Reflexões da Sagrada Escritura: Ainda Santo Tomás Sobre a Maldição

“Nem os maldizentes nem os roubadores hão de possuir o reino de Deus” (1 Cor. VI, 10).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

ART. III  –  Se amaldiçoar é pecado mortal.

O terceiro artigo discute-se assim.  –  Parece que amaldiçoar não é pecado mortal. Três argumentos que parecem prová-lo:

  1. Pois, Agostinho enumera a maldição entre os pecados leves. Ora, estes são veniais. Logo, a maldição não é pecado mortal, mas, venial.
  2. Demais.  –  Os pecados procedentes de um leve movimento da alma parece que não são mortais. Ora, às vezes, a maldição procede de um leve movimento. Logo, não é pecado mortal.
  3. Demais. – É mais grave malfazer do que amaldiçoar. Ora, malfazer nem sempre é pecado mortal. Logo, muito menos o é amaldiçoar.

Mas, AO CONTRÁRIO (Sed contra).  –  Só o pecado mortal exclui do reino de Deus. Ora, a maldição exclui do reino de Deus, conforme ao Apóstolo em 1ª Coríntios, VI, 10: Nem os maldizentes nem os roubadores hão de possuir o reino de Deus. Logo a maldição é pecado mortal.

Respondo dando a SOLUÇÃO, após explicar os termos: –  A maldição de que agora tratamos é a que nos faz dizer mal de outrem, mandando ou desejando. Ora, querer o mal alheio ou mover a ele, mandando, repugna, em si mesmo, à caridade pela qual amamos o próximo querendo-lhe bem.

E, assim, é genericamente pecado mortal. E tanto mais grave quanto mais estivermos obrigados a amarmos e reverenciar as pessoa a quem amaldiçoamos. Donde o dito da Escritura em Levítico, XX, 9: O que amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, morra de morte. Pode, porém, acontecer que a palavra da maldição proferida seja pecado venial, quer pela parvidade do mal imprecado contra outrem pela maldição; quer também pelo sentimento que nutre quem profere as palavras de maldição, conforme o fizer por um leve movimento, por divertimento ou por movimento de surpresa [no ímpeto, sem pensar].

Pois, os pecados por palavras pesam-se sobretudo pelo seu efeito, como dissemos. Com estas explicações, se deduzem claras as respostas às três objeções apresentadas no início.

ART. IV –  Se a maldição é mais grave pecado que a detração.

Este quarto artigo discute-se assim.  –  Parece que a maldição é pecado mais grave que a detração.

  1. –  Pois, a maldição é considerada blasfêmia, conforme àquilo do Escritura na Epístola de S. Judas Tadeu: Quando o arcanjo Miguel, disputando com o diabo, altercava sobre o corpo de Moisés, não se atreveu a fulminar-lhe a sentença de  blasfemo (maldição). E aí se toma a blasfêmia pela maldição, segunda a Glosa. Ora, a blasfêmia é pecado mais grave que a detração. Logo, a maldição é mais grave que a detração.
  2. Demais.  –  O homicídio é mais grave que a detração, como se disse. Ora, a maldição é um pecado igual ao de homicídio; pois, diz Crisóstomo: “Se disseres  – amaldiçoa-o, destrói-lhe a casa e faze perecerem todos os seus bens, não diferirás em nada do homicida” (Super Math. Hom. XIX). Logo, a maldição é mais grave que a detração.
  3. Demais. A causa tem preeminência sobre o sinal. Ora, quem maldiz causa o mal, pela sua ordem; mas quem detrai só exprime o mal já existente. Logo, peca mias gravemente quem amaldiçoa, do que o detrator.

“SED CONTRA”, mas AO CONTRÁRIO,  a detração não pode ser tomada em bom sentido; ao passo que a maldição o pode, tanto em bom como em mau, como do sobredito se conclui. Logo, mais grave é a detração que a maldição.

Respondo explicando os termos e dando a SOLUÇÃO.  –  Como já estabelecemos na Primeira Parte (q. 28, a. 5), há um duplo mal  –  o da culpa e o da pena. Ora, o mal da culpa é o pior, como aí se demonstrou. Logo, dizer um mal que implica uma culpa é pior que dizer o que implica uma pena, dado que o modo de dizer seja o mesmo. Por onde, é próprio do contumelioso,  do murmurador, do detrator e também do escarnecedor dizer o mal que implica uma culpa; mas, do que maldiz, no sentido de que agora tratamos, é próprio dizer o mal que implica uma pena, e não o que importa em culpa, salvo talvez sob a ideia de pena. Mas, o modo pelo qual uns e outros dizem esse mal não é o mesmo. Pois, dos quatro vícios primeiro referidos, é próprio somente o enunciar o mal da culpa; ao passo que quem amaldiçoa diz um mal que implica uma pena ou pelo causar, a modo de ordem, ou pelo desejar. Ora, o fato mesmo de enunciar a culpa já é pecado, por causar um certo dano ao próximo; mas é mais grave causar do que desejar a outrem um dano, se todas as demais circunstâncias forem iguais. Por onde, a detração, em sentido geral, é pecado mais grave que a maldição que somente exprime um simples desejo. Mas, a maldição pronunciada como um mandato, tendo a natureza de causa, pode ser mais grave que a detração, se causar um dano maior do que o denegrimento do bom nome; ou mais leve, se menor for o dano. E isto é assim considerado levando-se em conta o que pertence à natureza desses dois vícios. Mas, podem-se considerar outras circunstâncias acidentais, que os aumentam ou diminuem.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO.  –  A maldição da criatura como tal redunda em maldição de Deus; e então e por acidente tem a natureza de blasfêmia; o que porém não se dá se amaldiçoarmos a criatura por causa de uma culpa. E o mesmo se diga da detração.

RESPOSTA À SEGUNDO OBJEÇÃO:  –  Como já dissemos, a maldição, num dos sentidos assinalados, inclui o desejo do mal. Por onde, se quem amaldiçoou quiser o mal da morte de outrem, não diferirá, pelo seu desejo, do homicida. Mas, dele difere na medida em que o ato externo acrescenta algo à vontade.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO:  –  A objeção procede em se tratando da maldição, enquanto implica uma ordem.

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3 Comentários to “Reflexões da Sagrada Escritura: Ainda Santo Tomás Sobre a Maldição”

  1. Deduzo que escaparia às penalidades de maldição o satãnico caótico comunismo e asseclas, (idem irmãos gemeos nazismo e fascismo), capacho da maçonaria, tendo uma doutrina intrinsecamente má, genocida, instigadora de odios recíprocos e conspiradora contra o Senhor Deus e sua Igreja, e ostensivamente fantoche de Satã, condenado anteriormente por dez papas, seguidamente, deduzindo-o a partir do abaixo, dentre mais:
    “Os comunistas socialistas e niilistas são uma peste mortal que como a serpente se introduzem por entre as articulações mais íntimas dos membros da sociedade humana e, a coloca num perigo extremo”. Leão XIII – QAM.
    As classes e raças mais fracas para conduzirem as novas condições de vida devem perecer no holocausto revolucionario – Marx.
    Precisamos odiar. O odio é a base do comunismo. As crianças devem ensinadas a odiarem seus pais se não forem comunistas – Lênin., etc etc similares.
    De acordo, Revmo Pe Elcio?

    • Caríssimo Isaías, leia por gentileza o Primeiro artigo de Santo Tomás. Pelo que pude entender, lá é que se encaixa seu questionamento.

  2. Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem. (Efésios 4:29)

    Há que se separar o intento, a maldição imprecada para causar o mal e gerar o dano é pecaminosa. Vemos nas escrituras que Jesus amaldiçoou a figueira (São Mateus 21:18,19).

    A maldição de Cristo não constitui pecado, ele não tinha intento de sacrificar uma árvore ou atemorizar os seus detratores, sua motivação foi didática sobra a justiça de Deus.

    O profeta Eliseu amaldiçoou os rapazes que zombavam dele. (2 Reis 23). Na zombaria diziam, “Sobe, calvo, sobe, calvo!”.

    Havia algo mais sério naquela zombaria, Elias tinha subido ao céu num redemoinho. Eliseu, o sucessor de Elias, era a voz de autoridade sobre a terra naquele momento, estava implícita na zombaria a sugestão de que Eliseu também deveria subir ao céu. Em outras palavras, aqueles rapazes estavam dizendo:

    “Vamos ver, Eliseu, prova que tens o mesmo poder, consagração e autoridade de Elias. Sobe também do modo como ele subiu!”.

    Se isso continuasse, tiraria diante do povo a autoridade profética de Eliseu, pois muitos interpretariam que a sua unção era uma fraude. Sua maldição teve uma razão mais profunda do que “vingar-se” de rapazezinhos irresponsáveis que o estavam chamando de “careca”.

    “Eliseu, voltando-se para eles, olhou-os e amaldiçoou-os em nome do Senhor. Imediatamente saíram da floresta dois ursos e despedaçaram quarenta e dois daqueles rapazes. (2 Reis 24)