O Papa Francisco quatro anos depois.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza romana, 15-3-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO quarto aniversário da eleição do Papa Francisco vê a Igreja Católica dilacerada por profundas divisões. “É uma página inédita na história da Igreja – diz-me em tom preocupado um alto prelado vaticano – e ninguém pode dizer qual será o desfecho desta crise sem precedentes”.

papa-francesco-468x278A mídia, que desde o início havia expressado apoio maciço ao Papa Bergoglio, começa a manifestar uma certa perplexidade. “Nunca se viu tanta oposição ao Papa, nem mesmo no tempo de Paulo VI”, admite o historiador Andrea Riccardi, para o qual, no entanto, “a liderança papal é forte” (Corriere della Sera, 13-3-2017). Demasiado forte para muitos que acusam o Papa de autoritarismo e veem a confirmação do clima de medo reinante no Vaticano nas denúncias anônimas expressas em cartazes, epigramas e vídeos exibidos na web. Sarcasmo e anonimato são as características da dissidência sob regimes totalitários, onde ninguém se atreve a sair a descoberto por medo de represálias do poder.

E cresce hoje na Igreja a resistência ao Papa Bergoglio. O site LifeSiteNews publicou uma lista de bispos e cardeais que expressaram publicamente o seu apoio ou a sua oposição às “dubia” apresentadas pelos quatro cardeais ao Papa, em 16 de setembro de 2016. Não são poucos, e a eles deve ser adicionada a voz de quem, como o cardeal Joseph Zen, critica o papado bergogliano por sua política a favor do governo comunista chinês, apelidando-a de “diálogo com Herodes”.

Enquanto os católicos fiéis aos ensinamentos perenes da Igreja denunciam a novidade de um pontificado que desvirtua de facto a moral tradicional, os inovadores estão insatisfeitos com uma “abertura” que ocorre tão-só de maneira implícita, sem materializar-se em gestos de verdadeira ruptura com o passado. O correspondente de Der Spiegel, Walter Mayr, em 23 de dezembro último, citou algumas palavras que o Papa teria confiado a um grupo restrito de colaboradores: “Não é impossível que eu passe para a história como aquele que dividiu a Igreja Católica”.

A sensação é a de estar na véspera de um confronto doutrinário interno na Igreja, que será tanto mais violento quanto mais se procurará evitá-lo ou adiá-lo, sob o pretexto de não rachar a unidade eclesial há tempo desconjuntada. Mas há uma segunda guerra iminente, desta vez não metafórica. O quarto aniversário do pontificado coincidiu com as pesadas ameaças do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan contra a Holanda, culpando-a de não oferecer suas praças aos propagandistas do sultão de Ankara. O próprio Erdogan, em novembro passado, ameaçou inundar a Europa com milhões de migrantes se Bruxelas interromper as negociações para uma rápida entrada da Turquia na União Europeia. Mas, para o Papa Francisco, essas massas migratórias são uma oportunidade e um desafio.

Proteger os imigrantes é um “imperativo moral”, reiterou nos últimos dias o Papa, que após estabelecer um Dicastério pontifício para o Desenvolvimento Humano Integral, reservou para si a responsabilidade direta pelas questões da imigração. Um brilhante escritor francês, Laurent Dandrieu, publicou um ensaio intitulado Église et immigration. Le grand malaise [Igreja e imigração. O grande mal-estar] (Presses de la Renaissance, Paris 2016), no qual denuncia a atitude política do Papa Bergoglio, dando a um capítulo de seu livro o título: De Lepanto a Lesbos, a Igreja na idolatria do acolhimento? Enquanto a Europa é submersa por uma onda migratória sem precedentes, o Papa Francisco fez do “direito de emigrar” e do “dever de acolher” os pilares da sua política, desconsiderando o direito das nações europeias de defender a sua identidade religiosa e cultural. Eis a “conversão pastoral” que ele exige da Igreja: a renúncia às raízes cristãs da sociedade, sobre as quais João Paulo II e Bento XVI haviam insistido tanto, para dissolver a identidade cristã em um turvo caldeirão multiétnico e multirreligioso.

O teólogo predileto do Papa, Dom Víctor Fernández, Reitor da Pontifícia Universidade Católica Argentina, explica que a “conversão pastoral” deve ser entendida como uma transformação “que conduza toda a Igreja a ‘uma saída de si’, renunciando a centrar-se em si mesma”, ou seja, a uma renúncia da Igreja à própria identidade e à própria tradição, para assumir as múltiplas identidades propostas pelas periferias do mundo.

Mas a invasão migratória produz necessariamente uma reação da opinião pública em defesa de tudo o que hoje está ameaçado: não só a identidade cultural, mas os interesses econômicos, a qualidade de vida, a segurança das famílias e da sociedade. Em face de uma reação que pode manifestar-se de modo às vezes exasperado, a Igreja Católica deveria desempenhar um papel moderador, alertando para os erros opostos, como fez Pio XI em março 1937 com as duas encíclicas Divini Redemptoris e Mit brennender Sorge – das quais transcorre o octogésimo aniversário –, condenando, respectivamente, o comunismo e o nacional-socialismo. Hoje como ontem, com efeito, delineia-se uma falsa alternativa.

De um lado, os seguidores de uma religião forte, antitética ao catolicismo, como o Islã. De outro, os defensores de uma irreligião igualmente forte, o relativismo. Os relativistas procuram assumir a direção dos movimentos identitários, para lhes conferir uma coloração anticristã. A política bergogliana dá pretexto a essas posições xenófobas e neopagãs, permitindo aos relativistas de acusarem a Igreja de conluio com o Islã.

O Papa diz que rejeitar os imigrantes é um ato de guerra. Mas é seu apelo ao acolhimento indiscriminado que alimenta a guerra.

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7 Comentários to “O Papa Francisco quatro anos depois.”

  1. O pontificado do papa Francisco, à medida que se adianta, mais se acumulam dúvidas e interrogações acerca de determinados ensinamentos e atos, comprovando-o o número sempre ascendente de eruditos e confiaveis Altos Hierárquicos que vão, gradativamente, discordando dele ostensivamente porque não se adequaria ao todo ou em parte às normas de sempre rígidas da Igreja, que nunca até então oportunizavam dúvidas – no entanto, sim ou não.
    Isso sem contar que adjuntos estariam urdindo outros planos estranhos, tais como, admissão de leigos como celebrantes – e se acaso preferenciassem das esquerdas… – até a uma sinistra criação uma nova celebração diferente da Novus Ordo que atendesse aos relativismos das seitas etc.; em suma, protestantização gradativa da Igreja católica, nivelando às milhares de seitas, além de que seria mais alento à formação de uma religião universal, meta ambicionada pelos globalistas.
    Por outro lado, o papa Francisco priorizaria a pastoral em detrimento da letra, contrastando-se; dessa forma, em certos casos distoariam da maneira com a Igreja sempre creu e praticou sob o: “quod sempre, quod ubique, quod ab omnibus” de S Vicente de Lérins, e fora disso rejeitável, e colocaria sua doutrina nivelada ao relativismo protestante.
    Até na política se destacaria negativamente ao dar guarida a nossos declarados inimigos e ultra agressivos muçulmanos, discordando do genial S Tomaz de Aquino que recomendava que, para receberem povos diferentes esses teriam de ter afinidades, amar o povo e a nação; dessa forma, porque então se admitirem os impostores muçulmanos aliados dos comunistas para depois nos trucidarem, como estão barbarizando na Europa?!
    Enquanto isso, os trastes muçulmanos deportam e trucidam os cristãos em suas terras apenas por não aceitarem sua fé pagã. Por nossa bandas, parece que o principio da reciprocidade não é levado a serio, o “não faça ao próximo o que não quer que lhe faça” – tem-se impressão de estar sendo deixado de lado!
    Mesmo os judeus eram reticentes em acolherem quaisquer refugiados que não lhes fossem ao menos algo amistosos, possuíam certas regras preventivas de infiltrações inimigas, como os amalecitas: “Já que a mão, disse ele, foi levantada contra o trono do Senhor, o Senhor está em guerra perpétua contra Amalec”. Ex 17,16.

  2. Que absurdo, hein ? Quem puder veja este vídeo: https:// http://www.youtube.com/watch?v=TS1GC2kX9HY An Unholy Alliance: the UN, Soros, and the Francis Papacy
    A “conversão pastoral” deve ser entendida como uma transformação “que conduza toda a Igreja a ‘uma saída de si’, renunciando a centrar-se em si mesma”, ou seja, a “uma renúncia da Igreja à própria identidade e à própria tradição”, para assumir as múltiplas identidades propostas pelas periferias do mundo. ???
    Rejeitar os imigrantes é um ato de guerra. ???
    E o exame de consciência de hoje ? “Eu vou fazer hoje uma pergunta para todos nós: o que sentimos em nossos corações quando na rua vemos os desabrigados, vemos as crianças sozinhas que mendigam?”. Talvez pensamos que “são daquela etnia que rouba.” Mas “o que eu sinto ” quando eu vejo” os sem abrigo, os pobres, os abandonados, ou até mesmo os sem abrigo bem vestidos, porque não têm dinheiro para pagar o aluguel, porque eles não tem emprego?”. E tudo ‘isso – disse o Papa – é parte da paisagem, a paisagem de uma cidade, como uma estátua, o ponto de ônibus, estação de correios, e os sem-teto são parte da cidade? Isso é normal? Cuidado, estejamos atentos! Quando estas coisas em nossos corações ressoam como normal – “, mas sim, a vida é assim, eu como, eu bebo, mas para fugir um pouco da culpa eu faço uma oferta e vou em frente.” – A estrada não vai bem ” Se tivermos esses pensamentos significa que “estamos, nesse momento, em que terreno escorregadio, que leva “do pecado para a corrupção.” Para isso, ele continuou, devemos nos perguntar: “O que eu sinto quando na notícia, nos jornais, vejo que uma bomba caiu lá, sobre um hospital, e muitas crianças morreram, sobre uma escola, pobre gente”. Talvez “Eu digo uma Ave-Maria, um Pai Nosso para eles e continuo a viver como se nada tivesse acontecido.”
    O que é que eles querem ??? Tá muito pesado isto !

  3. A Igreja nunca teve problema com migrações e imigrações. Partia para cima, no melhor sentido do termo, pregava, batizava e aumentava suas fronteiras espirituais.

    A Igreja teve problema com invasões. Somente alguém alienado e intoxicado ideológica e espiritualmente não consegue ver o grave problema embutido nas atuais ondas imigratórias na Europa, e não só… A Tríplice Fronteira e os subúrbios de Santo Amaro que o digam.

    E convém lembrar que o elemento fundamental que favoreceu a islamização da Península Ibérica (a partir de 711) foi a inépcia do clero à época, às voltas, para variar, com questiúnculas de ordem temporal, cobiças, partidos e prebendas que dividiam os reinos visigóticos de então.

  4. “Eu vou fazer hoje uma pergunta para todos nós: o que sentimos em nossos corações quando na rua vemos os desabrigados, vemos as crianças sozinhas que mendigam?”

    Eu sinto uma vontade enorme de pegar esse clero esquerdista que enganou o povo levando-os a votar em partidos esquerdistas como o PT e jogá-los todos na fogueira da Inquisição!
    Bergoglio não teria durado um dia no Pontificado de São Pio X, que excomungou padres como ele sem nenhuma parcimônia!
    Cardeal Sarto resumiu o estado triste em que se encontrava a Igreja, naquilo que pode ser comparado em um grau infinitamente maior com a Igreja que temos nos dias de hoje:

    “Deus foi expulso do mundo político por causa dessa teoria de separação entre Estado e Igreja. Ele foi expulso do sistema de ensino através da semeadura da dúvida, das artes através da degradante influência do realismo, das leis por um conceito de moral guiado exclusivamente pelos sentidos, das escolas através da abolição da instrução religiosa, do casamento cristão o qual agora querem privar da graça sacramental, dos barracos dos pobres e camponeses, que agora desdenham o auxílio do Únido que pode fazer com que suas vidas difíceis sejam mais suportáveis, e também foi expulso dos palácios dos ricos, que não mais temem o Eterno Juiz que um dia pedirá conta da administração de seus bens. Nós precisamos lutar contra esse erro contemporâneo que é a entronização do homem no lugar de Deus. A solução pra todos esses problemas está na Igreja e na pregação fiel do Evangelho”.

    • Querida Gercione,

      onde se encontra esta oportuna citação do Cardeal Sarto?
      Gostei, ela resume bem o que vem acontecendo nas últimas décadas.

  5. Isso mesmo, Gercione, gostei, O PSDBagulho, pau-mandado do PTrapaças, pintaram e rabiscaram por mais de 20 anos e quem do clero deu um pio, de tão poucos contras que a gente até sabe o nome, só aqueles que v conta nos dedos e depois eles vem com esse papo-furado de defesa de pobres!
    Que tais vermelhos vão baixar noutro centro!

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