Reflexões da Sagrada Escritura: Da Bondade e da Malícia dos atos humanos em geral.

“Todo aquele que faz o mal, aborrece a luz” (S. João, III, 20).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

 

NB.: SUMA TEOLÓGICA de Santo Tomás de Aquino, 1ª Parte da 2ª Parte

Questão XVIII. “Em primeiro lugar devemos tratar de como uma ação humana é boa ou é má. E sobre esta primeira questão se discutem 11 artigos:

  1. Se toda ação é boa ou se há ações más.
  2. Se a ação do homem tira do objeto a sua bondade ou malícia.
  3. Se a ação do homem tira da circunstância a sua bondade ou malícia.
  4. Se a ação do homem tira do fim a sua bondade ou malícia.
  5. Se uma ação humana é especificamente boa ou má.
  6. Se o fim especifica os atos em bons e maus.
  7. Se a espécie que procede do fim está contida na que procede do objeto, como no gênero, ou se inversamente.
  8. Se há atos especificamente indiferentes.
  9. Se há atos concretamente indiferentes.
  10. Se uma circunstância especifica o ato moral como bom ou mau.
  11. Se toda circunstância que aumenta a bondade ou a malícia especifica o ato moral com bom ou mau.

ARTIGO I – Se todas as ações humanas são boas ou se há ações más.

OBJEÇÕES: Este primeiro artigo discute assim: Parece que todas as ações do homem são boas e nenhuma é má. [Pelo método de Santo Tomás de Aquino, a tese verdadeira é sempre a contrária à que é apresentada como parecendo ser certa].

1ª – Pois, como diz Dionísio, o mal só age em virtude do bem. Ora, a virtude do bem não produz o mal. Logo, nenhuma ação é má.

2ª – Ademais. – Nada age senão enquanto atual. Ora, nada é mau por ser atual, mas por ser a potência privação do ato; pois, um ser é bom na medida em que a potência é aperfeiçoada pelo ato, como diz Aristóteles. Ora, nada age enquanto mau, mas só enquanto bom. Logo, todas as ações são boas e nenhuma é má.

3ª – Ademais. – Só acidentalmente o mal pode ser causa, com se vê claramente em Dionísio. Ora, de toda ação há de resultar algum efeito, necessariamente. Logo, nenhuma é má, mas todas são boas. Mas, ao contrário (SED CONTRA) diz o Senhor em João III, 20: “Todo aquele que pratica o mal, aborrece a luz”.

RESPONDEREI as objeções, explicando antes os termos: Devemos dizer do bem e do mal das ações como se fala do bem e do mal das coisas, porque há proporção entre estas e as suas ações. Ora, cada coisa é boa na mesma medida em que é [=existe]: pois o bem e o ser se convertem,[=se equiparam] como já se disse na primeira parte (q. , a. I, 3ª). Só Deus porém tem toda a plenitude do ser, por causa da sua unidade e simplicidade; ao passo que as criaturas possuem a plenitude do ser que lhes convém, de modo múltiplo. Assim, umas possuem o ser de modo relativo, e contudo falta-lhes algo à plenitude devida. A plenitude do ser humano, p. ex. implica a composição de alma e corpo, com todas as potências e instrumentos do conhecimento e do movimento; por onde, a quem faltar um desses elementos, faltar-lhe-á algo da plenitude do seu ser. Pois quanto tiver de ser, tanto terá de bondade; e na medida em que lhe faltar algo da plenitude do seu ser, nessa mesma medida, lhe faltará a bondade e será considerado mau; assim, para um cego é bem o viver; e mal, estar privado da visão. Se porém não tivesse nenhum ser ou nenhuma bondade, não poderia considerar-se mau nem bom. Como, porém, da essência do bem é a plenitude do ser, o ente a que faltar a plenitude que lhe é devida, não será considerado bom, absoluta, mas relativamente, enquanto ser; poderá contudo ser considerado ser, absolutamente, e não ser, relativamente, conforme se disse na primeira parte (q, 5, a. I, ad 1).

Assim pois devemos concluir que toda ação, na medida em que é, nessa mesma medida é boa; e lhe faltará a bondade, sendo, por isso considerada má, na mesma medida em que lhe faltar algo da plenitude do ser devido; p. ex., se lhe faltar a quantidade determinada exigida pela razão, ou o lugar devido, ou coisa semelhante. [Agora, depois da explicação dos termos, temos condições de responder às objeções].

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO [Antes de lermos a resposta, é bom reler a objeção enumerada no início]. – O mal age em virtude do bem deficiente. Se pois o bem faltasse totalmente, não haveria ser nem ação; e se o bem não fosse deficiente [i. é, nada lhe faltasse do seu ser devido] não haveria mal. Por onde, a ação causada, em virtude de um bem deficiente, há de ser também deficientemente boa: é boa,relativamente; e é má, absolutamente.

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO: Nada impede  que um ser tenha, num ponto de vista, a atualidade [possui em ato uma qualidade que é devida ao seu ser] que o faz agir e, noutro ponto de vista, tenha a privação do ato, que lhe causa a ação deficiente. Assim um cego, tendo as pernas sãs, pode andar; mas, privado da visão, com a qual se dirige, a marcha fica-lhe defeituosa e há de se trôpego no andar.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO: – Uma ação má pode, por si, produzir um efeito, na medida em que tiver algo de bondade e de ser. Assim, o adultério é causa de geração humana enquanto implica a união dos sexos e não, enquanto contrária a ordem racional.

Obser.: É óbvio que só teremos uma noção clara do assunto em apreço,depois de lermos a exposição dos 11 artigos. Com a graça de Deus e for de sua santíssima vontade, traduzirei e apresentarei aqui todos os 11 artigos. Trata-se de uma matéria sempre atual, mas hoje, mais do que nunca, seu conhecimento é oportuno e mesmo urgente.

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