Reflexões da Sagrada Escritura: A “astúcia da serpente”.

“Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós com vestidos de ovelhas, e por dentro são lobos rapaces. Pelos seus frutos os conhecereis” (S. Mateus, VII, 15).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

N.B.: Extraído do Livro “EM DEFESA DA AÇÃO CATÓLICA” da autoria do Prof. Plínio Corrêa de Oliveira (falecido em 1995).


“Comecemos pela virtude da argúcia, ou, em outros termos, pela virtude evangélica da astúcia serpentina. São inúmeros os tópicos em que Nosso Senhor recomenda insistentemente a prudência, inculcando assim aos fiéis que não sejam de uma candura cega e perigosa, mas façam coexistir sua cordura com um amor vivaz e diligente, dos dons de Deus; tão vivaz e tão diligente que o fiel possa discernir, por entre mil falsas roupagens, os inimigos que os querem roubar. Vejamos um texto.

lobo

“Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós com vestidos de ovelhas, e por dentro são lobos rapaces. Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinhos, ou figos dos abrolhos? Assim toda a árvore boa dá bons frutos, e a árvore má dá maus frutos. Não pode uma árvore boa dar maus frutos nem uma árvore má dar bons frutos. Toda árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada no fogo. Vós os conheceis pois pelos seus frutos” (S. Mateus, VII, 15 a 20).

Este texto é um pequeno tratado de argúcia. Começa por afirmar que teremos diante de nós não só adversários de viseira erguida, mas falsos amigos, e que portanto nossos olhos se devem voltar vigilantes não só contra os lobos que de nós se aproximam com a pele à mostra, mas ainda contra as ovelhas, a fim de ver se em alguma não descobriremos sob a lã alva o pelo ruivo e mal disfarçado de algum lobo astuto. Quer isto dizer em outros termos que o católico deve ter um espírito ágil e penetrante, sempre de atalaia  contra as aparências, que só entrega sua confiança a quem mostrar, depois de exame meticuloso e arguto, que é ovelha autêntica.

Mas como discernir a falsa ovelha da verdadeira? “Pelos frutos se conhecerão os falsos profetas”. Nosso Senhor afirma com isto que devemos ter o hábito de analisar atentamente as doutrinas e ações do próximo, a fim de conhecermos estes frutos segundo seu verdadeiro valor e de nos premunirmos contra eles quando maus. Para todos os fiéis esta obrigação é importante, pois que a repulsa à falsas doutrinas e às seduções dos amigos que nos arrastam ao mal ou que nos retêm na mediocridade é um dever. Mas para os dirigentes de Ação Católica, aos quais incumbe, a título muito mais grave, vigiar por si e vigiar por outrem, e impedir, por sua argúcia e vigilância, que permaneçam entre os fiéis, ou subam a cargos de grande responsabilidade homens eventualmente filiados a doutrinas ou seitas hostis à Igreja, este dever é muito maior. Ai dos dirigentes em que um sentido errado de candura faça amortecer o exercício contínuo da vigilância em torno de si! Perderão com sua desídia maior número de almas do que o fazem muitos adversários declarados do Catolicismo.

Incumbidos de, sob a direção da Hierarquia, fazer multiplicar os talentos, que são as almas existentes nas fileiras da Ação Católica, não se limitariam eles entretanto a enterrar o tesouro, mas permitiriam por sua “boa fé” que ele caísse nas mãos dos ladrões. Se Nosso Senhor foi tão severo para com o servo que não fez render o talento, que faria Ele a quem estivesse dormindo enquanto entrava o ladrão?

Mas passemos a outro texto.  –  “Eis que vos mando como ovelhas no meio de lobos. Sede pois astutos como as serpentes, e simples como as pombas. Acautelai-vos porém, dos homens, porque vos farão comparecer nos seus tribunais, e vos açoitarão nas suas sinagogas; e sereis levados por minha causa à presença dos governadores e dos reis, como testemunhos diante deles e diante dos gentios” (S. Mateus, VII, 16 a 18). Em geral, tem-se a impressão de que este texto é uma advertência exclusivamente aplicável aos tempos de perseguição religiosa declarada, já que ele só se refere à citação perante tribunais, governadores e reis, e à flagelação em sinagogas. À vista do que ocorre no mundo seria o caso de perguntar se há uma só país, hoje em dia, em que se possa ter a certeza de que, de um momento para outro, não se estará em tal caso.

De qualquer maneira, também seria errado supor-se que Nosso Senhor só recomenda tão grande prudência diante de perigos ostensivamente graves, e que de modo habitual pode um dirigente de Ação Católica renunciar comodamente à astúcia da serpente, e cultivar apenas a candura da pomba. Com efeito, sempre que está em jogo a salvação de uma alma, está em jogo um valor infinito porque pela salvação de cada alma foi derramado o sangue de Jesus Cristo. Uma alma é um tesouro maior do que o sol e a sua perda é um mal muito mais grave do que as dores físicas ou morais que possamos sofrer atados à coluna da flagelação ou no banco dos réus. Assim, tem o  dirigente da Ação Católica obrigação absoluta de ter olhos atentos e penetrantes como os da serpente, no discernir todas as possíveis tentativas de infiltração nas fileiras da Ação Católica bem como qualquer risco a que a salvação das almas possa estar exposta no setor a ele confiado.

A este propósito é muito oportuna a citação de mais um texto.  –  “E respondendo Jesus, disse-lhes: Vede que ninguém vos engane. Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e seduzirão muitos” (S. Mateus, XXIV, 4 a 5). É um erro supor que o único risco a que os ambientes católicos possam estar expostos consiste na infiltração de ideias nitidamente errôneas. Assim como o Anti-Cristo procurará inculcar-se como o Cristo verdadeiro, as doutrinas errôneas procurarão embuçar seus princípios em aparências de verdade, revestindo- os dolosamente de uma suposta chancela da Igreja, e assim preconizar uma complacência, uma transigência, uma tolerância que constitui rampa escorregadia por onde facilmente se desliza, aos poucos e quase sem perceber até o pecado. Há almas tíbias que têm uma verdadeira paixão de se colocar nos confins da ortodoxia, a cavalo sobre o muro que as separa da heresia, e aí sorrir para o mal sem abandonar o bem, – ou antes, sorrir para o bem sem abandonar o mal. Infelizmente, cria-se com tudo isso, muitas vezes, um ambiente em que o “sensus Christi” desaparece por completo e em que apenas os rótulos conservam aparência católica. Contra isto deve ser vigilante, perspicaz, sagaz, previdente, infatigavelmente minucioso em suas observações o dirigente da Ação Católica, sempre lembrado de que nem tudo que certos livros ou certos conselheiros apregoam como católico o é na realidade. “Vede que ninguém vos engane: porque muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu; e enganarão muitos” (S. Marcos, XIII, 5 e 6).

Outro texto digno de nota é este: “E estando em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, vendo os milagres que fazia, Mas Jesus não se fiava neles, porque os conhecia a todos, e porque não necessitava de que lhe dessem testemunho de homem algum, pois sabia por si mesmo o que havia no (interior do) homem” (S. João, II, 23 a 25).

Mostra-nos ele claramente que por entre as manifestações por vezes entusiásticas que a Santa Igreja possa suscitar, devemos aproveitar todos os nossos recursos para discernir o que pode haver de inconsistente ou de falho. Foi este o exemplo do Mestre. Quando necessário, não recusará Ele ao apóstolo verdadeiramente humilde e desprendido, até luzes carismáticas e sobrenaturais, para discernir os verdadeiros e os falsos amigos da Igreja. Com efeito, Ele que nos deu a recomendação expressa de sermos vigilantes não nos recusará as graças necessárias para isto. “Atendei a vós mesmos e a todo o rebanho, sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos para governardes a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida, se introduzirão entre vós lobos arrebatadores, que não pouparão o rebanho” (Atos XX, 28 e 29).

É certo que só se refere diretamente aos Bispos a obrigação de vigilância contido neste texto. Mas na medida em que a Ação Católica é um instrumento da hierarquia, instrumento vivo, inteligente, deve ela também estar de olhos vigilantes contra os lobos arrebatadores.
Afim de não alongar por demais esta exposição, citamos apenas mais alguns textos:

O mesmo S. Pedro ainda teve mais este conselho: “Vós, pois, irmãos, estando prevenidos, acautelai-vos, para que não caiais da vossa firmeza, levados pelo erro destes insensatos; mas crescei na graça e no conhecimento do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A Ele (seja dada) glória, agora e no dia da eternidade. Amém” (Idem, III, 17 e 18).

E não se julgue que só um espírito naturalmente inclinado à desconfiança pode praticar sempre tal vigilância. Em S. Marcos lemos: “o que eu pois digo a Vós, digo a todos: Vigiai” (XIII, 37). S. João aconselha com solicitude amorosa: “Filhinhos, ninguém vos seduza” (1
João III, 5 a 7).

A todos nós, membros da A. C. incumbe pois o dever da vigilância arguta e eficaz.”

* * *

N.B. : Onde neste artigo encontramos AÇÃO CATÓLICA, creio eu, Pe. Elcio, podermos colocar qualquer outro movimento similar católico, inclusive os sites e blogs católicos autênticos. É o que faz este blog que está sempre de atalaia contra os inimigos da Santa Igreja, inimigos estes, sejam externos, sejam internos. Que o Espírito Santo sempre mais os ilumine, fortifique e dê a todos a perseverança até o fim!

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19 Comentários to “Reflexões da Sagrada Escritura: A “astúcia da serpente”.”

  1. Devemos estar vigilantes mais que nunca, pois haveria à vista a criação de uma nova igreja e teríamos os nossos maiores inimigos dentro dessa, a começarem do Vaticano, e se disfarçariam até de pastores, embora aquela similar à Igreja católica de sempre.
    A nova igreja não se arremete ostensivamente contra a antiga, mas a sabota; doutra forma, atrai os incautos mais que essa, pois atenderia a demandas do modernismo, cativaria paixões, privilegiaria interesses e modos de vida presentes que não se prestam muito ou nada a se aterem a regras exigentes de renuncia pessoal e tomar a cruz, caso da exigente Igreja tradicional.
    Aliás, para que forjarem essa nova igreja se o relativista protestantismo abarca todas as tendencias, concepções, interesses e conveniencias, quer pessoais ou grupais? Destinaria apenas para manter-se denominado católico ou cooperando na instituição da sinistra igreja globalista?
    Convém notar que os adeptos da nova igreja usariam um chamariz aparentando “misericordia, acolhimento, tolerancia e afins” para que, gradativamente nos desprendêssemos da malicia do pecado sob varias modalidades comportamentais; dissimular-se-ia, no entanto, que cada caso deve se estudar, nem sempre estar subjetivamente em grave erro seria ao todo um mal, com acompanhamento e discernimento pessoal de cada caso poder-se-iam superar as objeções…
    Temos junto a nós, por ex., os muitos casais em segunda união ainda com vínculos matrimoniais anteriores alvos preferenciais da nova igreja, portanto, adúlteros, e ela quereria atenuar-lhes a culpabilidade do pecado, mas desconsideraria desvirtuarem os Sacramentos do Matrimonio indissolúvel, da S Comunhão e da Penitencia!
    Por outro lado, seus seguidores deveriam ser rejeitados dentro da comunidade tradicional por aqueles revolucionarios serem péssimos exemplos entre os fiéis, induzindo outros a se comportarem relativizadamente como eles, e ainda querendo se passarem por cristãos – pior ainda!
    “Mas eu simplesmente quis dizer-vos que não tenhais comunicação com aquele que, chamando-se irmão, é impuro, avarento, idólatra, difamador, beberrão, ladrão. Com tais indivíduos nem sequer deveis comer”. 1 Cor 5,11.
    “Se alguém vier a vós sem trazer esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis”. 2 Jo 1,10.

  2. Que belo e oportuno texto sobre a virtude evangélica da astúcia serpentina, trazido à colação pelo Rev. Pe. Élcio Murucci, para as páginas deste blog, que está “sempre de atalaia contra os inimigos da Santa Igreja, inimigos estes, sejam externos, sejam internos”! Muito oportuno mesmo, pois os fiéis católicos devem ter extrema perspicácia com relação a pessoas, doutrinas e ambientes do mundo atual, sobretudo a astúcia e prudência aplicadas ao próprio mundo católico. De fato, em tempos de louvação farisaica da virtude da misericórdia, ficam eles solicitados pelos altos prelados a abraçarem os inimigos da Igreja, e a fazerem de conta que as diferenças doutrinais não têm mais importância.
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    O simples fato de um Papa católico sentar-se ao lado de uma estátua de Lutero, na grande sala de audiências do Vaticano, para ali receber e louvar peregrinos luteranos, que foram ao bastião do Catolicismo para celebrar o brado de revolta de Lutero, não ilustra de modo cristalino o espantoso apagamento do senso católico, desse bom senso dos fiéis – o “sensus fidelium” – que os leva a detectarem e rejeitarem o que não está de acordo com a ortodoxia católica? É sobre essa ferida dolorosa – essa insensibilidade diante da heresia, ou melhor, essa condescendência desprevenida e sorridente que é fronteiriça da apostasia, que afeta o rebanho católico –, que quero tratar, e não sobre o gravíssimo fato da transformação dos pastores em lobos vorazes.
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    Focalizo a região cinzenta dessa apostasia virtual nas fileiras católicas. Neste ponto, não me refiro aos que saíram de modo explícito da Igreja Católica e adentraram nas seitas e lojas. Com efeito, há um número imenso, incalculável, de fiéis católicos, sobre os quais paira essa tremenda incógnita: quem deles, dos que ainda são da Igreja Católica, ainda é realmente católico? Como disse há setenta anos Dr. Plinio, “Há almas tíbias que têm uma verdadeira paixão de se colocar nos confins da ortodoxia, a cavalo sobre o muro que as separa da heresia, e aí sorrir para o mal sem abandonar o bem, – ou antes, sorrir para o bem sem abandonar o mal”. É o retrato do estado atual do rebanho católico. Essas almas tíbias, que padecem de grave crise de fé, hoje constituem a parcela majoritária do mundo católico.
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    O fruto de cinquenta anos de labor pastoral bafejado pelo Concílio Vaticano II é esse fato espantoso que, entretanto, não desperta quase nenhuma comoção nas fileiras do episcopado católico: a grande massa dos fiéis se deslocou do centro da ortodoxia católica para a periferia fronteiriça da apostasia. Por isso, a grande tarefa apostólica, reservada para um Pontífice realmente católico que a Providência conceda para a direção e restauração da Santa Igreja, será a realização da obra inversa: a recondução – das zonas de ambiguidade doutrinal, de permeação de heresia, de contágio nocivo recebido nas aproximações ecumênicas –, para o terreno seguro da fé.
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    Não se trata, como poderia supor um espírito leviano e inexperiente, de promover o mero retorno aos tempos do saudoso Papa Pio XII. Porque nessa derradeira fase da chamada Igreja Constantiana – os anos 1940 e 1950 –, já começavam a espocar por todo o corpo da Igreja Católica os pruridos que logo mais se transformaram nas chagas purulentas do período pós-conciliar. É preciso haver uma plena restauração da ordem, na Igreja e na sociedade temporal. Plinio Corrêa de Oliveira, no seu livro “Revolução e Contra-Revolução”, deixou delineado o itinerário para a efetiva restauração da Cristandade e instauração do Reino de Maria profeticamente previsto em Fátima. Com efeito, depois de cada prova, a Igreja emerge particularmente armada contra o mal que procurou prostrá-La. Guardado sempre o depósito da fé e assim preservados os princípios basilares e perenes do magistério da Igreja, as características próprias acidentais de uma nova Contra-Reforma, de uma nova ordem cristã nascida da Contra-Revolução, deverão exprimir, de forma refulgente e triunfante, três pontos capitais, sendo o último deles uma manifestação portentosa da astúcia serpentina cristã:
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    “– Um profundo respeito dos direitos da Igreja e do Papado e uma sacralização, em toda a extensão do possível, dos valores da vida temporal, tudo por oposição ao laicismo, ao interconfessionalismo, ao ateísmo e ao panteísmo, bem como a suas respectivas sequelas.
    – Um espírito de hierarquia, marcando todos os aspectos da sociedade e do Estado, da cultura e da vida, por oposição à metafísica igualitária da Revolução.
    – Uma diligência no detectar e no combater o mal em suas formas embrionárias ou veladas, em fulminá-lo com execração e nota de infâmia, e em puni-lo com inquebrantável firmeza em todas as suas manifestações, e particularmente nas que atentarem contra a ortodoxia e a pureza dos costumes, tudo por oposição à metafísica liberal da Revolução e à tendência desta a dar livre curso e proteção ao mal.”

  3. IHS – Gostaria de parabenizar o Revmo. Pe. Élcio Murucci, que não tenho o prazer de conhecer, pelo excelente texto do Prof. Plinio texto este com um autentico espirito católico.
    O mesmo mostra muito bem um espirito católico sem sentimentalismo barato, sem misericórdias falsas e porque não dize-ló sem incentivo insensato a discórdias no ambiente dos católicos autênticos. Parabéns também ao FIU pela difusão de tão boa doutrina.

  4. Muito boa a explicação do Dr Plínio desta virtude! Parabéns, apesar de já morto! Eu admiro muito suas obras.

  5. Durante mais de 10 anos, frequentando a Tradição Católica, sempre me perguntei o que tanto opunham os Professores e Doutores Plínio Correia de Oliveira e Orlando Fedeli, apesar de suas respectivas e magníficas obras contrarrevolucionárias: a TFP (antes de cair nas mãos modernistas de Monsenhor Clá Dias) e Associação Cultural Montfort. Mas, depois de entender que o rebanho se dispersa depois que o pastor é ferido, conclui que esse questionamento é irrelevante diante da seriedade da crise episcopal, agravada por esse pontificado desastroso.

    • Não tenho elementos para acreditar que o Monsenhor João Clá seja um modernista em sentido estrito. Estive duas vezes na igreja central deles em Caieiras, e os padres celebram boa parte em latim e com bastante respeito (apesar de no Novus Ordo). E as missas particulares, nas capelas laterais, são até voltadas para o altar. Em termos de sacralidade não notei a menor desvantagem em relação às missas tridentinas que por vezes participo. Claro que não estou discutindo a teologia do rito em si, mas o espírito modernista/materialista/protestantoso eu não senti em momento algum. Falo isso por uma questão de consciência. Aliás, os conselhos que recebi em confissão foram os mais ortodoxos possíveis – e penso que é aí, mais do que tudo, que se conhece o que um padre pensa/ensina.
      Sei que já houve brigas homéricas entre discípulos do Dr Plinio por conta dessas e outras questões, mas o fato é que, quando tive oportunidade de checar pessoalmente, encontrei algo bem diferente do cenário que tinham me pintado. Rezo para que a graça de Deus suplante esses cismas e cicatrize essas coisas, e que no futuro o rebanho se una novamente. A Igreja só tem a ganhar.
      Já com relação ao Orlando Fedeli, prefiro não opinar muito. Mas a experiência que tive seus seguidores foi um tanto quanto perturbadora.
      Enfim, como disse, diante do tamanho da crise que está corroendo tudo, acredito que essas questões vão se tornando irrelevantes.

    • Todos esses aí são de certa forma filhos do Professor Plínio Correa. Pois herdaram muito das suas carcteristicas e ensinamentos: doutrinamente e moralmente falando. Tanto os filhos do ramo do Professor Orlando Fideli quanto os filhos do ramo do Monsenhor João Clã e o tronco dos Fundadores da TFP são muito afetados pelos seus ensinamentos – evidente. Mesmo a influencia da personalidade do Plinio Correa. Ainda em parte, no temperamento – e destempero, se é que o Dr. Plinio alguma vez se revelou assim em momentos ruins.

      Há ramos para todos os gostos. Devido ao grande apostolado que exerceu, deixou uma geração enorme de filhos. Tradicionalistas a rigor. Conservadores a rigor. Penso que Plino Correa intercede por todos esses filhos e lhes quer muito bem.

      E quem quiser transitar nesse meio – em qualquer meio – tem que ser simples e prudente. Tal como o autor do texto recomenda.

  6. ‘não ilustra de modo cristalino o espantoso apagamento do senso católico, desse bom senso dos fiéis – o “sensus fidelium”‘.
    Você não acha que o ideal seria ‘fidelis’ em vez de ‘fidelium’, pois desses, alguns não acompanham certos ensinamentos do papa Francisco em pedido de esclarecimentos pelos cardeais?

  7. Escolhi este trecho da citação para a meditação desta manhã: “Mas como discernir a falsa ovelha da verdadeira? “Pelos frutos se conhecerão os falsos profetas”. Nosso Senhor afirma com isto que devemos ter o hábito de analisar atentamente as doutrinas e ações do próximo, a fim de conhecermos estes frutos segundo seu verdadeiro valor e de nos premunirmos contra eles quando maus. Para todos os fiéis esta obrigação é importante, pois que a repulsa à falsas doutrinas e às seduções dos amigos que nos arrastam ao mal ou que nos retêm na mediocridade é um dever. ”

    Perigos nos espreitam a todo momento e ela podem estar a meu lado, andando, falando, executando trabalhos ou mesmo divertindo-se.

  8. Cada dia que passa lendo e conhecendo Dr. Plínio pelos seus escritos e pelas pessoas que o conheceram de perto passo a acreditar que talvez muitas injustiças foram feitas a ele, até mesmo pelo meio católico tradicional.

    • Cumprimento-o pela justeza de seu comentário com relação a Plinio Corrêa de Oliveira. Em sua lápide consta a inscrição: vir catholicus, totus apostolicus, plene romanus. Eu dou testenho de que o foi.

  9. Antonio Carlos – Já que teve oportunidade de frequentar os A. Evangelho aproveito para lhe perguntar algo. Não é minha pretensão entrar em discussão sobre o cerne das questões… Vc. tem alguma noção da posição deles perante o Concilio Vaticano II? Pensam da mesma forma a este proposito como Dr. Plinio em seu livro Revolução de Contra Revolução? Acompanho o pessoal do IPCO em especial suas brilhantes campanhas contra o aborto, esquerdização do Brasil, etc. Confesso que não acompanho o pessoal dos Arautos, dai minha pergunta.

    • Faço meus os seus questionamentos ao fundador dos Arautos em especial quanto à adesão aos postulados do livro básico de todo verdadeiro contra-revolucionário. Parece que se afastou completamente já que encerrou a TFP na maior inatividade nunca antes permitida por Plinio Corrêa de Oliveira.

    • Gamaliel e Nilo, sobre essa questão não cheguei a conversar quando estive lá. Mas tenho uma recordação que pode ser útil: há uns 5 anos me deparei num restaurante com um grupo de pessoas ligadas aos arautos, e dentre eles havia um padre, com o qual puxei assunto. Quando mencionei o concilio, o padre me disse que “a posição dos arautos sobre o concílio era a mesma de Bento XVI” (o papa da época). Já sobre o entendimento do Dr. Plinio sobre o assunto, não sei como está na prática, mas é fato que estão fazendo uma considerável propaganda da vida dele (até me ofereceram uma coleção da biografia, que aliás, veio com muitas histórias de bastidores “clero x Dr Plinio”). Aí penso que seria meio ilógico divulgarem o homem sem concordar com aquilo que ele ensinou (mas é uma posição minha). Enfim, isso é o que sei, se é que pode ajudar em algo

    • acrescentado em 1992:
      Surpreendentes calamidades na fase pós-conciliar da Igreja
      Sobre as calamidades na fase pós-conciliar da Igreja, é de fundamental importância o depoimento histórico de Paulo VI na Alocução “Resistite fortes in fide”, de 29 de junho de 1972, que citamos aqui na versão da Poliglotta Vaticana: “Referindo-se à situação da Igreja de hoje, o Santo Padre afirma ter a sensação de que ‘por alguma fissura tenha entrado a fumaça de Satanás no templo de Deus’. Há – transcreve a Poliglotta – a dúvida, a incerteza, o complexo dos problemas, a inquietação, a insatisfação, o confronto. Não se confia mais na Igreja; confia-se no primeiro profeta profano [estranho à Igreja] que nos venha falar, por meio de algum jornal ou movimento social, a fim de correr atrás dele e perguntar-lhe se tem a fórmula da verdadeira vida. E não nos damos conta de já a possuirmos e sermos mestres dela. Entrou a dúvida em nossas consciências, e entrou por janelas que deviam estar abertas à luz. ….
      “Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia ensolarado para a História da Igreja. Veio, pelo contrário, um dia cheio de nuvens, de tempestade, de escuridão, de indagação, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos afastamos sempre mais uns dos outros. Procuramos cavar abismos em vez de soterrá-los.
      “Como aconteceu isto? O Papa confia aos presentes um pensamento seu: o de que tenha havido a intervenção de um poder adverso. Seu nome é diabo, este misterioso ser a que também alude São Pedro em sua Epístola” (cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. X, pp. 707-709).
      Alguns anos antes, o mesmo Pontífice, na Alocução aos alunos do Seminário Lombardo, no dia 7 de dezembro de 1968, havia afirmado que “a Igreja atravessa hoje um momento de inquietação. Alguns praticam a autocrítica, dir-se-ia até a autodemolição. É como uma perturbação interior, aguda e complexa, que ninguém teria esperado depois do Concílio. Pensava-se num florescimento, numa expansão serena dos conceitos amadurecidos na grande assembléia conciliar. Há ainda este aspecto na Igreja, o do florescimento. Mas, posto que ‘bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu’, fixa-se a atenção mais especialmente sobre o aspecto doloroso. A Igreja é golpeada também pelos que dEla fazem parte” (cfr. Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, vol. VI, p. 1188).
      Sua Santidade João Paulo II traçou também um panorama sombrio da situação da Igreja: “É necessário admitir realisticamente e com profunda e sentida sensibilidade que os cristãos hoje, em grande parte, sentem-se perdidos, confusos, perplexos e até desiludidos: foram divulgadas prodigamente idéias contrastantes com a Verdade revelada e desde sempre ensinada; foram difundidas verdadeiras e próprias heresias, no campo dogmático e moral, criando dúvidas, confusões e rebeliões; alterou-se até a Liturgia; imersos no ‘relativismo’ intelectual e moral e por conseguinte no permissivismo, os cristãos são tentados pelo ateísmo, pelo agnosticismo, pelo iluminismo vagamente moralista, por um cristianismo sociológico, sem dogmas definidos e sem moral objetiva” (Alocução de 6-2-81 aos Religiosos e Sacerdotes participantes do I Congresso Nacional Italiano sobre o tema “Missões ao Povo para os Anos 80”, in “L’Osservatore Romano”, 7-2-81).
      Em sentido semelhante pronunciou-se posteriormente o Emmo. Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé: “Os resultados que se seguiram ao Concílio parecem cruelmente opostos às expectativas de todos, a começar do papa João XXIII e depois de Paulo VI. …. Os Papas e os Padres conciliares esperavam uma nova unidade católica e, pelo contrário, se caminhou para uma dissensão que – para usar as palavras de Paulo VI – pareceu passar da autocrítica à autodemolição. Esperava-se um novo entusiasmo e, em lugar dele, acabou-se com demasiada freqüência no tédio e no desânimo. Esperava-se um salto para a frente e, em vez disso, encontramo-nos ante um processo de decadência progressiva ….”. E conclui: “Afirma-se com letras claras que uma real reforma da Igreja pressupõe um inequívoco abandono das vias erradas que levaram a conseqüências indiscutivelmente negativas” (cfr. Vittorio Messori, A coloquio con il cardinale Ratzinger, Rapporto sulla fede, Edizioni Paoline, Milano, 1985, pp. 27-28).”

      Acresce o fato de que os Arautos nada fazem — desconheço qualquer ação pública — para lutar contra a IV Revolução nascente denunciada por Plinio Corrêa de Oliveira neste mesmo livro.

  10. Nilo, compreendo plenamente e concordo com cada vírgula que transcreveu. Mas quanto à questão de ação pública, há muita coisa que pode ser feita, em vários campos. Por exemplo, além de uma campanha nas praças, uma palestra, ou a publicação de vídeos online, penso que a celebração de uma missa numa igreja com cantos em latim, incenso e sinos causa um impacto bem grande contra essa corrente aviltante e materialista. Uma missa celebrada com sacralidade não poderia ser considerada um ato público contra essa corrente? Acho que quem leu o Livro ‘Revolução e Contra-Revolução (que transcreveste) reparou que o Dr Plinio dizia da revolução “tendencial”, ou seja, aquela que começava antes mesmo das ideias se concretizarem. Assim, penso com meus botões se não seria uma espécie de ‘contra-revolução tendencial’ aquelas missas que eles fazem… E num mundo cada vez mais irracional, talvez a parte tendencial seja mais eficaz do que a intelectual (me perdoe se estiver errado). No caso ‘aráutico’, pode-se questionar a utilização do Novus Ordo, e nesse sentido concordo que eles não são tradicionalistas mesmo. Mas daí a concluir que estão participando da ‘auto-demolição’ (relativismos, heresias, permissivismo, afrouxamento moral, cristianismo sociológico, etc,) acho que é uma conclusão um tanto arrojada (que não estou dizendo que fizestes). Enfim, essa é uma matéria que dá muito assunto, e não sei se sou o mais indicado para fazê-lo

    • O professor Plinio Corrêa de Oliveira sempre destacou que a ação contra-revolucionária à qual se dedicou toda sua vida se situou na esfera temporal. Como aqui se trata de fidelidade aos princípios de ação de Plinio Corrêa de Oliveira, conclui-se claramente, sem sombra de dúvida, que os Arautos se situam no campo de ação diferente da que desejou que a contra-revolução atuasse, e é lógico seus discípulos.

    • Nilo e Antonio Carlos – Embora tenha dado inicio a estas considerações entro meio de atravessado agora na mesma. O que me parece. observando os aspectos citados pelo Antonio Carlos são os seguintes; O ponto é se os Arautos são verdadeiros seguidores do Prof. Plínio ou se abandonaram sua escola? Ficariam com uma marca horrível de traição se admitissem isto de fato.
      Pelo que vi na vida do Prof.Plinio ele enfrentou uma luta colossal, despertando ódios, calunias, perseguições inusitadas contra ele e sua luta. Nao se importou e combateu o bom combate de viseira erguida. Isto contra o progressismo na Santa Igreja e a ´comunistiização´ do Brasil e por que não do mundo em geral.
      Este ódio ficou bem marcante inclusive em vários setores modernistas e TL.
      Os Arautos, pelo que vejo, só se manifestam naquilo que nao causa maiores problemas. Fanfarras, Missa bonita, construções suntuosas, etc, etc, etc… E a luta a qual Dr. Plinio entregou sua vida?
      Por outro lado a obra de Dr. Plinio, a TFP, no Brasil foi amordaçada pelo trabalho de quem?
      Isto são algumas considerações que faço um tanto olhando o debate de fora.

      saudações todos.

  11. Pelo que sei do Dr Plinio, ele resolveu fixar de vez sua luta na esfera temporal somente depois que não obteve êxito ao tentar atuar – por meio do Dom Mayer e Dom Sigaud – em sessões do CVII. Mas antes disso ele atuava muito na esfera religiosa, prova disso é o magnífico texto aqui transcrito, destinado à Ação Católica. Foi congregado mariano, terciário carmelita, orador de congressos eucarísticos, e só ficou de fora quando foi completamente MARGINALIZADO pelo clero. Quanto ao ódio, claro que não tem como comparar, mas já ouvi muitas manifestações de aversão do clero com relação aos arautos…inclusive uma das coisas que mais me motivaram a tomar a iniciativa de ir lá foi uma inexplicável birra da parte de um sacerdote e de alguns seminaristas da cidade onde moro (infelizmente de vida moral BEM depravada). E sobre a obra de Dr Plinio ‘amordaçada’, até hoje não consigo entender bem o que isso significa, pois o IPCO está aí a plenos pulmões em suas campanhas e ninguém tolhe suas vozes, e todos o identificam imediatamente com a TFP. Nesse exato momento estão fazendo campanha contra o aborto em cidades do Brasil. É obra de Dr Plinio, e não o vejo amordaçado. São almas, e não um nome ou sigla. Aliás, acho que Deus foi sábio ao permitir que nenhuma das duas vertentes ficasse com o nome TFP; assim fica bem nítido na história quando foi uma atividade feita em união e quando foi em divisão.