“Há, na Tradição da Igreja, a prática da correção ao Sumo Pontífice. Se não houver resposta a essas questões, então, diria que seria o caso de realizar um ato formal de correção de um grave erro”.

Cardeal Burke sobre Dubia acerca de Amoris Laetitia: ‘Tremenda divisão’ justifica ação.

Em uma entrevista exclusiva ao Register, ele discorre sobre porque quatro cardeais foram impelidos a buscar clareza acerca dos elementos controversos da exortação papal. 

in_person-nov27Nesta entrevista exclusiva ao Register, o Cardeal Raymond Burke, patrono da Soberana Ordem Militar de Matal, explique detalhadamente os objetivos dos cardeais; por que a publicação de sua carta deve ser vista como um ato de caridade, unidade e preocupação pastoral, ao invés de uma ação política; e quais serão os próximos passos se o Santo Padre continuar se negando a responder.

Eminência, o que o senhores pretendem com essa iniciativa?

A iniciativa tem um único objetivo, a saber, o bem da Igreja, que, neste exato momento, passa por uma enorme confusão ao menos quanto a esses cinco pontos. Há, também, diversas outras questões, mas esses cinco pontos críticos estão relacionados com princípios morais irreformáveis. Então, nós, como cardeais, julgamos ser nossa responsabilidade pedir um esclarecimento a respeito dessas questões, com o objetivo de colocar fim à propagação da confusão que, de fato, está levando o povo ao erro.

O senhor tem ouvido muito essa preocupação com a confusão?

Em todo lugar por onde passo. Os padres estão divididos, os padres separados dos bispos, e os próprios bispos entre si. Há uma tremenda divisão que se estabeleceu na Igreja, e essa não é a maneira da Igreja. É por isso que chegamos a um acordo sobre essas questões morais fundamentais que nos une.

Por que o capítulo 8 de Amoris Laetitia é de especial preocupação?

Porque tem sido a fonte de todas essas discussões confusas. Mesmo diretrizes diocesanas estão confusas e em erro. Temos uma espécie de diretriz em uma diocese; por exemplo, afirmando que os padres são livres no confessionário, se julgarem necessário, para permitir a uma pessoa que vive em uma união adúltera, e permanece nessa condição, ter acesso aos sacramentos — enquanto em outra diocese, de acordo com o que sempre foi a prática da Igreja, o padre pode conceder tal permissão àqueles que fazem um firme propósito de emenda, para viver castamento dentro do matrimônio, isto é, como irmão e irmã, e para apenas receber os sacramentos em um local onde não haja risco de escândalo. Isso realmente tem que ser tratado. Mas, depois, há outras questões no dubia além desse ponto particiular dos divorciados recasados, que diz respeito ao termo “intrinsecamente mau”, com o estado de pecado e com a correta noção de consciência.

Sem o esclarecimento que estão buscando, os senhores estão dizendo, portanto, que um ou outro ensinamento em Amoris Laetitia vão contra o princípio da não-contradição (que afirma que algo não pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo quanto se tratando do mesmo contexto)?

É claro, porque, por exemplo, se tomarmos a questão do matrimônio, a Igreja ensina que o matrimônio é indissolúvel, segundo a palavra de Cristo, “Aquele que se divorciar de sua mulher e se casar novamente comete adultério”. Portanto, se você é divorciado, não pode entrar em uma relação marital com outra pessoa ao menos que o vínculo indissolúvel ao qual está ligado seja declarado nulo, isto é, não existente. Porém, se você diz, bem, em certos casos, uma pessoa vivendo em uma união matrimonial irregular pode receber a Sagrada Comunhão, então, só pode restar uma das duas: ou o matrimônio realmente não é indissolúvel — como, por exemplo, na espécie de “teoria da iluminação” do Cardeal [Walter] Kasper, que sutenta que o matrimônio é um ideal ao qual não podemos, realisticamente, manter as pessoas. Nesse caso, perdemos o senso da graça do sacramento, que permite aos casados viverem a verdade de sua aliança matrimonial — ou a Sagrada Comunhão não é a comunhão com o Corpo e Sangue de Cristo. É claro, nenhuma das duas é possível. Elas contradizem o ensino constante da Igreja desde o início e, logo, não podem ser verdadeiras.

Alguns verão essa iniciativa pelas lentes da política e a criticarão como um movimento “conservadores vs. liberais”, algo que o senhor e os outros signatários rejeitam. Qual é a sua resposta a esse tipo de acusação?

Nossa resposta é simplesmente esta: não estamos tomando alguma espécie de posição dentro da Igreja, como uma decisão política, por exemplo. Os fariseus acusavam Jesus de tomar posição em um dos lados do debate entre os especialistas na lei judaica, mas Jesus absolutamente não fez isso. Ele apelou à ordem que Deus colocou na natureza desde o momento da criação. Ele afirmou que Moisés permitiu o divórcio por causa da dureza de coração, mas não era assim desde o início. Então, estamos apenas apresentando o que a Igreja sempre ensinou e praticou ao fazer essas cinco questões, que abordam o ensino e prática constantes da Igreja. As respostas a essas perguntas fornecem uma ferramente interpretativa essencial à Amoris Laetitia. Elas devem ser expostas publicamente, pois muitas pessoas dizem: “Estamos confusos, e não compreendemos porque os cardeais ou alguém com autoridade não falam e nos ajudam”.

É um dever pastoral?

É isso, e posso assegurar que conehço todos os cardeais envolvidos, e trata-se de algo que empreendemos com o maior sentido de nossa resposabilidade enquanto bispos e cardeais. Porém, empreemdemos também com o maior respeito pelo Múnus Petrino, porque se ele não defende esses princípios fundamentais da doutrina e disciplina, então, praticamente falando, a divisão entrou na Igreja, o que é contrário à sua própria natureza.

E também o Múnus Petrino, cujo propósito primeiro é a unidade?

Sim, como diz o Concílio Vaticano II, o Papa é o fundamento da unidade dos bispos e de todos os fiéis. Essa idéia, por exemplo, de que o Papa deva ser algum tipo de inovador, que está conduzindo uma revolução na Igreja ou algo do tipo, é completamente alheia ao Múnus Petrino. O Papa é um grande servo das verdades da Fé, como elas foram transmitidas de modo ininterrupto desde o tempo dos apóstolos.

É por isso que o senhor enfatiza que se trata de um ato de caridade e justiça?

Absolutamente. Temos essa responsabilidade perante o povo para quem somos bispos, e uma responsabilidade ainda maior como cardeais, que são os principais conselheiros do Papa. Para nós, permanecer em silêncio sobre essas dúvidas fundamentais, que surgiram como resultado do texto de Amoris Laetitia, seria, de nossa parte, uma grave falta de caridade para com o Papa e uma grande falta no cumprimento de nossos deveres de nosso próprio ofício na Igreja.

Alguns podem argumentar que os senhores são apenas 4 cardeais, dentre os quais o senhor é o único que não está aposentado, e que isso não é muito representativo em relação a toda a Igreja. Neste caso, poderiam perguntar: por que o Papa deveria ouvir e responder aos senhores?

Bem, a questão não são os números. A questão é a verdade. No julgamento de Santo Tomás More, alguém disse-lhe que a maioria dos bispos da Inglaterra aceitaram a ordem do rei, mas ele disse que isso poderia ser verdade, mas que os santos no céu não a aceitaram. Esse é o ponto. Creio que, mesmo que outros cardeais não tenham assinado, eles compartilham a mesma preocupação. Mas isso não me incomoda. Mesmo que fôssemos apenas um, dois ou três, se se trata de algo que é verdadeiro e é essencial à salvação das almas, então, deve ser abordada.

O que acontecerá se o Santo Padre não responder a seu ato de justiça e caridade e deixar de dar o esclarecimento quanto ao ensinamento da Igreja que os senhores esperam?

Então, teríamos que tratar dessa situação. Há, na Tradição da Igreja, a prática da correção ao Sumo Pontífice. Obviamente, é algo muito raro. Porém, se não houver resposta a essas questões, então, diria que seria o caso de realizar um ato formal de correção de um grave erro.

Em um conflito entre a autoridade eclesial e a Sagrada Tradição da Igreja, qual delas é vinculante ao fiel e quem tem autoridade para determinar a respeito?

O que é vinculante é a Tradição. A autoridade eclesial existe apenas a serviço da Tradição. Penso na passagem de São Paulo na carta aos Gálatas (1:8): “Mesmo se um anjo vos pregar qualquer Evangelho diferente do qual eu vos preguei, seja ele anátema”.

Se o Papa ensinar um grave erro ou uma heresia, qual autoridade legítima pode declará-lo e quais seriam as consequências? 

É dever, em tais casos, e historicamente já aconteceu, que cardeais e bispos deixem claro que o Papa está ensinando o erro e peçam a ele que o corrija.

18 Comentários to ““Há, na Tradição da Igreja, a prática da correção ao Sumo Pontífice. Se não houver resposta a essas questões, então, diria que seria o caso de realizar um ato formal de correção de um grave erro”.”

  1. Seria interessante que vocês divulgassem uma petição ao Papa, a respeito deste mesmo assunto encabeçado pelo site lifesitenews.com em apoio aos 4 Cardeias para que o Papa clarifique as questões da exortação apostólica Amoris Laetitia. O link para a petição: https://lifepetitions.com/petition/pope-francis-i-support-the-4-cardinals-letter-pleading-for-clarity-on-amoris-laetitia Obrigado !

  2. COMO SEMPRE, O CARDEAL L BURKE ORTODOXO E CONTUNDENTE!
    Nessa entrevista Cardeal Raymond Leo Burke esclareceu devidamente os inadiáveis motivos da tomada da posição desses cardeais, admitindo que se mantivessem silentes, estariam apoiando eventual divisão na Igreja.
    Embora outros prelados estejam de acordo, apesar de não terem sido signatarios – mas esses apenas acertaram de eles entrarem com essa especie de pedido filial de esclarecimento ao papa Francisco para se dirimirem dúvidas acerca de determinados pontos do capítulo VIII da Amoris laetitia.
    De parte deles, D Burke esclareceu tratar-se de filial pedido ao papa Francisco devendo ser visto sob a caridade, unidade e preocupação com o múnus deles como pastores; mais ainda: como cardeais, não se tratando de provocar divisões dentro da Igreja ou politizar a questão, como nos falsarios e revolucionarios que tanto propagam por aí de embates entre “tradicionais x conservadores”, mas por justificar ser necessario que se esclareçam determinados pontos possuidores de dúvidas no tocante à fé, quer por ambiguidades ou se prestando à confusão entre os fieis.
    A uma das perguntas nessa entrevista da decisão dos 4 cardeais, vejam como foi bastante contundente, como é seu estilo:
    *”O senhor tem ouvido muito essa preocupação com a confusão?
    Em todo lugar por onde passo. Os padres estão divididos, os padres separados dos bispos, e os próprios bispos entre si. Há uma tremenda divisão que se estabeleceu na Igreja, e essa não é a maneira da Igreja. É por isso que chegamos a um acordo sobre essas questões morais fundamentais que nos une”.
    Observe que ele mesmo admite haver uma possível divisão:
    **É um dever pastoral?
    É isso, e posso assegurar que conheço todos os cardeais envolvidos, e trata-se de algo que empreendemos com o maior sentido de nossa responsabilidade enquanto bispos e cardeais. Porém, empreendemos também com o maior respeito pelo Múnus Petrino, porque se ele não defende esses princípios fundamentais da doutrina e disciplina, então, praticamente falando, a divisão entrou na Igreja, o que é contrário à sua própria natureza”.
    De qualquer forma, foi bastante esclarecedor dos pontos que estariam sob dúvidas, conveniente, que tenha havido esse movimento inicial de alerta público a partir desses cardeais, também apoiados por outros!

  3. Certíssima a postura dos Cardeais, que além de honrarem suas posições de prelados, também agiram como verdadeiros HOMENS, sem temer represálias, críticas ou rotulações, simplesmente atuando em defesa da Fé, da Tradição e sobretudo da salvação das almas. Que o Senhor os guarde e abençoe e Nossa Senhora possa cobri-los com seu manto!

  4. Tem nessa entrevista uma frase que achei pesada, que é, se o papa Francisco ficar calado e e ter assumir de assumir <>.
    Já pensou se acontecer se chegar ao caso de falarem que o papa está ensinando o erro que confusão vai dar?

  5. Belo exemplo desses cardeais! A título de curiosidade: durante a realização do Concílio Vaticano II, Dr Plinio Correa de Oliveira tentou fazer com que dois prelados amigos seus também fizessem questionamentos de igual molde, respeitosos porém incisivos e fundamentados na sã doutrina. Mas, por motivos que desconheço, eles nada fizeram… Quem sabe isso ao menos teria dado uma sacudida que despertasse parte do clero daquele sono de então….

  6. É interessante estar vivo nestes tempos, podemos testemunhar a maneira com que Nosso Senhor Jesus Cristo usa de umas e outras pessoas para manter a promessa de que as portas do inferno não prevalecerão conta a Igreja.

    Se o Papa de fato não se dignar a responder estas perguntas aguardem um pronunciamento duro destes cardeais, e então veremos o que fará o Papa.

  7. Se Francisco continuar no mau caminho que está seguindo, e sobretudo se seus erros piorarem ainda mais, suponho que é só uma questão de tempo para os Cardeais conservadores virem a público declarar a vacância da Sé Apostólica, por apostasia formal de seu ocupante… Provavelmente irão então convocar um novo conclave, e será um Deus-nos-acuda a situação que presenciaremos e viveremos, porque os bispos de todo o mundo vão se dividir entre os aceitadores da vacância e os rejeitadores desta, e mesmo em cada diocese uma parte do clero ficará de um lado e a outra se-lhe oporá. A mídia, esta já sabemos a quem ela apoiará (bem como os líderes da ‘Nova Ordem Mundial’)… De repente, os teólogos de todo o orbe vão se ver convocados com urgência a se pronunciarem sobre a polêmica questão do ‘papa herético’. E os movimentos tradicionalistas, como a FSSPX, que posição adotarão nessa tempestade? E os sedevacantistas já antigos nessa posição, como reagirão? A crise suprema detonada, as consequências lógicas enfim tiradas irão resultar na condenação do próprio Vaticano II pela ‘Cúria Romana alternativa’ que se constituirá? E tudo isso coincidindo com os cem anos de Fátima?
    Meu Deus, quem viver verá…

  8. Gostei imenso da entrevista do Cardeal Burke.
    Não resta a mais pequena dúvida de que o Papa está a inovar uma nova doutrina para fundar uma nova igreja que só dê direitos e não deveres, onde o homem é Rei e Deus. Não é só a Amoris Laetitia. É quase diária a má caminhada do Papa.
    É uma obra sublime da caridade, chamar a atenção do Papa, pedir-lhe para ele rever as suas posições, exoplic

  9. Só para o completar o meu comewtário que saiu truncado.
    Ora o Papa não pode, por revelação sua, dar a conhecer alguma nova doutrina, porque aí ele não tem a assistência do Espírito Santo, porque esta é dada para que ele possa guardar santamente e expor fielmente a Revelação transmitida pelos Apóstolos, isto é, o Depósito da Fé. Isto diz a Constituição Dogmática “Pastor aeternus” um pouquinho antes da definição do Dogma da Infalibilidade Papal.
    Portanto a ação dos quatro Cardeais é extremamente oportuno e mais do que isso, plenamente necessária.
    Muitos cristãos, milhões e milhões vêem-se da noita para o dia lançados numa nova religião que não aceitam e os seus corações estão numa perplexidade angustiante sem saber o que fazer e a quem obedecer.
    Louvor seja dado ao quatro Cardeais que, depois de muitos teólogos e filósofos eminentes e inumeráveis leigos terem lançado o seu grito de socorro, nos vêm ajudar, ajudar o Papa, procurando que a Igreja volte ao seu caminhar de sempre

  10. “Go, Burke!! Make the Church great again!!!”

  11. Se Francisco permanecer em silêncio, altos prelados podem, como previu Leo Burke, apresentar uma correção formal dirigida ao pontífice. Um detalhe das entrelinhas, que pode ocorrer em situação extrema: se Francisco persistir no erro, pode ser considerado um herege formalmente, o que o tornaria excomungado latae sententiae (excomunhão automática) e, por conseguinte, um não papa e não católico. Vamos ver o que se dará nos próximos tempos. E a bomba surge às vésperas de um consistório…

    Código de Direito Canônico: “Cân. 1364 — § 1. Sem prejuízo do cân. 194, § 1, n.° 2, o apóstata da fé, o herege e o cismático incorrem em excomunhão latae sententiae; o clérigo pode ainda ser punido com as penas referidas no cân. 1336, § 1, ns. l, 2 e 3”.

    Recomendo aos leitores do Fratres a releitura desta matéria: .

    Deus onipotente, pela intercessão da Virgem Auxiliadora, de S. Miguel Arcanjo, de S. Pedro e S. Paulo, de S. José e de todos os Santos e dos Santos Anjos, proteja a Igreja contra seus inimigos.

  12. Não falam somente por eles. Simplesmente foram os mais corajosos. Outros poderão juntar-se. Como age a Providência. Dos Estados Unidos surgiu um bastião da ortodoxia. Maravilhoso. E aqui já se criticou os alemães. Mas a Alemanha sabidamente é um grande país. Dá de tudo, inclusive bons religiosos.

  13. Acontece que na maioria das dioceses o ensinamento da Amoris Laetitia é uma realidade vivida diariamente há décadas.
    Nos últimos anos os papas nomearam com plena consciência e advertência bispos que defendiam a comunhão dos recasados e não aceitavam a doutrina tradicional da Igreja sobre a paternidade responsável. Para ficar só nisto, pois há outros pontos de controvérsia pública.
    Portanto, creio que Francisco disse com razão que nenhum “fundamentalista” o deterá.
    Ele é que é capaz de mandar prender os cardeais seus inimigos.

  14. A ti, Pedro, darei as chaves do céu, o que ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra será desligado no céu…

  15. Amigos, salve Maria.

    Dom Mayer fez algo parecido assim que Paulo VI promulgou sua missa em 1969:

    http://www.capela.org.br/Missa/antonio.htm

    Foi, claro, totalmente ignorado. Detalhe importante nesta questão é a definição de missa dada por Paulo VI, que vale muito a pena ser observada para constatar o que ele pensava a respeito do assunto.

    Abraços a todos,

    Sandro de Pontes