O Papa e a Ordem de Malta: uma vitória de Pirro?

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza romana, 25-01-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: A renúncia do Grão-Mestre da Ordem de Malta, Matthew Festing, imposta por Francisco em 23 de janeiro, é susceptível de transformar-se numa vitória de Pirro. O Papa Bergoglio obteve o que queria, mas teve de usar a força, fazendo violência à lei e ao bom senso. O que terá consequências graves não só no interior da Ordem de Malta, mas entre os católicos do mundo inteiro, cada vez mais perplexos e confusos pelo modo como Francisco governa a Igreja.

O Papa sabia que não possuía qualquer direito legal para intervir na vida interna de uma Ordem soberana, e muito menos para exigir a renúncia de seu Grão-Mestre. Também sabia que este não poderia resistir à pressão moral de um pedido de renúncia, ainda que ilegítima.

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Assim agindo, o Papa Bergoglio exerceu um ato de império abertamente contrastante com o espírito de diálogo, que foi o leitmotiv do ano da misericórdia. Mas, o mais grave é que a intervenção foi para “punir” a corrente que na Ordem é mais fiel ao Magistério imutável da Igreja e apoiar a ala laicista, que gostaria de transformar os Cavaleiros de Malta em uma ONG humanitária, distribuidora de preservativos e abortivos, “para fazer o bem”. A próxima vítima parece ser o cardeal-patrono Raymond Leo Burke, que tem a dupla “culpa” de ter defendido a ortodoxia católica dentro da Ordem e de ser um dos quatro cardeais que criticaram os erros teológicos e morais da Exortação bergogliana Amoris laetitia.

Em seu encontro com o Grão-Mestre, o Papa Francisco anunciou-lhe a sua intenção de “reformar” a Ordem, ou seja, a vontade de elidir o seu caráter religioso, embora seja precisamente em nome da autoridade papal que ele quer começar a suspensão das normas religiosas e morais. Trata-se de um projeto de destruição da Ordem, que naturalmente só poderá acontecer através da rendição dos Cavaleiros, os quais infelizmente parecem ter perdido o espírito militante que os distinguia nos campos de batalha das Cruzadas e nas águas de Rhodes, Chipre e Lepanto. Ao fazê-lo, no entanto, o Papa Bergoglio perdeu muito de sua credibilidade, não só aos olhos dos próprios cavaleiros, mas de um número crescente de fiéis que sentem a contradição entre o seu modo de falar, cativante e melífluo, e o de agir, intolerante e ameaçador.

Passemos do centro à periferia, a qual, entretanto, para o Papa Bergoglio, é mais importante do que o centro. Poucos dias antes da demissão do Grão-Mestre da Ordem de Malta, outra notícia na mesma linha abalou o mundo católico. Dom Rigoberto Corredor Bermúdez, Bispo de Pereira, na Colômbia, por decreto de 16 de Janeiro de 2017, suspendeu a divinis o padre Alberto Uribe Medina, porque, segundo o comunicado da diocese, ele teria “expressado pública e privadamente sua rejeição ao magistério doutrinário e pastoral do Santo Padre Francisco, sobretudo no que diz respeito ao casamento e à Eucaristia”. O comunicado da diocese acrescenta que, por causa de sua posição, o sacerdote “se separou publicamente da comunhão com o Papa e com a Igreja”.

Portanto, o padre Uribe foi acusado de ser herege e cismático por recusar aquelas orientações pastorais do Papa Francisco que, aos olhos de tantos cardeais, bispos e teólogos, são suspeitas de heresia precisamente porque parecem afastar-se da fé católica. O que significa que o sacerdote que se recusar a administrar a comunhão a divorciados recasados ou a homossexuais praticantes será suspenso a divinis ou excomungado, enquanto aquele que rejeita o Concílio de Trento e a Familiaris Consortio é promovido a bispo e, talvez, a cardeal, como provavelmente espera Dom Charles Scicluna, Arcebispo de Malta, um dos dois prelados malteses que autorizaram oficialmente a comunhão para divorciados recasados que vivem more uxorio. Desta forma, o nome da pequena ilha do Mediterrâneo parece ter uma ligação misteriosa com o futuro do Papa Francisco, menos tranquilo do que se imagina.

Quem é hoje ortodoxo, e quem é herege e cismático? Este é o grande debate que se delineia no horizonte. Um “cisma de fato”, como o definiu o jornal alemão Die Tagespost, ou seja, uma guerra civil na Igreja, da qual a guerra no interior da Ordem de Malta é apenas um pálido prenúncio.

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8 Comentários to “O Papa e a Ordem de Malta: uma vitória de Pirro?”

  1. Outros fatores negativos relatados contra o papa Francisco que poderiam eclodir serão, além do acima, se acaso o pres D Trump aceitar a proposta de uma carta aberta de varios importantes signatarios, pedindo-lhe que promova uma investigação se existiriam vínculos entre a administração esquerdista do ex presidente Barack Obama com o Vaticano e que poderia trazer respingos a ele, se eventualmente existentes e de que envergadura, questão de aguardar.
    Vitoria de Pirro? Tudo indicaria nessa direção a intervenção, recordando que, após a batalha de Ásculo, o rei Pirro, ao felicitar seus generais depois de verificar as enormes baixas sofridas por seu exército dissera ser uma vitoria ingloria, mais uma dessa estaria acabado; a expressão “vitória de Pirro” é usada para expressar uma conquista cujo esforço não compensou.
    A pressão que teria existido em cima da Ordem de Malta e a submeteria ou a apontaria para novos direcionamentos pareceria ter sido muito mais desgastante e desvantajosa que o contrario.

  2. Recordar é viver e não esquecer…
    https://fratresinunum.com/2012/01/02/a-mafia-argentina-do-cardeal-bergoglio/
    Modus Operandi antigo de Bergoglio.
    Papa Imbróglio é um chefe: não é líder, não é pastor, não é guia, não é conselheiro e muito menos um exemplo; infelizmente…

    • Marcus, desconhecia esse artigo e fiquei surpreso como tudo depois se confirmou: a vingança contra Dom Rogélio veio ainda em 2013…
      Talvez fosse até oportuno ao Ferreti republicar este artigo, pois ele nunca foi tão atual…

  3. Resumindo: hoje já existe um cisma na Igreja.

  4. Aguardemos agora a inevitável vingança do “misericordioso” Bergoglio contra o Cardeal Burke, afinal ele deu essa volta imensa pra chegar a isso, não vai parar por aí…

  5. Em várias conversas com amigos, entre eles o Alcleir e o Rogério Silva (lembram?…), chegamos num ponto pacífico: à crise de fé, precede a crise de identidade.
    Esclareço.
    Se você perde os limites, as definições, os pertencimentos, as raízes, os compromissos, as memórias, a doutrina, as promessas, as respostas, os tesouros, a história e as estórias, as lições, o vínculo, a inteireza, a atalaia, a justiça, a verdade, a fortaleza, a sabedoria, a verdadeira bondade, a reta instrução, o límpido conselho, a correção fraterna etc etc etc…
    Em suma: se você não sabe quem você é, se você não sabe o que é ser católico; se você acha que as coisas são um amalgama pastoso que brota lindamente das cabeças-de-melão humanas, sem nada identificável como bem ou mal; se você acha que a sua opinião é a coisa mais preciosa que existe; se você acha que a fé é um “sentimento lindo”, então… me desculpe… Deus não pode acreditar em você, por que você, no fundo, não existe.
    E aquilo que não existe, nem católico pode ser!
    Daí a emergência do Papa Imbróglio com as suas palavras etéreas, com seu “ar” de bom-mocismo, mas que é a culminância de um processo de esvaziamento da verdadeira substância católica.

  6. Podem escrever…Bergoglio vai acabar cassando a púrpura do grande Cardeal Burke, numa manobra para impedir uma eventual eleição dele ao Trono de Pedro, em detrimento a um dos candidatos da ala esquerdista da Igreja.