    Estamos vivendo o início das dores de parto (“nação se levantará contra nação, e reino contra reino. Haverá fomes e terremotos em vários lugares”)…

    O que virá pela frente não sabemos (guerras? Queda de meteoros? Fome?…), mas temos certeza de que Deus estará ao lado do “PEQUENO RESTO” fiel a sua Igreja (a exemplo de Noé, Ló…).

    Aproveitemos os últimos dias do Tempo da Misericórdia, pois a Tempo da Justiça encontra-se às portas.

    2017 está chegando…

    Quem viver, verá!

    • Prezado Renato, há um padre mexicano, o Pe. Juan Rivas, que tem pregado muito nesse sentido que o senhor acabou de falar, em aproveitar o tempo da misericórdia antes que venha tempo da justiça. Se tiver um tempo, sugiro-lhe assistir a um pequeno vídeo desse padre em que ele fala justamente disso, de aproveitar o tempo da misericórdia antes que venha o tempo da justiça.

      Sugiro também aos demais leitores a assistirem ao vídeo (está legendado).