Reflexões da Sagrada Escritura: A volta do filho pródigo.

Nosso caríssimo padre Élcio está de recesso por dois meses para tratamento de saúde, pelo que pedimos suas orações. Durante sua ausência, republicaremos suas colunas mais importantes – a que segue foi publicada originalmente em 23 de abril de 2016.

* * *

“Aproximam-se d’Ele os publicanos e os pecadores para O ouvir. Os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe os pecadores e come com eles” (S. Lucas XV, 1 e 2).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Nosso Senhor Jesus Cristo mostra com três parábolas, a da ovelha tresmalhada, a da dracma perdida e a do filho pródigo, que assim agia porque a misericórdia de Deus é infinita. E Deus é infinitamente misericordioso porque conhece a fundo a nossa miséria. Como a meditação destas parábolas é confortadora para os pecadores arrependidos!

O  Nosso Pai do céu espera o pecador com paciência, busca-o com solicitude e recebe-o quando arrependido, com grande alegria.

O-pai-misericordioso-e-os-dois-filhos

É bom ler todas estas três parábolas. Encontram-se no Evangelho de São Lucas XV,  1-32. Quanto a parábola do filho pródigo, há três partes distintas: a partida, os desmandos e a volta do filho pródigo. Vamos meditar aqui apenas a terceira parte.

A primeira operação da graça na conversão do pecador é pôr-lhe à vista os seus pecados. Ela descobre-lhe o profundo abismo em que caiu, e inspira-lhe o desejo de sair dele. O filho pródigo entra em si. Faz, digamos assim, um exame de consciência. Ai! andava fora de si, havia muito tempo; até onde o tinham arrastado as suas paixões! Entra em si. Uma luz viva lhe dissipa as trevas; a ilusão cessa. Vê as coisas como são; já não exagera o valor dos gozos criminosos que tanto desejou. “Onde estou, diz ele consigo mesmo, e que fiz eu? Que significam estes vestidos esfarrapados, esta ocupação, esta fome? Que foi feito das minhas riquezas, da minha liberdade, da minha consciência, da minha honra? Casa paterna, não te tornarei a ver jamais? Quão longe estão de mim esses belos dias, em que, nada tendo a exprobrar-me, nada tinha a temer! Agora, a minha companhia são animais imundos; a mais dura escravidão, eis o meu estado; viver na miséria, eis a minha triste sorte. Quanto invejo a vossa sorte, ó servos de meu pai! A sua bondade previne os vossos pedidos, tendes em sua casa a abundância e eu, seu filho, morro aqui de fome.

A graça prepara assim a conversão de uma alma extraviada; esclarece-a, ilumina-a. Ao pecador, diz o Espírito Santo: “Pobre filho, onde estás”, como Deus perguntou a Adão logo que este pecou e procurou se esconder envergonhado: “Adão, onde estás, que fizeste?”

Deus derrama uma luz penetrante na sua alma; força-o a lembrar-se do estado de graça, do dia feliz da primeira comunhão. Então ele era tão feliz! Que doce paraíso estar com Jesus! Ah! que mudança terrível! Dantes, vencedor do demônio; hoje, seu mais desgraçado escravo. Antes alimentava-se com a própria Carne de Jesus pela comunhão.  O pecador, cheio de amargura, atormentado pelos remorsos, pode dizer como o filho pródigo: “Quantos diaristas há na casa de meu pai, que têm pão em abundância e eu aqui morro de fome!” Quantos conhecidos e parentes têm a consciência em paz, gozam santamente com as práticas religiosas, principalmente com a sagrada comunhão, nada lhes falta na casa de Deus; e eu, pereço de fome!

Para fazermos estas reflexões, tínhamos deixado o filho pródigo sentado debaixo de uma árvore, cabeça baixa, derramando lágrimas, na companhia imunda dos porcos. Agora, voltemos a ele novamente. Envergonhado do passado, receoso do futuro, enche-se de generosidade, e decide-se reparar seus erros. Seu coração está contrito e humilhado! Diz: “Levantar-me-ei, irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus diaristas”. E não perdeu tempo! Foi generoso!”E levantando-se foi para seu pai.

Aqui façamos também algumas reflexões: Eis o modelo do pecador penitente. Em vez de se entregar a um louco desalento, tem confiança; mas a sua confiança em nada diminui a sua humildade. “Levantar-me-ei”. Se é vergonhoso cair, é honroso levantar-se. Mas aonde ireis, pobre rapaz? Quem quererá interessar-se pela vossa sorte?  – “Irei para meu pai; enquanto me restar um pai, cuja ternura me é conhecida, resta-me um recurso seguro. É verdade que levei muito longe a minha ingratidão para com ele; mas se eu fui um filho desnaturado, ele é sempre bom pai”. – E que lhe direis vós? – “Dir-lhe-ei: Pai, esta só palavra comoverá seu coração. Se os soluços me impedirem de falar, as minhas lágrimas lhe falarão por mim; mas, se eu puder dominar a minha emoção confessar-lhe-ei todos os meus crimes. Dir-lhe-ei: Pequei contra o Céu, testemunha das minhas desordens; mas pequei também contra vós, o melhor dos pais!”

“Já não sou digno de ser chamado teu filho”. O filho fez justiça à bondade de seu pai, esperando que lhe perdoasse; e faz justiça a si mesmo, humilhando-se. Não reclama as prerrogativas de filho, é indigno delas; basta-lhe ser admitido no número dos criados: “Trata-me como a um dos teus diaristas”. Finalmente não se limita a vãos desejos: o que resolveu, executa-o, e sem demora. Disse: Levantar-me-ei e já está em pé; irei buscar a meu pai, e já deixou o vil rebanho, e se dirige para a casa paterna.

Quem esqueceu o seu destino eterno como filho de Deus, imite este modelo. Humilhe-se primeiramente; a humildade aproximá-lo-á de Deus, quanto a soberba o afastou d’Ele. A verdadeira penitência gera o desprezo de si. Deus não resiste aos seus atrativos: Deus se inclina para o homem humilde. Se o pecador se humilhar na sua presença, deve contar com a misericórdia divina. Quanto mais indigno for de tão bom pai, tanto mais excitará a sua compaixão. Perdoará o seu pecado, precisamente porque é grande: “Por causa de teu nome, Senhor, me hás de perdoar o meu pecado, porque é grande” (Salmo XXIV, 11).

Caríssimos, Deus, Nosso Senhor e Pai, quis mostrar-nos o seu próprio coração na terceira parte desta parábola, assim como nas duas primeiras nos mostrou o nosso. Teria o bom pai esquecido o seu filho? Não absolutamente! Pelo contrário, pensava nele incessantemente. Como o reconheceu logo, quando o viu no triste estado, a que o haviam reduzido o crime e a miséria? Como não se indignou ao dar com os olhos nele? Como pôde esquecer tão depressa todas as suas desordens, para só se lembrar da sua desgraça? São segredos do amor paternal. “Quando ele ainda estava longe, seu pai viu-o, ficou movido de misericórdia”. Oh! que belo espetáculo tenho aqui para contemplar! O pai não espera por seu filho: corre para ele, abraça-o, beija-o, cobre-o de carícias.

Este acolhimento tão terno e tão pouco merecido aumenta o arrependimento do culpado. Quer fazer a humilde confissão do seu pecado; mas o pai interrompe-o, e diz aos criados: “Ide buscar o melhor vestido para meu filho; metei-lhe um anel no dedo, e sapatos nos pés; preparai um festim, regalemo-nos; e todos os que me querem bem, tomem parte na minha alegria: meu filho estava morto, e reviveu; tinha-o perdido, e achei-o”.

Pecador arrependido, não temas as exprobrações de Deus, que desejava tanto a tua conversão; restituir-te-á a sua amizade, e com ela todos os vossos direitos, todos os bens que tínheis perdido, ofendendo-O.

O filho mais velho, voltando do campo, queixa-se, e indigna-se. Não, ó vós sempre fiéis pela graça, não sejais invejosos. Ninguém vos tira o que tendes: os vossos direitos, os vossos merecimentos, o amor do vosso Deus. Vosso irmão, de escravo torna-se rei, mas sem vos destronar a vós; enriquece-se, mas vós nada perdeis. Convinha que houvesse alegria, porque o vosso irmão era morto, e reviveu. A conversão de um pecador é motivo de alegria até para os Anjos do Céu!

Amém!

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2 Comentários to “Reflexões da Sagrada Escritura: A volta do filho pródigo.”

  1. O pecado, tão detalhadamente descrito na parábola do filho pródigo acima consiste na rebelião contra o Senhor Deus, ou ao menos no esquecimento ou indiferença – a qual é o ateísmo atual – para com Ele e para com o seu amor, no desejo torpe de viver fora do amparo de Deus, de emigrar para uma terra distante, longe da casa paterna, como hoje tanto se tem incrementado, por O substituir por coisas desse mundo fugaz.
    Como se passa mal quando se está longe de Deus! “Onde se passará bem sem Cristo – pergunta S Agostinho – ou quando se poderá passar mal com Ele?”
    Notemos, no entanto, que a misericordia concedida não foi a qualquer preço: todavia, de alguém de se mudou comportamentalmente em todos os niveis, desde arrependimento sem reservas, assim como doravante se colocando por detrás de todos, e ações desse estilo comovem o coração do Divino Mestre e renovam as esperanças do converso, podendo salvar-se!
    Essa misericordia acima não é a apregoada atualmente de uns tempos para cá, a qualquer preço, omitindo a justiça do Senhor Deus àqueles que desejarem permanecer no erro; ao inverso, são uns abusadores de Sua clemencia e bondade!

  2. Desde que aprendi a olhar para minha própria podridão aprendi a compreender mais a misericórdia de Deus. De fato, não pode haver régua mais precisa para medir o Amor de Deus do que o reconhecimento dos próprios pecados e das más inclinações. É neste momento que imaginamos quanto Deus sofreu e esperou por nossa conversão, nosso arrependimento.
    Quem sendo tão bom poderia insistir tanto em salvar alguém que o despreza e vira o rosto para todas as bençãos que recebeu? Este tipo de exercício tem operado grandes mudanças de atitude em mim, como a complacência com os criminosos, assassinos, homicidas, os ateus, comunistas, hereges, apóstatas, infiéis. Todos são filhos de Deus e Ele espera sofrendo e chorando pela volta deles.
    Deus não desiste deles mesmo que nós, aqui embaixo, desistamos.

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