O Leão de Campos. Quem era este homem?

No 26o. aniversário de falecimento de Dom Antonio de Castro Mayer, bispo diocesano de Campos, RJ, republicamos nosso post de 2008.

Dom Antônio de Castro Mayer

Dom Antônio de Castro MayerCruz 25 de abril de 1991.

Fidelium animae per misericordiam Dei

requiescant in pace.

Q

uem era este homem elevado a uma posição de alta responsabilidade eclesiástica em 23 de maio de 1948? Quem era este homem que se tornaria uma das “duas testemunhas” da Igreja de sempre, sacrificando a honra do mundo e dias calmos na defesa da Fé Católica?

Todo homem permanece em certo grau envolto em mistério, o coração de cada personalidade humana individual e o centro de cada alma é aberto e revelado apenas para Deus. Há certos aspectos de Dom Antônio de Castro Mayer que não são misteriosos, mas abertos e claros a qualquer olho observador. Facetas de sua personalidade e aspectos de sua alma eram totalmente públicos. Era um daqueles homens abençoados com a unidade de ser, o interno e externo em harmonia, os vários lados de seu caráter unificados num todo. Um homem íntegro. Em seu caráter pode ser encontrado apenas dois mistérios reais a serem explorados mais tarde. Em sua época de fragmentação, insegurança e angústia existencial, andava ele, um homem justo, uno, em paz com seu Deus.

Dom Antônio[…] Nesta primeira foto do novo bispo de Campos sagrado em 1948, a autoridade descansa confortavelmente em seu possuidor; há “aquilo no rosto que [qualquer um] chamaria de bom grado de senhor”. Todos que o conheciam e especialmente aqueles que foram afortunados o bastante para conhecê-lo bem atestam esta autoridade, um dom dado por Deus.

Eles não podem falar do homem e mencionar seu nome sem suas vozes e comportamento assumirem uma espécie de temor e reverência. E, todavia, curiosamente, eles nunca mencionam estas qualidades diretamente. Parecem quase inconscientes do grande efeito que a presença deste homem tinha sobre eles. Sua atitude e vitalidade criavam estima em todos que o encontravam, uma estima próxima da veneração. Ainda quando essas mesmas pessoas falavam diretamente de seu jeito, quando escreviam aquelas qualidades especiais que o faziam único, falavam primeiro de sua humildade, sua simplicidade, sua inocência. Modesto em sua juventude, permaneceu um homem humilde por toda sua vida. Nunca se promovendo nem trabalhando para garantir o avanço de sua carreira quando jovem, permaneceu distante das honras do mundo e muitas vezes mesmo de seus simples prazeres.

Durante sua enfermidade final, que foi longa, seu médico expressou espanto por nunca ter ouvido aquele homem reclamar sequer uma vez, pouco importasse quanto desconforto ou dor experimentava. Quando seus padres tiveram de cuidar dele por causa de seu estado enfraquecido, nunca o ouviram se queixar. Dependia de seus padres para suas refeições. Perguntavam-no: “prefere mamão ou banana de fruta?”. Replicava: “você escolhe”. “Mas temos as duas. Qual você prefere?”, respondiam. “Tanto faz, você escolhe”. As graças de Deus eram abundantes; Dom Antônio apreciaria qualquer coisa que aparecesse em seu caminho. Assim, não surpreende ter vivido numa simplicidade quase de um eremita, se poderia dizer pobreza, no palácio episcopal. Chegaria o dia em que o mundo o puniria por esta santa austeridade. Esse não é o jeito do mundo.

Seus prazeres terrenos eram poucos. Seus livros, claro, mas isso não é novidade. Aparentemente sua única verdadeira ligação a prazeres deste mundo era seu amor pelo pingue-pongue. Nos fins de seus dias, uma raquete em sua mão indicaria a primavera de vida renovada e energia juvenil. Uma raquete em sua mão extrairia do misterioso íntimo de seu ser um desejo competitivo invisível. Com zelo, ele desafiaria seus padres, os fiéis da diocese ou as crianças que o visitavam. A batalha de dentro e fora da raquete na bolinha branca de plástico sob o revestimento verde na mesa lhe dava grande alegria. Instituiu um campeonato especial e, quando já eram passados seus próprios dias como jogador,  ainda se deliciava assistindo os quatrocentos meninos de toda a diocese mostrarem suas habilidades e avançarem os postos, raquetes em mãos, até a vitória final. Um troféu especial viaja toda primavera para a paróquia cujos moços mostraram a mais extraordinária proeza na competição de pingue-pongue daquele ano.

Tinha uma habilidade de mover-se entre seus fiéis e misturar-se com eles na vida cotidiana sem de qualquer maneira diminuir ou desfigurar sua autoridade. Sentia-se tão confortável oferecendo uma Missa Solene no Natal ou Páscoa diante de uma multidão abarrotada na Basílica do Santíssimo Salvador em Campos, uma igreja elevada ao status de basílica através de seus esforços, como ao oferecer uma benção à turma da primeira série em sua pequena cerimônia de formatura. Viveu a vida de sua diocese com os fiéis em todos os seus aspectos, em toda faceta possível da existência do dia-a-dia, e contudo sempre manteve sua dignidade como seu bispo. Serviria [como acólito] enquanto era bispo a Missa de seus jovens padres. O fazia sem falsa humildade e sem nunca fazê-los se sentir desajeitados. Não havia nada sobre sua própria Missa que a fizesse extraordinária, nada que a distinguisse. Era um bispo, sim; foi, além disso, um artesão, como o foi seu pai, fazendo bem seu trabalho e no melhor de suas habilidades, mas, ao mesmo tempo, ciente de que estava fazendo um trabalho. Sua atitude foi sempre “arregaçar as mangas e trabalhar”, e fez este trabalho sem pretensão ou esperança de elogios. As palavras do escritor inglês Evelyn Waugh vêm à mente. Numa carta escrita em 1964 ao Catholic Herald, Waugh alertava para os perigos da “renovação explosiva” dos inovadores do Concílio Vaticano Segundo “que desejam mudar o aspecto exterior da Igreja”. Ele chegava a descrever sua própria conversão, especificamente aqueles aspectos da Fé que o levaram à Igreja. Aquela “atração estranha” que mais o atraía, dizia, “era o espetáculo do padre e seus ajudantes na Missa rezada, subindo lentamente o altar sem dar uma olhada sequer para saber os muitos ou poucos que tem em sua congregação; um artesão e seu aprendiz; um homem com um trabalho que apenas ele é qualificado para fazer” (Waugh, Evelyn, A Little Order – Boston: Little, Brown, 1977 – pág. 188). O relato é uma descrição apropriada do trabalho do Bispo de Campos.

Um de seus padres o descreveu nestas palavras: “Ele foi um homem de grande simplicidade. Tinha a alma de uma criança”. Nunca falou mal de outros e se recusava a acreditar, às vezes para sua tristeza, que outros pensariam ou falariam mal dele. Amava crianças e aproveitava as ocasiões quando podia estar com elas. Era, em seu tranqüilo modo, uma delas.

Também permaneceu uma criança em sua devoção às suas mães, sua mãe terrena e sua Mãe espiritual. A incessante e intensa devoção de Dom Antônio à Santa Mãe de Deus marcou seu reinado em Campos. Uma de suas primeiras ações ao tornar-se Bispo de Campos foi publicar uma ordem especial a seus padres – doravante na diocese, ao fim de toda Missa, três Ave-Marias adicionais seriam rezadas pelo padre e fiéis à Nossa Santa Mãe com a intenção de que ela preservasse a verdadeira Fé Católica e de que a heresia nunca encontrasse abrigo na diocese. Tal devoção foi recompensada.

Ele mesmo rezaria o rosário em todas as horas do dia ou da noite. Seus padres relatam que quando viajavam com ele, muitas vezes ele os acordava em horas incomuns para rezar o rosário porque adorava rezar acompanhado. Certa vez, durante uma visita ao seminário da Fraternidade São Pio X, em Ecône, Suiça, o bispo acordou seus companheiros de viagem depois do “apagar das luzes” do seminário, uma hora de silêncio estritamente obrigatório, e anunciou seu desejo de rezar o rosário. Lembraram a ele que era tarde e que o seminário estava observando um período de silêncio e repouso, mas sua devoção a Nossa Senhora não seria dissuadida. Foram com ele assim que começou a andar pelos corredores do seminário com sua voz ecoando as Ave-Marias. As cabeças dos seminaristas enraivecidos começaram a aparecer enquanto mais e mais portas iam se abrindo bruscamente. Ao encontrar o vibrantemente fervoroso Dom Antônio como o réu rezador, suavemente fechavam suas portas e envergonhados retornavam para suas camas.

[…] A qualidade final de Dom Antônio de Castro Mayer que definia seu caráter é a óbvia – sua grande inteligência. Este dom é evidenciado em suas cartas pastorais e em sua vida, mas pode logo de início ser visto numa espécie de símbolo nas fotos do homem naqueles extraordinários óculos que adornavam seus olhos penetrantes. Se alguém fosse fazer uma caricatura do homem, começaria certamente por aqueles óculos. Pouco depois de sua elevação ao trono episcopal de Campos, os óculos apareceram – enormes, pesados, armação tipo concha. Os olhos escuros que brilham com intenso pensamento ficaram ampliados e pareciam colocados como jóias escuras nos sólidos círculos moldurados dos óculos. Eles dominavam sua cabeça e atraiam a atenção em toda fotografia para aqueles sábios olhos e à mente ágil trabalhando por detrás deles.

Dom AntonioNa medida em que chegava a idade, o bispo e já pequeno homem começou a diminuir fisicamente, encolhendo em tamanho enquanto seu espírito crescia, e os óculos, por serem os mesmos, tornavam-se cada vez mais salientes. Pareciam se tornar gigantes. Ao fim de sua vida, quando os anos e as provações por defender a Fé e a Igreja de Cristo cobraram seu preço total e reduziram a forma física de Dom Antônio novamente ao tamanho diminutivo de um garoto, os óculos tomavam muito do espaço na menor tela da face e servia como prismas escuros radiando a inteligência para fora em fluxos de sábias luzes. No fim ele era uma “sábia criança”, um prodígio idoso para a época.

Padre Possidente, que cuidou do bispo até o fim, conta de sua recuperação de consciência exatos quarenta minutos antes de sua morte. Embora seu corpo estivesse reduzido ao desamparo, embora ele pudesse respirar com muita dificuldade, e embora a fala agora fosse algo do passado, “seus olhos estavam completamente vivos”. Eles cintilavam com “a verdadeira luz que ilumina todo homem e que veio a este mundo”, a luz que este bispo “conheceu”, “recebeu” e “intensificou”. Brilhavam com a “verdadeira luz” que não pode se apagar.

The Mouth of the Lion: Bishop Antonio de Castro Mayer and the last Catholic Diocese. Dr. David Allen White, Angelus Press, 1993 – pág. 51 a 57. Tradução: FratresInUnum.com

Leia as postagens anteriores da série sobre o Leão de Campos.

9 Comentários to “O Leão de Campos. Quem era este homem?”

  1. SANCTUS EST !

  2. Sensibilizado agradeço do íntimo do coração a este conceituado e benemérito blog estes artigos sobre D. Antônio de Castro Mayer. Confesso que até hoje não havia atinado para estas publicações.
    Era um homem sábio, uma inteligência incomum como até hoje não vi igual, no entanto, humilde. Homem de penitência e de oração. Amava entranhadamente a Santa Madre Igreja e por ela consumiu sua vida, e, se assim tivesse sido da vontade de Deus, D. Mayer teria dado sua vida no martírio pela Santa Igreja.
    Como diocese, Campos era a única no mundo a conservar a Sagrada Tradição, graças a D. Antônio de Castro Mayer. Digo sempre para meus fiéis: Deus concedeu esta graça extraordinária à Diocese de Campos, e ai de nós se não lhe correspondermos. A quem Deus dá mais, vai exigir mais.

  3. Eu vi debaixo do sol a injustiça no lugar do direito, e a iniquidade no lugar da justiça. E disse no meu coração: Deus (um dia) julgará o justo e o ímpio, porque há um tempo para todas as coisas e para todas as obras. Eclesiastes III, 16-17.

  4. O eminente bispo D Antonio de Castro Mayer – uma das honras do episcopado brasileiro – até mesmo referido por D Lefèbvre, companheiro no Vaticano II, contribuiu imensamente contra os modernistas infiltrados, apesar de não terem tido o êxito necessario à causa da preservação da Doutrina Tradicional, ao menos não eram passivos frente aos de tendencias modernistas, devido lhes faltar apoio de muitos prelados.
    Ele denunciou sem rodeios a infiltração comunista nos meios católicos; causava certo impacto imediato devido a suas duras admoestações, entretanto, depois se seguia silencio, em especial da CNBB que se esquivava, até chegar ao ponto de hoje vir a público defender os inimigos da Igreja , como os comunistas, conspiradores contra fé!
    Assim, em parceria com outros, fizeram abaixo-assinados pedindo ao papa Paulo VI, então presente em Medellin, provi­dências contra a infiltração comu­nista na Igreja pois a maçonaria eclesiástica já estava algo ostensiva. Idem contra o IDOC e mais grupos de cursilhos subversivos “proféticos” das esquerdas que envenenavam gradativamente os católicos com uma doutrina socializante
    Apesar disso, seguiu sem apoio de colegas de episcopado, pois varios preferiam omitir-se, pois o embrião dos futuros sacerdote e bispos apoiadores de “diálogo com o mundo” já eram patentes, chegando ao ponto de hoje não os diferenciarmos varios de deles de agentes comunistas travestidos de sacerdotes ou bispos de aparencias católicas, como da TL, a serviço do comunismo internacional – caso da CNBB – se dependesse dela, teriam o sequenciamento entre nós dos chacais do PT!
    Atualmente, cerca de 99,5% de todas as homilias desde bispos a sacerdotes citam os efeitos dos desvarios dos marxistas, nunca suas digitais e muito menos citar-lhes o nomes, como desde FHC até chegar a Stalinacio da Silva e vilões associados à sua quadrilha – isso quando não os defendem em público, como D Hummes, D Casaldáliga, D Sândalo Bernardino et alii!!
    .

  5. Este livro bem poderia ser traduzido.

  6. Ecce sacerdos magnus, qui in diebus suis, placuit Deo
    (Eis o grande sacerdote que, em seus dias, agradou a Deus).
    Para um Bispo Confessor

  7. Não tive o privilégio de conhecer Dom Mayer em vida, mas ouvi tantas vezes o prof. Fedeli elogiar-lhe as virtudes que, em outubro de 2006, fiz uma viagem a Campos especialmente para visitar o túmulo do grande bispo e encomendar às suas preces diante de Deus alguns pedidos particulares meus, bem como algumas intenções que o professor Fedeli me encarregou, nessa ocasião, de apresentar, por assim dizer, a D. Mayer – em especial pelo IBP, que acabava de ser criado uns dois meses antes. E todas as graças específicas que solicitei nessa visita ao túmulo de Dom Mayer foram alcançadas, ficando bem claro para mim o poder de sua intercessão junto a Nosso Senhor e Sua Mãe Santíssima. Havia (e há) na Montfort uma lembrança muito grata a D. Mayer, porque ele apoiou muito o prof. Fedeli em sua separação da TFP e na fundação da Montfort, e inclusive ajudou decisivamente o casamento do professor com a Dona Ivone, seja através da resolução de certas dificuldades que surgiram, seja indo ele mesmo a S. Paulo para realizar a cerimônia, embora doente. Que Dom Mayer, este grande inimigo dos desmandos da CNBB e dos demais modernistas, nos ajude a sermos sempre e cada vez mais fiéis à Fé Católica verdadeira!

  8. Bons tempos aqueles, quando a Igreja pregava a Salvação das almas.
    Hoje, até a Diocese de Campos prioriza o fácil discurso político em prol dos pobres em detrimento do Cristo Jesus.
    Senão, vejamos:
    Por exemplo, divulgou posicionamento de apoio à greve, assinado pelo bisco diocesano Dom Roberto Francisco Ferreria Paz. “A Diocese de Campos seguindo a caminhada da CNBB e junto a outras Igrejas Cristãs e Religiões, apoia paralisação geral do dia 24/04/17, em defesa dos direitos sociais e da Constituição”, diz a nota.
    Fonte: http://www.jb.com.br/pais/noticias/2017/04/25/igreja-apoia-greve-geral-e-convoca-fieis-contra-reformas-do-governo/
    Sinal dos tempos!

  9. Que Dom Antônio, Dom Lefebvre e São Pio X roguem pela Santa Igreja e pela defesa da Fé nesses conturbados dias.