Reflexões da Sagrada Escritura: Sobre a Maldição

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“Maldito o que não conserva as palavras desta lei” (Deuteronômio XXVII, 26).

Santo Tomás de Aquino na Summa Theologica, na 2ª Parte da 2ª Parte, Q. LXXVI, a. 1-4 trata “ex professo” desta matéria: Acompanhemo-lo “ipsis litteris”, apenas traduzindo o latim: “Nesta questão, discutem-se quatro artigos:

  1.     se podemos licitamente amaldiçoar a outrem;
  2.     se podemos licitamente amaldiçoar a criatura irracional;
  3.     se a maldição é pecado mortal;
  4.     da sua relação com os demais pecados.

ART. I  –  Se é lícito amaldiçoar a outrem. Quanto a este primeiro artigo, discute-se assim: –  Parece que não é lícito amaldiçoar a ninguém.

  1. Pois, não é lícito transgredir o mandamento do Apóstolo, pelo qual falava Cristo, como diz em I Cor., XIII, 3: “E ainda que distribuísse todos os meus bens no sustento dos pobres e entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse caridade, nada disto me aproveitaria”. Mas como diz o próprio S. Paulo: “Abençoai os que vos perseguem; abençoai-os, e não os amaldiçoeis” (Rom. XII, 14). Logo, não é lícito amaldiçoar ninguém.
  2. Ainda mais.  –  Todos estão obrigados a bendizer a Deus, conforme aquilo da Escritura em Daniel III, 82: “Filhos dos homens, bendizei o Senhor”. Ora, como diz ainda a Escritura em Tiago III, 9 e seguintes: “Com ela [a língua] bendizemos a Deus e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, que foram feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procede a bênção e a maldição. Não convém, meus irmãos, que isto assim seja” (…). Pelo que diz, pois, a Escritura, uma mesma boca não pode bendizer a Deus e amaldiçoar o homem. Logo, não é lícito amaldiçoar ninguém.
  3. E ainda mais.  –  Quem amaldiçoar a outrem parece desejar-lhe o mal da culpa ou o da pena, porque a maldição é uma espécie de imprecação. Ora, não é lícito desejar o mal de ninguém; ao contrário, devemos orar por todos para que se livrem do mal. Logo, não é lícito amaldiçoar ninguém.
  4. E ainda mais.  –  O diabo pela sua obstinação é o ser mais sujeito à malícia. Ora, não é lícito a ninguém amaldiçoar o diabo como não o é amaldiçoar a si mesmo, segundo a Escritura: “Quando o ímpio amaldiçoa o demônio, amaldiçoa ele mesmo a sua alma” (Ecles. XXI, 30). Logo, não é lícito amaldiçoar a  outrem.
  5. E ainda um último argumento:  –  Àquilo da Escritura em Números XXIII, 8: “Como amaldiçoarei eu a quem Deus não amaldiçoou” –  diz a Glosa [interpretação dos Santos Padres]: Não pode haver causa justa de amaldiçoar quando se ignoram os sentimentos do pecador. Ora, ninguém pode conhecer os afetos de outrem nem se este é amaldiçoado de Deus. Logo, a ninguém é lícito amaldiçoar a outrem. “SED CONTRA”: Mas, AO CONTRÁRIO,  [vamos provar que é lícito amaldiçoar, quando e em que sentido]. Mas, em contrário, continua o Doutor Angélico, a Escritura em Deuteronômio XXVII, 26 diz: “Maldito o que não permanece firme nas ordenações desta lei”, e também Elizeu amaldiçoou os meninos que dele escarneciam, como se lê em IV Reis, II, 24.

E assim respondo dando a SOLUÇÃO: Amaldiçoar é o mesmo que dizer mal. Ora, dizer implica tríplice relação com o que é dito.  –  A primeira está no modo de enunciar, como quando exprimimos alguma coisa no modo indicativo. E então amaldiçoar não é senão dizer mal de outrem, o que é próprio da detração; e por isso os que amaldiçoam são às vezes chamados detratores.  –  A segunda relação é a modo de causa. E esta, primária e principalmente é própria de Deus, que fez tudo com a sua palavra, segundo àquilo da Escritura: “Porque Ele disse e foram feitas as coisas” (Salmo XXXII, 9). E por consequência também é própria dos homens, que, com a sua palavra, movem os outros, mandando-os fazer alguma coisa; sendo para isso que se empregam os verbos no modo imperativo.  –  A terceira relação é uma como expressão do sentimento que deseja o expresso pela palavra. E para isso empregam-se os verbos no modo optativo.

Deixando, pois, de lado o primeiro modo de amaldiçoar, pela simples enunciação do mal, consideremos os dois outros modos. E em relação a eles devemos saber que fazer e querer uma coisa são dois atos ligados entre si, tanto na bondade como na malícia, conforme do sobredito resulta. Por onde, no atinente a esses dois modos, pelos quais dizemos o mal imperativa e optativamente, pela mesma razão o que é lícito é também ilícito. Assim, mandar ou desejar o mal de outrem, enquanto mal, visando-o por assim dizer, em si mesmo, de ambos esses modos amaldiçoar será ilícito. E isso o que se chama AMALDIÇOAR propriamente falando. Mas será lícito mandar ou desejar o mal alheio, que nos aparece como bem. Nem haverá então propriamente falando maldição, mas só por acidente; porque a intenção principal de quem fala não visa o mal, mas o bem.

Ora, podemos, mandando ou desejando, dizer um mal, em razão de duplo bem.  –  Assim, umas vezes, por uma razão de justiça; então. o juiz pode licitamente amaldiçoar aquele contra quem mandou aplicar um pena justa. E nesse sentido também a Igreja amaldiçoa anatematizando; assim como os profetas, na Escritura, às vezes imprecam o mal contra os pecadores, como que conformando a sua vontade com a justiça divina. Embora tais imprecações possam também entender-se como prenúncios. Outras vezes porém um mal é dito por uma razão de utilidade; p. ex., quando desejamos que um pecador sofra uma doença ou se lhe ponha algum obstáculo, ou se torne melhor, ou ao menos cesse de causar dano aos outros.

Observação minha: Santo Tomás, depois de dar todas as explicações dos termos e suas diversas acepções, passa a responder as objeções feitas no início do artigo. Daí é bom, antes de ler a resposta, voltar ao início, e reler a argumentação. DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –  O Apóstolo proíbe amaldiçoar em sentido próprio, visando o mal. E o mesmo devemos RESPONDER À SEGUNDA OBJEÇÃO. RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO:  –  Desejar mal a outrem em razão de um bem, não contraria o sentimento pelo qual propriamente falando lhe desejamos o bem; antes, é conforme a esse sentimento. RESPOSTA À QUARTA OBJEÇÃO:  –  No diabo devemos considerar a natureza e a culpa. A sua natureza (=angélica) é boa e provém de Deus, nem é lícito amaldiçoá-la; devemos porém amaldiçoar-lhe a culpa, conforme àquilo da Escritura em Jó, III, 8: “Amaldiçoam-na aqueles que amaldiçoam o dia”. Ora, o pecador, amaldiçoando o diabo por causa da culpa, pela mesma razão julga-se a si mesmo digno de maldição. E neste sentido se diz que amaldiçoa a sua alma. RESPOSTA À QUINTA OBJEÇÃO.  –   O sentimento do pecador, embora em si mesmo não o vejamos, podemos contudo percebê-lo por meio de algum pecado manifesto, ao qual deve ser infligida uma pena. Semelhantemente, embora não possamos saber quem Deus amaldiçoará na reprovação final, podemos contudo saber quem é maldito por ele, pelo reato da culpa presente.

Caríssimos leitores, no próximo artigo, se Deus quiser, transmitiremos o ARTIGO SEGUNDO: Se é lícito amaldiçoar uma criatura irracional.

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5 Comentários to “Reflexões da Sagrada Escritura: Sobre a Maldição”

  1. Muito obrigado Padre Élcio! Tenho sofrido ultimamente com essa questão de “amaldiçoar” e seu texto põe luz na minha cabeça dura.

    Lembro-me de ter amaldiçoado a clérigos desconhecidos na época em que ia me casar. Pois neste caso somos convidados a fazer certo “curso de noivos” e na entrevista com o diácono, ele me perguntou:

    “Sabe qual foi a pessoa que nós mais estudamos no seminário?”

    Eu respondi com alegria: “São Tomás de Aquino!”

    Ele me disse: “Não! Lutero! Ele foi um grande bem para a Igreja! Lemos vários teólogos alemães.”

    Eu fiquei tonto com a resposta, me recuperei da “pancada” e dei minha opinião contrária, dentro dos meus limites de conhecimento. E me arrependi mais tarde por amaldiçoar o que considerei uma má ação.

  2. Pe. Élcio, obrigado por abordar esse assunto!

  3. O péssimo e anti cristão hábito de amaldiçoar e praguejar não é condizente com quem ama o Senhor Deus, pois Ele deseja que usemos nossos labios para abençoarmos e todos edificarmos, não para destruirmos, pois a nossa boca reflete o existente no coração.
    Que nossas palavras sejam bem comedidas, reflitam o amor do Senhor e não externemos o azedume acaso existente em nosso interior, particularmente por torpes motivos pessoais e nunca almejando um bem maior.
    Quantas excomunhões a Igreja já impôs a quem desdenhou sua doutrina, diversos afetados refletiram, voltaram atrás, pediram perdão e se converteram? Não foi o caso do heresiarca Lutero, seguidores e doutros mais de dura cerviz.
    Quando maldissermos contra alguém arvorando-nos como juízes sentenciantes, não só podemos o destruir, assim como afetarmos outras pessoas de forma inimaginável, devendo evitarmos praguejar e amaldiçoar; execremos os maus comportamentos e os erros – jamais os eventuais infratores que neles incidam.
    E á reza do Pai Nosso: “perdoai nossa ofensas assim como perdoamos”? Nesse caso, pedimos que casual maldição lançada recaia sobre nós!…
    Doutro modo, não nos amedrontemos com eventuais maldições que lancem sobre nós, particularmente em defesa de nossa fé: voltarão contra eles mesmos!

  4. Salve Maria

    Muito bom achei ótimo Gostaria da continuação

  5. E quando a maldição é injusta, ela cai bem em cima da cabeça de quem amaldiçoou, seja padre, bispo, cardeal ou papa. Pois DEUS NÃO FAZ ACEPÇÃO DE PESSOAS (Atos 10,34). A Ele, só interessa a verdade e que esta seja defendida (por homens de verdade). Homens.

    “O Reino dos Céus sofre violência, só os violentos o arrebatam” (Mt 11, 12).