A interpretação do Concílio Vaticano II e a sua relação com a crise atual da Igreja.

Agradecemos a Sua Excelência Reverendissima, Dom Athanasius Schneider, o envio de seu artigo já em português para publicação exclusiva no Brasil em FratresInUnum.com.

A situação atual da inaudita crise da Igreja é comparável com aquela geral no século IV, onde o arianismo contaminou a esmagadora maioria do episcopado e foi reinante na vida da Igreja. Devemos procurar ver esta situação atual, por um lado, com realismo e, por outro, com o espírito sobrenatural, com um profundo amor para com a Igreja, que é nossa mãe, e que está sofrendo a paixão de Cristo por meio dessa tremenda e geral confusão doutrinal, litúrgica e pastoral.

Devemos renovar a nossa Fé de que a Igreja está nas mãos seguras de Cristo e que Ele sempre intervirá para renová-la nos momentos em que a barca da Igreja parece naufragar, como é o caso óbvio em nossos dias.
Quanto à atitude diante do Concílio Vaticano II, devemos evitar os dois extremos: uma rejeição completa (como o fazem os sedevacantistas e uma parte da FSSPX) ou uma “infalibilização” de tudo o que o Concílio falou.

O Concílio Vaticano II foi uma legítima assembleia presidida pelos Papas e devemos manter para com este concílio uma atitude de respeito. Contudo, isso não significa que não podemos exprimir dúvidas bem argumentadas e respeitosas propostas de melhoria, apoiando-se na Tradição integral da Igreja e no Magistério constante.

Pronunciamentos doutrinais tradicionais e constantes do Magistério durante um plurissecular período têm a precedência e constituem um critério de verificação acerca da exatidão de pronunciamentos magisteriais posteriores. Os pronunciamentos novos do Magistério devem, em si, ser mais exatos e mais claros, nunca, porém, ambíguos e aparentemente contrastantes com anteriores pronunciamentos constantes magisteriais.

Aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos devem ser lidos e interpretados segundo os pronunciamentos da inteira Tradição e do Magistério constante da Igreja.

Na dúvida, os pronunciamentos do Magistério constante (os concílios anteriores e os documentos de Papas, cujo conteúdo demonstrava ser uma tradição segura e repetida durante séculos no mesmo sentido) prevalecem sobre aqueles pronunciamentos objetivamente ambíguos ou novos do Concílio Vaticano II, os quais, objetivamente, dificilmente concordam com específicos pronunciamentos do Magistério anterior e constante (por exemplo, o dever do Estado de venerar publicamente Cristo, Rei de todas as sociedades humanas; o verdadeiro sentido da colegialidade episcopal frente ao primado petrino e ao governo universal da Igreja; a nocividade de todas as religiões não-católicas e o perigo que elas constituem para a salvação eternas das almas).

O Vaticano II deve ser visto e aceito tal como ele quis ser e como realmente foi: um concílio primeiramente pastoral, isto é, um concílio que não teve a intenção de propor doutrinas novas ou propô-las numa forma definitiva. Na maioria dos seus pronunciamentos, o Concílio confirmou a doutrina tradicional e constante da Igreja.

Alguns dos novos pronunciamentos do Vaticano II (por exemplo, colegialidade, liberdade religiosa, diálogo ecuménico e inter-religioso, atitude para com o mundo) não são definitivos e por eles, aparentemente ou em realidade, não concordarem com os pronunciamentos tradicionais e constantes do Magistério, devem ser ainda completados com explicações mais exatas e com suplementos mais precisos de caráter doutrinal. Uma aplicação cega do princípio da “hermenêutica da continuidade” também não ajuda, pois se criam com isso interpretações forçadas, que não convencem e que não ajudam para chegar ao conhecimento mais claro das verdades imutáveis da Fé Católica e da sua aplicação concreta.

Houve casos na história onde expressões não definitivas de alguns concílios foram, mais tarde, graças a um debate teológico sereno, precisadas ou tacitamente corrigidas (por exemplo, os pronunciamentos do Concílio de Florença acerca da matéria do sacramento da ordenação, isto é, que a matéria fosse a entrega dos instrumentos, mas a tradição mais segura e constante dizia que era suficiente a imposição das mãos do bispo, o que Pio XII em 1947 confirmou). Se depois do concílio de Florença os teólogos tivessem aplicado cegamente o princípio da “hermenêutica da continuidade” a este pronunciamento específico do concílio de Florença (um pronunciamento objetivamente errôneo), defendendo a tese que a entrega dos instrumentos como matéria do sacramento da ordem fosse uma expressão do Magistério constante da Igreja, provavelmente não se teria chegado ao consenso geral dos teólogos sobre a verdade que diz que somente a imposição das mãos do bispo constituiria propriamente a matéria do sacramento da ordem.

Deve-se criar na Igreja um clima sereno de discussão doutrinal acerca daqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos ou que criaram interpretações errôneas. Não há nada de escandaloso nisso, pelo contrário, será uma contribuiçao para guardar e explicar na maneira mais segura e integral o depósito da Fé imutável da Igreja.

Não se deve destacar demais um determinado concílio, absolutizando-o ou equiparando-o de fato, à Palavra de Deus oral (Tradição Sagrada) ou escrita (Sagrada Escritura). O Vaticano II mesmo disse, justamente (cf. Dei Verbum, 10), que o Magistério (Papas, Concílios, magistério ordinário e universal) não estão acima da Palavra de Deus, mas sob ela, submisso a ela, e somente ministro dela (da Palavra de Deus oral = Sagrada Tradição e da Palavra de Deus escrita = Sagrada Escritura).

Do ponto de vista objetivo, os pronunciamentos do Magistério (Papas e concílios) de caráter definitivo têm mais valor e mais peso frente aos pronunciamentos de caráter pastoral, os quais são, por natureza, mutáveis e temporários, dependentes de circunstâncias históricas ou respondendo às situações pastorais de um determinado tempo, como é o caso da maior parte dos pronunciamentos do Vaticano II.

O próprio contributo valioso e original do Concílio Vaticano II consiste no chamado universal de todos os membros da Igreja à santidade (cap. 5 da Lumen gentium), na doutrina sobre o papel central de Nossa Senhora na vida da Igreja (cap. 8 da Lumen gentium), na importância dos fiéis leigos em conservarem, defenderem e promoverem a Fé Católica e que eles devem evangelizar e santificar as realidades temporárias segundo o perene sentido da Igreja (cap. 4 da Lumen gentium), no primado da adoração de Deus na vida da Igreja e na celebração da liturgia (Sacrosanctum Concilium, nn. 2; 5-10). O resto se podia até um certo ponto considerar secundário, temporário e talvez no futuro mesmo esquecível, como foi o caso com os pronunciamentos não definitivos, pastorais e disciplinais de diversos concílios ecumênicos no passado.

Os quatro assuntos seguintes: Nossa Senhora, santificação da vida pessoal, defesa da Fé com a santificação do mundo segundo o espírito perene da Igreja e o primado da adoração de Deus são os tópicos mais urgentes a serem vividos e aplicados hoje em dia. Nisso, o Vaticano II tem um papel profético, o que, infelizmente, não está ainda realizado de modo satisfatório. Em vez de viver e de aplicar estes quatro aspectos, uma considerável parte da “nomenklatura” teológica e administrativa na vida da Igreja, há meio século, promoveu e está ainda promovendo assuntos doutrinários, pastorais e litúrgicos ambíguos, deturpando, assim, a intenção originária do Concílio ou abusando dos seus pronunciamentos doutrinários menos claros ou ambíguos a fim de criar uma outra Igreja de tipo relativista ou protestante. Estamos vivenciando o auge desse desenvolvimento em nossos dias.

O problema da atual crise da Igreja consiste, em parte, no fato de que se infalibizaram aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são objetivamente ambíguos, ou aqueles poucos pronunciamentos dificilmente concordantes com a tradição magisterial constante da Igreja. Dessa forma, impediu-se um sadio debate e uma necessária correção, implícita ou tácita, dando, ao mesmo tempo, o incentivo para criar afirmações teológicas contrastantes com a tradição perene (por exemplo, no que diz respeito à nova teoria de um assim chamado duplo sujeito ordinário supremo do governo da Igreja, ou seja, o Papa sozinho e todo o colégio episcopal junto com o Papa; ou a doutrina da assim chamada neutralidade do Estado frente ao culto público que ele deve prestar ao Deus verdadeiro, que é Jesus Cristo, Rei também de cada sociedade humana e política; a relativização da verdade que a Igreja Católica é o único caminho da salvação querido e ordenado por Deus).

Devemos nos libertar das algemas da absolutização e da infalibilização total do Vaticano II e pedir que haja um clima de debate sereno e respeitoso, por amor sincero à Igreja e à sua Fé imutável.

Uma indicação positiva nesse sentido podemos ver no fato de que, em 2 de agosto 2012, o Papa Bento XVI escreveu um prefácio ao volume relativo ao Concílio Vaticano II na edição da sua Opera omnia. Neste prefácio, Bento XVI exprime suas reservas quanto a um conteúdo específico dos documentos Gaudium et spes e Nostra aetate. Do teor dessas palavras de Bento XVI se vê que alguns defeitos pontuais em algumas passagens do Vaticano II não são remediáveis pela “hermenêutica da continuidade”.

Uma Fraternidade Sacerdotal de São Pio X canônica e plenamente integrada na vida da Igreja poderia também dar um válido contributo nesse debate, como também o desejou o Arcebispo Marcel Lefebvre. A presença plenamente canônica da FSSPX na vida da Igreja de hoje poderia também ajudar a criar um tal clima geral de um debate construtivo na Igreja, para que aquilo que foi crido sempre, em toda a parte e por todos os católicos durante dois mil anos, seja crido mais clara e de modo mais seguro também em nossos dias, realizando, assim, a verdadeira intenção pastoral dos Padres do Concílio Vaticano II.

A autêntica intenção pastoral visa a salvação eterna das almas, a qual se dá somente pelo anúncio de toda a vontade Divina (cf. At 20, 7). Uma ambiguidade na doutrina da fé e na sua aplicação concreta (na liturgia e na pastoral) ameaçaria a salvação eterna das almas e seria, por conseguinte, anti-pastoral, já que o anúncio da clareza e da integridade da Fé Católica e da sua fiel aplicação concreta é vontade explícita de Deus. Somente a obediência perfeita a esta vontade de Deus que, por Cristo, o Verbo Encarnado, e pelos Apóstolos nos revelou a verdadeira Fé, a Fé interpretada e praticada constantemente no mesmo sentido pelo Magistério da Igreja, traz a salvação das almas.

+ Dom Athanasius Schneider,

Bispo auxiliar da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana, Cazaquistão

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26 Comentários to “A interpretação do Concílio Vaticano II e a sua relação com a crise atual da Igreja.”

  1. O próprio CV II contém expressões que em si mesmas favorecem uma correta interpretação dele próprio e condenam os modernistas, por exemplo:
    “Por isso, segundo os Concílios Tridentino e Vaticano I, entende propor a genuína doutrina sobre a Revelação divina e a sua transmissão, para que o mundo inteiro, ouvindo, acredite na mensagem da salvação, acreditando espere, e esperando ame”
    ‘Segundo os Concílios Tridentino e Vaticano I’… Isso em tese deveria anular o ensinamento do n° 9 da DV, que dá a entender uma fusão da Tradição nas Sagradas Escrituras. Uma formulação muito ambígua, creio eu até que errônea:
    ” A sagrada Tradição, portanto, e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim”
    Elas fazem uma só coisa ou fazem “como que uma coisa só”?
    O problema do CV II é que são muitas as expressões e formulações ambíguas e/ou errôneas. Corrigi-las todas creio que não solucionaria o problema, porque sempre os liberais e modernistas poderão se utilizar dessas expressões para causar escândalo e divisão.
    E o que dizer do ensinamento sobre a liberdade religiosa?
    Para mim e creio que para todos aqui, trata-se de um ensino completamente oposto daquilo que era ensinado até Pio XII ou João XXIII.

  2. Tanto na Mensagem de Natal à Cúria romana (2005), quanto à exposição que fez ao clero romano (em 14 de fevereiro de 2013), Bento XVI permaneceu convicto de que as incompreensões do Concílio Vaticano II se deram pelo modo como os mass media estimularam e se simpatizaram por “uma hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”, causando confusão, “e também de uma parte da teologia moderna”. Talvez esteja aqui, nessa colocação, o que aproxima e o que distancia Joseph Ratzinger do grupo que elegeu Jorge Mário Bergoglio, em 2013. Isso porque certos tradicionalistas dizem que tanto Ratzinger, quanto Bergoglio estão em sintonia com a mesma visão modernista de Igreja, e que a diferença está apenas no grau, sendo que Bergoglio mostrou-se disposto, desde o início a pisar no acelerador, por iniciativas preocupantes, mais alinhadas com a teologia moderna, no afã de uma revolução sem precedentes.
    Na sua exposição ao clero romano, Bento XVI falou, na verdade, de uma “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”, e afirmou que tal hermenêutica foi estimulada pelos mass media e também por “uma parte da teologia moderna”. Desse modo, retomou o que já havia escrito em 1984, em sua “Instrução sobre alguns aspectos da teologia da libertação”, pontuando os seus equívocos, dentre outros fatores, da concepção que “deriva inevitavelmente uma politização radical das afirmações da fé e dos juízos teológicos”, equívocos não somente das “teologias da libertação”, mas das demais correntes do pensamento modernista (somadas às teologias da libertação), que se impregnaram no seio da Igreja, em diversas expressões, causando assim tantas “divisões no corpo eclesial”, especialmente depois do Concílio Vaticano II. Com isso deixou evidente de que a sua posição (apesar de ter sido mais liberal como perito no Vaticano II, mas que demonstrou posteriormente com atitudes inequívocas, principalmente em seu pontificado), de que não correspondia inteiramente a esta “teologia moderna” que ele destacou como parte da causa de tantas dissensões internas, ad intra.

  3. Bento XVI, O Vaticano II, tal como eu o vivi. (14/02/2013):

  4. O que é ambíguo não é católico e não provém da filosofia católica!
    A filosofia católica define as coisas: sim e não, clareza, precisão.
    O Vaticano II e os Papas conciliares adotam uma linguagem que decorre de outra filosofia (existencialista), que já não acredita na verdade objetiva. Assim, não consegue mais definir claramente as coisas e dará sempre lugar a discursos ambíguos.
    A Verdade só pode ser anunciada pela filosofia verdadeira, a de São Tomás de Aquino. Fiquemos com os Papas que somente dela fizeram udo, não dos hegelianos, que acreditam que a síntese conservadora solucionará a tensão entre os progressistas e os católicos.

  5. Com todo o respeito eu diria a Sua Excelência Reverendíssima, Dom Athanasius Schneider:
    Não se iluda Excelência.
    É impossível desconhecer toda a perseguição que foi imposta a todos aqueles que fizeram exatamente assim como ele sugere e o resultado é este que está ai. É impossível desconhecer os frutos do CVII.
    Certos erros só Deus concerta.
    Vou continuar esperando nas promessas de Fátima, aliás a qual parece não figurar nas cogitações da Nomenklatura.
    E claro, de que a Santa Igreja não perecerá.
    Não tenho o vigor intelectual nem uma memória brilhante de vários formadores de opiniões. Mas não estou só. Sei que por mais bem formulada as hermenêuticas de continuidade, não impedirão o acesso do nosso entendimento a verdade do que está acontecendo.

  6. O Concilio Vaticano II deve deve ser sempre considerado sob a ótica proposta pelo eximio bispo D Schneider, nunca de forma repugnante a ele como procedem alguns católicos mal informados, tachando-o até de “conciliábulo e responsável pela crise por que passa a Igreja” – muito lamentável – aliás, por sinal suas ponderações são muito oportunas, como se antes dele a Igreja estivesse a mil maravilhas – ledo engano – nele extravasando o que estava latente ha tempos, sempre se acumulando!
    … “a relativização da verdade que a Igreja Católica é o único caminho da salvação querido e ordenado por Deus)” até a esse trecho os textos explicam por si mesmos e aqui se detém na tentativa de a Igreja atual via modernistas infiltrados, de forma forçada, em se unirem aos protestantes, embora em detrimento da verdade, enquanto de parte dos sectarios sequer movem uma palha para se reabilitarem frente à Igreja católica – que ecumenismo que seria submisso ao erro e mal direcionado!
    … “Neste prefácio, Bento XVI exprime suas reservas quanto a um conteúdo específico dos documentos Gaudium et spes e Nostra aetate. Do teor dessas palavras de Bento XVI se vê que alguns defeitos pontuais em algumas passagens do Vaticano II não são remediáveis pela “hermenêutica da continuidade”.
    Aqui nos deparamos como disse acima D Schneider, pois principalmente para o segundo não existiriam soluções viaveis para o caso, por ex. com relação ao Islã que se apresenta como religião visando enganar os incautos, embora seja comprovadamente ideologia totalitarista geradora de terroristas, dos mesmos moldes do comunonazifascismo e que está em guerra contra a todas as religiões para se impor a ferro e fogo, particularmente repelente ao cristianismo católico!

    • Diga aqui, diante de Deus, se vc se deu ao trabalho de ler integralmente TODOS os documentos do Vaticano II. Duvido muito. Vc e a maioria dos defensores do V2 NUNCA se deram a esse trabalho. Ficam sempre a repetir seus mantras de falsa direita ou de esquerda louca, prova manifrsrisssima que há uma estranha e subterrânea ligação entre todas as opiniões mal fornadas.

  7. Mais um que rejeita o Vaticano II, mas não o admite claramente e nem dá, devidamente, o nome aos bois….

  8. O Concílio Vaticano II deve ser lido à luz da história, ao menos desde a época napoleônica até nossos tempos: vamos ler a Conjuração Cristã de Monsenhor Henri Delassus, livro com imprimatur de 1910 (ou seja, anterior a esse ano)? Vamos pesquisar a biografia de Angelo Roncalli (futuro João XXIII) e Giovanni Montini (futuro Paulo VI)? Vamos ler O Reno se lança no Tibre, que conta os bastidores do concílio por um padre jornalista que descreveu o que viu sem a menor mostra de inclinar-se para lado algum da história? Vamos recordar dos teólogos condenados por modernismo no pontificado de Pio XII que foram reabilitados e fizeram do Concílio a vitória de suas teses? O Iota Unum de Romano Amério está até hoje aguardando resposta… O breve exame crítico da Missa Nova promulgado por Ottaviani, prefeito do Santo Ofício – portanto a última pessoa a ser acusada de ignorância em matéria de doutrina e liturgia – e Bacci, com a acessoria de vários teólogos de peso, e que ao final admitia que a Missa Nova se afastava “no todo e nos detalhes” da teologia católica do Sacrifício da Missa, como foi explicitada infalivelmente pelo Concílio de Trento… Sem resposta… Creio que seria realmente interessante contextualizar realmente o Concílio, tendo em vista a verdade única: a de que o mesmo foi um produto desejado há décadas, desencorajado desde os tempos de Pio XI na pessoa do cardeal Billot, EXATAMENTE pela infestação de hereges na hierarquia e no clero – conforme afirmou D.Pestana, que o eminente D. Schneider tanto conviveu. Não se trata de uma mera briga de padres, são coisas bem mais pesadas do que o argumento levantado sobre a matéria do sacramento da ordenação (que é coisa muitíssimo séria, mas ainda que se houvesse confusão acerca da matéria, não se deixou de fazer a imposição das mãos sobre os ordenandos, portanto ninguém foi invalidamente ordenado, ainda que se ignorasse sob qual matéria – a imposição das mãos ou os instrumentos). Finalmente, o argumento de que se precisa da ajuda da FSSPX para ajudar alguma coisa não se sustenta, porque haviam muito mais teólogos, bispos, monges, cardeais e padres com boa doutrina no pós-concílio do que passados 50 anos, e o que foi feito deles? Foram morrendo, sendo desterrados, calaram a boca para evitar perseguição, ou simplesmente preferiram conceber que estavam equivocados, pois é mais preferível se enganar do que ver o papa e os cardeais subitamente defender coisas impensáveis poucos anos antes. Afinal de contas, para o senhor bispo, se a FSSPX está fora da comunhão com os que aceitam o Concílio E SUAS CONSEQUÊNCIAS, então a FSSPX é herética? É cismática? Está fora da Igreja? Infelizmente não há como compartilhar deste otimismo. Se a FSSPX entrar de vez na legalidade, o que farão? Transformarão os seus padres em cardeais? Alguém além do senhor manifestou o desejo de CORRIGIR os pontos ambíguos do Vaticano II e dar a eles um sentido plenamente católico e objetivo? A FSSPX irá se desmantelar de vez, e o que restar dela não fará diferente do que os demais grupos Ecclesia Dei já fazem. Desde que a mesma adotou esse diálogo mais próximo com vias à regularização, não há um episódio que não registre desgastes, padres que saem, superiores removidos, etc etc etc. Bento XVI poderia ter deixado a Igreja repleta de bispos “de boa vontade”, ou ao menos com alguma sensibilidade, deveria ter saído após deixar o colégio dos cardeais sob controle… Agora é rezar e aguentar pacientemente o fim deste pontificado nefasto, para saber como será depois.

  9. Parabéns ao blog “Fratres in Unum” por publicar artigos tão valiosos para entendermos nossa amada fé católica no mundo moderno, os desafios que encontra e o noticiário do orbe católico. Este artigo de sua Excia. Revma Dom Athanasius Schneider é lapidar, ele explica o tema com uma clareza meridiana. Porém, é necessário reconhecer que ler este blog é para poucos. Apraza a Deus que os temas e as angulações aqui apresentadas comecem a se tornar corriqueiras na televisão, em canais como Rede Vida, TV Aparecida, TV Rede Século XXI… Pode ser algo esperançoso demais de minha parte, mas é preciso almejar isso, e rezar para que isso ocorra. Esperar que o material aqui publicado se torne proverbial em seminários de formação de padres é quimérico, infelizmente. É preciso quebrar esse bloqueio, o que o blog “Fratres in Unum” vem fazendo com muito fruto, mas em escala maior, e a TV seria uma ferramenta decisiva. Nada é tão ou mais acachapante do que presenciar muita coisa confusa e abusiva na vida paroquial, na vida normal da Igreja, e não ter a linguagem para expressar o que está acontecendo. Esperamos sempre que a hierarquia, padres e bispos, falem, expliquem, mas eles próprios não sabem, não são estimulados a ler certos blogs ou livros, porque não querem contrariar os mais velhos que, por sua vez, não vão atrás de referências fora do que está consagrado nos estudos filosóficos e teológicos de sua formação. Há um ou outro caso honroso, aqui e acolá, mas é minoria realmente pequena. Ainda que devamos, nós leigos, nos tornar doutos, na medida do possível, acerca da fé e assuntos concernentes, ainda encaro com estranhamento ir até os documentos do Concílio Vaticano II, por exemplo, lê-los por iniciativa própria e me aferrar ao que conseguir interpretar ou assimilar deles. Eu não tenho base filosófica e nem teológica para esmiuçar aqueles documentos e tirar conclusões. Me parece atitude temerária, fora de minha atribuição, mesmo eu sendo um leigo comprometido. Soa como protestantismo eu pegar os documentos, lê-los e, confiando em minha vida sacramental, querer ensinar o depósito da fé. O papel explanatório, juntamente com a Igreja, permanece com padre e bispos, e não vejo problema nisso, não quero usurpar nada. Porém, temas candentes não são usualmente tratados, e ficamos em contradição ante as necessidades da vida católica de hoje, e o preparo da hierarquia. E nos cursos diocesanos disponíveis para catequistas não dá para confiar cegamente, eles não dirimem a confusão, de vez que os próprios monitores tergiversam em vários pontos, e tudo converge nesses meios a considerações de tipo social e político apenas… É curso para fazer a cabeça na Teologia da Libertação. Não sei como na saída desses encontros não há quiosques de partidos com placas de “Filie-se aqui e receba, grátis, um botton de foice e martelo!”… Enfim, muito bem-vindo este artigo de Dom Athanasius Schneider! Prossigam com o bom trabalho!

  10. Mais um que esta em cima do muro. Se criticar abertamente o CVII, será bombardeado por todos os lados, então ele prefere a tal “hermenêutica da continuidade”, aponta a ferida, mas propõe um tratamento pífio!

    • Já que não se pode esperar mais nada de Campos, seria muito oportuno que os escritos doutrinais de D. Antônio de Castro Mayer fossem coligidos e publicados por alguma associação de leigos. Estes escritos encerram análises criteriosas e precisas sobre as matérias dúbias ou em aberta contradição com o Magistério da Igreja.
      Um livro fundamental para o entendimento da Eclesiologia do Vaticano II é a volumosa coletânea de artigos organizada por D Boaventura Klopemburg: “A Igreja do Vaticano II” (notem o genitivo), publicado em português.
      Não se deve descurar também da biografia dos peritos mais ativos durante o Vaticano II, dominicanos e jesuítas cujas doutrinas foram censuradas pelo Santo Padre Pio XII.
      Também parece inoportuno que que a Fsspx se entregue ao jugo da atual (des)governança eclesiástica, que já deu sobejas mostras de suas intenções quanto aos institutos tradicionais (franciscanos da imaculada etc): dissolvê-los ou desnatura-los.
      Quanto à doutrina exposta no artigo em apreço, não seria difícil refutar cada um pontos e conjunto de ponderações aí veiculadas.
      No entanto, a solução *política*, subtendida nas palavras de D. Athanasius, para os impasses suscitados pelo Vaticano II é também aquela proposta nos últimos documentos do pontificado de João Paulo II, soluções estas que se podem atribuir à intervenção direta do então cardeal Ratzinger. Corrigir pontualmente os erros e sanar quanto possível as ambiguidades. Tenha-se em mente, por exemplo, a Dominus Iesus.

    • Correções:

      //coletânea de artigos organizada por D. Boaventura Kloppenburg
      // biografia dos peritos mais ativos durante o Vaticano II, dominicanos e jesuítas, cujas doutrinas foram censuradas pelo Santo Padre Pio XII.
      //dissolvê-los ou desnaturá-los.
      // cada um pontos e o conjunto de ponderações aí veiculadas.

  11. “Uma Fraternidade Sacerdotal de São Pio X canônica e plenamente integrada na vida da Igreja poderia também dar um válido contributo nesse debate, como também o desejou o Arcebispo Marcel Lefebvre. A presença plenamente canônica da FSSPX na vida da Igreja de hoje poderia também ajudar…” Mas será que a fraternidade S Pio X quer isso?

  12. Existe sim uma Fraternidade Sacerdotal de São Pio X canônica e plenamente integrada na vida da Igreja. O que ela se recusa é se integrar à Impostura Religiosa que se sobrepõe à verdadeira Igreja. Uma presença plenamente canônica da FSSPX na Impostura, na Grande Fachada em nada poderia ajudar a Igreja de hoje.
    Basta ver como se encontram de pés e mãos atadas os Institutos ligados à Comissão Ecclesia Dei e o Summorum Pontificum. O que a SSPX poderia fazer, que esses institutos não podem fazer igual? Formar e ordenar mais sacerdotes tradicionais? Celebrar a Missa de sempre?
    Se com toda a “legalidade” e status jurídico regular está faltando alguma coisa, então não é a SSPX que vai resolver o problema! O buraco é mais embaixo!

  13. Caro G. M. Ferretti … Alegria!

    São dois artigos monumentais … tanto este de Dom Athanasius … quanto o anterior do senhor Hermes.

    São dois episódios … num é toda a barca em perigo … noutro, é só Pedro!

    Num, é repreendida a falta de fé de todos … noutro, é a de Pedro.

    Acontece que está proibido reclamar … “Não vos queixeis uns dos outros, para que não sejais julgados. Eis que o juiz está à porta”. (Tg 5,9)

    O jeito é ir a Caná … e contar para Mamãe – “Estamos perecendo!!!” …a Mulher sabe da hora e a quem compete!!! !!! !!! “Respondeu-lhes ele: Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder,” (At 1,7)

    Abraços do Lionço Ramos Ferreira.

  14. Acredito que,se Bento XVI fosse ainda Pontífice ou que o seu Sucessor fosse criado por ele(Francisco foi criado cardeal por São João Paulo II),Dom Athanasius Schneider seria laureado com o barrete rubro.

  15. Lamento, mas não posso concordar com Dom Athanasius, pois essa confusão generalizada começou com esse concilio sim. Ora se existem documentos que são objetivamente ambíguos então porque ate agora não foram corrigidos?
    Bruno Luiz Santana muito bom ver tu comentando novamente, mas vou mais longe ainda, muito mais do que ler os documentos do CVII é compara-lo com o que ensinava a Igreja antes do concilio, ai não tem como sustentar a ” hermenêutica da Continuidade.
    No momento só nos resta sofre e rezar.

  16. Especialmente depois do Iluminismo, a Igreja passou a ser considerada, por largos contingentes, como a causa da infelicidade humana: a Igreja imporia normas e leis que cerceiam a liberdade humana, quer dizer a pseudo-liberdade de cada um fazer o que bem entender a fim de auferir o maior gozo possível de todos os prazeres mundanos.
    Nem foi outro o motivo de os Papas a partir de Pio VI condenarem a máxima segundo a qual a Igreja deveria aderir aos “novos tempos”. Célebre o Anátema lançado, contra essa proposição, por Pio IX, no Syllabus da Quanta cura.
    Ora, o que se deu no Vaticano II foi precisamente a consagração dos falsos princípios liberais condenados pelo Magistério desde fins do século XVIII. Segundo esse sínodo, a Igreja deveria, enfim, ceder e abrir-se para o mundo.
    A doutrina subjacente a esse congraçamento funesto consiste numa visão adulterada da divindade, entendida como contígua ao mundo, sendo como que a medula deste. Então, o mundo, isto é,.as atividades mundanas explicitariam a divindade, mediante àquilo que se batizou como consecratio mundi.
    O evangelho e toda a tradição, especialmente santo Agostinho, reconhecem apenas duas instâncias: o mundo e a Igreja. O Vaticano II admite um terreno elemento, como que neutro, a ser disputado por ambos. No entanto, isso é insustentável, não sendo possível prová-lo aqui.
    Todo esse Imanentismo é professado, por exemplo, pela teologia da libertação,.a qual tem ao menos a clareza de dizer que o Reino já é aqui neste mundo.
    Na verdade, o reino já existe. Agostinho ensina, na cidade de Deus, expressamente, que o Reino já existe, e é a IGREJA católica. Isso esvazia toda pretensão milenarista e mundana, toda a doutrina torpe e pelagiana da consagração do mundo. Existem apenas dois amores, como diz o Doutor de Hipona. Dois amores edificaram para si duas cidades. Não há três.

    • Correções:

      // Nem foi outro o motivo de os Papas, a partir de Pio VI, condenarem
      // Célebre é o anátema lançado,
      // explicitariam a divindade, mediante aquilo que se batizou de “consecratio mundi”.
      // O Vaticano II admite um terceiro elemento,
      // Agostinho ensina, na “Cidade de Deus”, expressamente, que o Reino é a Igreja católica.
      // “Dois amores edificaram para si duas cidades”.

  17. Eu estou convencido de que os promotores do CV II, desde o princípio, arquitetaram meticulosamente a revolução que desejavam introduzir na Igreja. Os bons textos dos documentos ali produzidos são apenas vaquinhas de presépio, só servem para enfeitar. Eles já sabiam desde o princípio que os textos heterodoxos e as ambiguidades é que iriam prevalecer. Falou-se do começo ao encerramento de que o concílio era apenas pastoral e não dogmático. Isso só serviu para acalmar os ânimos dos padres conciliares mais cautelosos. Depois que conseguiram o que queriam, transformaram, desonestamente, o CV II num super dogma.
    Ai daquele que ousar contestá-lo.
    E assim fizeram a revolução modernista.
    É inequívoco que o CV II é uma árvore má, razão pela qual só pode produzir maus frutos. Na minha simples visão, dele não se aproveita nada. E é o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo quem nos dá a solução desse problema: “toda árvore má deve ser cortada pela raiz e lançada ao fogo.”
    Não por acaso Nossa Senhora alertou, em Fátima, na parte do segredo que deveria ser divulgado em 1960, de que o mau concílio e a má missa seriam a ruína da Igreja e o avanço do mal no mundo.
    Desgraçadamente não lhe deram ouvidos.
    Eis as consequências!

  18. Gostei da entrevista de Dom Athanasius.