Entrevista de Cardeal Müller na TV causa espanto.

Chefe doutrinal do Vaticano censura publicação de ‘dubia’, mas alguns críticos afirmam que ele se engana, enquanto surge a informação de que nenhuma das correções da Congregação para a Doutrina da Fé a ‘Amoris Laetitia’ foi aceita. 

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 9 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé [CDF], afirmou em uma entrevista ao vivo de televisão, no domingo, que a “correção fraterna” ao Papa Francisco acerca de sua exortação apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Amor) “não é possível por ora”, porque a documento não “apresenta perigo para a fé”.

Mas o comentário do cardeal, feito ontem ao correspondente no Vaticano do canal italiano Tgcom24, Fabio Marchese, contrasta com revelações feitas por ao menos dois eminentes oficiais do Vaticano ao Register na semana passada, de que a CDF apresentou um grande número de correções a Amoris Laetitia antes de sua publicação, no último mês de abril, “e sequer uma das correções foi aceita”.

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Surpreso com a divulgação dos dubia

Cardeal Müller afirmou, no domingo, que os cardeais têm “todo direito de escrever uma carta ao Papa”, porém, acrescentou que estava “surpreso de que tenha se tornado público, quase forçando o Papa a dizer ‘sim’ ou ‘não'”.

“Não gosto disso”, disse. “Também, uma possível correção fraterna ao Papa parece-me muito distante; não é possível por ora, porque não se trata de um perigo para a fé, como afirmava Santo Tomás [de Aquino]”.

Ele declarou que sentia ser “uma perda para a Igreja discutir essas coisas publicamente”, acrescentando que Amoris Laetitia é “claríssima em sua doutrina e que podemos interpretar todo a doutrina de Jesus sobre o matrimônio, toda a doutrina da Igreja em 2000 mil anos de história”.

Papa Francisco, concluiu o cardeal, “pede para se discernir a situação dessas pessoas que vivem em uniões irregulares, que não estão de acordo com o ensinamento da Igreja sobre o matrimônio, e para ajudá-las a encontrar um caminho para uma nova integração na Igreja, segundo as condições dos sacramentos,a mensagem cristã sobre o matrimônio”. Ele declarou que não vê “nenhuma oposição: por um lado, temos o ensinamento claro sobre o matrimônio, por outro, a obrigação da Igreja em se preocupar com essas pessoas em dificuldade”.

Todavia, as declarações do cardeal encontraram espanto em Roma, com alguns argumentando que o cardeal perdeu o foco: a questão, dizem, não é se Amoris Laetitia pode ser lida em continuidade com a tradição, mas se é ambígua o bastante de modo que possa ser lida de maneira heterodoxa.

As observações do cardeal também vêm após a divulgação de que a CDF teve claro receio sobre o documento antes de sua publicação — preocupações que nunca foram objeto de consideração. Um bem informado oficial recentemente declaro ao Register que uma comissão da CDF que revisou um rascunho de Amoris Laetitia levantou dubia “similares” àquelas dos quatro cardeais. Esses dubia fizeram parte da correção de 20 páginas [a Amoris Laetitia] da CDF, primeiramente revelada por  Jean-Marie Genois em Le Figaro, de 7 de abril, na véspera da publicação do documento.

Outro experiente oficial foi além, revelando ao Register que, na semana passada, o Cardeal Müller disse-lhe pessoalmente que a CDF “apresentou muitas, muitas correções, e sequer uma das correções foi aceita”. Ele acrescentou que o que afirma o Cardeal na entrevista “é exatamente o contrário de tudo que ele me disse sobre a questão até agora” e que tinha a “impressão de alguém que não falava por si mesmo, mas repetia o que alguém dizia-lhe para dizer”.

Histórico forte

Cardeal Müller frequentemente falou de modo firme em defesa do ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e a família nos últimos três anos (ver aqui e aqui). E em um discurso em Oviedo, Espanha, no ano passado, ele enfaticamente afirmou que Amoris Laetitia não abre as portas da Sagrada Comunhão a divorciados, reafirmando o art. 84 da exortação apostólica Familiaris Consortio, de S. João Paulo II, que afirma que os divorciados recasados não podem ser admitidos à Comunhão Eucarística ao menos que estejam aptos a viver em “completa continência”.

Porém, analistas afirmam que ele parece ignorar as preocupações sobre as interpretações divergentes do documento — profundas apreensões que se alega serem compartilhadas por muitos outros além dos quatro cardeais — e suspeitam que após o Papa recentemente remover três colaboradores do cardeai sem apresentar qualquer justificativa, e com uma correção formal possivelmente iminente, ele tenha se sentido compelido, ou foi compelido, a demonstrar ao Papa um inequívoco sinal de lealdade. Outros alegam que o italiano usado pelo cardeal na entrevista é mais matizado do que a tradução inglesa, que ele sabe o que está fazendo, e está tentando defender a ortodoxia e a unidade da Igreja a seu modo.

Um número significativo de conferências episcopais por todo o mundo expressaram suas preocupações ao Papa, averiguou o Register, e, como os quatro cardeais, não receberam resposta. Mesmo antes da publicação do documento,  30 cardeais, tendo lido uma versão antecipada da exortação apostólica, escreveram ao Papa expressando suas reservas, especialmente quanto à questão da Comunhão a divorciados civilmente recasados, advertindo que o documento enfraqueceria os três sacramentos essenciais da Igreja: a Eucaristia, o matrimônio e a confissão. O Papa também nunca respondeu à carta, disse uma fonte do Vaticano ao Register. 

A Sala de Imprensa da Santa Sé declinou comentar sobre a rejeição das correções da CDF a Amoris Laetitia, afirmando, em 2 de janeiro, que ela “não comenta o processo [de redação] dos documentos papais”.

Cardeal Müller também não respondeu, questionado por Register em 9 de janeiro, se está ciente da alegada confusão decorrente das diferentes interpretações de Amoris Laetitia, ou por que ele crê ser desnecessária uma correção formal quando as correções de seu próprio dicastério não foram aceitas.

9 Comentários to “Entrevista de Cardeal Müller na TV causa espanto.”

  1. A pergunta não é essa, a pergunta é: O documento apresenta perigo ÀS ALMAS?

  2. Porque então outrora o cardeal Muller fez a releitura da Amoris laetitia, se não é que deveria desde aquela época ter-lhe feito os maiores elogios e sua recomendação como perfeitamente aplicável e adequada às atuais circunstancias?
    Fatos desse modelo nessas circunstancias agravariam ainda mais as dúvidas que haveriam pressões internas para reversão!
    A mudança de posicionamento nesse momento pareceria estranha, e nem por isso os ânimos seriam acalmados e, por certo, nem se sentiriam inibidos os quatro cardeais e varios mais em torno de uns vinte que teriam se ajuntado a eles solidariamente, incentivando-os para darem os próximos passos.

  3. Será que a fumaça de Satanás que entrou na Igreja, segundo Paulo VI, está a entorpecer a mente de alguns cardeais? Por este post e pelo anterior relacionado Muller tornou-se heterodoxo … (claro! Se as informações forem realmente assim como estão).

  4. É essa a nota dominante do pontificado de Francisco. Cada um diz uma coisa, um contraria a afirmação de outro, doravante vem outro e diz que o um mente, e assim a verdade vai sofrendo é as almas vão se perdendo. É incrível a desonestidade dessa gente. Cada vez mais me convenço de que o mal geral do povo todo, de todos os povos, vem originalmente do clero.

    Que a contradição está plantada no seio da igreja e Amoris Laetitia apenas o confirma, é claro como a luz do dia. A quem querem enganar, então?

    Esse pontificado é um naufrágio… E essa Amoris Laetitia é um abraço de afogado.

  5. Será que esse Cardeal já foi realmente ortodoxo? Ou era apenas um “amoitado”? De qualquer forma é lamentável ouvir palavras do responsável pela Congregação da Doutrina da Fé, outrora Santo Ofício, contrariando a doutrina da Igreja. Mas acho que ninguém tem dúvida de que lado ele está. Acho que ele foi desrespeitoso com os outros Cardeais, pois estes só tornaram o documento das dúbias público porque foram ignorados pelo Papa. O responsável por essa confusão, sua santidade, uma hora vai ter que se pronunciar ou ser corrigido formalmente, não há como fugir disso.

  6. Alguns trechinhos anteriores selecionados de D Müller.
    1 – Cardeal Müller sobre a comunhão a “recasados”: “Não é possível negociar o ensinamento de Jesus Cristo”.
    Autoridade vaticana põe um fim no debate sobre divorciados: não podemos negociar ensinamentos de Cristo.
    Vaticano, 02 Mar. 16 / 01:30 pm (ACI/EWTN Noticias).- O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Gerhard Müller, colocou um fim no debate sobre a situação dos divorciados em nova união dentro da Igreja e a possibilidade de que comunguem a partir de uma proposta dos bispos alemães durante o Sínodo da Família…
    2 – Como o cardeal Müller relê o Papa. A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Chiesa.it. 29-03-2016. A tradução é do Cepat.
    IHU – Ponto a ponto, a exegese que o prefeito da Doutrina da Fé faz das palavras de Francisco que mais serviram a equívocos. Sobre a homossexualidade, comunhão aos divorciados em segunda união, Lutero, sacerdócio feminino, celibato do clero.
    … A Igreja sempre diz “isto é verdadeiro, isto é falso” e ninguém pode interpretar de modo subjetivista os Mandamentos de Deus, as Bem-aventuranças, os Concílios, segundo seus próprios critérios, seu interesse ou inclusive segundo suas necessidades, como se Deus fosse apenas um fundo para a sua autonomia.
    … Tampouco posso concluir que qualquer um pode se aproximar para receber a Eucaristia, mesmo que não esteja em graça e não tenha as devidas disposições, só porque é um alimento para os fracos.
    Protestantização da Igreja
    … Estritamente falando, nós, católicos, não temos nenhum motivo para celebrar o dia 31 de outubro de 1517, data que se considera o início da Reforma que conduz à ruptura da cristandade ocidental.
    Se estamos convencidos de que a Revelação se conservou íntegra e inalterada através da Escritura e da tradição na doutrina da Fé, nos Sacramentos, na constituição hierárquica da Igreja por direito divino, fundada sobre o sacramento da Ordem sagrado, não podemos aceitar que existam motivos suficientes para se separar da Igreja.
    Os membros das comunidades eclesiais protestantes consideram este acontecimento a partir de outra ótica, pois pensam que é a oportunidade adequada para celebrar a redescoberta da “palavra pura de Deus”, supostamente desfigurada através da história por tradições meramente humanas. Os Reformadores protestantes concluíram, há quinhentos anos, que alguns hierarcas da Igreja não só eram moralmente corruptos, como também haviam distorcido o Evangelho e, como consequência, haviam bloqueado o caminho de Salvação dos crentes para Jesus Cristo. Para justificar a separação, acusaram o Papa, supostamente a cabeça deste sistema, de ser o Anticristo.

  7. “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”

    (Frase irônica do antigo humorista brasileiro, Stanislaw Ponte Preta)

    Tomo como minha a frase acima. De duas, uma: ou a Igreja reafirma a tese da MONOGAMIA (casamento) ou corrompe-se na POLIGAMIA (árabes…) disfarçada na Amoris Laetitia.

    Será que ainda existem pastores (além dos quatro cardeais: quarteto fantástico) na IGREJA DE CRISTO que seriam capazes de colocar as suas cabeças em prol da fidelidade à mensagem cristã com relação ao matrimonio INDISSOLÚVEL, suportando inclusive o martírio, a exemplo de João Batista e Thomas More?

    Tenho sérias dúvidas!

  8. Um duro golpe a Burke, que não sejamos tolos, contava com a CDF.
    Disso, o que vemos é que o norte americano está cada vez mais isolado; e certamente, enquanto puder atirará por todos os lados, com suas afiadas entrevistas. Os outros três da dúbia já estão numa idade em que praticamente pode-se falar de tudo; mas para ter repercussão depende de outros mais novos para encampar. Logo, Burke que já está arranhado há muito tempo, após esse episódio final tem as portas fechadas ao seu remoto desejo em voltar a ter alguma influência no Colégio. Seus pares já não sentem confortáveis nem em estar presentes ao seu lado. Não será surpresa se renunciar a qualquer atividade, inclusive a honorífica que ora ocupa.
    Enfim, nesses assuntos, sábio é quem trabalha sem alarde!

  9. O modernismo conservador encontra-se em flagrante contradição. Reconhece que a ambiguidade de Amoris Laetitia é um risco às almas num ponto da doutrina que ainda lhes é caro, mas não dá igual tratamento às ambiguidades existentes em vários documentos do CVII, várias das quais são a gênese (ou a reedição mais escancarada) dos erros editados atualmente. Também daí, presumo, uma certa confusão do titubeante cardeal Muller.

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