Uma demissão, uma demolição: eis a nova Cúria Romana.

IHU – A reforma da Cúria vaticana que o Papa Francisco está implementando é realizada em parte sob a luz do sol e em parte na sombra. Entre os procedimentos tomados recentemente na sombra, há dois emblemáticos.

A nota é de Sandro Magister, publicada no seu blog Settimo Cielo, 11-01-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sobre o primeiro, quem levantou o véu foi o vaticanista Marco Tosatti, no dia 26 de dezembro, quando deu a notícia da ordem dada pelo papa a um chefe de dicastério de demitir imediatamente três dos seus oficiais, ordem dada sem explicações e sem aceitar objeções.

Hoje, sabe-se que o dicastério em questão não é de segunda categoria, é a Congregação para a Doutrina da Fé. E os três demitidos gozavam da plena apreciação do seu prefeito, o cardeal Gerhard L. Müller, por sua vez objeto de repetidos atos de humilhação, em público, por parte do papa.

Mas quem é, dos três depostos, o oficial que Francisco em pessoa – como relatado por Tosatti – repreendeu duramente por telefone por ter expressado críticas contra ele, que chegaram aos ouvidos do papa por obra de um delator?

É o sacerdote Christophe J. Kruijen, 46 anos, holandês, em serviço na Congregação para a Doutrina da Fé desde 2009, teólogo de reconhecido valor, premiado em 2010 pela Embaixada de França junto à Santa Sé com o prestigiado Prix Henri De Lubac, conferido a ele por unanimidade por um júri que incluía os cardeais Georges Cottier, Albert Vanhoye e Paul Poupard, pela sua tese teológica intitulada “Salvação universal ou duplo êxito do juízo: esperar por todos? Contribuição ao estudo crítico de uma opinião teológica contemporânea relativa à realização da condenação”, defendida na Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, sob a orientação do teólogo dominicano Charles Morerod, depois reitor da mesma universidade e hoje bispo de Lausanne, Genebra e Friburgo.

Os “novíssimos”, isto é, a morte, o juízo, o inferno, o paraíso, são o assunto preferido dos estudos de Kruijen. Mas dele também se aprecia um excelente ensaio sobre a filósofa judia e, depois, monja carmelita Edith Stein, morta em Auschwitz em 1942 e proclamada santa em 1998: “Bénie par la Croix. L’expiation dans l’oeuvre et la vie d’Edith Stein”.

Nos escritos e nos discursos públicos do Mons. Kruijen não há uma única palavra de crítica a Francisco. Mas bastou uma delação arrancada de uma conversa privada dele para fazê-lo cair em desgraça com o papa, que fez o machado cair.

Também disso é feita a reforma da Cúria, sob as ordens e com o estilo de Jorge Mario Bergoglio.

O segundo procedimento implementado na sombra diz respeito à Congregação para o Culto Divino, da qual é prefeito o cardeal Robert Sarah, ele também objeto de repetidas humilhações públicas por parte do papa e já condenado a presidir os escritórios e os homens que remam contra ele.

Dirigida pelo secretário da congregação, o arcebispo inglês Arthur Roche, foi instituída, por vontade de Francisco, dentro do dicastério, uma comissão cujo objetivo não é a correção das degenerações da reforma litúrgica pós-conciliar – ou seja, aquela “reforma da reforma” que é o sonho do cardeal Sarah –, mas precisamente o contrário: a demolição de um dos muros de resistência aos excessos dos liturgistas pós-conciliares, a instrução Liturgiam authenticam, emitida em 2001, que fixa os critérios para a tradução dos textos litúrgicos do latim às línguas modernas.

Com Bento XVI, esses critérios foram ainda mais reforçados, em particular pela vontade daquele papa de manter firme o “pro multis” do Evangelho e do missal latino nas palavras da consagração do sangue de Cristo, contra o “por todos” de muitas traduções correntes.

Mas Francisco deixou logo claro que isso o deixava indiferente. E agora, com a instituição dessa comissão, ele vai ao encontro das ideias de modernização da linguagem litúrgica, defendidas, por exemplo, pelo liturgista Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Sant’Anselmo e muito apreciado na Casa Santa Marta:

Há quem tema que, depois da demolição da Liturgiam authenticam, o próximo objetivo dessa ou de outra comissão seja a correção do Summorum pontificum, o documento com que Bento XVI liberou a celebração da missa no rito antigo.

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19 Comentários to “Uma demissão, uma demolição: eis a nova Cúria Romana.”

  1. Eu quero é que o Papa empurre mais a agenda progressista, está pouco Santo Padre, empurre mais, aliene mais, seja um “Papa Obama”! Só assim talvez tenhamos um “Papa Trump” que tenha a coragem de JOGAR ESSA MISSA NOVA FORA de uma vez por todas e comece a sanar o mal pela raiz!

  2. Papa Trump!? Não é possível pensar fora dos esquemas revolucionários e da onda do momento?
    Se alguém acha que Trump veio para mudar algo, está enganado: defende que os EUA sejam mais fiéis à Revolução Americana, aos “valores” dos Pais Fundadores, não que os EUA se reconstruam a partir da filosofia política tomista, que eles, como nação, nunca conheceram.
    Bento XVI era um “Papa Trump”, conservador da Revolução, que tentava agregar todos e pacificar a bagunça, dando ares de normalidade. Vejam no que deu.

    Ou a Missa Nova e todos os falsos princípios são condenados, ou continuaremos nessa situação, com a Igreja de sempre humilhada, de quem os modernistas sentem vergonha e a quem escondem.

  3. Os rumos que se apresentam no Vaticano para se conservar a doutrina da Igreja de sempre e de seus adeptos aparentam estarem sob pesado assedio, porém, é a chance que nos possibilita de chegarmos a um ponto de praticamente diferenciarmos as duas: a Igreja católica de sempre, com a doutrina tradicional, rígida, indaptável aos tempos e condições, não cedente a concessões doutrinarias para favorecimento de pessoas ou grupos e a outra, atualizada, bem similar a essa, no entanto, tolerante ao modernismo e seus inerentes relativismos.
    A segunda opção seria a igreja-para-todos, misturando-se católicos nas mais diversas condições de vida como benvindos, os filhotes de Lutero das mais diversas tendencias, ortodoxos, maometanos e quem mais desejar entrar, pouco se importando em que condições: o que convém é a prática e que todos estejam bastante satisfeitos!
    A nossa conhecida esquerdista falsaria Teologia da Libertação e signatarios aprovam e são aderidos a essa segunda opção por contemplar com as ideologias que professa e por apoiar o naturalecohumanismo, o do “Xamã” que cada um tem dentro de si – precisa exercitá-lo! – e das ideologias em que se assenta, de um futuro paradisíaco nesse mundo – embora seja constituído de mortos ainda ambulantes – dos morituri vos salutant.

  4. “Há quem tema que, depois da demolição da Liturgiam authenticam, o próximo objetivo dessa ou de outra comissão seja a correção do Summorum pontificum, o documento com que Bento XVI liberou a celebração da missa no rito antigo.”

    Para quem acredita que esse documento tem algum valor, de que ele realmente “liberou” a Missa de Sempre que nunca foi suprimida, então que se desespere. Aos verdadeiros católicos da tradição Bergoglio pode fazer qualquer coisa, continuaremos a ter a Missa Tridentina, a verdadeira Missa.

  5. Teólogo de reconhecido valor, que ganhou o prestigiado “Prix Henri De Lubac”, é brincadeira…
    O papa agora afasta os modernistas conservadores. E os católicos esperam destes alguma esperança de reação. O “catolicismo” seguido a risca da nova teologia que incluem De Lubac, Balthasar, Blondel e cia, serão os que agora salvarão a Igreja da demolição que promove o papa. Como sempre, a revolução dá 3, 4 passos e volta 1.

  6. Apesar de tudo isso, a única forma de restaurar a Igreja é permanecendo dentro dela ,pois, nestes dias difíceis é tentador abandonar a Missa de Sempre ministrada por algum instituto da Ecclesia Dei para assisti-la na FSSPX, mas, desde a morte de Dom Lefbvre e de todos os outros bispos tradicionalistas (Mayer, Bacci, Ottaviani) tudo o que temos são neoconservadores (Brandmüller, Burke, Caffarra ,Meisner, Sarah e Schneider), ora como já dizia o velho ditado ” quem não tem cão caça com gato”. Lembrem-se a reconquista da Península Ibérica levou 700 anos foi um processo lento mas que no final a Fé Católica triunfou ,portanto, não esperem que essa crise se resolva da noite para o dia, além do mais se todos os leigos que frequentam a FSSPX (1 milhão segundo algumas estimativas) colaborassem para ela entrar em comunhão com Roma a Restauração da Igreja seria muito mais rápida

    Quanto as estratégias de Bergolío repito o que disse num outro post: Ele não tem força pra destruir o Summorum pontificum ,pois, isso iria arruinar seu diálogo com a Fraternidade e frustaria qualquer tentativa de reconciliação, o que ele certamente não deseja.

    • não esperem que essa crise se resolva da noite para o dia, além do mais se todos os leigos que frequentam a FSSPX (1 milhão segundo algumas estimativas) colaborassem para ela entrar em comunhão com Roma a Restauração da Igreja seria muito mais rápida…

      [/IRONIC MODE ON]
      R- Logo, a culpa pela atual crise da Igreja é da FSSPX
      [/IRONIC MODE OFF]

    • É um absurdo desejar que a Fraternidade faça acordo com Roma, principalmente com esse Papa.
      O motivo principal da criação da Ecclesia Dei foi o de trazer os tradicionalistas para Roma para que, depois desse processo, os modernizassem.

      Todos sabem que qualquer instituto ou sociedade da Ecclesia Dei tem ao menos algum rastro do Vaticano II, algum espírito liberal. Uns celebram Missa Nova, outros admitem que ela não seja tão ruim, outros são bi-ritualistas, uns tem documentos do Vaticano II no seus estatutos e etc. Seja FSSP, seja Instituto Cristo Rei, IBP, Instituto do Verbo Encarnado; todos.

      Tomemos por exemplo a Fraternidade São Pedro. A Fraternidade São Pedro foi então fundada mediante um acordo enganador. Eles prometem toda a liberdade para se viver na Tradição, mas suas intenções são muito claras: eles não pensam em outra coisa senão trazer os fiéis de “sensibilidade” tradicional, a aceitar o Concílio, seu ecumenismo, sua missa.

      “Eu espero dos tradicionalistas recuperados que eles façam um esforço de leitura e compreensão do concílio a fim de que eles possam também assimilá-lo. Que eles trabalhem particularmente a questão da liberdade religiosa ou do diálogo com as outras religiões… Gostaria que os padres da Fraternidade São Pedro tenham a autorização de celebrar nos dois ritos… e que os seminaristas sejam preparados para celebrar no rito de Paulo VI.” (Mgr. Decourtray, arcebispo de Lyon, França, para a revista France Catholique, 25 de junho 1993)

      Os superiores da Fraternidade São Pedro passam também a apoiar o escândalo de Assis, quando João Paulo II reuniu representantes de todas as religiões para rezar pela paz, permitindo até mesmo que uma imagem de Buda fosse colocada sobre um sacrário! E o Pe. Baumann (um dos organizadores da FSSP na sua criação) declara não vê nada de mais em Assis! Como se as falsas religiões, sem Revelação e sem a vida da graça pudessem fazer oração no sentido sobrenatural do termo.

      A única que está salva de toda essa imundice é a Fraternidade São Pio X porque ela resiste!
      A Fraternidade não deve buscar acordo porque NADA LHES FALTA! Eles são perfeitamente católicos. E, se não possuem jurisdição ordinária, possuem jurisdição de suplência pelo óbvio estado de necessidade, que só não enxerga quem é muito cego. É só olhar pro lado. Roma é quem deve ir atrás da FSSPX pedindo desculpas e devolvendo a ela o que lhe é de direito: jurisdição ordinária total.

      Dom Fellay, superior da Fraternidade São Pio X, nos falou que os próprios bispos de Roma mandam-lhe cartas dizendo: “Resistam! Não façam acordo! Existe um plano em Roma para destruir a Fraternidade! A Fraternidade é a salvação da Igreja! Está tudo destruído aqui dentro! A Fraternidade deve salvar a Igreja! Mas se vocês podem confessar, então o que mais lhes falta?”

      Dom Fellay também disse que a situação de Roma com esse papa está tão problemática que os próprios bispos de Roma pedem para falar com Dom Fellay sobre a atual situação da Igreja e o que eles devem fazer. Quando houve a questão sobre a jurisdição ordinária da FSSPX para confessar, os bispos de de Roma disserem que “Quem Dom Fellay disser que pode confessar, pode confessar”.

      A Fraternidade não está fora da Igreja. Isso é bem óbvio e há vários cardeais dizendo isso. Não vou perder tempo citando aqui. Mas só o fato dos sacerdotes da FSSPX não estarem excomungados e terem jurisdição ordinária para confessar demonstra claramente. Quem diz isso é ignorante ou de má fé.

      O que pode acontecer se a FSSPX for atrás de um acordo são duas coisas:

      1. Vai ter um racha na Fraternidade São Pio X, como quase teve em 2012. Alguns padres aceitarão o acordo e outros não e os atuais 613 padres da Fraternidade se dividirão.

      2. A FSSPX vai passar um tempo “em comunhão” com Roma, depois Roma começará seus planos destrutivos para com a FSSPX e, como eu disse, vai ter um racha.

      Não tem pra quê Roma temer a Ecclesia Dei. Quando Roma quiser ela aperta definitivamente o parafuso, obrigando todos a celebrarem Missa Nova e etc. E isso nós sabemos muito bem que ela pode fazer. Já conhecemos a história dos Franciscanos da Imaculada e os casos que eu citei anteriormente.

      As Missas de Motu Proprio para quem não tem capela da fsspx tudo bem, entende-se; mas para quem tem capela da fsspx não tem sentido nenhum ir para as missas de motu proprio porque o espírito delas é outro. “Venham! Nós temos a Missa e temos o papa! Venham!” E quando se vê, o sacerdote celebra as duas missas ou vive dentro desse espírito que não é o espírito de luta verdadeiro do católico, um espírito que resiste à toda essa manifestação liberal que paira sobre Roma.

      Conheço padres de Motu Proprio que pegaram um pouco mais pesado contra o Concílio e seus bispos o removeram de suas posições, mandando-lhes para paróquias afastadas. Quando eles continuaram, o bispo deu um ultimato e tiveram de ficar calados. Uns foram para a FSSPX.

      A Fraternidade S. Pio X não quer simplesmente a Missa, ela quer a VERDADEIRA DOUTRINA CATÓLICA, é isso que vocês não entendem. Não é só Missa, é a verdadeira prática piedosa católica que foi destruída pelo Vaticano II que a Fraternidade quer manter. É o verdadeiro Catecismo. Não pense que só mandar seus filhos para Missa de Motu Proprio vai fazê-los ter a verdadeira doutrina sem distorções do Vaticano II. Não vai.

    • Não se iluda! Roma não dá a menor importância pra Ecclesia Dei. IBP, Campos, Fssp e etc…já foram abocanhados. O foco deles é a Fraternidade São Pio X, que cresce “assustadoramente” e eles sabem disso e eles têm pavor a isso.

    • Caro LAM,

      Certa vez, um bom Padre que conheci, fez-me esta pergunta de Teologia Moral:

      “Imagine um Homem casado e com filhos que, subitamente, chame uma concubina para dentro de casa; além de chamá-la para dentro de casa, pede para que Sua Esposa aceite tal situação como normal e que passem a conviver juntos o Homem, a concubina, a Esposa e os filhos legítimos.

      O que deveria fazer a Esposa??”

      Respondi-lhe na hora, sem pestanejar: “Deve exigir que o Marido, o Homem, expulse a amante!”

      Ao que ele me respondeu:”Magnífico! Então você já entendeu a crise na Igreja!”

      Entendeu?!?!

      Um grande abraço e

      Salve Maria.

  7. Anderson Fortaleza,
    Eu só demonstrei como sua analogia não faz sentido, porque Trump é só a outra face da mesma moeda, é Ratzinger x Bergoglio. Ele pode ser metido a machão, falar frases de efeito, mas está a serviço da Revolução, mesmo que, em um ponto ou outro, o establishment o odeie.
    Gostaria de poder dizer que precisamos de um Papa Fulano, mas a Igreja nunca passou por uma crise como essa. Que Nosso Senhor tenha piedade de nós e abrevie estes dias.

  8. Eu não sei porque as pessoas continuam com essas conjecturas malucas acerca da SSPX se nem sequer frequentam suas capelas ou tem contacto com seus Bispos e sacerdotes! É um disse-me-disse sem fim e sem fundamento!
    Dom Fellay já disse repetidas vezes que a solução para a Igreja só virá com o Papa, mas pelo menos pra nós ele especificou que isso não significa necessariamente com o “presente Papa”.
    A SSPX continua batendo na tecla da rejeição do Vaticano II porque sabe que a raiz de toda a crise vem de longe. Daí o motivo pelo qual não se une aos Bispos conservadores que querem combater os sintomas da doença, mas sem tocar na doença que é o Concílio.

  9. Xeque mate para a Liturgia. No tratado para comemoração conjunta da tal Reforma em 2017 chamado “Do conflito a comunhão” (do qual participaram os bispos Gerhard Ludwig Müller, Kurt Koch e Karlheinz Diez), conseguiram explicar que Lutero foi incompreendido e injustiçado pela hierarquia, mas foi testemunha do evangelho (não disse que os “progress” transformam o amargo em doce e vice versa?). Também chegaram num consenso sobre Ministério, Escritura / Tradição, Justificação e Eucaristia, ou seja: misture meia verdade mais outra meia verdade para dar uma mentira inteira (mas falando de progressistas tudo se resolve).
    Neste trabalho podemos entender a “ideologia bergogliana”: o anticlericalismo, o antiproselitismo, a “santidade” de Lutero, a misericordina e outras tantas controvérsias. Tal pai tal filho. É só acompanhar o andamento das suas reformas…”