Ordem de Malta, o escândalo dos contraceptivos existe. Eis as provas. Mas o responsável ainda está no comando.

Por Riccardo Cascioli, La Nuova Bussola Quotidiana, 2 de fevereiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Não apenas a distribuição de anticoncepcionais e abortivos em Myanmar, Quênia, Sudão do Sul e igualmente na Alemanha por muitos anos, mas também a justificação teórica para este comportamento contrário aos ensinamentos da Igreja. Muito mais do que um pequeno incidente, em Myanmar foi logo bloqueado para que não fosse logo descoberto. Nós estamos falando sobre o escândalo que serviu de base para o confronto dos últimos meses dentro da Soberana Ordem Militar de Malta, que ganhou as manchetes por causa da interferência sensacional da Santa Sé, e que obrigou o Grão-Mestre Mateus Festing a renunciar, acusado de ter derrubado, em dezembro, o chanceler Albrecht Boeselager. Graças à intervenção direta do Papa, este último foi reintegrado ao seu cargo na semana passada pelo Conselho Soberano.

Boeselager acabou na mira de fogo porque, como Grão-hospitalário da Ordem entre 1989-2014, tinha a responsabilidade direta pela Malteser International, a organização da Ordem de Malta responsável por ajuda internacional, além de mais de 120 projetos em 24 países espalhados pelo mundo. Bem, só Malteser International, que tem sua sede na Alemanha, onde foi fundada em 2005 como um desenvolvimento da Malteser Alemanha, foi acusada de participar de projetos de saúde – para prevenir a Aids e serviços de saúde reprodutiva – que incluía a distribuição de contraceptivos.

Até agora, Boeselager nega qualquer responsabilidade e falou de apenas um caso de um projeto em Myanmar, que foi subitamente interrompido pessoalmente por ele tão logo se deu conta do que estava acontecendo. Mas a documentação em nosso poder – em parte rastreável na internet – diz que as coisas são muito diferentes. No centro da história, há também programas de ajuda em países africanos; e, em todo caso, não se trata de “incidentes”, mas da aplicação sistemática das orientações da própria Malteser International.

Tudo isso estaria acontecendo sem o conhecimento do Grão-Mestre, que pelo grão-hospitalário deveria ter sido comunicado de tudo o que acontecia em campo. Apenas em 2014 teria chegado ao Grão-Mestre indicações sobre o que estava acontecendo em Myanmar, e também no Quênia e no Sudão do Sul. Daí a decisão por parte de Fra Matthew Festing de nomear uma comissão de inquérito interna, no dia  29 de maio de 2015. A comissão, formada pelos professores John Haas, Luke Gormally e Neil Weir produziu um relatório, que foi entregue nas mãos do Grão-Mestre em fevereiro de 2016, a partir do qual, em seguida, surgiram as tentativas de esclarecimento e atribuição de responsabilidade, e que tiveram o desfecho de dezembro com a remoção de Boeselager feita por Festing.

Mas o que então encontrou essa Comissão?

ATIVIDADE EM CAMPO

Antes de tudo, “há uma clara evidência do envolvimento da Malteser Internacional em projetos de saúde – prevenção do HIV e da AIDS, bem como outras doenças sexualmente transmissíveis e planejamento familiar – incluindo aí a distribuição de contraceptivos.”

Evidências sobre um projeto no Quênia (2006-2011) para o tratamento e cuidado de pacientes com AIDS, financiado por uma famosa Organização americana abortista: a Pathfinder International; e outro projeto em Myanmar (2006-2011) ligado ao Fundo Global contra Aids, Tuberculose e Malária: também aqui houve distribuição de preservativos em abundância. E, em seguida, outros projetos, entre 2006 e 2015 – também em colaboração com a organização Save the Children – em áreas habitadas pela etnia Shan na Birmânia – para prevenir doenças sexualmente transmissíveis ou promover o controle de natalidade. Além de preservativos distribuídos em grandes quantidades, pílulas anticoncepcionais, diafragmas e até mesmo o famigerado anticoncepcional injetável Depo-Provera.

Finalmente, o relatório descreve o caso de um anúncio para contratação de um consultor para assistência às pessoas com AIDS e HIV, novamente em 2010, em Myanmar. Entre os requisitos exigidos ao candidato estava também a capacidade de “ensinar o uso adequado e eficaz do preservativo “.

Além do relatório interno, provas do envolvimento direto da Malteser Internacional em programas que contradizem o ensinamento moral da Igreja podem ser encontradas em um outro relatório escrito pelo Instituto Lepanto (EUA). Aqui as façanhas da Malteser são descritas nos relatórios anuais de  agências da ONU, como a UNAIDS e UNDP: milhões e milhões de dólares de financiamento em troca de apoio às políticas de controle de natalidade. E entre 2011-2012, esta atividade também atingiu o Sudão do Sul.

Não se trata de um simples caso 

Ainda mais interessante para a nossa discussão, é a parte do relatório dedicada à posição teórica sobre o uso de contraceptivos. Aqui é feita referência às orientações, com o título de Bioética – Princípios básicos com respeito ao planejamento familiar e saúde reprodutiva. Segundo essas linhas gerais, “os contraceptivos são distribuídos para programar os nascimentos em circunstâncias em que os casais não podem aplicar os métodos naturais.” Além do mais, “é aceitável, em princípio, o uso de preservativos para prevenir a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis.” Mais uma vez: a “Malteser Internacional expressa neutralidade sobre a possibilidade de dar informações sobre os métodos para prevenir a transmissão do HIV.” Terminando com uma declaração de compromisso: “Há situações em que Malteser International tem de encontrar um equilíbrio entre o ensinamento da Igreja e o que é percebido como tal.”

No relatório de 2005 da UNAIDS, no perfil dedicado aos parceiros de agências das Nações Unidas, a Malteser International está indicada como uma organização especializada em planejamento familiar, com a atividade de distribuição de contraceptivos.

Em suma, é evidente que a distribuição de contraceptivos não é um acidente de percurso, mas resultado de uma convicção amadurecida ao longo dos anos e que ainda persiste. Tanto mais que, argumenta o relatório, nesta prática – que se opõe à doutrina da Igreja – também foi oferecido um fundamento teológico através do Assistente espiritual, o bispo Dom Marc Stenger, de Troyes. Exatamente ao bispo Stenger é atribuída a influência de uma conduta ética incompatível com a doutrina social da Igreja.

UM PROBLEMA GLOBAL

Não se pode dizer, no entanto, que este é um problema exclusivo da Ordem de Malta: trabalhando em estreita colaboração com outras ONGs e recebendo dinheiro da ONU, nessas últimas décadas, muita ONGs Católicas aceitaram tranquilamente incluir a contracepção entre os serviços disponíveis ao público.

Mas, de volta à situação interna da Ordem de Malta, o Relatório e outra documentação acessível colocam sob uma luz diferente o recente confronto entre o Grão-Mestre e Grão-Chanceler, entre Festing e Boeselager. É um dado, de fato, de que apesar das boas intenções, a intervenção do Papa e da Secretaria de Estado do Vaticano colocaram de volta no comando o verdadeiro responsável por esse desvio moral, e mandou embora o Grão-Mestre.

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10 Comentários to “Ordem de Malta, o escândalo dos contraceptivos existe. Eis as provas. Mas o responsável ainda está no comando.”

  1. Se eu fosse Festing, não teria renunciado e mandaria o Papa e o Secretário de Estado às favas. A Ordem de Malta é soberana e não submissa ao Vaticano. Com relação ao Grão Chanceler, tenho pena da alma dele.

    • Concordo. Há situações em que é necessário resistir uma ordem injusta e prejudicial à salvação das almas.

    • Marcelo Cristiano da Silva Siqueira.
      Vai saber se não ameaçaram o Festing com uma punição que caiu em desuso no século III.

  2. Que mal fizemos contra ti, Papa Francisco?

  3. Parece que há outros meandros nessa estória. Sabe-se que “Francisco” determinou a Burke que este lembrasse aos membros da Ordem de Malta sobre a incompatibilidade da pertença à maçonaria. Qual teria sido o argumento fulminante de Bergoglio exigindo a renúncia do Grão-Mestre?

    Talvez este: “- O senhor se indispôs com von Boeselager por conta do caso dos preservativos… Entendo… É mesmo uma situação muito, muuuuito … Precisamos invetar esquemas mais realistas e pastorais para tratar desse assunto…Mas… E o senhor…? O senhor é maçon…?!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Veja bem…! Nada contra…! É que eu preciso muito saber a verdade… Não me leve a mal, quem sou eu pra julgar.., não é mesmo? Mas, se o senhor é maçon, vou exigir sua renúncia nesse exato momento… O que o senhor tem a me dizer sobre esse assunto…?”

    • Talvez. Mas não há indicação alguma que Festing seja maçon. Pelo contrário. Festing é religioso leigo com votos de pobreza, obediência e castidade. Quando o Papa pediu que renunciasse, ele o fez obedientemente, como deveria fazer.

      Cabia à Ordem de Malta ter-se recusado a aceitar a renúncia. O fato de terem aceitado assim tão facilmente mostra que Festing, infelizmente, não tinha mais apoio interno para continuar como Grão-Mestre.

    • Acho que na verdade ele deve ter ameaçado com o corte de importantes fontes de doações para os Cavaleiros de Malta, tornando assim inevitável a submissão do Grão Mestre e do conselho da ordem! Esse cenário é muito mais provável.

  4. Tudo isso que sucede na Igreja, caso da Ordem de Malta, dentre mais, poderia se atribuir a um processo que vem de longa data, de infiltrados comunistas dirigidos por Moscou e idem afinados maçons dentro do Vaticano II adiante e, hoje senão nele, bem próximo do clímax do relativismo.
    Desde que a verdadeira fé vem sido gradativamente substituída pelo “Ecumenismo”; a evangelização foi de igual forma trocada pelo “diálogo”; o Reino de Deus vem aos poucos sendo mudado pelo “Reino do Homem”, em nome de uma falsaria e hipócrita laicidade dos “direitos humanos” que o mundo cada vez mais se aliena – e diversos da Igreja acompanhando o ritmo!
    Nesse caos, contemplam-se apenas os modernistas que são os afinados ao politicamente correto, assim como a Ética-moral católicas vão aos poucos sendo corroídas e, ao mesmo tempo soterrando a verdadeira Fé e a centralidade da Pessoa de Jesus Cristo.
    Dessa forma, desmorona-se o conceito de uma fé transcendental e em seus Mandamentos, além de cada vez mais personagens dentro dela pareceriam ser ou pertencerem a ONGs ou subsidiarias de instituições tipo alienada ONU; entronizaria tudo que o modernismo atual incensa, a começarem de personagens dentro dela podendo serem comparados a quaisquer agentes a serviço dos globalistas!
    Pelo que temos visto até agora, de promoção às esquerdas, manterem no cargo tipos estilo Boeselager de comportamento duvidoso seria o recorrente, a começar da Secretaria de Estado do Vaticano que pareceria ter tomado a direção do politicamente correto e quem a promover!

  5. Parece que, segundo consta, a Ordem tem um código que estabelece que o Grão Mestre, sempre um cavaleiro professo, apesar de administrar a ordem com independência, tem de se submeter à vontade do papa, caso ele decida exigir sua renúncia. Legalmente parece que o Grão Mestre que renunciou não tinha opção.

  6. L’Osservatore hoje: Europarliamento contra Trump sobre ONGs e aborto
    Com uma recomendação não vinculativa, o Parlamento Europeu pediu ao conselho Europeu “condenar” a assim-chamada Global Gag Rule, a lei com o qual o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parou a atribuição de fundos para organizações não-governamentais (ONG) Internacionais que praticam ou informam sobre o aborto. O tribunal pediu um fundo internacional para compensar os cortes…. Se quer “preencher a lacuna Financeira “que é criada para “Todas as organizações de ajuda no exterior que oferecem serviços em saúde sexual e reprodução “.