Dom Athanasius Schneider em defesa dos Cardeais que escreveram a Francisco.

Uma voz profética de quatro Cardeais da Santa Igreja Romana.

Por Dom Athanasius Schneider | Tradução: FratresInUnum.com

Movidos por uma “profunda preocupação pastoral”, quatro Cardeais da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, Sua Eminência Joachim Meisner, Arcebispo Emérito de Colônia (Alemanha), Sua Eminência Carlo Caffarra, Arcebispo Emérito de Bolonha (Itália), Sua Eminência Raymond Leo Burke, Patrono da Soberana Ordem Militar de Malta, e Sua Eminência Walter Brandmüller, Presidente Emérito do Pontifício Comitê para Ciências Históricas, publicaram, em 14 de novembro de 2016, o texto de cinco questões, chamado dubia (em latim, “dúvidas”), que previamente, em 19 de setembro de 2016, eles enviaram ao Santo Padre e ao Cardeal Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, juntamente com uma carta.

Dom Athanasius em entrevista a Fratres in Unum.

Fevereiro de 2015 – Dom Schneider concede entrevista a Fratres in Unum.

Os Cardeais pedem ao Papa Francisco para esclarecer a “grave desorientação e grande confusão” acerca da interpretação e aplicação prática, particularmente do capítulo VIII, da Exortação Apostólica Amoris Laetitia e suas passagens relacionadas à admissão de divorciados recasados aos sacramentos e ao ensino moral da Igreja.

Em sua declaração intitulada “Criar clareza: alguns nós por resolver em Amoris Laetitia“, os Cardeais afirmam que para “muitos – bispos, párocos, fiéis –, estes parágrafos fazem alusão, ou ensinam explicitamente, uma mudança da disciplina da Igreja a respeito dos divorciados que vivem numa nova união”. Ao dizê-lo, os Cardeais meramente afirmaram fatos reais na vida da Igreja. Esses fatos são demonstrados pelas orientações pastorais a cargo de diversas Dioceses e por declarações públicas de alguns Bispos e Cardeais, que afirmam que, em alguns casos, católicos divorciados recasados podem ser admitidos à Sagrada Comunhão, embora continuem a gozar dos direitos reservados pela Lei Divina a esposos validamente casados.

Ao publicar um apelo por clareza em uma matéria que toca a verdade e a santidade simultaneamente de três sacramentos, Matrimônio, Confissão e Eucaristia, os quatro Cardeais apenas cumpriram seu dever básico enquanto Bispos e Cardeais, que consiste em contribuir ativamente a fim de que a revelação transmitida pelos Apóstolos possa ser sagradamente guardada e fielmente interpretada. Foi, especialmente, o Concílio Vaticano II que recordou todos os membros do colégio dos bispos, enquanto sucessores dos apóstolos, de sua obrigação, “por instituição e preceito de Cristo, à solicitude sobre toda a Igreja, a qual, embora não se exerça por um acto de jurisdição, concorre, contudo, grandemente para o bem da Igreja universal. Todos os Bispos devem, com efeito, promover e defender a unidade da fé e disciplina comum a toda a Igreja” (Lumen gentium, 23; cf. também Christus Dominus, 5-6).

Ao fazer um apelo público o Papa, Bispos e Cardeais deveriam ser movidos por uma genuína afeição colegial pelo Sucessor de Pedro e Vigário de Cristo na terra, na esteira do ensinamento do Concílio Vaticano II (cf. Lumen gentium, 22); ao fazê-lo, devem render “serviço ao ministério primacial” do Papa (cf. Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos, 13).

Toda a Igreja, em nossos dias, deve refletir sobre o fato de que o Espírito Santo não inspirou em vão São Paulo a escrever na carta aos Gálatas sobre o incidente de sua correção pública a Pedro. Deve-se confiar que o Papa Francisco aceitará esse apelo público de quatro Cardeais no espírito do Apóstolo Pedro, quando São Paulo o corrigiu fraternalmente, para o bem de toda a Igreja. Possam as palavras do grande doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino, iluminar e confortar-nos a todos: “Correndo iminente perigo a fé, os súditos devem advertir os prelados, mesmo publicamente. Por isso, São Paulo, súdito de São Pedro, repreendeu-o em público, por causa de perigo iminente de escândalo para a fé. E, assim, diz a Glosa de Santo Agostinho: ‘O próprio Pedro deu aos maiores o exemplo de se porventura desviarem do caminho reto, não se dedignem ser repreendidos mesmo pelos inferiores’” (Suma Teológica, II-II,  q. 33, ad 2).

O Papa Francisco, frequentemente, clama por um franco e destemido diálogo entre todos os membros da Igreja em matérias relacionadas ao bem espiritual das almas. Na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, o Papa fala da “necessidade de continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais. A reflexão dos pastores e teólogos, se for fiel à Igreja, honesta, realista e criativa, ajudar-nos-á a alcançar uma maior clareza” (n. 2). Ademais, o relacionamento em todos os níveis na Igreja deve ser livre de um clima de medo e intimidação, como pediu o Papa Francisco em vários de seus pronunciamentos.

À luz desses pronunciamentos do Papa Francisco e do princípio do diálogo e aceitação da legítima pluralidade de opiniões, promovido pelos documentos do Concílio Vaticano II, as reações incomumente violentas e intolerantes provenientes de alguns Bispos e Cardeais contra o calmo e circunspecto apelo de quatro Cardeais causa enorme perplexidade. Dentre esses reações intolerantes pode-se ler afirmações como: os quatro Cardeais são tolos, ingênuos, cismáticos, heréticos, e mesmo comparáveis aos hereges arianos.

Esses julgamentos claramente sem misericórdia revelam não só intolerância, recusa ao diálogo e ira irracional, mas demonstram também uma capitulação à impossibilidade de dizer a verdade, uma capitulação ao relativismo doutrinal e prático, na fé e na vida. As reações clericais mencionadas contra a voz profética de quatro Cardeais ostentam, em última análise, impotência diante da verdade, que inquieta e importuna a aparentamente pacífica ambiguidade desses críticos do clero.

As reações negativas à declaração pública dos quatro Cardeais assemelha-se à confusão generalizada da crise Ariana no quatro século. É útil citar, na situação de confusão doutrinal de nossos dias, algumas afirmações de Santo Hilário de Poitiers, o “Atanásio do Ocidente”.

“Vós [os bispos da Gália], que ainda permaneceis juntos de mim fiéis a Cristo, não cedais quando ameaçados com a investida da heresia, e agora, ao encontrar essa investida, rompeis toda a sua violência. Sim, irmãos, vós conquistastes, para a abundante alegria daqueles que compartilham vossa fé: e a vossa inalterada constância conquistou a dupla glória de manter uma consciência pura e dar um exemplo de autoridade” (Hil. De Syn., 3).

“Vossa fé invencível mantém a honrosa distinção de cioso valor e, contentada por repudiar a ação astuta, vaga ou hesitante, seguramente obedece em Cristo, preservando a profissão de sua liberdade. Pois, desde que sofremos todos profunda e penosa dor pelas ações dos iníquos contra Deus, apenas dentro de nossas fronteiras pode ser encontrada a comunhão em Cristo, a partir do momento em que a Igreja passou a ser atribulada por perturbações como o exílio dos bispos, a deposição dos padres, a intimidação do povo, a ameaça à fé, e a definição do significado da doutrina de Cristo por força e vontade humana. Vossa resoluta fé não pretende ignorar esses fatos ou professar que se possa tolerá-los, notando que, por um assentimento enganoso, ela se veria diante das grades da consciência” (Hil. De Syn., 4).

“Hei dito o que eu mesmo creio, consciente de que era meu dever como soldado ao serviço da Igreja, segundo o ensinamento do Evangelho, o enviar-lhes por estas cartas a voz do ofício que sustento em Jesus Cristo. Corresponde a vós discutir, prover e atuar, e que possais guardar com corações zelosos a fidelidade inviolável que mantendes, e que continueis sustentando o que sustentais” (Hil de Syn., 92).

As seguintes palavras de São Basílio Magno, dirigidas aos bispos latinos, podem ser aplicadas em certos aspectos à situação daqueles que em nossos dias solicitam clareza doutrinal, incluindo os quatro cardeais: “Um dever que certamente obriga sob severos castigos é o de manter cuidadosamente as tradições de nossos pais na fé. Não estamos sendo atacados por riquezas, glória ou benefícios temporais. Descemos ao campo de batalha para lutar por nossa herança comum, pelo grande tesouro da fé recebido de nossos pais. Aflijam-se conosco todos que amam a seus irmãos, pelo silêncio dos homens da verdadeira religião, pela abertura dos lábios ousados e blasfemos de todos os que pronunciam injustiças contra Deus, e pelos pilares da fé sendo destruídos. Nós, cuja insignificância há permitido que passemos ignorados, e estamos privados de nosso direito de falar livremente” (Ep. 243, 2.4).

Hoje, estes bispos e cardeais que solicitam clareza e que intentam cumprir seu dever guardando santa e fielmente a Revelação Divina transmitida em relação aos sacramentos do Matrimônio e da Eucaristia, já não estão exilados como o estavam os bispos nicenos durante a crise ariana. Ao contrário do tempo da crise ariana, tal como escreveu em 1973 Rudolf Graber, bispo de Ratisbona, hoje o exílio de bispos é substituído por estratégias para silenciá-los e por campanhas de difamação (Cf. Athanasius und die Kirche unserer Zeit, Abensberg 1973, p. 23).

Outro campeão da fé católica durante a crise ariana foi São Gregório Nazianzeno. Ele escreveu a seguinte descrição do comportamento da maioria dos pastores da Igreja daquele tempo. Essas palavras do grande doutor da Igreja deveriam ser uma advertência salutar para os bispos de todos os tempos: “Certamente os pastores agiram como insensatos, porque, salvo um número muito reduzido – que resistiu por sua virtude, mas que foi desprezado por sua insignificância, e que havia de restar como uma semente ou raiz de onde renascesse o novo Israel sob o influxo do Espírito Santo -, todos os outros cederam às circunstâncias, com a única diferença de que uns sucumbiram mais logo e outros mais tarde, uns estiveram na linha de frente dos campeões e chefes da impiedade, e outros se uniram às filas de seus soldados em batalha, vencidos pelo medo, pelo interesse, pela adulação ou, o que é mais inexcusável, por sua própria ignorância” (Orat. 21, 24).

Quando no ano de 357, o papa Libério assinou uma das denominadas fórmulas de Sirmium, na qual descartava deliberadamente a expressão dogmaticamente definida de “homoousios”, e excomungou a Santo Atanásio para ficar em paz e harmonia com os bispos arianos e semi-arianos do leste, alguns fiéis católicos e bispos, especialmente Santo Hilário de Poitiers, escandalizaram-se profundamente. Santo Hilário transmitiu a carta que o papa Libério escreveu aos bispos orientais, anunciando a aceitação da fórmula de Sirmium e a excomunhão de Santo Atanásio. Com grande dor e consternação, Santo Hilário agregou à carta, em uma espécie de desesperação, a frase: “Anathema tibi a me dictum, praevaricator Liberi” (Eu te digo ‘anátema’, prevaricador Libério), cf. Denzinger-Schönmetzer, n. 141. O papa Libério queria paz e harmonia a todo custo, incluso às expensas da verdade divina. Em sua carta aos bispos heterodoxos latinos Ursace, Valêncio e Germinius, anunciando-lhes as decisões acima mencionadas, escreveu que preferia antes paz e harmonia do que o próprio martírio (cf. Denzinger-Schönmetzer, n. 142).

“Em que contraste dramático jazia o comportamento do papa Libério frente à seguinte convicção de Santo Hilário de Poitiers: “Não conseguimos paz às custas da verdade, fazendo concessões para adquirir a fama de tolerantes. Conseguimos paz lutando legitimamente segundo as regras do Espírito Santo. Há um perigo em aliar-se secretamente com a impiedade que se adorna com o formoso nome da paz” (Hil. Ad Const., 2, 6, 2).

O beato John Henry Newman falou sobre esses lamentáveis e inusuais feitos com a seguinte afirmação sábia e equilibrada: “Se bem seja historicamente certo, não é de nenhuma maneira doutrinariamente falso que um papa, como doutor privado, e muito mais os bispos, quando não ensinam formalmente, possam errar, tal como vemos que erraram no século quarto. O papa Libério podia assinar a fórmula Eusebia em Sirmium, e a missa dos bispos em Ariminum ou outro lugar, e apesar desses erros continuar sendo infalível em suas decisões ex cathedra.” (The Arians of the Fourth Century, London, 1876, p. 465).

Os quatro cardeais, com sua voz profética demandando clareza doutrinária e pastoral, têm um grande mérito diante de suas próprias consciências, diante da história, e diante dos inumeráveis fiéis católicos simples de nossos dias, empurrados para a periferia eclesial por sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus Cristo sobre a indissolubilidade do Matrimônio. Mas, sobretudo, os quatro cardeais têm um grande mérito aos olhos de Jesus Cristo. Devido à coragem de suas palavras, seus nomes brilharão resplandecentes no dia do Juízo Final. Eles obedeceram à voz de suas consciências, recordando o que dissera São Paulo: “Nada podemos fazer contra a verdade, mas somente a favor desta” (2 Cor 13, 8). Seguramente, no Juízo Final, os já mencionados críticos dos quatro cardeais, em sua maioria clérigos, não terão uma resposta fácil a dar por seu ataque violento ao justo, valioso e meritório ato destes quatro membros do Sagrado Colégio Cardinalício.

As seguintes palavras inspiradas pelo Espírito Santo retêm seu valor profético, especialmente diante da crescente confusão doutrinal e prática a respeito do sacramento do Matrimônio em nossos dias: “Porque virá um tempo em que os homens não suportarão mais a sã doutrina, mas sim, com ânsias de ouvir novidades, se darão mestres que agradem sua concupiscência. Apartarão o ouvido da verdade, para voltá-lo às fábulas. Por tua parte, sê sóbrio em tudo, suporta o adverso, faz obra de evangelista, cumpre bem teu ministério” (2 Tim 4, 3-5).

Que todos aqueles que, em nossos dias, levam a sério seus votos batismais e suas promessas sacerdotais e episcopais, recebam a fortaleza e a graça de Deus para reiterar, junto com Santo Hilário, as palavras: “Que fique eu para sempre no exílio, desde que a verdade comece a pregar-se outra vez!” (De Syn., 78). Desejamos de todo coração essa fortaleza e graça aos quatro cardeais, assim como aos que os criticam.

+ Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria en Astana

18 Comentários to “Dom Athanasius Schneider em defesa dos Cardeais que escreveram a Francisco.”

  1. Considerando-se a nobreza de alma de Dom Athanasius, já estávamos todos à espera de uma declaração sua de apoio aos 4 cardeais.
    Cadê, porém, Dom Rifan?… Cadê o superior geral dos Arautos do Evangelho?… Cadê a poderosa Opus Dei e seu prelado pessoal?… Será que vão esperar que a Igreja desabe por cima deles, para só aí darem um pio pelo menos?…

    • Pelo que fiquei sabendo, Dom Rifan apoiou o presidente da Conferência Episcopal da Grecia contra os quatro Cardeais no facebook.

  2. Os bispos conservadores são prisioneiros de seu próprio bom-mocismo. Ainda que Pedro negue Cristo três vezes não se ouvirá um piu sequer da parte dos conservadores. Tal como durante a crise ariana, essa luta será travada pelos leigos e por meia dúzia de bispos fiéis. E só.

  3. D Athanasius Schneider, como sempre, muito lúcido e ortodoxo em suas exposições como pastor, não se esquivaria de vir apresentar seu apoio aos quatro cardeais, se necessario for, embora não seja oficialmente signatario deles, dos solicitantes de melhores esclarecimentos do conteúdo doutrinario de alguns pontos que seriam obscuros ou ambiguos da Amoris laetitia ao papa Francisco,
    Havendo alguns contestadores desses cardeais, seus opositores os teriam cumulado de termos inadequados e depois prestarão contas do porque dessas atitudes, pois realmente determinado trechos da Amoris laetitia poderiam dar-se a interpretação subjetivistas ou até discordantes do magisterio anterior da Igreja – apesar disso e de mais não acuarão!
    No Juízo Final, os insurgentes contra os quatro cardeais Cardeais não teriam uma resposta fácil por seu violento ataque a um ato justo, digno e meritório desses quatro membros do Colégio Cardinalicio que se colocam respeitosamente pedindo esclarecimentos, sendo o múnus de um papa é justamente oferecer-lhes segurança, jamais os deixar á deriva – ainda mais em se tratando de prelados!
    Seria crise da modernidade não prestigiar a clareza, segurança e objetividade? Apreciariam atrair as pessoas senão em uma nuvem de dúvidas sob a névoa de incerteza, ambiguidade e subjetividade? Ela preciaria perguntas mas detestaria as respostas, especialmente para detalhar o que eventualmente contivesse dúvidas!.
    Trechinho de S Basilio o Grande: … “A única acusação que agora que nos pode recair é severo castigo por nossa cuidadosa manutenção das tradições dos Padres. Nós não estamos sendo atacados por causa da riqueza ou glória, ou quaisquer vantagens temporais. Estamos na arena para lutar por nossa herança comum, pelo tesouro da fé sólida, derivada de nossos Pais. Ajuntem-se a nós todos vocês que amam os irmãos, ao calarem nossos homens de verdadeira religião, e ao abrirem os lábios de audaciosos e blasfemadores de toda a injustiça contra Deus. Os pilares e o fundamento da verdade estão dispersos. Nós, cuja insignificância nos permitiu sermos negligentes, somos privados de nosso direito de liberdade de expressão “(Ep 243, 2.4).
    Seria uma luta de poucos hierárquicos e leigos contra o restante?

  4. bhartolomeu: ‘ Dom Rifan?… Cadê o superior geral dos Arautos do Evangelho?’ Vc está brincando? Estes ja se foram a muito tempo… Esqueceu de incluir Montfort…

    • Y outros tambièn…..

    • Artigo: Escândalo Farisaico

      Autor: Bispo Fernando Arêas Rifan do

      “O escândalo farisaico, ensina o catecismo, acontece quando uma palavra ou ação, irrepreensível em si mesma, provoca espanto e escândalo em certas pessoas tendenciosas, as quais fecham os olhos para outros fatos realmente escandalosos.

      O nome vem do procedimento semelhante dos Fariseus, dos quais Jesus disse que “filtravam um mosquito e engoliam um camelo” (Mt. 23, 24). Cometiam os maiores crimes e injustiças e se escandalizavam, por exemplo, quando Jesus, para fazer o bem, não observava, como eles queriam, a lei do sábado.

      A história se repete.

      Quantos estão rasgando as suas vestes, a modo dos Fariseus, escandalizados porque Dom Marcel Lefebvre, para continuar com a Tradição da Igreja e fazer frente à heresia reinante, resolveu sagrar bispos realmente católicos!

      Mas não se escandalizaram quando João Paulo II, visitando um templo luterano, elogiou a profunda religiosidade e a herança espiritual de Lutero (17/11/1980)! Nem se escandalizaram quando, acompanhado de vários Cardeais, João Paulo II, num templo luterano em Roma, participou de um ofício herético e recitou uma oração composta por Lutero (11/12/1983)!

      Nem se escandalizaram quando João Paulo II recebeu uma delegação da maçonaria judaica B’nai B’rith, qualificando a recepção de “encontro entre irmãos” (17/4/1984)!

      Nem se escandalizaram quando, na Tailândia, João Paulo II visitou o Patriarca Budista de Vasana Tera, diante do qual ele se inclinou profundamente (12/6/1984)!

      Nem se escandalizaram quando, no Togo, ele assistiu, na “Floresta Santa”, a ritos animistas e participou de ritos satânicos em Kara, em Togoville (8/8/1985)!

      Nem se escandalizaram quando João Paulo II, na Índia, recebeu de uma sacerdotisa hindu, na testa, o sinal de “Tilak” (2/2/1986)!

      Nem se escandalizaram quando João Paulo II visitou a grande Sinagoga de Roma, onde participou da recitação de salmos (13/4/1986)! Nem quando João Paulo II convidava os católicos e judeus a prepararem juntos o mundo para a vinda do Messias (!) (24/6/1986)!

      Nem se escandalizaram quando, na Igreja de São Pedro, em Assis, no encontro promovido pelo Vaticano, os bonzos adoraram o Grande Lama, que para eles é a reencarnação de Buda, sentado de costas para o Sacrário, com o Santíssimo (cfr. Avvenire 28/10/1986)!

      Nem quando, no mesmo encontro, na mesma igreja, o ídolo de Buda foi colocado sobre o Tabernáculo do Altar principal e lá foi adorado por eles (cf. Avvenire e Il Mattino 28/10/1986)!

      Nem quando, ainda no encontro de Assis, patrocinado pelo Vaticano, os hindus invocaram os seus deuses, sentados em torno do altar da Igreja de Santa Maria Maior (cfr. Il Corriere della Sera, 28/10/1986)!

      Quem, portanto, não sentiu profunda dor no coração ao ver assim o Sangue de Cristo ser pisado e a missão da Igreja ser traída, só hipocritamente poderá “rasgar as vestes” e “atirar pedras” diante da atitude firme e corajosa de Dom Marcel Lefebvre, levado unicamente pelo amor à Santa Igreja de Deus.

      Já dizia São Gregório Magno: “É preferível que aconteça um escândalo que esconder a verdade. Escândalo duplo seria tolerar o erro, cobrir um crime com sua desculpa para não dizer sua cumplicidade“!

  5. “Os Bispos[modernos] agora dizem-nos:
    ‘ Resistam, necessitamos! ‘ Mas não falam muito forte porque sabem muito bem que se dissessem estariam cortando suas próprias cabeças.”

    Palestra em Port-Marly, França 08/10/2016.
    Dom. Bernard Fellay

  6. Sereno e lúcido o texto de D. Schneider.

    A única inconsistência que percebi foi a tentativa de comparar a correção paulina a São Pedro com a atual situação. Aquela censura, ao contrário desta, decorreu por uma forma de o primeiro papa se comportar em relação aos pagãos (ou seja, está no campo ético e não no dogmático).

    Mais ou menos quando um tradicionalista critica o Papa por usar sapatos pretos e não vermelhos…

  7. Paulo Wimer – Pode colocar a data e fonte deste artigo? grato

  8. Nestes nossos tempos sombrios de confusão doutrinal, com as suas luzes enganadores de relativismo, naturalismo, antropocentrismo – muitas vezes disfarçadas sob a máscara do “diálogo”, sob a máscara do “acompanhamento pastoral”, sob a máscara das “surpresas do Espírito Santo” – nestes tempos sombrios de tal fenómeno, invoquemos muito a Nossa Senhora, Nossa Mãe, com confiança e amor filial: “Alegrai-Vos, ó Virgem, Senhora minha, pois Vós destruístes todas as heresias do mundo. Mãe de Deus, intercedei por nós.

    (D. Athanasius Schneider em Washington 28/10/2016)

  9. Dom Athanasius, precioso e claro!

    “Neste momento, alguns fariseus interpelaram a Jesus no meio da multidão: Mestre, repreende os teus discípulos. Ele respondeu: Digo-vos: se estes se calarem, clamarão as pedras!
    “Aproximando-se ainda mais, Jesus contemplou Jerusalém e chorou sobre ela, dizendo:
    .Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!… Mas não, isso está oculto aos teus olhos.”

    Pela inspiração do Espírito Santo, a atualidade do Evangelho cabe em qualquer época. Os fariseus de hoje interpelam o Papa para tentar calar os 4 discípulos, se eles não se manifestassem, as pedras clamariam. Jesus, hoje, chora por Roma… (São Lucas 19: 39..42)

  10. É o Vaticano II em ação, minha gente! Todos os papas conciliares, de João XXIII a Francisco se abriram ao mundo moderno. A diferença é a velocidade deste último, que já disse que o Vaticano II parou no meio do caminho e ele vai dar prosseguimento até o fim. Disse ele que estamos ainda na metade e é preciso pelo menos cem anos para vermos os frutos. A tal ” amoris letitia” é só um exemplozinho. O clero modernoso esqueceu de combater a causa de tudo o que vivemos agora, o próprio Vaticano II.
    É como um doente com 40 graus de febre que precisa ser medicado com o remédio certo e lhe colocam apenas um pano molhado no rosto.

  11. Um alerta e uma breve refutação:
    Na ausência de uma resposta direta de Francisco aos 4 cardeais, várias respostas extra-oficiais estão sendo oferecidas ao público por autores progressistas (por exemplo, esta: http://www.ihu.unisinos.br/562631-eu-responderia-dessa-maneira-as-duvidas-sobre-a-amoris-laetitia).

    Muitas dessas tentativas de resposta estão apelando para a distinção entre situação objetiva de pecado grave, e cometimento de pecado mortal propriamente dito. Os teólogos progressistas estão insistindo em que os divorciados recasados podem comungar porque não estão subjetivamente em pecado mortal, embora estejam numa situação objetiva de pecado grave. Segundo esses teólogos, a muitos dos divorciados recasados faltaria o pleno consentimento ou a plena advertência necessária para se incorrer realmente em pecado mortal. E por isso não pecariam de fato.

    Ora, esse argumento é falso antropologicamente, é falso psicologicamente, e é falso teologicamente.

    Para a antropologia e psicologia aristotélico-tomista, um dos atributos fundamentais do homem é o livre-arbítrio, e a liberdade de sua vontade não pode ser necessitada por nada externo a ela (salvo o Sumo Bem, na eternidade, aos eleitos). As circunstâncias externas podem seduzir ou intimidar, mas não podem obrigar a vontade a consentir em algo, contra a sua liberdade. Em casos extremos, elas podem anular os efeitos do domínio físico da vontade sobre o corpo, como quando se droga alguém para levá-lo a assinar o que nem sabe que está assinando, ou quando se violenta sexualmente outra pessoa que, todavia, resiste com todas as forças. Fora desses casos extremos, a vontade mantém habitualmente o seu poder de consentir ou não naquilo a que é solicitada, podendo levar ou não o seu consentimento interno à execução externa e efetiva dos atos em questão. E se a vontade se permite ir a essa execução externa – não acompanhada de nenhuma violentação física de seu domínio sobre o corpo -, é porque ela consentiu. Pode até ter consentido algum tanto a contragosto, mas consentiu, e o testemunho de sua própria consciência não deixará de atestá-lo perante si própria: “Faço agora isto, mas sei que poderia não fazê-lo, sei que ninguém está realmente me forçando fisicamente a nada; sou eu mesmo o agente de meus atos”.

    O consentimento é livre se a pessoa é senhora fisicamente de seus atos, independentemente de estar consentindo com ou sem prazer, com ou sem influências externas e sociais. Não é preciso ser infinitamente livre para se ser livre. Uma liberdade ainda que cercada de várias limitações e obstáculos (paixões, solicitações sociais, etc), não deixa de ser liberdade. Só não será livre o que fizerem com ela contra e independente de seu consentimento: se amarrarem uma gestante, por exemplo, e fizerem um aborto nela mesmo com ela gritando para que parem, é claro que ela não terá culpa do crime; fora de extremos assim, simples solicitações, conselhos, e mesmo ordens ou ameaças não anulam a liberdade da vontade diante do bem e do mal.

    Os divorciados recasados são criaturas racionais perfeitamente livres em seus atos; é absurdíssimo pretender que eles não têm consentimento livre suficiente para pecar quando se entregam às paixões carnais. Eles não são “cavalos ou jumentos, os quais não têm discernimento” (Tb 6, 17).

    Ou será que agora os modernistas, além de combaterem o intelecto humano com suas teorias anti-intelectualistas de costume, quererão também atacar a vontade humana, depreciando com sofismas o poder da vontade sobre si própria (isto é, a liberdade)?

    Depois da guerra contra o intelecto em si mesmo considerado, agora chegou a hora da guerra contra a vontade também em si mesma considerada?

    Por suas teses estúpidas sobre o intelecto e a vontade, o modernismo é uma aberração aos olhos da antropologia filosófica e da psicologia filosófica clássicas. Mas não o é menos aos olhos da teologia tradicional, para a qual não é preciso ter nenhum tipo de consentimento ‘especial’ para se pecar mortalmente, bastando o consentimento comum que no dia a dia se têm via de regra.

    Assim como não é preciso que o pecador seja especialista em teologia moral para ter a advertência necessária ao cometimento de pecado mortal, também não é preciso que o pecador viva numa bola de cristal ao abrigo de paixões, tentações e dificuldades sociais, para só aí poder consentir de modo realmente livre e pecar mortalmente de fato.

    Ademais, urge não esquecer que é um dogma de fé a verdade de que a todos Deus dá socorros espirituais (graça atual, vide catecismos antigos) suficientes para resistir às tentações e não pecar. Se ainda assim pecamos, é por culpa nossa, e não porque não fôssemos livres o bastante para evitar o pecado.

    Acrescentemos, por último, que essa estratégia maliciosa dos modernistas – dizer que aceitam uma doutrina, mas tentar distorcê-la em algum ponto para dela tirar conclusões que lhes agradem – é típica deles, desde muito tempo. Há décadas, por exemplo, para não precisarem confessar categoricamente que não creem no inferno, inventaram que o inferno existe, sim, mas está vazio… É com essa malícia, também, que agora eles nos vêm dizer que é objetivamente pecado grave, sim, que os divorciados recasados tenham relações sexuais, mas não é pecado mortal para muitos deles, porque eles não têm consentimento livre no que fazem… Ora, vá contar piadas heréticas a outro.

    • Bhartolomeu,

      Vc está certo. Tudo se faz hoje no sentido de se persuadir as pessoas de que elas não são verdadeiros sujeitos morais, seja porque não seriam aptas a conhecer a verdade, seja porque sua vontade não seria senhora de si mesma, e, portanto, de seus atos. Trata-se de um processo de infantilização generalizado – capitaneado e incentivado histericamente pelo “clero” mundano que se incrustou no aparelho burocrático da Igreja.

      No entanto, como dizia meu pai, “ninguém rasga dinheiro”, não é? É preciso dizer que as pessoas – salvo casos patológicos – são aptas a (re)conhecer a verdade como também a buscar e realizar o bem moral: tais são, respectivamente, os objetos próprios da inteligência e da vontade.

      Pela mistura de sofismas e de conceitos de cunho sentimental e sensuais, lúcifer, o pai da mentira, instila na mente dos seus o veneno do derrotismo, do psicologismo barato e da falsa misericórdia, tudo em nome de uma Religião depauperada e medrosa de propor compromissos morais definitivos e vinculantes, ora destinada a virar clube de bairro para promover a adoção de cachorros e gatos abandonados e campanhas de desentupimento de ralos e esgotos na estação das chuvas.

      Belos e sazonados frutos da “primavera conciliar”…Outros virão.

  12. Notaram no brazão do papa Francisco a estrela de 5 pontas em baixo é a mesma do PT, China, Cuba, Coreia do Norte, Venezuela?
    *D. Athanasius Schneider, num discurso proferido há poucos dias na cidade de Washington, nos EUA, denunciou as “máscaras” que escondem a linguagem utilizada pelo Vaticano nestes tempos de “confusão doutrinal
    *”Nestes nossos tempos sombrios de confusão doutrinal, com as suas luzes enganadores de relativismo, naturalismo, antropocentrismo – muitas vezes disfarçadas sob a máscara do “diálogo”, sob a máscara do “acompanhamento pastoral”, sob a máscara das “surpresas do Espírito Santo” – nestes tempos sombrios de tal fenómeno, invoquemos muito a Nossa Senhora, Nossa Mãe, com confiança e amor filial: “Alegrai-Vos, ó Virgem, Senhora minha, pois Vós destruístes todas as heresias do mundo.
    Mãe de Deus, intercedei por nós.
    *(D. Athanasius Schneider in Life Site News, 14/11/2016)

  13. Perfeito!
    Nada a declarar…
    Somente aplaudir, louvar e agradecer ao bom Deus pela presença de santos e corajosos pastores que cessam de proteger as frágeis ovelhas dos ataques dos lobos.
    Como a Igreja precisa, com urgência, de Novos Atanásios!