O Papa se cala, mas seus amigos cardeais falam. E acusam.

O prefeito do novo dicastério para a família ataca o Arcebispo de Filadélfia, Charles J. Chaput, pelo modo como ele implementa a  “Amoris Laetitia” em sua diocese. Eis as diretrizes que acabaram sob julgamento.

Por Sandro Magister, Roma, 23 de novembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Nenhuma palavra saiu da boca do Papa Francisco depois que quatro cardeais pediram-lhe publicamente para desmantelar cinco grandes “dúvidas” suscitadas pelas passagens mais controversas da “Amoris laetitia”:

> “Fazer clareza”. O apelo dos quatro cardeais ao Papa

jpg_1351420Ou melhor, uma não-resposta foi o que o papa deu, quando em uma entrevista a Stefania Falasca para o jornal da Conferência Episcopal Italiana “Avvenire”, em 18 de novembro, a um certo ponto ele disse, falando com intimidade à sua amiga de longa data:

Alguns – pense em certas réplicas à ‘Amoris laetitia’ – ainda não compreendem, ou é branco ou preto, mesmo que seja no fluxo de vida que se tem de discernir.”

E uma outra não-resposta foi dada na audiência geral da quarta-feira, 23 de novembro, dedicada exatamente à obra de misericórdia: “aconselhar os duvidosos”:

“Não façamos da fé uma teoria abstrata, onde as dúvidas se multiplicam”

Em compensação, meteram-se a falar no lugar do papa não poucos eclesiásticos de seu círculo, que competem entre si para dizer que a exortação pós-sinodal “Amoris laetitia” é por si só claríssima e não pode dar lugar a dúvidas e, portanto, quem levanta tais dúvidas, na realidade, ataca o papa e desobedece ao seu magistério.

E entre esses loquazes enviados, particularmente, tem se destacado o cardeal Christoph Schönborn, o qual já foi várias vezes citado publicamente pelo Papa Francisco como seu intérprete autorizado e primeiro guardião da doutrina da Igreja, ignorando o Cardeal Gerhard L. Müller, cujo papel como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé foi agora reduzido a um mero título honorário.

Mas, o mais incontinente foi outro cardeal, fresquinho no cardinalato, o americano Kevin J. Farrell, que disse em uma entrevista ao “National Catholic Reporter”:

“Em ‘Amoris laetitia’, é o Espírito Santo que fala. E ela deve ser tomada como ela é. É o documento guia para os próximos anos. Eu, honestamente, não vejo por que alguns bispos acham que devem intrepretá-la”.

Portanto, engana-se quem acha que Francisco irá ainda intervir. “Eu acho que o papa já falou o suficiente” – acrescentou Farrell – quando, em 5 de setembro, deu a sua aprovação para a exegese de “Amoris laetitia” feita pelos bispos Argentinos da região de Buenos Aires, segundo a qual é possível aos divorciados novamente casados no civil receberem a comunhão, ainda que continuem a viver “more uxório”, ou seja, “como marido e mulher”.

Farrell foi feito cardeal pelo Papa Jorge Mario Bergoglio no consistório de 19 de novembro passado. E desde agosto do ano passado é prefeito do novo dicastério Vaticano para os leigos, família e vida.

É, portanto, um dos novos rostos da nova Cúria de papa Francisco. Uma cúria que – é repetido várias vezes – não deve atropelar, mas promover a multiforme “criatividade” de cada Bispo na respectiva diocese.

Mas, na verdade, está acontecendo o oposto. Em outra entrevista – desta vez ao “Catholic News Service”, a agência da Conferência Episcopal dos Estados Unidos – Farrell não pensou duas vezes para atacar “ad personam” um bispo ilustre e seu compatriota, cuja “culpa” teria sido apenas aquela de oferecer à sua diocese as diretrizes para a implementação de “Amoris Laetitia”, as quais, obviamente, não agradaram ao próprio Farrell.

O agredido não é um desconhecido. Trata-se de Charles J. Chaput, Arcebispo de Filadélfia, a cidade que em 2015 sediou o Encontro Mundial das Famílias em que o Papa Francisco fez visita (ver foto).

Chaput é um franciscano e o primeiro bispo dos Estados Unidos oriundo de uma tribo nativa americana. A pastoral da família é uma de suas competências mais reconhecida. Ele participou no Sínodo sobre a família e no final de sua segunda e última sessão foi eleito por um grande número de votos entre os doze membros do conselho de cardeais e bispos que fazem ponte entre um Sínodo e o outro.

De acordo com Farrell, no entanto, ele cometeu o delito de ter ditado aos seus sacerdotes e fiéis diretrizes “fechadas”, ao invés de “abertas”, como Papa Francisco quer.

“Eu não compartilho do sentido que o Arcebispo Chaput deu”, disse o novo prefeito da pastoral do Vaticano para a família. “A Igreja não pode reagir, fechando as portas antes mesmo de ouvir as circunstâncias e as pessoas. Não é assim que se faz.”

Chaput reagiu ao incrível ataque com uma contra-entrevista ao “Catholic News Service”, reproduzida na íntegra no Italiano e Inglês neste post de “Setimo Cielo”:

> O Papa se cala, mas o neo-cardeal, seu amigo, fala e acusa. Não há paz sobre “Amoris Laetitia“.

Mas o que interessa agora é verificar de perto o assunto do litígio, ou seja, as orientações oferecidas por Chaput à sua Arquidiocese de Filadélfia.

Elas são reproduzidas no link abaixo. Estas sim, bem claras e sem sombra de dúvida.

Diretrizes pastorais para implementação de Amoris Laetitia – Arquidiocese de Filadélfia

É fácil notar que as orientações da Arquidiocese de Filadélfia são semelhantes àquelas ditadas pelo Cardeal Ennio Antonelli aos sacerdotes da Arquidiocese de Florença, divulgadas em outubro passado em http://www.chiesa:

> Em Roma, sim, em Florença não. Eis como “Amoris laetitia” divide a Igreja.

O Cardeal Antonelli foi arcebispo de Florença entre 2001-2008 e depois, por quatro anos, prefeito do Pontifício Conselho para a Família, quando foi substituído em 2012 por Dom Vincenzo Paglia e este ano pelo novo cardeal Farrell, no novo ministério expandido.

Também a ele é reconhecida uma competência indiscutível no assunto. Mas, não obstante tudo isso, o Papa Francisco não o chamou para participar do duplo Sínodo sobre a família.

Três meses após a publicação de “Amoris laetitia”, até mesmo Antonelli disse que estava “à espera de orientação com autoridade desejável” do papa, que esclarecesse os pontos obscuros da Exortação. Portanto, bem antes que viessem à tona os quatro cardeais com suas cinco “dubia”.

Mas, também a expectativa de Antonelli foi respondida pelo Papa Francisco apenas com o silêncio. Bem como às expectativas de muitos outros cardeais e bispos, que de modo reservado lhe dirigiram e continuam a dirigir apelos semelhantes, movidos por uma crescente preocupação com a confusão prevalecente em toda a Igreja, tanto na fé como nas obras.

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5 Comentários to “O Papa se cala, mas seus amigos cardeais falam. E acusam.”

  1. O silencio em certas situações é eloquente; fala por si mesmo.
    Estaria à hora de o papa Francisco contemplar os 4 cardeais e tantos outros à espera dos devidos esclarecimentos às dúvidas, notando-se que desses há varios no presbiterio e alguns leigos cientes do que se passa em Roma; por que não lhes dirimirem as interrogações?
    Certas ilações de alguns cardeais que falariam ou não pelo papa Francisco, acusando os 4 cardeais de provocarem divisões, chegarem ao cisma e a outras situações mais constrangedoras para a Igreja e aos fieis que praticamente nada sabem a respeito, não seriam eles interessados em se impor sem serem questionados, comportamento típicos das esquerdas que nunca se consideram erradas e no cardapio delas só existe o “eu mando, v obedece”?
    Por outro lado, o papa Francisco teria respondido ao Avvenire e uma das perguntas e respostas:
    AVVENIRE: Há quem pense que nestes encontros ecumênicos se queira vender a preço baixo a doutrina católica. Alguém já disse que se quer “protestantizar” a Igreja.
    FRANCISCO: Não me tira o sono. Eu continuo na estrada de quem me precedeu, continuo o Concílio. Quanto às opiniões, é preciso sempre distinguir o espírito com o qual são ditas. Quando não tem um espírito ruim, ajudam a caminhar. Outras vezes se vê de cara que as críticas se fazem aqui e ali para justificar uma posição já assumida, não são honestas, são feitas com espírito ruim, para fomentar a divisão. A gente vê logo que certos rigorismos nascem de uma falta, nascem da vontade de esconder dentro uma armadura, a própria e triste insatisfação. Vejam o filme “A festa de Babete”, ali há este comportamento rígido.

  2. É uma situação lamentável e vergonhosa. O Vaticano vai ter que começar a aplicar exames psicotécnicos aos candidatos a papa a partir do próximo conclave.

  3. Uma observação sobre a fala de Francisco – “Não façamos da fé uma teoria abstrata, onde as dúvidas se multiplicam” – :
    é típico dos modernistas, desde antes de São Pio X, a depreciação dos aspectos propriamente intelectuais do Cristianismo. Porém, essa depreciação não passa de uma rematada idiotice, sem qualquer razão válida para se afirmar. Caso o Cristianismo não seja, antes de mais nada, um corpo teórico (isto é, um conjunto de verdades a serem apreendidas pelo intelecto), o que ele seria? “Seria um caminho para a vida” – talvez respondesse o modernista. Mas, ainda nesse caso, o que seria então um ‘caminho para a vida’ senão um conjunto de ensinamentos para guiar as ações do homem em sua existência? Notem como é impossível livrar-se do elemento intelectual: corpo teórico, verdades, ensinamentos. Mesmo a negação do valor do intelecto não pode ser feita a não ser usando o próprio intelecto. É impossível, pois, ser anti-intelectualista, sem ser um idiota.

    O Cristianismo é, essencialmente e antes de mais nada, um corpo teórico abstrato, com base no qual se pode chegar a muitas aplicações de ordem prática, mas cujo valor primeiro se assenta em sua fundamentação racional e em sua sistematização conceptual lógica e orgânica. E, a não ser assim, nenhum valor restaria ao Cristianismo além de um mero folclore e uma mera coleção de fábulas judaicas antiquadas. Ou o Cristianismo é (e ele é!) tão perfeitamente racional e intelectualmente abstrato quanto um teorema matemático, ou ele não vale nada na realidade.

    Se se insistir que ‘o importante é as pessoas fazerem o bem’, independente de sistematizações intelectuais, podemos responder que, antes de ‘fazer o bem’, é indispensável saber o que é bem e o que é mal; o que é obrigatório, o que é aconselhável, o que é indiferente, o que é proibido; é preciso saber os motivos legítimos para fazer isso e deixar de fazer aquil’outro, bem como é preciso conhecer os meios eficazes – positivos e negativos – para tal execução. Há infinitos aspectos intelectuais mesmo nas coisas aparentemente mais ‘práticas’, de modo que pretender se postar diante delas sem ‘teorias abstratas’ é autocondenar-se a ficar cego frente à realidade – e a ser uma desprezível mistura de toupeira com anta.

    Enfim, se me permitem citar um cientista (Aaron Beck): “Nada é mais prático do que uma boa teoria”…

  4. “Alguns – segundo a entrevistadora, pensando em certas réplicas à Exortação apostólica Amoris laetitia – “continuam não compreendendo, ou branco ou preto, mesmo porque é no decurso da vida que se deve discernir”.” Fonte: http://br.radiovaticana.va/news/2016/11/18/papa_francisco_servir_aos_pobres_significa_servir_a_cristo/1273287

    Por que destaquei o texto acima? Pois pareceu mais uma opinião pessoal da entrevistadora que do próprio Papa Francisco, embora seja estranha a ideia da Rádio Vaticano publicar uma entrevista cujo texto acima não ficou claro.

    Sobre o Cardeal Müller, encontrei uma matéria da Rádio Vaticano com a opinião dele sobre a carta dos 4 cardeais a respeito dos pontos da Amoris Laetitia que carecem de clareza: http://br.radiovaticana.va/news/2016/12/02/cardeal_m%C3%BCller_sobre_carta_dos_4_cardeais_n%C3%A3o_%C3%A0_polariza%C3%A7%C3%A3o/1276472

    Creio que esses 4 cardeais gozam do direito ao esclarecimento, porém, sou totalmente contra matérias que querem sugerir uma desonestidade por parte do Papa Francisco.
    Sobre a minha opinião, comungo do mesmo pensamento de Michael Voris contido no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=N5wofzAXPto

    Salve Maria!!!

    • Independente de qualquer problema eclesial, na questão das dúbias apresentadas pelos cardeais todo católico baseado no magistério da Igreja sabe as respostas. A omissão do papa é condenável sim. Responder é uma obrigação e uma decisão exclusivamente pessoal. O papa não pode eximir-se de suas responsabilidades. Aquela sentença tão conhecida no mundo secular: ” Pede pra sair!” Já está valendo hodiernamente no Vaticano desde a renúncia de Bento XVI