Reflexões da Sagrada Escritura: A Bondade e a Malícia dos atos humanos provêm do fim

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Santo Tomás de Aquino – Suma Teológica – Segunda Parte da Segunda Parte

QUESTÃO XVIII  –  Da Bondade e Da Malícia dos Atos Humanos em geral

ARTIGO IV.  –  Se a bondade e a malícia dos atos humanos provêm do fim.

O quarto artigo discute-se assim: Parece que a bondade e a malícia dos atos humanos não provêm do fim.

1ª OBJEÇÃO: Pois, como diz Dionísio, “nenhum ato visa o mal como fim do agir” ( IV cap. de div. nom. lect. XIV, XXII). Logo, se pelo fim é que os atos sã bons ou maus, nenhum será mau, o que é evidentemente
falso.

2ª OBJEÇÃO: Demais, a bondade de um ato lhe é algo de intrínseco. Ora, o fim é causa extrínseca. Logo, não é em virtude do fim que uma ação se torna boa ou má.

3ª OBJEÇÃO: Demais, um ato bom pode se ordenar a um fim mau, como quando alguém dá esmola por vanglória; e inversamente, um ato mau pode se ordenar a um fim bom, como quando alguém furta para dar aos pobres. Logo, não é o fim que confere a bondade ou a malícia aos atos.

SED CONTRA: Mas, PELO CONTRÁRIO, diz Boécio em Topic., lib. II: “quem visa um fim bom é bom, quem visa um mau, é mau”.

RESPONDO: Respondo fazendo as explanações e  distinções necessárias: – As coisas se dispõem para a bondade como para o ser. Ora, há certas coisas que têm o ser independente, e em relação a essas basta lhes consideremos o ser, absolutamente. Há outras porém que são dependentes, e devemos então considerar-lhes a causa de que dependem.

Ora, assim como o ser de uma coisa depende do agente e da forma, assim a bondade depende do fim. Por isso, a bondade das Pessoas divinas, independente de tudo, não a julgamos relativamente a nenhum fim. As
ações humanas porém e quaisquer outras, cuja bondade é dependente, tiram a bondade do fim de que dependem, abstraindo-se da bondade absoluta que lhes é intrínseca.

Assim pois a bondade de uma ação humana pode ser considerada em quatro pontos de vista. Uma é genérica, que convém à ação como tal; pois, é boa na medida em que é ação, com já se disse no artigo primeiro. Outra
é específica, e lhe resulta do objeto conveniente. A terceira, dependente das circunstâncias, é como que acidental. E a quarta, dependente do fim, é constituída pela relação com a causa mesma da bondade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO: – O bem que visamos, quando agimos nem sempre o é verdadeiramente, mas às vezes é bem apenas aparente. E por isso, do fim resulta uma ação má.

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO: Embora o fim seja causa extrínseca, contudo a proporção devida e a relação com ele são inerentes à ação.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO: Nada impede que uma ação deixe de ter todas as quatro bondades referidas. E então pode se dar que a ação boa na sua espécie e relativamente às circunstâncias se ordene a um fim mau, e inversamente. De modo que é absolutamente boa só a ação na qual concorrem todas as bondades; pois, “ao passo que qualquer defeito, por pequeno que seja, causa o mal, o bem procede só de uma causa íntegra”, como diz Dionísio IV cap. De div. nom, lect. XXII.