São João Eudes: “O maior sinal da ira de Deus é quando permite que, como punição por seus crimes, o povo caia nas mãos de pastores que o são mais de nome do que de fato”.

As qualidades e as excelências

de um bom pastor e de um sacerdote santo.

O maior sinal da ira de Deus sobre o seu povo, e o pior castigo que ele pode infligir sobre ele, neste mundo, é quando permite que, como punição por seus crimes, o povo caia nas mãos de pastores que o são mais de nome do que de fato, que mais exercem contra o povo a crueldade dos lobos famintos, do que a caridade dos pastores carinhosos, e que, em vez de cuidadosamente lhes oferecerem um repasto, despedaçam-no e o devoram cruelmente; em vez de levar o povo para Deus, vende-o para Satanás; em vez de dirigi-lo para o céu, arrasta-o consigo para o inferno; e, em vez de ser o sal da terra e luz do mundo, são o veneno e escuridão.

Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. (Evangelho segundo S. Mateus 7,15-20)Porque nós, pastores e sacerdotes, diz São Gregório Magno, seremos condenados diante de Deus como assassinos de todas as almas que todos os dias são entregues à morte eterna pelo nosso silêncio e pela nossa negligência: Tot occidimus, quot ad mortem ire tepidi et tacentes videmus [1]. Como também, diz o mesmo santo[2], não há nada que mais ofenda a Deus (e, portanto, que mais provoque a sua ira, e atraia mais maldições, seja sobre os pastores e sobre o rebanho, sobre os sacerdotes e sobre o povo), que quando Deus vê aqueles que ele estabeleceu para a correção dos outros, darem exemplo de uma vida depravada, e em vez de evitar que ele seja ofendido, somos os primeiros a persegui-lo, já que não temos o mínimo cuidado pela salvação das almas; que sonhamos senão apenas em satisfazer nossas inclinações; que todos os nossos afetos terminam nas coisas da terra; que estamos alimentando vorazmente a vã estima dos homens, fazendo com que o mistérios da bênção sirvam à nossa ambição; que abandonamos os negócios de Deus para atender aos do mundo; e que, ocupando um lugar de santidade, tratamos apenas dos trabalhos terrestres e profanos. Quando Deus permite que as coisas sejam assim, temos com certeza uma prova de que está extremamente irado contra o seu povo, e este é o rigor mais terrível que possa exercer sobre ele, ainda neste mundo. É por isso que ele grita incessantemente a todos os cristãos: Convertimini ad me, et dabo vobis pastores juxta cor meum [3]: “Convertei-vos a mim, e eu vos darei pastores segundo o meu coração”. Isso mostra claramente que o desregramento da vida dos pastores é um castigo pelos pecados do povo; e que, por outro lado, o maior resultado da misericórdia de Deus para com o povo, e a graça mais preciosa que ele possa conceder, é quando ele dá pastores e sacerdotes segundo o seu coração, que só buscam sua glória e a salvação das almas. Este é o dom mais precioso e o favor mais insigne que a bondade de Deus pode conceder à Igreja, a dádiva de um bom pastor, seja bispo ou padre. Pois é a graça das graças e o dom dos dons, que carrega consigo todos os outros dons e todas as outras graças.

Jean Eudes, Mémorial de la vie ecclésiastique. In Œuvres complètes, Tome III, p. 22-23.

[1] Homil. 12 super Ezech.

[2] Nullum, puto, fratres charissimi, majus praejudicium ab aliis quam a Sacerdotibus tolerat Deus: quando eos quos ad aliorum correctionem posuit, dare de se exempla pravitatis cernit; quando ipsi peccamus qui compescere peccata debuimus: officium quidem sacerdotale suscipimus, sed opus officii non implemus.» Homil. 27 in Evang.

[3] Jer 3, 5.

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Nosso mais profundo agradecimento a um bom sacerdote pela tradução realizada a partir do original.

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10 Comentários to “São João Eudes: “O maior sinal da ira de Deus é quando permite que, como punição por seus crimes, o povo caia nas mãos de pastores que o são mais de nome do que de fato”.”

  1. Esse texto é profundamente impressionante! Já o tinha lido antes, mas não segundo esta tradução que soa muitíssimo melhor em português do que outras que já tinha lido antes e que parecem que tinham sido traduzidas a partir do inglês.

    Esse texto de São João Eudes sempre me impressionou muito. Primeiro por dizer uma verdade que até então desconhecia por completo e que é da mesma forma desconhecida da maioria dos católicos. Segundo, porque tenho experimentado em minha cidade e diocese o terrível castigo de Deus que são os maus sacerdotes.

  2. Como já disse, em minha cidade e diocese, o povo está sob esse justo castigo da ira de Deus. Por isso, queria saber se esse mal tem remédio. O que pode, num caso desses, aplacar a justa ira de Deus? E quando o povo é mau e indiferente à religião? Pode-se esperar o perdão e a misericórdia de Deus numa situação dessas?

    Me desculpem as várias perguntas, mas é que são questões que verdadeiramente me interessam.

  3. Vociferam contra nossos políticos de modo geral por serem corruptos, no entanto, esquecem-se que a grande maioria ou quase totalidade foi “educada” com seus pais aos pés das novelas e programas afins, os quais vieram deturpando os conceitos de fé por décadas, bem ao esquema gramsciano: sutil, lenta e gradativamente – com raras ou nenhuma oposição de nosso pastores.
    O resultado da imposição da fraude doutrinaria ideológico-midiática está à vista de todos: nesse tempo, o Brasil foi subjugado nas ideologistas e nossos pastores – à exceção de uma exigua minoria – confrontou-os ou ao menos os denunciou à sociedade; afinal, nossos políticos também são o reflexo do que sucede na plebe, conformando-se ao castigo de que falou S João Eudes!
    Quanto a nossos pastores, falam diariamente: muita violencia, assaltos, chacinas, tráfico de drogas etc., e fim. Contudo, nunca atribuindo tais delinquencias às caóticas esquerdas encarnadas nos varios partidos comunistas operantes no Brasil e muito menos a seus próceres – os quais às vezes são seus protegidos… – para que o povo os impugnasse às eleições!
    Resultado: em geral os pastores os refletem, os políticos a sequencia provindos de um ambiente imodesto comparável ao meretricio; em suma, todos são egressos da boemia!
    O caos na Italia, outro exemplo: um dos maiores centros mundiais de bruxaria!

  4. Deus está irado contra o seu povo. Na verdade, Deus está irado contra o povo que cometeu uma grande apostasia. Será por causa do pecado do povo que surgem, como castigo, os maus pastores? Mas então a apostasia do clero é consequência e não causa do pecado do povo?
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    “Maledictus qui facit opus Dei fraudulenter “ : Maldito o que faz a obra do Senhor com negligência (Jer. LXVIII, 10).
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    Os bons costumes e a salvação dos povos dependem dos bons pastores. Se à frente de uma paróquia estiver um bom pároco, depressa nela se verá a devoção florescente e os sacramentos frequentados. Conforme é o pároco, assim é a paróquia: “Qualis pástor talis paróchia”. Em que medida isso é assim?
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    O povo mantém um grau de virtude a menos que o clero. Ao sacerdote santo, corresponde um povo fervoroso; ao sacerdote fervoroso, povo piedoso; ao sacerdote piedoso, povo honesto; ao sacerdote honesto, povo ímpio.
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    A DECADÊNCIA DO CLERO TAMBÉM ATRAI A IRA DE DEUS. Eis o que disse Nossa Senhora quando apareceu em La Sallete: “Os sacerdotes, ministros de meu Filho, pela sua má vida, sua irreverência e impiedade na celebração dos santos mistérios, pelo amor do dinheiro, das honrarias e dos prazeres, tornaram-se cloacas de impureza. Sim, os sacerdotes atraem a vingança e a vingança paira sobre suas cabeças. Ai dos sacerdotes e das pessoas consagradas a Deus, que pela sua infidelidade e má vida crucificam de novo meu Filho! Os pecados das pessoas consagradas a Deus bradam ao Céu e clamam por vingança.”

    • André, seu comentário foi tão precioso e verdadeiro que tive que compartilhar. Mas não coloquei seu nome, para preservar sua identidade, porquanto não sei se me autorizaria. Coloquei “comentário no Fratres”. Obrigado pelo enriquecimento de sua postagem. Abraços.

  5. Em contrapartida, deixo aqui consignada essas palavras do Cardeal Sarah em seu livro “A força do Silêncio”, saído ano passado:

    “São João enfatiza a solidão e o isolamento moral de Cristo antes de sua Paixão. Ele está só desde o início, porque Ele é Deus. Está só porque ninguém pode compreendê-lo. São João diz que muitos discípulos O abandonaram porque a suas revelações sobre a Eucaristia e as exigências do Evangelho os superava.

    Hoje, certos padres tratam a Eucaristia com total desprezo. Eles vêem a Missa como um banquete tagarela onde os cristãos fiéis ao ensinamento de Jesus, os divorciados recasados, os homens e as mulheres em situação de adultério, os turistas não-batizados, que participam das celebrações eucarísticas das grandes multidões anônimas, podem aceder, sem distinção, ao corpo e ao sangue de Cristo. A Igreja deve considerar com urgência a real conveniência eclesial e pastoral dessas enormes celebrações compostas por milhares e milhares de participantes. Há um grande perigo de transformar a Eucaristia, “o grande mistério da fé”, em uma quermesse vulgar onde se profana o Corpo e precioso Sangue de Cristo. Os sacerdotes que distribuem as sagradas espécies a todos, sem saber a quem estão dando o Corpo de Jesus, sem discernir entre cristãos e não-cristãos, promovem a profanação do Santo Sacrifício eucarístico. Os que têm autoridade na Igreja tornam-se culpados, por uma forma de cumplicidade voluntária, ao permitirem o sacrilégio e a profanação do Corpo de Cristo nessas gigantescas e ridículas maga-celebrações, onde tão poucos sabem que se anuncia “a morte o Senhor até que ele venha”(1 Cor 11, 26).

    Os sacerdotes infiéis à “memória” de Jesus insistem mais sobre o aspecto festivo e a dimensão fraterna da missa que o do sacrifício de Cristo sobre a Cruz. A importância das disposições interiores e a necessidade de nos reconciliarmos com Deus, aceitando que ele nos purifique pelo sacramento da confissão não estão mais em moda hoje em dia.”

  6. Complemento da parte final. Para ser mais claro.

    Há duas formas de justiça em Deus. A justiça que JUSTIFICA o pecador, que coincide, nesse caso, com a misericórdia. Mas há OUTRO ASPECTO da justiça em Deus, que é a PUNITIVA. Punir o pecador. E, no caso, não diferenciar isso pode levar, no caso, a relativizar o adultério e/ou a verdade de que não se pode comungar estando assim, como diz a Escritura.

  7. O belo texto do Santo surtiria algum efeito sobre a alcateia que se imiscuiu no clero, caso a mesma alcateia tivesse fé em alguma coisa. Mas quem tem um pouco de memória, e um pouco mais de estrada, lembra que a primeiríssima das primeiras coisas avacalhadas pelo lupinoclero foi a noção de que Deus Nosso Senhor pune ou castiga alguém. Riam-se, os lobos, às gargalhadas, e, com as gargalhadas, foram-se juntas a piedade, o temor de Deus e reverência devidas de Deus, das quais, a primeira, é o zelo pela salvação das almas.

  8. “O belo texto do Santo surtiria algum efeito sobre a alcateia que se imiscuiu no clero, caso a mesma alcateia tivesse fé em alguma coisa. Mas quem tem um pouco de memória, e um pouco mais de estrada, lembra que a primeiríssima das primeiras coisas avacalhadas pelo lupinoclero foi a noção de que Deus Nosso Senhor pune ou castiga alguém. Riam-se, os lobos, às gargalhadas, e, com as gargalhadas, foram-se juntas a piedade, o temor de Deus e reverência devidas de Deus, das quais, a primeira, é o zelo pela salvação das almas” (2)

    Muito bem observado! Pois eles negam o inferno. Negando-o, negam a condenação e por aí vai

  9. Quando se fala na decadência do clero, o dedo em riste deve ser apontado primeiramente para os Bispos, que enquanto sucessores diretos dos Apóstolos tem o dever primário de zelar pela Diocese que lhes foi confiada. Quantas vezes vimos aqui mesmo, exemplos de prevaricação séria por parte de sacerdotes e quando os leigos enviam cartas e e-mails nenhuma providência é tomada?
    Estou tomando os dias da Quaresma pra fazer algumas leituras espirituais e me caiu em mãos uma biografia de São Pio X, da qual eu transcrevo algumas passagens riquíssimas. Giuseppe Sarto era conhecido por um apelido carinhoso: Dom Beppe. E quando se tornou Bispo da cidade de Mantova, encontrou aquela diocese em um triste estado. Escreveu então Dom Beppe:

    “Você pode imaginar”, escreveu Giuseppe Sarto para outro bispo depois de visitar uma paróquia”, que em uma paróquia com três mil almas havia apenas quarenta mulheres na Missa de Visitação do Bispo, das quais somente oito receberam a Sagrada Comunhão, e na instrução de Doutrina Cristã apenas uma centena de crianças, sem falar no mesmo número de curiosos! E o padre que preside a paróquia quer que eu acredite que as coisas não são tão ruins quanto eu sugiro?” Sarto, aquele pastor excepcionalmente santo foi perspicaz o suficiente para perceber que nem mesmo as forças do mal que prevaleciam dentro do que ele conseguia ver, podiam apagar a sede que as pessoas tinham pela vida espiritual, a não ser que os padres fossem culpados de negligência. Ele procurou então duas abordagens para solucionar aquela condição crítica.

    A primeira foi a de melhorar a vida espiritual de todos os padres da diocese de Mantova e restaurar neles a dignidade da vida consagrada. E isso ele fez por meio de constantes cartas e exortações: “O sacerdote deve trazer cada ação, cada passo, cada hábito em harmonia com a sublimidade da sua vocação. O padre no altar que celebra os mistérios eternos, assume, por assim dizer, uma forma divina; e isso ele não deve abandonar quando desce do Alto Monte e afasta-se do Templo do Senhor. Onde quer que esteja, ou em qualquer trabalho que ele se envolva, ele nunca deve deixar de ser um sacerdote, sempre acompanhado pela dignidade, decoro e gravidade de um sacerdote. Ele deve, portanto, ser santo; ele deve ser santo, de modo que suas palavras expressem seu amor e suas obras, e que suas obras expressem o seu amor e imprima sua autoridade, que seja capaz de impor respeito. Dignidade exterior é mais poderosa do que as palavras mais eloquentes …. Por outro lado, se ele esquece a dignidade de seu caráter, se ele não mostra em seu exterior um comportamento ainda mais sério do que o dos leigos, ele acaba incorrendo no mesnosprezo daquelas mesmas pessoas que aplaudem sua leviandade, mas que não hesitam em desprezar tanto ele como o que ele representa.”

    Mas as palavras, o santo sabia, eram insuficientes sem as ações para reforçá-las. Em grande parte, as ações foram implementadas através do exemplo pessoal que, por vezes, era calculado para produzir um leve embaraço. Só para ilustrar, não raro acontecia de um pároco, dado ao mau hábito de acordar tarde, negligenciar a confissão dos fiéis antes da missa, e quando chegava em sua igreja, para seu horror e embaraço dava de cara com o bispo ouvindo confissões em seu lugar. De uma maneira similar, Bispo Sarto muitas vezes fez a ronda dos doentes e moribundos tarde da noite, para ouvir suas confissões e consolar essas pobres almas. Depois disso, ele ia educadamente, mas eficazmente corrigir um pároco local lembrando-o de sua responsabilidade, pedindo-lhe para ser bom o suficiente e levar o Santo Viático aos mesmos paroquianos acamados que ele havia visitado. Também houve um caso em que dois padres, enviaram-lhe um relatório bem desagradável e acabaram convocados à residência do bispo. Quando eles chegaram, Bispo Sarto pediu-lhes para se juntar a ele para um passeio para discutir certos assuntos. Antes que eles se dessem por conta, haviam ido parar na porta de um convento franciscano. O choque para eles não foi pequeno quando Bispo Sarto apresentou esses companheiros de passeio a um dos frades, dizendo: “Padre, aqui estão dois dos meus sacerdotes que estão muito ansiosos para fazer um retiro espiritual, já que há muito tempo eles não fazem um”!
    Uma certa vez, já como Patriarca de Veneza, Dom Sarto recebeu a visita de um padre que ali pernoitou. O padre então pediu-lhe se podia celebrar a missa em sua capela privada pela manhã antes de tomar o trem pra Roma. O Cardeal então disse que cuidaria pra que tudo estivesse pronto pela manhã. Na manhã seguinte o padre ficou surpreso ao ver que o próprio Patriarca havia arrumado tudo para a missa. Mas quando ele perguntou, quem iria servir como acólito, Dom Sarto respondeu:
    _ Eu mesmo! Ou você acha que só porque eu sou Cardeal eu não sei como servir em uma missa! Que boa idéia você tem de um príncipe da Igreja!

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