Sua Santidade se recusa a responder.

Por , The New York Times, 26 de novembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: “Isso não é normal” – assim dizem os críticos de Donald Trump, enquanto ele se prepara para assumir a presidência. Mas, a República Americana é apenas a segunda mais antiga instituição que está enfrentando uma situação distinta e incomum no momento. O lugar de honra vai para a Igreja Católica Romana, que, com menos alarde (talvez porque o papado não tem um arsenal nuclear) também entrou em terra incógnita.

Há duas semanas, quatro cardeais publicaram o chamado dubia – um conjunto de perguntas, endereçadas ao Papa Francisco, pedindo que ele esclareça pontos de sua exortação apostólica sobre a família “Amoris Laetitia”.  Em particular, eles pediram-lhe para esclarecer se a proibição da Igreja em relação à comunhão para católicos divorciados em novos (e, aos olhos da igreja, adúlteros) casamentos civis continua, ou se a tradicional oposição da Igreja à situação ética se “desenvolveu” a ponto de cair no obsoleto.

O dubia começa como uma carta privada, como é habitual em tais pedidos de clareza doutrinal. Francisco não ofereceu nenhuma resposta. Mas, tornou-se pública pouco antes do consistório da semana passada em Roma, quando o Papa se reúne com o colégio cardinalício e apresenta os membros recém-elevados ao cardinalato. O Papa continuou a ignorá-la, mas tomou o passo incomum de cancelar a reunião geral com os cardeais (não poucos deles são silenciosos partidários dos quatro cardeais).

Francisco cancelou porque o dubia tinha deixado-o “fervendo de raiva”, como foi alegado. “Isso não era verdade”, escreveu no twitter seu colaborador próximo, o padre jesuíta Antonio Spadaro, pouco depois de responder aos críticos, comparando-os com o personagem de J.R.R. Tolkien, Grima Wormtongue, num tweet que ele logo em seguida apagou rosnando sua recusa de “trocar palavras distorcidas com um verme estúpido”.

Enquanto isso, um daqueles quatro autores do dubia, o combativo e tradicionalista Cardeal Raymond Burke, deu uma entrevista sugerindo que o silêncio papal pode exigir um “ato formal de correção” por parte dos cardeais – algo sem óbvios precedentes na história Católica (Papas já foram condenados por flertar com heresia, mas só depois de suas mortes). Essa foi uma linguagem forte; mas ainda mais forte foi a resposta do cabeça dos bispos católicos da Grécia, que acusou os autores do dubia de “heresia” e, possivelmente, “apostasia” por terem questionado o papa.

Enquanto isso, ele próprio continua em silêncio. Ou melhor, continuou sua prática de dar entrevistas e sermões lamentando a rigidez, farisaísmo e possíveis problemas psicológicos entre os seus críticos – mas continua se recusando a tomar uma atitude direta de responder às perguntas.

Não que haja qualquer dúvida real sobre onde o pontífice se situa. Durante um período de debate vigoroso entre 2014 e 2015, ele advogou persistentemente uma abertura à comunhão sacramental para pelo menos alguns católicos recasados sem a concessão da nulidade. Mas a resistência conservadora correu forte o suficiente para que o papa parecesse se sentir constrangido. Assim, ele produziu um documento, que ainda carece de esclarecimentos, a “Amoris Laetitia”, onde essencialmente tentou passar por cima da controvérsia, deixando implícitos os vários modos em  que a comunhão pode ser dada caso a caso, mas nunca dizendo isso diretamente.

Esta falta de objetividade é importante, porque dentro do Catolicismo as palavras formais do Papa, suas encíclicas e exortações, têm um peso que sinaliza e implicações que são carentes nas cartas pessoais. Elas são o que se supõe para exigir obediência, o que se supõe ser sobrenaturalmente preservado do erro.

Dessa forma, evitar clareza parece ter a intenção de se evitar um comprometimento. Os liberais então tem permissão pra deslizar para as experimentações, enquanto os conservadores preservam a letra da lei e os bispos do mundo ficam com a tarefa de escolher essencialmente seu próprio ensino sobre o casamento, o adultério e os sacramentos – que na verdade, foi o que muitos fizeram no ano passado, os de inclinação conservadora na Filadélfia e na Polônia, os liberais em Chicago, na Alemanha ou na Argentina, com inevitáveis atritos entre prelados que seguem diferentes interpretações da “Amoris Laetitia”.

Mas o estranho espetáculo em torno do dubia é um lembrete de que isso não pode ser uma solução permanente. A lógica do “Roma falou, o caso está encerrado” está profundamente enraizada nas estruturas do Catolicismo para permitir qualquer outra coisa, senão uma descentralização doutrinária temporária. Enquanto o Papa continuar a ser o Papa, qualquer grande controvérsia inevitavelmente vai subir de volta para o Vaticano.

Francisco deve estar ciente disso. Por enquanto, ele parece estar escolhendo a menor crise, que são bispos rivais e ensinos confusos sobre a maior crise que ainda está por vir (embora quem pode dizer com certeza?) se ele decidir presentear os conservadores da Igreja com suas próprias respostas pessoais para o dubia e simplesmente exigir que eles se submetam. Submissão ou cisma acontecerão eventualmente, é o que ele pode pensar – mas não até que o tempo e a operação do Espírito Santo tenha enfraquecido a posição dos seus críticos na Igreja.

Mas nesse meio tempo, seu silêncio está tendo o efeito de confirmar os conservadores em sua resistência, porque para eles parece que sua recusa em dar respostas definitivas poderia ser por si só obra da Providência. Ou seja, ele pode até achar que está sendo maquiavélico e estratégico, mas na verdade é o Espírito Santo impedindo-o de ensinar o erro.

Esta é uma hipótese teológica rara que pode ser facilmente refutada. O Papa precisa apenas exercer a sua autoridade, responder a seus críticos, e dizer aos fiéis explicitamente o que ele quer que eles acreditem.

Mas até que ele resolva falar, a hipótese está aberta.

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8 Comentários to “Sua Santidade se recusa a responder.”

  1. Já que o post tocou no tema da assistência do Espírito Santo a Francisco, peço licença aos Fratres para expor humildemente (e bem resumidamente) minha opinião, sem qualquer desejo de polemizar com os que porventura pensarem de modo diferente.

    Eu distingo entre o papado de um ponto de vista teológico, e o papado de um ponto de vista político-administrativo. E acho que um homem pode ser validamente papa sob este segundo aspecto, sem o ser (ao menos plenamente) sob o primeiro. Para ocupar a chefia político-administrativa da Igreja, bastaria ser eleito segundo as normas do direito canônico. Mas para ser verdadeiramente a cabeça da porção militante do Corpo Místico de Cristo, com todo os privilégios sobrenaturais associados a essa posição, seria indispensável possuir e guardar em toda a sua inteireza a Fé da Igreja (porque aquele que não faz parte de um corpo não pode ser verdadeira e propriamente a cabeça desse corpo). Noutras palavras, a chefia meramente temporal da Igreja, enquanto associação visível e organização de homens em sociedade, parece-me que pode ser dissociada, na ordem dos fatos, da chefia especificamente petrina. O mero administrador temporal da Igreja seria um simples substituto de Pedro, mas não um seu sucessor, e não gozaria das promessas feitas a Pedro, nem, portanto, dos mesmos direitos de exigir obediência. Poderia ser chamado de papa, porque o é em termos político-administrativos na ordem temporal da organização social da Igreja, mas tendo-se consciência de que teologicamente ele não passaria de uma espécie de semi-papa (“semi”, e não propriamente “anti”, porque a ocupação não-violenta da chefia político-administrativa da Igreja lhe conferiria um direito especial a receber a plenitude do carisma sobrenatural petrino, no caso de converter-se de seus erros e aderir realmente à fé da Igreja).

    É claro que essa minha opinião se inspira na tese que o teólogo dominicano Guérard des Lauriers publicou entre as décadas de 1970 e 1980 sobre o assunto, mas sem reproduzi-la inteiramente. Eu adapto a distinção que ele fez entre a posse material e a posse formal do papado, para a distinção entre a simples ocupação temporal da administração da Igreja e a plena participação sobrenatural no ministério petrino. E acho que isso explica a presente situação da Igreja: um homem com a assistência infalível do Espírito Santo nunca erraria em seu magistério, ao passo que alguém meramente eleito para receber essa assistência mas que ainda não a recebeu por causa de seus pecados contra a Fé, esse poderia ensinar erros.

    Que ninguém leve, porém, a sério demais, as coisas que venho de dizer. É só uma opinião minha, uma hipótese que levanto e sobre a qual ainda estou investigando. Apenas queria convidá-los a pensarem nessa possibilidade e avaliarem-na com cuidado, se a julgarem digna de tanto.

    • Bhartolomeu,

      Sua opinião é de fato interessante, porém o fato de Deus não auxiliar o Papa Francisco em seu Papado não significa que o Papa não esteja lá por vontade de Deus, afinal Deus não interferiu nessa eleição, mas poderia faze-lo se quisesse, interferindo ou não foi feita a Sua Vontade e Deus sabe retirar o bem de todas as situações, talvez é chegada a hora de separar o joio do trigo e o Papa Francisco é peça chave disso, afinal se fala em todos os lugares de divisão na Igreja, senão fosse os erros do Papa Francisco o clero e os fieis ainda estaria mornos, mais por causa desses erros muitos agora são quentes ou frios.

  2. A palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo é clara e cristalina: “que o sim seja sim, o não seja não”. O fato é que há passagens em “Amoris Laetitia” marcadas pela ambiguidade.

    • Certo, e nesse caso se encaixam perfeitamente no q Nosso Senhor diz na sequência: “Tudo o que passa além disto vem do Maligno.”

  3. Deixando de responder às questões que lhe foram propostas oficialmente pelos 4 cardeais, o papa Francisco poderia facilitar diversos bispos tomarem decisões pessoais em suas dioceses em casos complexos, como os constantes no post.
    Dessa forma, certos sacerdotes nas paroquias, nada obedientes a seus prelados procederem parecidamente – como em relação aos recasados – por ex., na questão da recepção da S Comunhão, aumentaria ainda mais o caos existente, exacerbado pelas dúvidas!
    Nossa Senhora disse a monja Agnes Katsuko Sasagawa:
    “O Diabo se infiltrará até mesmo na Igreja de tal um modo que haverá cardeais contra cardeais, e bispos contra bispos. Serão desprezados os padres que me veneram e terão opositores em todos os lugares. Haverá vandalismo nas Igrejas e altares. A Igreja estará cercada de asseclas do demônio que conduzirá muitos padres a lhe consagrar a alma e abandonar o serviço do Senhor”.
    “O demônio especialmente dirigirá sua ira contra almas consagradas a Deus. O pensamento da perda de tantas almas é a causa de minha tristeza. Se os homens aumentarem ainda mais seus pecados em número e gravidade, já não haverá nenhum perdão para eles “.
    … “O Papa precisa apenas exercer a sua autoridade, responder a seus críticos, e dizer aos fiéis explicitamente o que ele quer que eles acreditem” – aqui está o problema: por manter certas perguntas sem respostas com objetividade, mas dubias, nesse ínterim incentivaria cada prelado tomar a decisão que melhor julgar por bem, e, chegando a esse ponto, exporia a fé católica similarmente às seitas onde impera o relativismo, como no protestantismo!

  4. A atitude de Sua Santidade, neste momento, deveria ser no sentido da revogação da exortação apostólica sobre a família “Amoris Laetitia”. Isto é, uma ação, desde o alto da Cátedra de Pedro, conforme o magistério de sempre.
    Entretanto temos uma dificuldade de ordem prática: tal atitude significaria, com todas as consequências lógicas, a condenação dos equívocos pastorais (e doutrinários) relacionados ao último concílio.
    Sinuca de bico…

  5. Desejo veementemente rogar ao maior número possível de pessoas que intercedam o máximo que puderem por suas eminencias reverendíssimas, os 4 cardeais, e por todos os demais integrantes da hierarquia da Santa Igreja, que neste momento tão dramático, honram seu mister.

    Ato de Consagração ao Divino Espírito Santo

    Espírito Divino, que manifestastes o vosso poder criando os céus, a terra e o homem, nós proclamamos a vossa realeza absoluta. Nós vos consagramos o nosso corpo, nossa alma, nosso coração; tudo que somos, tudo que nos pertence. Dentro e fora de nós, seja tudo vosso; e para que este oferecimento seja mais sincero, nós renovamos aqui as promessas do batismo, de renunciarmos a satanás, suas obras e suas pompas. Prometemos ser sempre, e por toda parte, fieis e sujeitar-nos como bons católicos, em tudo, aos ensinamentos do santo Padre o Papa e dos nossos Bispos. Reinai sobre a nossa inteligência, a nossa vontade e nosso coração. Afastei de nós o espírito mundano que tanto aborreceis, assim como todas as teorias deletérias, comunismo, materialismo, irreligião, que ora convulsionam o mundo. Acalmai esse mar proceloso, dai a paz aos espírito e aos corações. Protegei as nações e os indivíduos, a nossa Pátria e as Nossas famílias. Ensinai-nos a buscar o que mais nos convém. Daí-nos a vossa luz para conhecermos o caminho que a vós conduz e ensinarmo-lo a nossos filhos. Concedei-nos a graça de sempre conhecermos o que é reto e a força de o cumprimos. O’ Maria! Esposa do Divino Espírito, vinde em nosso auxilio, ajudai-nos a buscar a Jesus a vivermos em espírito e verdade por Cristo, com Cristo, e em Cristo. Atraídos por Ele, desprezaremos tudo aquilo que passa e não satisfaz. Queremos, em fim confiar-vos, O’ Espírito Divino, a nossa Pátria, nossa família e tudo quanto possuímos, sede o Rei do nosso lar, que tudo o que é nosso sirva á vossa maior gloria e prepare a nossa maior felicidade, Assim seja.

  6. Li hoje no Messa in Latino uma entrevista do decano da Rota Romana dizendo que o Papa pode retirar o cardinalato dos quatro cardeais que o questionaram… Mais uma para vermos como vivemos o tempo da falsa misericórdia.