O plano de “reinterpretação” da Humanae Vitae.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 14-06-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Mons. Gilfredo  Marengo, docente no  Pontifício Instituto João Paulo II, será o coordenador da comissão nomeada pelo Papa Francisco para “reinterpretar”,  à luz da Amoris Laetitia, a encíclida Humanae Vitae de Paulo VI, no cinquentenário de sua promulgação no ano vindouro.

humanae-vitaeAs primeiras indiscrições sobre a existência dessa comissão ainda “secreta”,  feitas pelo vaticanista Marco Tosatti, eram de boa fonte. Podemos confirmar que tal comissão existe, composta  por Mons.  Pierangelo Sequeri, presidente do Pontifício Instituto João Paulo II,  pelo Prof.  Philippe Chenaux, docente de História da Igreja na Pontifícia Universidade Lateranense, e por Mons. Angelo Maffeirs, presidente do Instituto Paulo VI de Bréscia. O coordenador  é Mons. Gilfredo Marengo, professor de Antropologia teológica do Pontifício Instituto João Paulo II e membro do Comitê Diretivo da revista CVII-Centro Vaticano II Studi e ricerche.

A comissão tem a tarefa  de encontrar nos arquivos do Vaticano a documentação relativa  ao trabalho preparatório da Humanae Vitae, desenvolvido ao longo de três anos, durante e depois do Concílio Vaticano II.

O primeiro  grupo de estudo do problema do “controle da natalidade” foi constituído por João XXIII em março de 1963 e expandido a 75 membros por Paulo VI. Em 1966, os “peritos” entregaram suas conclusões ao papa Montini, sugerindo abrir as portas à contracepção artificial. Em  abril  de  1967,  o documento reservado da comissão – aquele que deveria hoje servir de base para a “revisão” da encíclica – apareceu simultaneamente na França (no Le Monde), na Grã-Bretanha (no Tablet) e nos Estados Unidos (no National Catholic Reporter). No entanto, após dois anos de oscilações,  Paulo VI  publicou, em 25 de julho de 1968, a encíclica Humanae Vitae, confirmando a posição tradicional da  Igreja,  que sempre vetou a limitação artificial dos nascimentos. Tratou-se, segundo o filósofo Romano Amerio, do ato mais  importante de seu pontificado.

A Humanae Vitae foi objeto de uma contestação sem precendentes, proveniente não somente de teólogos e sacerdotes, mas também de alguns episcopados, a começar pelo  belga, capitaneado pelo cardeal-primaz Leo Suenens, que no Concílio havia exclamado em tom veemente: “Sigamos o progresso da ciência. Conjuro-vos, Irmãos. Evitemos um novo processo Galileu. Um só bastou à Igreja.” O cardeal Michele Pellegrino,  arcebispo de Turim, definiu a encíclica como “uma tragédia da história pontifícia”. Em 1969, nove bispos holandeses, entre eles o cardeal Alfrink, votaram a chamada Declaração de Independência, na qual convidavam os fiéis a refutar o ensinamento da encíclica Humanae Vitae.  Na mesma ocasião, o  Concílio Pastoral Holandês, com a abstenção dos  bispos, declarou-se a favor do Novo Catecismo, recusando as correções sugeridas por Roma e pedindo que a Igreja permanecesse aberta a “novas abordagens radicais” sobre temas morais não citados na moção final, mas que emergiam dos trabalhos do Concílio, como relações pré-matrimoniais, uniões homossexuais, aborto e eutanásia. 

“Em 1968 – recorda  o cardeal Francis J. Stafford – aconteceu alguma coisa de terrível na Igreja. No seio do sacerdócio ministerial, entre amigos, verificaram-se em toda parte fraturas que jamais se recomporiam, feridas que continuam a afligir toda a Igreja” (1968, o ano da prova,  in “L’Osservatore Romano”, 25 de julho de 2008).

Sobre o tema da contracepção, Paulo VI se expressou na Humanae Vitae de modo considerado infalível pelos teólogos, e, portanto, irreformável, não porque o documento tenha em si mesmo os requisitos da infalibilidade per se,  mas por reafirmar uma doutrina proposta desde sempre pelo Magistério perene da Igreja. Os teólogos jesuítas Marcelino Zalba, John Ford e Gerald  Kelly,  os filósofos Arnaldo Xavier da Silveira e Germain Grisez, e muitos outros  autores, explicam como a doutrina da Humanae Vitae deve ser considerada infalível, não em virtude de seu ato de promulgação, mas porque confirma o Magistério ordinário universal dos Papas e dos bispos no mundo.

Mons. Gilfredo Marengo, a quem o Papa Francisco confiou a tarefa de reler a Humanae Vitae, pertence, pelo contrário, à categoria dos prelados que estão convencidos de poder conciliar o  inconciliável. Em fim de setembro de 2015,  comentando no Vatican Insider os trabalhos do Sínodo sobre a família, ele convidou a “abandonar uma concepção do patrimônio doutrinário da Igreja como um sistema fechado, impermeável às perguntas e provocações daqueles aos quais a comunidade cristã é chamada a dar razões da própria fé, como anúncio e testemunho”. Em um artigo mais recente no  mesmo órgão, com o significativo título Humanae Vitae e Amoris laetitia: histórias paralelas (Vatican Insider, 23 de março de 2017), Mons. Marengo se pergunta se “o jogo polêmico ‘pílula sim–pílula não’, assim como o atual ‘comunhão aos divorciados sim–comunhão aos divorciados não’, não seja senão a aparência de um desconforto e de uma fadiga, muito mais decisiva no tecido da vida eclesial”. De fato, segundo Marengo,“cada vez que a comunidade cristã cai no erro de propor modelos de vida derivados de ideais teológicos demasiado abstratos e artificialmente construídos, ela concebe sua ação pastoral como a aplicação esquemática de um paradigma doutrinário”. “Certo modo de defender e receber o ensinamento de Paulo VI – acrescenta – foi provavelmente um dos fatores pelos quais (cita neste momento o Papa Francisco) ‘apresentamos um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são. Esta excessiva idealização, sobretudo quando não despertamos a confiança na graça, não fez com que o matrimônio fosse mais desejável e atraente; muito pelo contrário’ (Francisco). 

No entanto, se a antítese “pílula sim–pílula não”, bem como aquela de hoje “comunhão para os divorciados sim–comunhão para os divorciados não” é apenas “um jogo polêmico”, o mesmo princípio pode ser aplicado a todos os grandes temas da fé e da moral: “aborto sim–aborto não”, mas também “ressurreição sim–ressurreição não”, “pecado original sim–pecado original não”, e assim por diante. A mesma contraposição entre verdade e erro, bem e mal se torna a esta altura “um jogo polêmico”.

Deve-se notar que Mons. Marengo não propõe ler a Amoris Laetitia na linha da hermenêutica da continuidade. Ele não nega a existência de uma contradição entre os dois documentos: admite que Amoris Laetitia autoriza aquilo que a Humanae Vitae proíbe. Mas acredita que toda antítese teológica e doutrinária é relativizada e superada em uma síntese que consiga conciliar os opostos. A verdadeira dicotomia é entre abstrato e concreto, entre verdade e vida. Para Mons. Marengo, o que importa e imergir-se na prática pastoral, sem inclinar-se para “ideais teológicos demasiado abstratos e construídos artificialmente”. Será a prática, não a doutrina, a indicar as linhas de ação. Em suma, o comportamento nasce do comportamento. E nenhum comportamento pode ser submetido a avaliações teológicas e morais abstratas. Não existem “modelos de vida”, mas apenas o fluxo da vida, que acolhe tudo, justifica tudo, santifica tudo.

O princípio de imanência, fulminado por São Pio X na encíclica Pascendi (1907), é reproposto de maneira emblemática. Haverá algum pastor ou teólogo que em face deste programa de “reinterpretação” da Humanae Vitae tenha a coragem de pronunciar a palavra “heresia”?

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16 Comentários to “O plano de “reinterpretação” da Humanae Vitae.”

  1. Eu penso no zelo apostólico. Porque buscar converter os não-católicos hoje em dia? Se a verdade esta tão relativizada que, mais um pouco, ser ou não ser católico (segundo essa nova igreja modernista), vai ser como tentar ver diferença entre meia dúzia e seis!

  2. Para variar, essa gente que ocupa a Santa Sé se põe a chutar cachorro morto.
    Infelizmente, a imensa maioria dos católicos “praticantes” não está nem aí para a Humanae Vitae, nem jamais ouviu falar dela. Quando muito, há meia dúzia de famílias Opus Day que fazem algum esforço (moderado) e olhe lá. Na tradilândia, graças a Deus, há muitas famílias com numerosos filhos.
    Seja como for, cada um age (“pastoral”) como pensa (“doutrina”). E os católicos não devemos e não podemos esperar nada de Bergoglio, que, dentre outras bravatas e humilhações infligidas ao nome cristão, recebe casais transviados no Vaticano, lugar sagrado em que São Pedro Apóstolo deu seu sangue pela novidade do Evangelho.
    Bergoglio é incapaz de julgar. Em Romanos, o Apóstolo das gentes explica em que condições costuma de dar esse “fenônemo” da obtenebratio mentis e da obduratio cordis.
    Quem usa cuida: “sicut in speculatrivis ita et in operativis”. Portanto, não será esse clero do vaticano segundo, muito apreciador de Dragons Queens, que há de defender a ordem natural e os costumes dos cristãos.

  3. O que me assusta são os pensamentos nefastos e até demoníacos por trás deste papado. Quem não vê o plano claríssimo de destruição da Igreja de dentro para fora que está em execução? Se alguém me dissesse que a frase de Nossa Senhora em La Salette (“Roma perderá a fé e se tornará a sede do anticristo.”) já está se cumprindo, eu acreditaria.

  4. Imaginemos a Igreja pré-medieval, convertendo bárbaros e adotando a praxis dos próprios bárbaros como medida, e não a doutrina…
    Não fosse a doutrina dirigindo a vida prática, não estaríamos aqui, cristãos que somos, para discutir esses assuntos.

  5. A palavra heresia que separa dois grupos antagônicos, sendo um obediente à Palavra do Senhor Deus e o outro refratario, nas condições que se estipulariam acima, até que enfim estariam juntos, caminhando na mesma estrada, lado a lado, com um igreja que não discriminaria nada e muito menos a ninguém, acolheria qualquer um e a todos sem exigencias quaisquer, convivendo em comum num clima de respeito à diversidade religiosa, sendo as religiões nossas companheiras de viagem, o que se teria impressão.
    Interessante notar que as seitas heréticas protestantes agem dessa forma: apesar de todas elas se desentenderem, no entanto, no fundo, caminham juntas, embora atacando-se umas às outras, e diversas delas sensiveis a casos particulares, quer pessoais, familiares ou grupais, arrebanhando determinados segmentos, como aquelas atendentes às comunidades GLBTs, às segundas uniões etc, sendo as tais “igrejas boas”, no dizer dos protestantes!
    Dessa forma, cada grupo se empenharia em levar as Sagradas Escrituras a todos – embora muitas vezes fraudadas, segundo as conveniencias da denominação – e cada qual repassando da forma como convier aos ensinamentos particulares de cada seita, ou então sob que se supõe serem os ensinamentos ideais sob os criterios do “evangelizador”.
    Evidente que esse modelo acima de uma certa igreja católica seria uma à la Pe Arturo Abascal e idem alii, por ex., de se reinterpretarem as Palavras de Jesus não mais se rivalizando com as restantes todas religiões humanas fora da Igreja de Cristo, mas sintoniza-se num bem bolado sincretismo religioso, enquadrando nas normas pretendidas pela religião globalista-ONU-NOM!

  6. Concílio Vaticano III?!?!?! Pra quê?!?!?!

  7. Meu professor de Teologia Moral no Seminário, que, antes de vir para a Diocese de Campos, trabalhava no Rio de Janeiro, disse-nos numa aula que, numa reunião do Clero (lá no Rio) em que foi apresentada a Encíclica “Humanae Vitae” de Paulo VI, houve um murmúrio geral de contestação e os padres e bispos presentes disseram: “Uma coisa é o que está escrito, outra é a prática”.
    Por outro lado sabemos que o Frei Pio de S. G. Rotondo, hoje, São Pio de Pietrelcina, escreveu na época ao Papa Paulo VI uma carta onde agradece ao Sumo Pontífice, por ter ele escrito a “Humanae Vitae”.
    Estudei Teologia, mas não sou teólogo propriamente dito, mas pelo que aprendi deste meu professor e também de D. Antônio de Castro Mayer, esta Encíclica é um documento pontifício infalível pelo magistério ordinário universal do Sumo Pontífice. Já a “Amoris Laetitia” contém, mal disfarçadas em ambiguidades e omissões, várias heresias, heresias estas, por enquanto só materiais, mas que se tornarão formais, caso o papa Francisco, não se retrate em resposta às “DÚVIDAS” dos 4 cardeais ou mesmo não lhes responda como até agora se tem retraído a fazê-lo. Assim sendo não tenho dúvidas em tachar “tal plano de ‘reinterpretação’ da “Humanae Vitae” á luz da “Amoris Laetitia” como uma “heresia”.
    Na época em que D. Antônio de Castro Mayer era nosso bispo, todos os padres, chamados tradicionais, seguiam à risca as orientações da “Humanae Vitae”. Às vezes, encontrávamos muita dificuldade, porque os padres progressistas (não poderia garantir se na sua totalidade, mas na sua maioria) davam conselhos contrários às orientações de Paulo VI.
    Embora sabendo que até hoje, e atualmente mais do que nunca, se desobedece à normas da Tradição a respeito dos métodos artificiais de limitação de natalidade, nós, pela graça de Deus, fiéis à Sagrada Tradição devemos continuar a insistir na pregação e observância da Doutrina Tradicional.
    Tudo indica que Francisco aprova o famigerado Catecismo Holandês. Gostaria que algum repórter confirmasse esta minha fundamentada suspeita. Talvez ele responderá: “Catecismo Holandês sim – Catecismo Holandês não”.
    Eis o que D. Antônio de Castro Mayer, de santa memória escreveu sobre a “Humanae Vitae”: “Vários modos de corromper a Tradição: Pode-se concorrer para destruir a Tradição de vários modos. Há, mesmo, entre eles uma escala que vai da oposição aberta ao desvio quase imperceptível. Exemplo de oposição clara, temos nas várias atitudes tomadas por teólogos, e até Autoridades Eclesiásticas, rejeitando a decisão da Encíclica “Humanae Vitae”. De fato, o ato de Paulo VI, declarando ilícito o uso de anticoncepcionais, insere-se numa Tradição ininterrupta do Magistério Eclesiástico. Não aceitá-lo, ensinando o oposto do que ele prescreve, ou aconselhando práticas por ele condenadas, constitui exemplo típico de negação de um ensinamento tradicional”. (Carta Pastoral “Aggiornamento e Tradição”.

  8. Deixo aqui um trecho do discurso de São João XXIII na abertura do Concílio:
    Machuca às vezes os ouvidos, sugestões de pessoas […] que, em tempos modernos não veem senão, prevaricação e ruína, estão dizendo que a nossa idade, em comparação com o passado, tem sido cada vez pior. […]. A nós cabe dever discordar destes profetas da desgraça, que sempre anunciam eventos desfavoráveis ​​[…]. Sempre a Igreja tem se oposto aos erros, muitas vezes condenou com a máxima severidade. Agora, no entanto, a esposa de Cristo prefere usar o remédio da misericórdia ao invés de severidade. […]. Não que não falte doutrinas falazes […], mas que agora parece que os homens de hoje são susceptíveis a condená-las por si mesmo”

    • Com essa conversa mole e omissa, que não tem absolutamente nenhum respaldo na religião cristã, desde os Evangelhos, onde se lê a clareza e a.firmeza do Senhor ao condenar o erro, a hipocrisia e o pecado, até Pio XII, passando pelos Atos dos Apóstolos e a prática comum e a doutrina de todos os Padres tanto gregos como latinos, NINGUÉM sustentou esse tipo de postura. Somente Angelo Roncalli e seus sequazes desorientados e desorientasores. Graças ao otimismo historicista de erudito amador, o de João XXXIII, a Igreja foi lançada na maior desgraça de que se tem notícia. Leia algumas biografias de Roncalli e saia da vala comum da ignorância e do papagaismo inconsequente e supersticioso.

    • // onde se lêem a clareza e firmeza

  9. “Naquele ano, tinham sido constituídos juízes dois velhos dentre o povo, daqueles de quem o Senhor falou, quando disse: ‘A iniquidade prosperou em Babilônia por meio de velhos que eram juízes, os quais PARECIAM governar o povo’…” (Daniel XIII, 5 – início da história da tentativa de corrupção de Susana por dois velhos juízes; tradução da Vulgata de São Jerônimo pelo pe. Matos Soares). Mutatis mutandis…

  10. Sim sim, não não. Tudo o que passa disso vem do maligno.

    • Será que os que seguem a “pastoral” da misericordia e das “situações concretas” de cada casal, desde padres que aprovam as pílulas anticoncepcionais e outros esquemas parecidos não sabem, ou querem saber, que a pílula é abortiva e expulsa o mini feto já concebido do útero da mulher dando no mesmo de abortar em qualquer tempo? Ou mesmo matar depois do parto que dá no mesmo?

  11. Esse “pessoal” não vê nada à sua frente. Nem mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo.