“A Rússia será católica”.

Por Roberto de Mattei – Corrispondenza Romana,  31 de maio de 2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com“A Rússia será católica”: esta é a inscrição que foi colocada no túmulo do padre Gregório Agostinho Maria Šuvalov no cemitério de Montparnasse,  em Paris. O barnabita russo se imolou como vítima por esta causa (Antonio Maria Gentili, Os barnabitas, Padres Barnabitas, Roma,  2012,  pp. 395-403).

O conde Grigorij Petrovič Šuvalov nasceu no dia 25 de outubro de 1804 em Petersburgo, numa família da antiga nobreza. Um tio dele, general do exército, recebeu a missão de acompanhar Napoleão, derrotado, na ilha de Elba, e outro antepassado fundou a Universidade de Moscou. Ele estudou de 1808 a 1817 no colégio dos jesuítas de Petersburgo, até que, expulsos estes da Rússia, continuou seus estudos primeiro na Suíça e depois na Universidade de Pisa, onde aprendeu perfeitamente a língua italiana. No entanto, foi influenciado pelo materialismo e pelo niilismo então imperantes nos círculos liberais que frequentava. Nomeado pelo Czar Alexandre I oficial dos hussardos da Guarda, aos vinte anos, em 1824, desposou Sofia Soltikov, uma moça profundamente religiosa, ortodoxa, mas “católica na alma e no coração”, que morrerá em Veneza em 1841 e com a qual terá dois filhos: Pedro e Helena.

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A morte de Sofia levou-o a estudar religião. Um dia, Šuvalov se deparou com o livro Confissões, de Santo Agostinho, que foi para ele uma revelação. “Eu o lia incessantemente, copiava páginas inteiras, extraía longos trechos. Sua filosofia enchia-me de bons desejos e amor. Com tais transportes de contentamento, eu encontrava naquele grande homem sentimentos e pensamentos que até então haviam dormido na [minha] alma e que a leitura despertava”.

Mudando-se para Paris, o conde Šuvalov passou a frequentar um grupo de aristocratas russos convertidos à Igreja Católica graças, sobretudo, ao conde Joseph de Maistre (1753-1821), que de 1802-1817 fora embaixador do Rei da Sardenha em Petersburgo. Entre eles estavam Sofia Swetchine (1782-1857), o príncipe Ivan Gagarin (1814-1882) e o príncipe Teodoro Galitzin (1805-1848). Este último, notando a profunda crise espiritual de seu amigo, ajudou-o a encontrar a verdade, recomendando-lhe a leitura e meditação de Du Pape, de Joseph de Maistre. Lendo a obra do conde saboiano, Šuvalov compreendeu que a primeira nota da Igreja é a unidade, a qual exige uma autoridade suprema, que não pode ser outra senão a do Romano Pontífice. “Senhor, tu dizes: a minha Igreja, e não as minhas igrejas. Por outro lado, a Igreja deve manter a verdade; mas a verdade é una; portanto, a Igreja só pode ser uma. (…) Quando conheci que não pode existir senão uma Igreja verdadeira, compreendi também que essa Igreja deve ser universal, isto é, católica.”

Šuvalov ia todas as noites a Notre-Dame para ouvir os sermões do padre Francisco Xavier de Ravignan (1795-1858), um jesuíta que se tornaria seu guia espiritual. Em 6 de janeiro de 1843, festa da Epifania, Šuvalov abjurou os erros da Igreja Ortodoxa russa e fez a profissão da fé católica na Chapelle des Oiseaux. Mas aspirava a uma dedicação mais profunda à causa católica.

Através de um jovem liberal italiano, Emilio Dandolo, encontrado por acaso no trem, ele conheceu o padre Alexandre Piantoni, reitor da faculdade Longone, dos Barnabitas em Milão, que em 1856 o recebeu no noviciado em Monza, com o nome de Agostinho Maria. Na ordem fundada por Santo Antonio Maria Zaccaria (1502-1539), Šuvalov encontrou um ambiente profundamente espiritual. Ele escrevia ao padre Ravignan: “Acho que estou no Paraíso. Meus superiores são como santos, os noviços como anjos”. Entre os jovens irmãos confrades estava César Tondini de’ Quarenghi (1839-1907), que teria recolhido mais do que qualquer outro a sua herança espiritual. Em 19 de setembro de 1857, Agostinho Šuvalov foi ordenado sacerdote em Milão por monsenhor Angelo Ramazzotti, futuro Patriarca de Veneza.

No dia da ordenação, na elevação do cálice, ele fez esta súplica a Deus. “Meu Deus, tornai-me digno de dar a vida e o sangue em união com o vosso, para a glorificação da Bem-aventurada Virgem Imaculada e pela conversão da Rússia.” Este foi o sonho de sua vida, que ele confiou à Imaculada, de quem, em 8 de dezembro de 1858, Pio IX proclamou o dogma. Recebido em audiência pelo Papa, o padre Šuvalov lhe manifestou o desejo de dedicar sua vida ao retorno dos cismáticos à Igreja de Roma. No memorável encontro, “Pio IX falou-me da Rússia com aquela fé, aquela esperança e aquela convicção apoiadas na palavra de Jesus, e com aquela caridade ardente da qual era movido pensando em seus filhos extraviados, pobres órfãos voluntários. Estas suas palavras me inflamavam o coração”. O padre Šuvalov declarou-se pronto para fazer o sacrifício de sua vida pela conversão da Rússia. “Contudo, disse então o Santo Padre, repeti continuamente este propósito três vezes ao dia diante do crucifixo; estai certo de que vosso desejo se realizará”.

Paris foi o campo de seu apostolado e de sua imolação: ali ele se esforçou incansavelmente, conquistando inúmeras almas e dando vida à Associação de orações para o triunfo da Bem-aventurada Virgem Imaculada na conversão dos cismáticos orientais, e especialmente dos russos, à fé católica, chamada comumente de Obra do Padre Šuvalov. Pio IX a aprovou com um breve de 1862 e o padre César Tondini foi dela um incansável propagador. Mas o padre Šuvalov morreu em Paris no dia 2 de abril de 1859.

Ele acabava de escrever sua autobiografia Minha conversão e minha vocação (Paris 1859). Traduzido e reimpresso no século XIX, o livro foi apresentado em uma nova edição italiana pelos padres Enrico M. Sironi e Franco M. Ghilardotti (La mia conversione e la mia vocazione, Gráfica Dehoniane, Bolonha, 2004), da qual extraímos as nossas citações. O padre Ghilardotti também trabalhou para trazer de volta à Itália os restos do padre Šuvalov, que agora repousam na igreja de San Paolo Maggiore em Bolonha, construída em 1611 pelos padres barnabitas. Ao pé de um altar encimado por uma cópia da Santíssima Trindade feita por Andrei Rublev, o maior pintor russo de ícones, o padre Gregório Agostinho Maria Šuvalov aguarda a hora da ressurreição.

Em sua autobiografia, o barnabita russo escreveu: “Quando a heresia ameaça, quando a fé definha, quando os costumes se corrompem e as pessoas adormecem à beira do abismo, Deus, que tudo dispõe com peso, número e medida, para despertá-los, abre os tesouros de sua graça; e ora suscita em alguma obscura aldeia um santo escondido, cuja eficaz oração retém seu braço  pronto para punir; ora faz aparecer na face da terra uma esplêndida luz, um Moisés, um Gregório VII, um Bernardo; ora inspira, pelo concurso de algum fato milagroso, passageiro ou permanente, a ideia de uma peregrinação ou de qualquer outra nova devoção, nova talvez pela forma, mas sempre antiga na essência, um culto comovente e salutar. Tal foi a origem da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Esse culto nascido  no meio de muitas contradições, num pequeno claustro da aldeia de Paray-le-Monial…”.

Tal, podemos acrescentar, é a origem da devoção ao Coração Imaculado de Maria, cuja propagação Nossa Senhora pediu cem anos atrás numa pequena aldeia de Portugal. Em Fátima, Nossa Senhora anunciou a realização do grande ideal do padre Šuvalov: a conversão da Rússia à fé católica. Um acontecimento extraordinário que pertence ao nosso futuro, e que fará ressoar em todo o mundo as misteriosas palavras da Escritura que o padre  Šuvalov aplica à sua própria conversão: Surge qui Dormis, surge a mortuis et iluminabit te Christus“Desperta, tu que dormes! Levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará” (Ef 5, 14).

 

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8 Comentários to ““A Rússia será católica”.”

  1. É só uma questão de tempo.
    Vejam o que dizem algumas profecias modernas:
    – “A Rússia é o povo onde Deus será mais glorificado. O Ocidente avançou em civilização, mas sem Deus, como se fosse seu próprio criador”.
    – “A Rússia e o Ocidente trocaram papéis espirituais e culturais”.
    Nota: em março/1984, a Igreja Católica através do saudoso Papa João Paulo II completou com êxito a Consagração da Rússia ao coração de Nossa Senhora, cumprindo os desejos da Mãe de Deus.
    Evidente, nem todos concordam…
    Mas de repente, a misteriosa ascensão do cristianismo na Rússia aponta evidências de que a profecia de Fátima está se desenrolando e que a consagração da Rússia ocorreu?
    No dia 1º de novembro de 1981, a União Soviética ainda era muito um Estado ateu (em guerra com o cristianismo). O Papa João Paulo II era uma ameaça real ao regime totalitário. Tanto que a União Soviética planejou matar o Papa. A tentativa de assassinato ocorreu em 13 de maio de 1981 (data de aniversário da primeira aparição da Virgem Maria em Fátima). Um mês depois da tentativa de vida do Papa, jun/81, a Virgem Maria (Rainha da Paz) começou a aparecer em Medjugorje. Na sequência, seis meses depois, a Virgem Maria falou sobre o futuro da Rússia e do “Ocidente”. Em uma breve mensagem aos videntes, Ela disse:
    – “A Rússia é que irá mais glorificar a Deus; o Ocidente fez a civilização progredir, mas sem Deus e age como se fosse seu próprio criador”.
    Parece impossível que, em 1981, a Virgem Maria falasse sobre uma época no futuro em que a União Soviética – URSS desapareceria e voltaria às suas raízes como o país da “Rússia” e que a Rússia experimentaria um renascimento espiritual imprevisto pelo mundo inteiro.
    “A Rússia é quem irá mais glorificar a Deus” – é esta “A Grande Profecia”.
    Sinal dos Tempos!!!

  2. Respeito as opiniões divergentes, mas particularmente me angustia ver católicos (bons e verdadeiros certamente) entusiastas da Rússia ortodoxa. Para mim mostra um provável desconhecimento da situação da Igreja Greco-Católica Ucraniana e de seus fiéis, que desde 1917 sofrem ataques e perseguições da Rússia, e mais especificamente, por parte da Igreja Ortodoxa Russa.
    Concordo que a Rússia é cristã e a Igreja Ortodoxa tem um papel de destaque na preservação de valores morais naquela sociedade. Mas a voz dos que condenam o aborto, por exemplo, é a mesma que defendeu o comunismo e que persegue esses greco-católicos. Enquanto Francisco abraça Kiril em Cuba, os greco-católicos são perseguidos em seu próprio país. Só para terem uma amostra, vejam essa reportagem que é da última semana: http://news.ugcc.ua/en/articles/after_years_of_cramped_spaces_ukrainian_catholics_bless_chapel_in_odessa_79566.html
    Pensemos um pouco no sofrimento desses irmãos, verdadeiros católicos mártires, não só durante o período da União Soviética, mas até os dias atuais. Lembremos de tantos os que perderam a vida pelo simples fato de desejar permanecer fiéis ao Papa.

  3. Acreditar que a Russia presentemente seja cristã seria enorme risco, pois as perseguições aos católicos permanecem de pé, a começar da Ucrania onde existem recorrentes denuncias dos católicos de lá, inclusive de prelados, além de amizade com o papa Francisco, assinarem documentos com Cirilo I logo em Cuba ao lado de Fidel Castro… No futuro, outro caso.
    A IOR, no presente, é atrelada ao Estado Russo e tanto Cirilo I como Putin são ex agentes secretos da KGB e apoiam certas causas que de nada divergem do comunismo anterior stalinista, só que hoje é camuflado sob o socialismo, o MARXISMO CULTURAL; enquanto isso, a Russia mantém as mesmas alianças com países comunistas, sendo ela que armou a Venezuela dos déspotas e renomados comunonazifascistas e carniceiros Chávez e Maduro.
    Para desafiar Obama e tentando enganar o Ocidente, dando uma de conservadora, a Russia tomou todas as medidas protetivas que enfraquecem o comunismo dentro de si, dos países promotores: todas as manifestações de feministas, gays e mais alienações do Ocidente são barradas, porém, financiam-nas noutros países para os subverter, embora mesmo “contra” o aborto se o pratica livremente, e o povo russo é ainda refém das ideias anteriores do comunismo, permanecendo até hoje o alcoolismo uma doença incurável – Putin quer o comunismo com as lutas de classes e desordens em todos os lugares, de menos dentro da Russia, o quanto possível.
    A IOR é muito desorganizada quanto ao magisterio doutrinario, sendo similarmente às relativistas seitas protestantes pois o patriarca da maior, a IOR, Cirilo I, é “unum inter pares”, as dioceses são independentes entre si, existem muitas seitas mutuamente divergentes oriundas do cisma oficial!
    Inexistiriam sinais de atual conversão da Russia, haja visto de como todos os males se expandem feericamente no mundo de todos os matizes, a cada dia, a olhos vistos e a marginalia que nos acerca, a começarem de seitas, despudor quase geral mostram que o diabo de quase todos já teria feito refém, a começar das profanações e assedios contra a Igreja católica, maus exemplos por infiltrados no Vaticano, quantidade de governos comunistas como a UE globalista, China, Coreia do Norte, os “Democratas” dos EUA e tudo quanto são vermelhos doutros países – e os religiosos de modo geral em cima do muro, portanto, omissos e/ou coniventes.
    Crer em Medjogorje-RCC? Além dos vetos de Bento XVI, acredite quem quiser; até o papa Francisco já se pronunciou:
    *“Quanto às aparições, as alegadas aparições atuais, o relatório tem as suas dúvidas. Eu pessoalmente sou mais duro, prefiro Nossa Senhora Mãe, nossa Mãe, e não Nossa Senhora chefe de uma repartição, que todos os dias manda uma mensagem a determinada hora, acrescentou. Esta não é a Mãe de Jesus”.
    Francisco considera que “estas alegadas aparições não têm tanto valor. Digo-o a título pessoal, mas é claro”.
    “Quem é que pode pensar que Nossa Senhora venha dizer: amanhã, à hora tal, direi uma mensagem a tal vidente… Não.
    *agencia.ecclesia.pt

  4. (Me chamou a atenção um trecho do texto) “Na ordem fundada por Santo Antonio Maria Zaccaria (1502-1539), Šuvalov encontrou um ambiente profundamente espiritual. Ele escrevia ao padre Ravignan: “Acho que estou no Paraíso. Meus superiores são como santos, os noviços como anjos”. ”
    Infelizmente, hoje em dia, não podemos mais dizer isso dos seminários; exceto talvez por alguma miraculosa exceção.

  5. Para a Rússia ser católica, precisa primeiro se converter. Rezemos por isso. Mas não sejamos tolos de achar q a Rússia atual é amiga da Igreja, muito pelo contrário. Que a Virgem de Fátima converta aquela nação!

  6. Por anos estive nos círculos formados pelo Dr Plinio Correa de Oliveira. Sobre o assunto ‘Rússia’, gostaria de deixar aqui uma reflexão com base no que aprendi dele.
    Dr Plinio costumava dizer que não compensava discutir com os protestantes, pois esses eram ‘a cauda morta da Revolução’. Ou seja, eles eram como um estágio de um monstro revolucionário, que, à medida em que passou o tempo, se distanciou da cabeça do monstro, e passaram a fazer peso morto, atrapalhando o avanço (se vê muito disso na atuação de parlamentares protestantes contra leis sobre família, etc – há 500 eles eram a ponta da lança revolucionária, e atualmente fazem peso contrário).
    O mesmo pensamento eu imagino que se aplica à Rússia. Aquele país sediou um regime que foi um estágio de avanço considerável da ‘Revolução’ – o regime comunista. Mas depois que esses erros se espalharam pelo mundo (conforme previsto em Fátima) o regime estatal russo, acabou sendo desnecessário – estágio queimado. E hoje a Rússia parece também ter virado uma ‘cauda morta da Revolução’, fazendo um peso contrário aos avanços da ‘cabeça’, que está muito mais à frente – talvez na ONU, EUA, na União Europeia, e até mesmo no Vaticano.
    Até aqui é um paralelo que fiz, com base no entendimento dele.
    Com relação expressamente à Rússia, Dr Plinio acreditava que, uma vez convertida, ela seria um elo de união entre o Ocidente e o Oriente, e que com isso, a Igreja chegaria de forma definitiva aos países asiáticos. Comentava também que notava na Igreja Ortodoxa uma certa ‘aflição e angústia’ que não existia na Igreja Católica, e que essa angústia cessaria assim que houvesse a conversão. E, tirando tirando essa aflição e mais pequenos detalhes, ele acreditava que muito pouco dos ritos ortodoxos precisaria ser mudado para adequá-los novamente ao seio da Santa Igreja.
    Enfim, que a Rússia se converterá é certo, pois Maria assim o prometeu em Fátima.

  7. Subsistem, de fato, algumas sementes boas na Rússia atual, as quais podem, quem sabe, germinar plenamente um dia, sob a forma de uma real conversão à verdadeira Fé Católica. Recentemente, por exemplo, foi muito belo ver os russos formarem mais de dois quilômetros de fila só para poderem venerar as relíquias de São Nicolau de Bari, que o Vaticano lhes enviou (http://br.radiovaticana.va/news/2017/05/25/fi%C3%A9is_russos_fazem_fila_para_ver_rel%C3%ADquias_de_s%C3%A3o_nicolau/1314786), e foi particularmente interessante ver o próprio Putin inclinando-se ante a urna das relíquias, para oscular a urna e nela tocar a fronte: http://senzapagare.blogspot.com.br/2017/06/presidente-russo-venera-reliquias-de.html
    Acho que a múmia de Lênin treme no sarcófago diante duma coisa dessas…