Reflexões da Sagrada Escritura: Lições de Fátima (III)

“Assim como pecado de um só, incorreram todos os homens na condenação, assim pela justiça de um só, recebem todos os homens a justificação que dá a vida. Assim como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim pela obediência de um só,muitos virão a ser justos” (Rom, V, 18 e 19).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

O pecado original e a redenção

Outro ponto essencial da doutrina católica deturpado pelos mestres do novo cristianismo é o pecado original. Uma noção falsa sobre esse dogma de nossa Fé falseia o conceito de Redenção, verdade igualmente fundamental em toda a economia da salvação misericordiosamente estabelecida por Deus Nosso Senhor. Por isso, vamos aqui recordar o que todos sabeis, caríssimos filhos.

O pecado original é o pecado com que todos fomos concebidos, com exceção da Virgem Maria, dele isenta pelo especial privilégio da Conceição Imaculada, e de Nosso Senhor Jesus Cristo, cuja concepção virginal o punha fora de lei do pecado, pecado aliás que vinha Ele destruir no mundo.

O pecado original consiste na ausência da graça santificante, ausência que nos faz inimigos de Deus, incapazes de entrar no Céu. Nós nascemos com esse pecado porque pertencemos à família de Adão, à progênie do primeiro homem. Adão foi criado por Deus com a graça divina e ainda adornado de outros dons também gratuitos, que  tornavam sua natureza de uma excelência superior à que de direito lhe seria devida. Essa graça santificante e esses dons preternaturais, Adão, segundo os desígnios de Deus, os transmitiria à posteridade, se obedecesse a um  mandato divino. Mas, ele desobedeceu, e como castigo desse pecado perdeu a graça santificante e os demais dons que enalteciam sua natureza.

Tornou-se inimigo de Deus, incapaz de entrar na vida eterna do Paraíso; e essa situação do primeiro chefe da família humana tornou-se a situação de toda a sua família, de toda a sua progênie, excetuadas as duas Pessoas que acima lembramos. Deus, no entanto, na sua infinita bondade, não quis que essa situação permanecesse irreparável. Enviou um Redentor, capaz de dar-Lhe uma reparação condigna, mesmo acima do que exigiria a justiça. Esse Redentor é Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, por obra do Espírito Santo, e nascido da Virgem Maria. Foi Ele, nosso Salvador, que com sua ignominiosa morte de Cruz, na qual consumou a obediência ao Pai Celeste, reparando a desobediência do primeiro homem, nos remiu, nos resgatou do cativeiro do demônio, nos restituiu a graça santificante, tornou-nos novamente capazes da amizade divina, da vida eterna do Paraíso no seio de Deus.

Tudo isso se encontra sintetizado na frase de São Paulo aos romanos: “Como pelo pecado de um só a condenação se estendeu a todos os homens, assim também por um só ato de justiça recebem todos os homens a justificação que dá a vida. Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos” (Rom. 5, 18-19).

E para que não houvesse dúvida sobre o sentido das palavras de São Paulo, e sobre a verdade revelada, o Concílio Tridentino explanou, contra os erros dos protestantes, em um Decreto de sua Sessão V, toda a doutrina católica sobre o pecado original. Esse decreto consta de uma introdução, cinco cânones e uma consideração final sobre a condição especial de Maria Santíssima nesta matéria. Nos cânones, o Sacrossanto Concílio ensina que Adão, primeiro homem, pessoal e livremente transgrediu um preceito divino, e com essa transgressão perdeu a santidade e a justiça em que tinha sido constituído, e incorreu na ira e indignação de Deus, ficando sujeito à morte e ao cativeiro de demônio (cânon 1); que a prevaricação de Adão prejudicou não só a ele, mas a toda a sua descendência, a qual, por isso mesmo, perdeu a santidade e a justiça recebidas de Deus no seu progenitor; e mais ainda, que Adão transmite à sua posteridade não somente a morte mas o mesmo pecado que é a morte da alma (cânon 2). O cânon 3 declara que o pecado original se transmite pela geração e não por imitação, como queriam os protestantes, e que se apaga não por forças naturais, mas pelos merecimentos de Jesus Cristo que a Igreja aplica, quer às crianças como aos adultos, no Sacramento do Batismo; os cânones 4 e 5 afirmam que as crianças recém-nascidas devem ser batizadas para que nelas se apague o reato do pecado original, porquanto o Batismo apaga a própria culpa e não apenas a risca ou faz com que não seja imputada ao fiel.

Como vedes, caríssimos filhos, é a mesma doutrina que aprendestes nos vossos primeiros anos de infância, ou nas aulas de catecismo ou dos lábios de vossas mães. Também compreendeis que se trata de ponto essencial. É o dogma do pecado original que nos faz como que sentir as profundezas do amor com que Deus Nosso Senhor nos amou. Ele que dá a compreensão do que dizemos com inefável esperança na Santa Missa: “Deus qui humanam substantiam mirabiliter condidisti et mirabilius reformastis”. Pois realmente, se há um ato maravilhoso da onipotência divina ao criar os seres do nada, de longe o supera em maravilha a caridade com a qual Deus vem ao homem pecador para transformá-lo de inimigo em filho adotivo, em membro de sua família, conviva de sua mesa! Destruí o dogma do pecado original, e esvaziareis as alegrias com que a Igreja canta o “Exsultet” na vigília da Ressurreição.

Tudo isso, amados filhos, é verdade, e antigo como a Igreja, e não precisamos gastar tempo para vos convencer. Não obstante, os mestres do novo cristianismo tentam anular a base de todas essas consolações com seu conceito novo do pecado original. Para eles, o pecado original não é a desobediência voluntária de Adão, que acarretou para cada um dos seus descendentes a ausência da graça e o estado de pecado. O trecho de São Paulo aos romanos seria um  “gênero literário”, ou seja, uma maneira de expressar um pensamento diverso daquele que as palavras literalmente exprimem. O pecado original que nos contamina não seria o pecado de Adão, primeiro homem, mas o pecado do homem em geral, o pecado do mundo, o pecado da humanidade tomada como um todo!

Cremos que não é preciso insistir mais para se ver como tal doutrina interpreta arbitrariamente a Sagrada Escritura, não faz o menor caso do Magistério infalível, anula o caráter moral que há na Redenção, e prepara uma concepção gnóstica do Cristianismo.

One Comment to “Reflexões da Sagrada Escritura: Lições de Fátima (III)”

  1. Deturpando o Dogma do Pecado Original? Estando nós num tempo em que proliferam clérigos à la Pe Arturo M Abascal, superior jesuíta, depreciando e relativizando a Tradição e os ensinamentos bíblicos, possuidor de antecedentes que seria apoiador de ideologias das esquerdas, disparatou sem receio algum de punição que se deveria “reinterpretar a Jesus por naquele tempo inexistir gravador para se ter certeza de suas palavras”, donde concluiremos sem receio algum que, quaisquer revolucionarismos, heresia e estupidez concernentes à Doutrina da Igreja provinda do topo eclesiástico que aparecer não mais causará reboliço algum!
    Se acaso existisse gravação daquele tempo, bem capaz seria de dizer que poderiam ter sido montadas para o enganar, mais se parecendo com aqueles fariseus e Doutores da Lei que “não queriam ver por não lhes interessarem, por atentar contra seus projetos de poder”, em nada contrastando com os atuais neo-ateístas ideológicos sequiosos de dominio das massas, delas fazerem o que quiserem, via relativização e indução a erros, embora simulando serem para o bem – tudo muito sutilmente montado!
    O momento atual infelizmente tem servido mesmo é para subverter o resto que ainda sobrou de cristianismo, como achegar-se aos hereges protestantes, os quais são filhos do iluminista Lutero patrocinador-mor das ideologias atuais, com as quais tão bem se dão, as material-ateístas etc., como se tivessem algo a nos transmitir de bom, senão o mesmo relatado possuindo em seus corações; o niilismo, o fiel retrato do pandemonio atual em todos os niveis!
    Deturpando o Dogma do Pecado Original? Já não nos bastam os black blocs ideologistas agregados à TL socializando a doutrina da Igreja, assim como tantos do clero simpatizantes de modernistas subversores de multidões?
    Esses mascarados escamoteiam a nodoa retransmitida decorrente do pecado original cometido por nossos primeiros pais que nos arrastam, induzindo-nos com muito mais facilidade para os erros que para o bem em nosso dualismo decorrente dele, além de esses profetas do caos possuirem por missões nesse mundo as de perverterem as mentes e as arrastarem atrás de si à eterna condenação!