Reflexões da Sagrada Escritura: O fim diversifica especificamente os atos em bons e maus

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

 Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Primeira Parte da Segunda Parte – Questão XVIII, Artigo VI.

ART. VI.  –  SE O FIM DIVERSIFICA ESPECIFICAMENTE OS ATOS EM BONS E MAUS.

O sexto artigo discute-se assim: Parece que o fim não diversifica especificamente os atos em bons e maus.

1ª OBJEÇÃO: Pois, os atos se especificam pelo objeto. Ora, o fim não é objeto, de nenhum modo. Logo, o bem e o mal dele procedente não diversificam os atos especificamente.

2ª OBJEÇÃO: Demais. – O acidental não especifica, como já se disse no artigo 5. Ora, é acidental a um ato ser ordenado para um fim; assim, quando se dá esmola por vanglória. Logo, o fim não diversifica especificamente os atos em bons e maus.

3ª OBJEÇÃO: Demais. – Atos especificamente diversos podem se ordenar a um mesmo fim; assim ao fim da vanglória podem se ordenar os atos de diversas virtudes e de diversos vícios. Logo, o fim não diversifica especificamente os atos em bons e maus.

SED CONTRA. Mas, AO CONTRÁRIO, já foi provado acima na questão 1, a. 3 que os atos humanos têm a espécie oriunda do fim. Logo o bem e o mal que são advindos segundo o fim, diversifica a espécie dos atos.

RESPONDO [após fazer as devidas distinções e explicações] dando a SOLUÇÃO: Certos atos se chamam humanos, enquanto voluntários, como já se disse no artigo primeiro. Ora, o ato voluntário inclui dois outros: o interior, da vontade, e o exterior, tendo um e outro o seu objeto.

Ora, o fim propriamente é o objeto do ato interior da vontade; ao passo que o ato exterior tem por objeto aquilo mesmo sobre o que recai. Por onde, assim como o ato exterior se especifica pelo objeto sobre o qual recai, assim o ato interior da vontade, pelo fim, como seu objeto próprio. Ora, o que procede da vontade tem por assim dizer valor de forma para o que procede do ato exterior, pois a vontade se serve, para agir, dos membros, a modo de instrumentos; e nem os atos exteriores têm valor moral senão enquanto voluntários. Logo, a espécie dos atos humanos é formalmente considerada em relação ao fim; e materialmente, em relação ao objeto do ato exterior. Por onde, diz o
Filósofo em Ethic., lect. III, que “aquele que furta para cometer adultério é, propriamente falando, mais adúltero que ladrão”.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO.  –  O fim equivale a um objeto como já se disse.

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO.  –  É acidental ao ato exterior ordenar-se a um certo fim, mas não o é ao ato interior da vontade, pois este último está para o primeiro como a forma para a matéria.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO.  –  Quando muitos atos especificamente diferentes se ordenam a um mesmo fim, há, na verdade, especificamente, diversidade em relação aos atos exteriores, mas unidade em relação ao
ato interior.

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