Francisco, a Cúria e o governo.

Episódios que nos deixam perplexos. Mas, este Papa é bom?

Por Marco Tosatti, 26 de dezembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.comNão é de hoje que as censuras do Papa à Cúria já não surpreendem mais ninguém. Digamos que elas assumiram um tom quase ritual. Pela leitura de suas palavras dá a impressão que ele tenha se irritado contra eventuais resistências à reforma da Cúria. Mas, isso pode parecer desconcertante. Até agora, a reforma procurou centrar-se sobre a unificação de alguns conselhos pontifícios e dicastérios, bem como o lançamento da nova Secretaria de Comunicações. Mas não parece que qualquer destas iniciativas tenha causado especial ressentimento. E o esvaziamento progressivo da Secretaria de Economia de algumas grandes prerrogativas que o próprio Papa havia lhe atribuído foi feito com o consentimento do próprio Pontífice. E mesmo ali não parece que as principais partes interessadas tenham se acorrentado aos portões de São Pedro por causa disso. Quem conseguiu manobrar-se para obter de volta o dinheiro e o poder que o primeiro Motu Proprio parecia ter subtraído, acabou ficando bem satisfeito. E Pell, ainda que tenha se sentido um pouco traído, e talvez um pouco ingênuo por ter acreditado em exortações como a que dizia “siga em frente sem olhar para ninguém” proveniente de Alto Loco acabou também por absorver o golpe como um  bom atleta australiano.
Talvez, então, a ira do soberano tinha outros motivos e alvos.
O que se percebe na Cúria é algo diferente; e não se trata de resistência, mas de medo, insatisfação e sentimentos que são colocados num contexto diferente.
Fomos informados por uma fonte fidedigna sobre vários episódios. Vamos citar alguns, sem comentários.
O primeiro diz respeito às nomeações episcopais. Algum tempo atrás, houve o caso de se fazer um bispo, não na Itália. O núncio preparou a tríade. Um cardeal, chefe do dicastério, talvez o próprio titular da Congregação para os Bispos, durante a assembléia geral ordinária, tomou a palavra, dizendo: o primeiro candidato indicado é ótimo, o segundo é bom. Mas, gostaria de alertar sobre o terceiro, que eu conheço bem, desde os tempos em que ele era seminarista, e que apresenta problemas, tanto em termos de doutrina como de moralidade e responde pouco aos critérios necessários. Mas, esse terceiro era amigo de alguém; e, assim, um outro cardeal do círculo atualmente no poder, saiu ao ataque contra seu colega, acusando-o de impropriedade. A reunião foi encerrada sem mais decisões. Mas, um dia depois, o secretário pessoal do Pontífice se apresentou à Congregação dizendo que a escolha havia recaído sobre o terceiro candidato.
Outro caso é decididamente o mais triste. Um chefe de dicastério recebeu uma ordem para se livrar de três de seus empregados (que trabalham no Vaticano há várias décadas), sem qualquer explicação. Ele recebeu a carta oficial: “Do venerável encargo peço-lhe que para que se demita…”. A ordem era: envie-o de volta à diocese ou à família religiosa à qual ele é afiliado. Ele ficou muito perplexo, porque se tratava de ótimos sacerdotes e pessoas entre as mais capazes profissionalmente. Ele se recusou a obedecer, e pediu audiência ao Papa. Teve, então, que esperar, porque por diversas vezes a audiência foi transferida. Finalmente, ele foi recebido. Ele disse então: Santidade, eu recebi essas cartas, mas eu não fiz nada ainda, porque essas pessoas estão entre as melhores do meu dicastério… o que eles fizeram? A resposta foi: “e eu sou o papa, e não tenho que dar satisfações a ninguém a respeito das minhas decisões. Eu decidi que eles devem ir embora, e tem que ir embora”. Levantou-se e estendeu a mão para  significar que a audiência estava encerrada. Até 31 de dezembro, dois dos três deixarão o dicastério em que trabalharam durante anos, sem ao menos saber o porquê. Para o terceiro, ao que parece, houve uma prorrogação. Mas, há um desdobramento que, se for verdade, como parece ser, é ainda mais desagradável. Um dos dois se expressava livremente, talvez até demais, sobre algumas decisões do Papa. Alguém, muito amigo de um colaborador do Pontífice, ouviu e delatou. A vítima recebeu uma chamada muito dura do número um e depois veio a punição.
Mas, as fofocas não era um anátema no reinado do Papa Bergoglio?
A tentativa atrapalhada de convocar uma comissão de inquérito para um organismo de direito internacional, como é a Ordem de Malta, independente da Santa Sé, com a qual se troca embaixadores, e, portanto, que não pode “ser investigada a partir do exterior”, é outro sintoma da febre autocrática que parece permear o Vaticano.
Não é de admirar se o clima, por trás dos muros e palácios, não seja exatamente sereno. É de se perguntar qual crédito podemos dar a toda essa fanfarra sobre misericórdia.
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2 Comentários to “Francisco, a Cúria e o governo.”

  1. Ferreti, valeria a pena também citar a entrevista de Genésio Boff, na qual ele diz que a ajudou a escrever a Laudato si (http://www.marcotosatti.com/2016/12/27/boff-ho-aiutato-il-papa-a-scrivere-la-laudato-si-fara-una-grossa-sorpresa-forse-preti-sposati-o-donne-diacono/)
    Nesses tempos de fim de mundo em que vivemos, não duvido mais de nada.

  2. Foi demitido? Ótimo. O discípulo não é maior que seu senhor. Se a Igreja perde algo com isso, já é bem outra estória, e diz respeito sobretudo a quem cometeu a injustiça.

    Pois se alguém está no clero e não se deu conta de que aí está para seguir Jesus Cristo até o Calvário, então está no lugar errado, perdendo tempo, enganando a si mesmo e aos outros. Poderia gastar a vida de outra maneira, talvez como balconista (a maioria), talvez como médico, engenheiro ou juiz – ou agricultor, tudo isso é acidental e não faz ninguém necessariamente bom ou mau, virtuoso ou pecador. Pouco importa a qualidade da sobremesa.

    Mas, como muitos da reverendíssima clerazia chegaram ao ministério sem grandes propósitos de mortificação e renúncia radical, uma vez que, segundo a nova teologia epicurista do “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos”, tais propósitos são “masoquismo medieval”, ENTÃO, o esgoto começa a subir pelos ralos: disputa de poder e vaidade, tráfico de influência, detração e calúnia, traição, arranca-rabo e fofoca, linchamento moral e ciúme, perseguição, ranger de dentes, paranoia e insônia crônica – nada, enfim, que não esteja amplamente enumerado nos livros do Novo Testamento.

    Bergoglio, porém, tem a paradoxal virtude de resumir em si todos os defeitos do clero, de forma que, se alguém quer saber o que um clérigo NÃO deve ser, basta olhar o prelado argentino: autoritário, despreparado, grosseiro, imaturo, histriônico, emocionalmente instável, politiqueiro e carreirista – ninguém acha que uma nulidade como ele chegou onde chegou sem fazer muita má política, não é…? E é claro que o Espírito Santo não tem nada a ver com a catapultação bergóglica, a menos que o Espírito Santo tenha decidido nos punir a todos enviando tantos e tais flagelos clericais (e mafométicos).

    De todo modo, o antigo “promoveatur ut amoveatur” tinhá lá suas vantagens. Os meios aristocráticos, de fato, produzem seus modos de dizer e fazer as coisas. Muito se dizia e se fazia dizendo pouco ou quase nada de modo a não se causar turbulência ou chicanas. No entanto, mesmo um bom princípio pode ser mal aplicado, por exemplo, quando o promovido se chama Roncalli ou Montini e a remoção é para Veneza ou Milão. E o resto da história, infelizmente, é contado pela frieza das estatísticas e pelos sucessivos e inomináveis escândalos divulgados nos jornais. Mas o triunfalismo, demencial e pueril, cega. Que esperar de uma instituição assim governada?