Reflexões da Sagrada Escritura: A ação humana haure no objeto a sua bondade ou malícia

“E se tornaram abomináveis como as coisas que amaram” (Oséias, IX, 10).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

B. : SANTO TOMÁS DE AQUINO  –  SUMA TEOLÓGICA, 1ª Parte da 2ª Parte – Questão XVIII – DA BONDADE E DA MALÍCIA DOS ATOS HUMANOS EM GERAL.

ARTIGO II  –  Se a ação humana haure no objeto a sua bondade ou malícia.

O segundo artigo discute-se assim.  –  Parece que a ação humana não haure no objeto a bondade ou a malícia.

OBJEÇÕES [Seguem-se três argumentos que parecem provar o contrário da tese em apreço]:

1ª objeção: Pois o objeto de uma ação é uma realidade (=coisa). Ora, não nas coisas, mas no uso que delas fazem os pecadores, está o mal, como diz Agostinho (in lib. III De doct. christ. cap. XII). Logo, a ação humana não haure (=tem) no objeto a sua bondade ou a malícia.

2ª objeção: Ademais, o objeto é como a matéria da ação. Ora, a bondade de uma coisa não provém da matéria, mas antes, da forma, que a atualiza. Logo não é no objeto que os atos haurem a bondade ou a malícia.

3ª objeção: Ademais, o objeto da potência ativa está para a ação, como o efeito para a causa. Ora, a bondade da causa não depende do efeito, mas antes, ao contrário. Logo, não se tira do objeto a bondade nem a malícia do ato humano.

SED CONTRA:  Mas, em contrário, diz a Escritura em Oséias, IX, 10: “E se tornaram abomináveis como as coisas que amaram”. Ora, o homem, pela malícia dos seus atos, é que se torna abominável perante Deus. Logo, essa malícia depende dos maus objetos que o homem ama. E o mesmo se deve dizer da bondade.

Darei a SOLUÇÃO,  após fazer as devidas distinções: Conforme já se disse (no art. 1), o bem e o mal das ações, como das demais coisas, depende da plenitude ou da deficiência do ser. Ora, o que em primeiro lugar concorre para tal plenitude é aquilo que especifica. E assim como a forma é a que especifica um ser natural, assim o objeto é o que especifica o ato, como o movimento tem a sua espécie haurida do término. Por onde, assim como a bondade primeira de um ser natural depende da sua forma, que o especifica, assim a primeira bondade do ato moral depende do objeto conveniente; e por isso alguns costumam falar que é bom, no seu gênero, como, p. ex., usar o que se possui. E assim como, nos seres naturais, o primeiro mal consiste em o ser gerado não conseguir a sua forma específica, p. ex. se a geração, em vez de produzir um homem, produz outro ser, assim também o primeiro mal nos atos morais, é o procedente do objeto, como tomar o bem de outrem. E se chama o mal no seu gênero, tomando gênero no sentido de espécie, como quando dizemos gênero humano para significar toda a espécie humana.

Portanto, [dadas estas explicações, temos agora condição de responder às objeções acima no inicio apresentadas]:

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO: Embora as coisas exteriores sejam em si mesmas boas, nem sempre contudo mantêm a proporção devida com tal ação ou tal outra; e por isso, consideradas como objetos de tais ações, cessam de ser boas.

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO: O objeto não é a matéria da qual procede a ação, mas a matéria sobre a qual ela recai; e exerce de certo modo a função de forma, enquanto especifica.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO:  Nem sempre o objeto de uma ação humana é o de uma potência ativa. Pois, a potência apetitiva é de certo modo passiva, enquanto movida pelo objeto desejado, e contudo é princípio de atos humanos. Além disso, os objetos das potências ativas não são efeitos senão quando já transformados; assim, o alimento transformado é o efeito da potência nutritiva; ao passo que o ainda não transformado é como a matéria sobre a qual age essa potência.

Demais disso, sendo o objeto de certo modo efeito da potência ativa, resulta que é o término da ação dela, e por consequência dá-lhe a forma e a espécie, pois o movimento se especifica pelo término. E embora a bondade de uma ação não seja causada pela bondade do seu efeito, contudo chamamos boa à ação capaz de produzir bom efeito; de modo que na proporção entre a ação e o efeito consiste a razão mesma da sua bondade.

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2 Comentários to “Reflexões da Sagrada Escritura: A ação humana haure no objeto a sua bondade ou malícia”

  1. O post daria uma ideia que o fim é o objeto do ato interior da vontade, enquanto o ato exterior tem por objeto aquilo mesmo sobre o que recai; em suma, todos os atos humanos são avaliados dependendo a que fim se destinam, ao bem ou ao mal.
    Aliás, diz o Filósofo: “aquele que furta para cometer adultério é, propriamente falando, mais adúltero que ladrão” por a vontade do furto visar aquele, embora tenha recaído nos dois, mas aquele foi o priorizado, enquanto esse o meio para atingir o fim.

  2. Ou seja, de boas intenções o inferno esta cheio… Somente ter boas intenções não basta, é preciso concretizá-las mesmo que não produzam efeitos imediatos ou não atinja o objetivo intentado, é o início de um bom caminho e exemplo.