A concretude da igreja de padre Jorge.

Por P. Wimmer | FratresInUnum.com

Padre Jorge volta à carga contra o que pensa ser “esquemas abstratos”.

Para sermos bem concretos, ponhamos o exemplo de um pai de família que, aos seus 50 anos, resolveu deixar a esposa e filhos para viver com uma mulher de 25. A esposa já não era atraente, os filhos, jovens e adolescentes, dando trabalho. Ele pode se mudar para um flat perto do trabalho, onde aliás conheceu a sua nova, mui nova, “companheira”, e viver sua vidinha pequeno-burguesa, pois, afinal, seus vencimentos o permitem. Ele, que é cristão, e não pensa segundo a lógica abstrata e legalista do passado. Ele quer se abrir a novas possibilidades, quer respirar um pouco depois de tantos anos de uma convivência nem sempre amena, quase forçada. Quer esquecer as dificuldades do início de carreira, quer, enfim, experimentar o novo, a liberdade. Nada de esquemas abstratos e legalistas!

A esposa, que sempre o ajudou e que batalhou com, e lhe deu filhos, um pouco trabalhosos, é verdade, ficará olhando pela janela a mudança. Ela até já pensa em baixar um aplicativo no celular, para ver se arruma um novo “parceiro”. O que é importa, afinal, é viver o aqui e agora, viver a precariedade do momento, viver as surpresas da vida com espírito aberto e sem esquemas rígidos e pré-concebidos. Também ela quer se dar o direito de ser feliz , quer viver a esperança.

O marido canastrão e seu rabo de saia serão acolhidos na terna igreja do bairro, a igreja de Padre Jorge.

Padre Jorge detesta constrangimentos por motivo de religião. Religião não deve onerar as pessoas com nada. Deve ser um oásis de acolhimento e de ternura. O mundo já exige demais… Criar problemas? Exigências? Cobranças? Nada disso! Padre Jorge sabe que tudo é difícil. Ele mesmo, em sua vida de consagrado, tem lá as suas dificuldades. As pessoas têm que se sentir bem. Cada um que siga a sua consciência. Deus não olha resultados e eficiências. Isso é uma versão capitalista da religião. O que importa é viver a justiça no seu dia-a-dia, promover a fraternidade e a partilha.

Padre Jorge quer acolher, quer tocar, quer a união dos corações e das mentes num sentimento indiferenciado de esvaziamento de si – kenótico.

O marido canastrão e aventureiro e o seu rabo de saia não querem, de modo algum, ficar sem a terapia dominical, a terapia humanista do acolhimento. Eles se sentem bem na comunidade. Dá pra ir ao clube, almoçar tranquilo, beber no bar da piscina até as 19:00, por uma bermuda e pegar a Missa das 20:30 como chave de ouro.

Na paróquia, há muitas atividades de promoção social. Padre Jorge tem muito cuidado para não haver a mínima sombra de proselitismo. A igreja tem que se ocupar das condições concretas de quem a procura, sem marretar doutrinas. Doutrina só gera divisão e afirmação de ego. Não se deve propor nada a ninguém, exceto o compromisso com a partilha e a justiça. Padre Jorge fez até um convênio com o Rotary e outro com Terreiro Maria Padilha. Para padre Jorge, o que importa é fazer o bem, sem criar divisões. Para ele, as pessoas devem ficar onde estão, pois se deus a pôs lá, é lá que ela deve ficar! A função da religião é servir o ser humano. E sobretudo: para padre Jorge, não importa o que você faz dentro de quatro paredes! Quem é ele pra julgar?

E o “ministério de música” de Padre Jorge? É tão bom – um repertório bem acolhedor, sentimental mesmo, que certamente levará a nova “família” – marido canastrão e rabo de saia- às lágrimas da ternura e do esquecimento de si, fazendo experimentar o deus concreto e pé-no-chão, que não liga para leis e códigos abstratos de conduta.

Para padre Jorge, tudo é uma grande dialética de precariedades, nada é definitivo. A síntese se dá pelo confronto dos opostos. Ele pensa assim, desde que sua opinião prevaleça sempre. Para ele, não podemos engessar a realidade. Nós devemos estar atentos aos sinais dos tempos, como dizia São João XXIII, o papa bom.

Padre Jorge é o homem mais acolhedor do mundo. Dizem que um amigo seu escreve suas homilias. Esse amigo tem até um livro sobre a terapia do toque e do beijo.

Tente contrariar Padre Jorge.

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14 Responses to “A concretude da igreja de padre Jorge.”

  1. Cuidado. Conheço casos que são bem assim como descrito mas conheço outros que parecem assim, mas não são.

  2. Rsrs. Muito bom. Vamos esperar para ver se neste 2017 de tantos acontecimentos – e até profecias! – P. W. nos brinda com impropérios apostólicos.

  3. Faltou dizer que “Padre Jorge” nos tempos em que administrava sua “Paróquia” , já era mui atualizado ,pois, o que se prática hoje com a aprovação de certo documento oblíquo, “Padre Jorge” já fazia nos tempos de Familiaris Consortio. Provavelmente o episódio descrito no texto, e talvez muitos outros, ocorreram nessa época de “misericórdia” . Mas “Padre Jorge” tinha um sonho: A Igreja deveria ser tão “misericórdiosa” quanto ele nos tempos em que era “Pároco”.

  4. Uma igreja modernista acima é o modelo relativista preconizado na visão esquerdoide(doida) do marxista L Boff, a seguir, alguns trechos, em 05/11/13 ao Correio Popular:
    “Mas a Igreja-comunidade como fenômeno religioso e movimento de Jesus é muito mais que a instituição. Ela encontra outras formas de organização, bem mais próximas ao sonho do Fundador e de seus primeiros seguidores. Inteligentemente, os bispos brasileiros em sua reunião anual em Brasilia de 4-13 de janeiro do corrente ano confessaram: “só uma Igreja com diferentes jeitos de viver a mesma fé será capaz de dialogar relevantemente com a sociedade contemporânea”. Com isso eles quebraram a pretensão de um único modo de ser, aquele da Tradição do poder. Sem negar este, há muitos outros jeitos: o jeito da Igreja da libertação, dos carismáticos, dos religiosos e religiosas, da ação católica, até da Opus Dei, da Comunhão e Libertação e da Canção Nova(Pe Fabio de Melo e Mons Jonas Habib…), só para dizer as mais conhecidas.
    Mas há um jeito que é todo especial e altamente promissor, nascido nos anos 50 do século passado no Brasil e que ganhou relevância mundial, pois foi assimilado em muitos paises: as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs. Os bispos lhe dedicaram uma animadora “Mensagem ao Povo de Deus sobre as CEBs. Curiosamente, elas surgiram no momento em que eclodiu no Brasil uma nova consciência histórica, (caso da eclosão nelas da mafia PT e mais PCs). Na sociedade: o sujeito popular(revolucionario) ansiando por mais participação política e na Igreja: o sujeito eclesial, ansiando também por mais participação e corresponsabilidade eclesial.
    As CEBs constituem um outro modo de ser Igreja, cujo sujeito principal, mas não exclusivo, são os pobres. Seu estilo é comunitário, participativo e inserido na cultura local. Os serviços são rotativos e a escolha, democrática(quanta democracia!). Articulam continuamente fé e vida, ativos no campo religioso, criando novos serviços e ritos e ativos no campo social ou político, nos sindicatos, nos movimentos sociais como no (terrorista) MST ou nos partidos populares(comunistas).
    … Se fosse assumido como inspiração para o projeto do Papa Bento XVI de “reconquistar” a Europa, seguramente teria algum sucesso. Ver-se-iam comunidades de cristãos, intelectuais, operários, mulheres, jovens, vivendo sua fé em articulação com os desafios de suas situações. Não pretenderiam ter o monopólio da verdade e do caminho certo (O ideal dele é uma igreja revolucionaria, similar á igreja “católica” patriótica do governo chinês, com bispos “sagrados” pelo regime)
    (-) Observações pessoais.

  5. Jesus chamaria essa pessoa de “hipócrita”. Na cara. E essa infeliz mulher que fica com os filhos, tendo que educá-los, dando-lhes de comer, cuidar e conduzir por mais uns 10 anos ? Talvez algum dos filhos resolva não casar, vendo o exemplo do pai, que detém o dinheiro e o poder de mudar sua vidinha atribulada. Um dos filhos pode bem pensar em morar com a mãe; afinal, ela foi abandonada. Pai imaturo, injusto (com sua mulher), metido a garotão de bermuda, fazendo jogging na praça da cidade. Talvez de posse de uma mulher novinha em folha, que, de preferência fica em casa, ele flerte com a menininhas em suas caminhadas. Afinal, agora ele é “livre”. Há muitos “padres Jorges” por aí, que apoiam essa atitude. Porque querem se dar bem com seus paroquianos. E por que querem se dar bem ? Aqui está a grande questão: Muito provavelmente, porque em suas vidas particulares, esses padres deixaram de ser padres… Não rezam mais o ofício das horas, não visitam o santíssimo sacramento; não rezam o terço, não aproveitam mais o retiro do clero para se converterem. Não leem livros de espiritualidade. Nas reuniões do clero falam de tudo: de futebol, de política, das últimas fofocas da comunidade, das dificuldades de sua vida sacerdotal… Nem pronunciam com respeito e devoção o nome de Jesus e Maria. Se for para falar de um colega (ausente), nem sempre os comentários são elogiosos. Em suas paróquias alguns fogem do povo, talvez porque não terem conteúdo para orientá-los; para atender confissões. Nem gostam que o povo humilde beije sua mão. Sempre que podem inventam um motivo e um jeito de deixarem a paróquia na mão de diáconos e ministros e vão fazer viagens longas. Não gostam de visitar os doentes nas casas e hospitais. E quando o fazem, é a muito custo. E os paroquianos tendo que se arranjar. Nesse vácuo os pastores e as seitas vão ocupando espaço. Podem ter certeza, às vezes eu me penitencio de alguns desses erros. Que Deus tenha misericórdia de todos nós, padres e leigos. Por que a promessa de Jesus de que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” só valem para a Instituição. A questão individual fica na escolha de cada um. A Igreja vai até a segunda vinda de Jesus. Cada um em particular escolha se fica na barca de Pedro ou pula fora dela.

    • ‘Aqui está a grande questão: Muito provavelmente, porque em suas vidas particulares, esses padres deixaram de ser padres’…
      Sabe que linha por linha, uma paradinha em cada uma, até o fim, estou achando que tudo isso seja a dura realidade quase geral, contudo, o diagnóstico da situação?

  6. Rs… Esta sátira lembra (um pouco) o estilo do escritor Marcelo Mirisola.

  7. Primeiramente, parabéns P Wimmer pela crônica elaborada. Ela seria cômica, se a realidade que ela reflete não fosse trágica.
    Teu texto foi muito acertivo no ponto: “A função da religião é servir o ser humano”.
    Esta é a igreja (i minúsculo) do CV II: Deixar de adorar a Deus para servir ao homem.
    Certamente esta é uma estratégia de Satanás para que o homem não sirva e nem adore a Deus; para que o homem não reconheça os direitos de Deus sob ele.
    Não se deleita o príncipe deste mundo ao ver a Igreja deixando de adorar seu Senhor e Deus, esquecendo de ensinar os fieis o Depósito da Fé?
    No fundo, a igreja da Libertação conduz a uma rebelião silenciosa contra Deus; conduz o homem a “libertar-se”, não da pobreza social, mas libertar-se do próprio Deus, tudo isso sem fechar templo algum, ou seja, utiliza-se da estrutura outrora implementada, para eliminar o próprio Deus da sociedade.
    Qual é a única mensagem dos padres do CV II? Justiça e Partilha. Entra homilia, sai homilia, é o mesmo blá-blá-blá. Entre em qualquer igreja, ligue o televisor na TV Aparecida e preste atenção nalguma homilia: você vai ouvir somente isso: justiça, partilha, fraternidade. (Pregação do Rotary Club)
    Nesta sociedade pós-cristã e repaganizada, assim como nos tempos apostólicos, urge aos pastores proclamar o Kerigma: Cristo morreu pelos nossos pecados e ressucistou para nossa justificação.
    Quanto ao “padre” Jorge, ele é fruto do CV II.

  8. Quem é o Padre Jorge? 🤔

    • Caro Daniel, hoje em dia existem tantos padres que são como o Padre Jorge. Ele é uma figura quase
      onipresente na maioria dos templos católicos do nosso Brasil (infelizmente, e desgraçadamente). :(

  9. O texto ilustra de maneira irônica a visão equivocada de Padre Jorge, que não se converteu como jesuíta, mas ainda professa a religião de poder peronista.

  10. Muito bom! Adorei ler.

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