Reflexões da Sagrada Escritura: Da Apostasia.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“Se depois de termos recebido e conhecido a verdade, nós a abandonarmos voluntariamente, já não nos resta um sacrifício para expirar este pecado; só teremos que esperar um juízo tremendo e o fogo ardente que há de devorar os rebeldes” (Hebreus, X, 26 e 27).

Ilustração do Sexto Círculo do Inferno, o Círculo da Heresia, segundo o poema de Dante Alighieri

Advertência terrivelmente severa, até mesmo pelo modo como o Apóstolo a termina: “É horrendo cair nas mãos do Deus vivo” !!! (v. 31). Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica, prova que há três espécies de apostasia: 1ª –  a da Vida Religiosa e a das Ordens Sacras; 2ª – a dos mandamentos, isto é, a  dos bons costumes; 3ª – a da fé, isto é, dos dogmas (2ª – 2ª q. 12, c. 1). Prova, outrossim neste mesmo lugar, que a apostasia da fé é péssima e inclui as outras duas. A apostasia, diz o Doutor Angélico, é um afastamento de Deus, afastamento este  provocado pelo orgulho. A apostasia da fé é uma circunstância agravante da infidelidade a Deus. Por isso diz São Pedro que “melhor lhes era não ter conhecido a verdade do que, depois de a ter conhecido, tornar atrás” (2 Pedro, II, 21). A apostasia da fé é chamada PERFÍDIA.

Antes, no capítulo VI, 4-8, S. Paulo já havia mostrado as consequências terríveis do abandono da fé: “Porque àqueles que foram uma vez iluminados, que  provaram o dom celestial, que receberam a sua parte dos dons do Espírito Santo, que provaram também a doçura da palavra de Deus e experimentaram as maravilhas do mundo vindouro, e apesar disso caíram, é impossível [em grego= adínatos] que se renovem outra vez para a penitência, uma vez que assim crucificaram de novo o Filho de Deus em si mesmos e o expuseram publicamente ao ridículo. De fato, a terra que recebe chuvas frequentes e fornece ao agricultor boas searas, é abençoada por Deus. Mas, a que produz só espinhos e abrolhos, é reprovada, e está perto da maldição; seu fim é ser queimada”.

Vêm ao caso também as palavras de São Pedro, o primeiro Papa: “Assim, se, depois de terem fugido das corrupções do mundo pelo conhecimento de Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador, por elas são novamente envolvidos e vencidos, o seu segundo estado tornou-se-lhes pior do que o primeiro. Melhor lhes era não conhecer o caminho da justiça, do que, depois de o terem conhecido, tornar para trás [afastando-se] daquele mandamento santo, que lhes foi dado. Desta forma, se realizou neles aquele provérbio verdadeiro: Voltou o cão ao seu vômito”; e: “A porca lavada tornou a revolver-se no lamaçal” (2 Pedro, II, 20 a 22).

Há muita divergência entre os teólogos e exegetas com relação a este texto da Sagrada Escritura,(Heb. VI, 4-8) principalmente no que se refere à esta palavra “IMPOSSÍVEL”. Muitos, dizem que não tem como reconciliar esta impossibilidade de conversão com a bondade divina que “que não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva”. Assim explicam que este “impossível” quer significar “muito difícil”. Na verdade, podemos dizer que a condição de salvação dos apóstatas é a mais deplorável possível. Diz o célebre exegeta Padre Renié (adotado em nosso Seminário): “Estes (os apóstatas) que se afastam da companhia de seus irmãos [na fé] estão numa ladeira escorregadia. É uma desgraça terrível o fato  de cair fria e voluntariamente no pecado, depois de haver conhecido a verdade cristã. A condição do apóstata é deplorável porque não há mais vítima para oferecer em expiação de sua perversidade. Os ritos judaicos, aos quais os judeus retornam pela apostasia, eram insuficientes e são atualmente abolidos; quanto ao sacrifício do Salvador, dele se excluem a si mesmos” (Manuel d’Écriture Sainte, R. P. Renié, S. M. Tome VI. pag. 524, nº 457).

Assim fala Renié porque nesta Epístola S. Paulo se dirige especificamente aos judeus. Mas os exegetas e teólogos dizem que se trata não de qualquer pecado mas dum pecado contra o Espírito Santo. Afirmam-no primeiro porque a palavra grega “adinatos” é empregada em outras passagens desta mesma Epístola ( VI, 18; X, 4; XI, 6) e sempre com o sentido duma impossibilidade absoluta. Em segundo lugar se baseiam no que diz São Paulo no mesmo capitulo X, 28 e 29: “Se alguém transgredir a lei de Moisés, – e isto provado com duas testemunhas, – deve ser morto sem misericórdia. Quanto pior castigo julgais que merece o que calcar aos pés o Filho de Deus, e tiver profanado o Sangue da Aliança em que foi santificado, e ultrajar o Espírito Santo, autor da graça”. Baseados justamente nestas últimas palavras: “ultrajar o Espírito Santo, autor da graça”, concluem que aqui se trata de um pecado de blasfêmia contra o Espírito Santo, pecado este, que, segundo Nosso Senhor Jesus Cristo, não tem perdão nem neste mundo, nem no outro (Cf. Mateus XII, 31 e 32). Mas Santo Agostinho diz que não se trata de qualquer blasfêmia contra o Espírito Santo, mas aquela que vem acompanhada  da impenitência final. Portanto, diz o Grande Doutor da Igreja, só no fim é que poderemos saber (Sermões de S. Agostinho, BAC, serm. LXXI).

Já Santo Ambrósio diz que é quase impossível um apóstata se converter, e diz: “É mais fácil encontrar alguém que nunca tenha pecado mortalmente do que os que tenham cometido graves culpas se dignem fazer conveniente penitência” (S. Ambrósio, De Poen., lib. II, c. X). Isto em se tratando dos grandes pecadores, logicamente “a fortiori” dos apóstatas da fé.

Isto posto, caríssimos, vamos agora à interpretação mais seguida por grandes e célebres exegetas tradicionais:  Vejamos o sentido geral dos versículos 4-6 do capitulo VI, segundo estes autores. É o seguinte: todos os  que receberam o batismo (iluminados), todos os que receberam a Eucaristia (provaram o dom celestial) e todos os que foram crismados (receberam a sua parte dos dons do Espírito Santo) e todos os que conheceram a verdade na Santa Igreja (pela doçura da Palavra de Deus) beneficiaram-se de todos os meios de salvação oferecidos por Cristo e depois os desprezaram, caindo na apostasia, já não podem encontrar outros para novamente se redimirem (quanto o conhecimento da verdade, já receberam a instrução necessária como catecúmenos). Isso não é impossível a Deus, mas é o próprio apóstata que se coloca por si mesmo na impossibilidade de se salvar, não crendo mais no único Cristo que o pode salvar, já que Deus O constituiu único Salvador do gênero humano.

“Não há outro nome debaixo do céu, pelo qual devamos ser salvos” (Atos, IV, 12). O Velho Simeão predisse que Jesus seria ruína para muitos. Sendo Jesus Cristo, o único Salvador, quem o renega depois de o conhecer e receber os dons de Deus, ultraja o Divino Espírito Santo e então o apóstata, exclui-se a si mesmo do Reino dos Céus e seu fim é realmente a ruína. E não é sem motivo que São Paulo termina exclamando: “É horrendo cair nas mãos do Deus vivo”. Isto vai acontecer com os apóstatas no juízo particular e, no fim do mundo, no juízo universal. Na verdade, o apóstata, como castigo por rejeitar a verdade reconhecida como tal, endurece seu coração. E sobre isto, eis o que diz a Sagrada Escritura: “O coração duro será oprimido de males no fim” (Eclesiástico III, 27). Ilustra muito o que estamos explanando, o que diz S. Paulo ao falar do Anticristo: “Ninguém de modo algum vos engane. Porque antes deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que leva o nome de Deus ou o que se adora, a ponto de tomar lugar no templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus(…). A manifestação deste ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda a sorte de milagres, de sinais e de prodígios enganadores. Ele usará de todas as seduções do mal para aqueles que se perdem, por não terem aberto os seus corações ao amor da verdade que os poderia ter salvo. Por isso, Deus lhes envia uma faculdade de ilusão, que os fará crer na mentira. Assim serão condenados todos os que não deram crédito à verdade, para se comprazerem no mal” (2 Tessalonicenses, II, 3 e 4; e 9- 12). Deus envia-lhes uma “UMA FACULDADE DE ILUSÃO”: castigo maior não pode haver aqui na terra!!!

Daí entendemos porque o Apostolo diz que só resta para os apóstatas isso: “ESPERAR UM JUÍZO TREMENDO E O FOGO ARDENTE QUE HÁ DE DEVORAR OS REBELDES”. Estes rebeldes, adversários de Nosso Senhor Jesus Cristo que não se preocupam mais de terem Cristo como propiciador, devem esperar tê-Lo como Juiz. Certamente será sobretudo terrível quando chegar para eles a hora da morte. O juízo dos apóstatas será terrível porque pecaram “voluntarie”, ou seja, por pura malícia, com pleno conhecimento e querendo. Conheceram a monstruosidade da culpa e não obstante como amantes enlouquecidos, escolheram desposá-la. Eles serão mais amaldiçoados e odiados por Nosso Senhor Jesus Cristo, e o serão pela sua característica de REBELDES.

E não se trata somente de “expectativa terrível do juízo” mas de “terrível ardor do fogo”. E este fogo devorará “os adversários”. Os apóstatas, são rebeldes, e adversários de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois, mais do que todos os outros condenados, fazem guerra a Deus, roubando-lhes as almas, seduzindo, subvertendo, arrastando facilmente os outros para o mal. Por isso serão torturados eternamente  como adversários, como rebeldes a Deus.

Caríssimos, se procurarmos alguém que seja o protótipo perfeito e completo do apóstata, não temos dificuldade para  encontrá-lo: Matinho Lutero. Era Religioso e sacerdote, conhecia a verdade, e, antes da queda observava os mandamentos. Abandonou a Vida Consagrada a Deus e o Sacerdócio, com a agravante de ter seduzido uma freira que também se apostatou e com a qual viveu amasiado; e ainda pior, fundou uma seita onde não se reconhece nem a Vida Consagrada a Deus e nem o Sacramento da Ordem; entregou-se aos vícios, máxime ao da carne. Pregou uma fé sem as obras, uma fé sentimental.  Além de perder a verdadeira fé, ensinou uma fé enganadora. Elogiar, celebrar a memória e homenagear tal apóstata, é demonstração de que este maldito ecumenismo pós conciliar, é aquela “faculdade de ilusão”, faculdade esta que faz  a pessoa crer na mentira e chegar às raias da blasfêmia contra o Espírito Santo.

Peçamos sempre a Deus a graça da perseverança final e a de combater o bom combate, fortemente guardando a fé.  Amém!

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2 Comentários to “Reflexões da Sagrada Escritura: Da Apostasia.”

  1. A apostasia é tudo constante no post acima, afastamento da doutrina fundamental e verdadeira da Igreja Católica, adesão consciente a seitas e religiões, todas elas relativistas e discordantes da Verde única de Jesus Cristo, preferindo doutrinas heréticas ou grupos religiosos humano-fundamentados!
    Isso tem sucedido bastante em nosso tempo: temos alguns exemplos de clérigos que se apostasiaram e foram oficialmente excomungados por seus prelados e outros que incorreram em similares condições por práticas totalmente incompatíveis com a fé católica.
    Incluem-se no rol dos banidos os hierárquicos católicos assentados em varios niveis que defendem o marxismo, mesmo sem serem oficialmente afastados, porém, colaboram com partidos socialistas ou comunistas possuidores de uma doutrina intrinsecamente perversa e que proporciona infindos males á sociedade por serem o diabolismo em prática!
    Fora da Igreja, a única de fundação divina e que se mantém em si inserida no Corpo de Cristo, todas as mais são subjetivistas, como acontece no herético protestantismo que se proclama ser “a verdadeira doutrina cristã”, porém estilhaçado em muitos milhares de seitas dissensas e degladiando-se entre si, reunido em grupos à escolha de modelos ao interessado numa religião moldável conforme o tempo, adotante do livre arbitrio e cada seita reivindicando o direito de ser mais legítima que a outra – ainda acusando a oponente de herética!
    “Elogiar, celebrar a memória e homenagear tal apóstata, é demonstração de que este maldito ecumenismo pós conciliar, é aquela “faculdade de ilusão”, faculdade esta que faz a pessoa crer na mentira e chegar às raias da blasfêmia contra o Espírito Santo”.
    O ecumenismo atual mais se pareceria sacrificar a Verdade católica em nome de um ajuntamento das outras todas crenças e seitas num mix, o qual misturado, comporá uma nova religião num ajuntamento de “verdades ao alcance de todos”…

  2. Existem pecados sem perdão! Quem renúncia deliberadamente da fé já pertence ao Diabo porque insulta a Deus e blasfema contra o Espírito Santo.

    Similar ao ocorrido com Judas Iscariotes, não foi a traição ao homem Jesus que o condenou pela eternidade, porque todo pecado cometido contra o filho do homem pode ser perdoado (São mateus 12:32); ele até foi tomado pelo remorso e tentou devolver as 30 moedas de sangue, ninguém é salvo só por reconhecer um erro contra alguém ou assumir que é pecador como esta sendo ensinado nessas teologias modernas. Foi a rejeição de Judas ao Cristo depois de tê-lo conhecido que o alijou de possibilidade da graça.

    “Em verdade vos digo: todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, mesmo as suas blasfêmias; mas todo o que tiver blasfemado contra o Espírito Santo jamais terá perdão, mas será culpado de um pecado eterno.” (São Marcos 3:28,29)

    “Se alguém vê seu irmão cometer um pecado que não o conduza à morte, reze, e Deus lhe dará a vida; isto para aqueles que não pecam para a morte. Há pecado que é para morte; não digo que se reze por este.” (1 São João 5:16)