Reflexões da Sagrada Escritura: O escândalo dado pelo Sacerdote, pecado enorme por sua natureza.

Nosso caríssimo padre Élcio está de recesso por dois meses para tratamento de saúde, pelo que pedimos suas orações. Durante sua ausência, republicaremos suas colunas mais importantes – a que segue foi publicada originalmente em 27 de fevereiro de 2016.

* * *

“O que escandalizar um destes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurassem ao pescoço a mó dum moinho, e que o lançassem no fundo do mar” (S. Mateus XVIII, 6)

“É inevitável que venham escândalos, mas ai daquele homem pelo qual vem o escândalo” (S. Mateus  XVIII, 7).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

1 – O Sacerdote escandaloso é o grande inimigo de Deus. – Ofende à Santíssima Trindade, persegue-A, se assim posso exprimir-me, com uma impiedade que horroriza. O Eterno Pai elegera-o, para fazer conhecer e honrar o seu nome, para publicar e fazer observar a sua lei, para trazer à sua obediência as almas desgarradas, e confirmar no seu amor as almas inconstantes, para lhe preparar um povo de escolhidos, fazendo-o reinar sobre os corações; para isto o prevenira com as bênçãos da sua graça, o enchera de seus benefícios. Este Sacerdote tinha aceitado tão nobre missão, e prometido solenemente consagrar-lhe toda  a sua existência; ora, se chega a escandalizar, que faz ele? Combate contra a causa de Deus que prometer defender. Longe de submeter ao Senhor os súditos fiéis; longe de induzir os homens a respeitar o seu nome,  leva-os a blasfemá-lo; em lugar de o fazer reinar sobre os corações, expulsa-o deles; em lugar de lhe preparar escolhidos, é para o inferno que os recruta!

LaSalette08Deus Filho, Redentor das almas, confiava no Sacerdote, para lhes aplicar os merecimentos da sua morte e do seu sangue. Para isto o revestira de inefáveis poderes, e lhe pôs nas mãos todos os tesouros da sua misericórdia; pois a essas almas, remidas por tão alto preço, não só as deixa perder, mas ainda, à vista do seu Salvador, as fere, mata e precipita na eterna condenação; aniquila para elas a obra da Redenção!

Deus Espírito Santo tomara-o para seu instrumento. Queria servir-se dele, para combater o pecado, purificar as almas, e fazer delas outros tantos templos onde morasse com o Eterno Pai e com o Filho:  “Viremos a ele e nele faremos morada” (S. João XIV, 23); e o Sacerdote escandaloso, em vez de auxiliar estes misericordiosos desígnios, destrói-os; em vez de arruinar o império do pecado, estende-o e consolida-o; em vez de purificar as almas, mancha-as; e fecha para Deus esses templos espirituais de que era guarda, e abre-os para o demônio! Não é isto fazer à Santíssima Trindade uma guerra cruel e pérfida?

2- O Sacerdote escandaloso é inimigo das almas. – Constituindo-nos seus ministros, Deus queria que cooperássemos para as salvar. Temos rigorosa obrigação; de guiá-los e ampará-los; de levantá-los, se caem; e de empregar na sua santificação todos os meios que foram postos à nossa disposição. Como cumpre o Sacerdote escandaloso esta obrigação? Nós só temos acesso junto das almas, pela confiança que lhes inspiramos; que confiança pode inspirar aquele que prega uma moral, e pratica outra? Entre as palavras que dizem: “Não façais o eu  faço”, e as ações que clamam: “Não acrediteis o que eu digo”, advinha-se o que impressionará mais fortemente os espíritos, talvez já mal dispostos. Os corações corrompidos autorizam-se em suas desordens como o exemplo daquele que devia reprimi-las. E as almas simples não temerão perder-se, seguindo os maus exemplos do guia que Deus lhes deu. E neste caso, onde parará a licença de costumes? Quando à tendência que leva o homem a imitar tudo o que vê, vem juntar-se o impulso das paixões: o mau exemplo é uma torrente, que rompe todos os diques. Mas, se esta corrente se precipita dos mais altos montes, o seu curso será ainda mais impetuoso, e os estragos mais extensos; a alteza da nossa dignidade é a medida do mal causado com os nossos escândalos. O arbusto, ao cair, a nada causa dano; mas o carvalho frondoso esmaga, na sua queda, tudo o que encontra debaixo de si. Assim, o sal da terra tornou-se um princípio de corrupção, para os que ele devia conservar na inocência; a luz do mundo, que devia dirigir  as almas nos caminhos da virtude, mete-as nas alfurjas do vício; o Pastor de almas que devia defender o seu rebanho, faz nele uma horrível carnificina.

3- O Sacerdote escandaloso é o maior inimigo da Igreja. – Uma só queda no Santuário pode ter consequências incalculáveis. O mundo, tão indulgente para si, é inexorável para os ministros do Senhor. Ao mesmo tempo que desculpa os seus próprios crimes, não perdoa aos Sacerdotes uma fraqueza. E muito longe de encobrir, com o seu silêncio, os escândalos que neles vê, publica-os aos quatro ventos. Fá-los correr de paróquia em paróquia, de diocese em diocese. Perpetua-os, e dá-lhes uma espécie de imortalidade, bem lamentável.

O mundo quereria que durasse cem anos, e talvez até ao fim dos séculos, muitas almas pequem, se pervertam e se condenem, em consequência de um pecado cometido por um sacerdote escandaloso. A censura que faz cair sobre o seu mau proceder, recai indiretamente sobre todos os membros do Clero. Imputa os mesmos vícios aos que exercem as mesmas funções. Chega até a tratar como fábulas, as verdades mais sagradas, só porque é testemunha da sua oposição com os costumes daquele que as ensina. Se este Sacerdote, dizem, cresse o que prega, portar-se-ia assim? Eis, pois, a honra do Clero manchada, o zelo dos bons Sacerdotes paralisado, a piedade destruída, os sacramentos abandonados ou profanados, a fé quase extinta em vastas regiões, milhares de almas perdidas em consequência dos escândalos dados por um Sacerdote e um Pastor de almas. (…) “Vae homini illi!” Ai daquele homem por quem vier o escândalo! Se, ó Deus, todo-poderoso, se castigais de um modo tão terrível o escândalo dado a um só dos vossos filhos, que suplício reservais àquele que tiver escandalizado as multidões, e os povos?

E  o escândalo pode ser dado de de três maneiras diferentes: 1-  De intenção e perversidade; 2- De tibieza e de negligência; 3- De leviandade e de imprudência.

1º) Escândalo de intenção e de perversidade. – O homem do Santuário, que leva o esquecimento dos seus deveres até espalhar em volta de si um cheiro de morte, justifica de sobra a máxima: Corruptio optimi pessima = a corrupção do ótimo é péssima. Todavia, quando falamos do escândalo de intenção, não afirmamos que alguém perca as almas, pelo gosto de as perder. Este escândalo que é propriamente o de Satanás, só seria possível em um sacerdote que atingisse o último grau de perversidade. Mas, sem chegarmos a este ponto, sabe-se que certa palavra, certa ação, certo procedimento são capazes de ferir a consciência do próximo; vêem-se as consequências funestas, que de certo pecado podem resultar para a honra do Sacerdócio, e não se recua, comete-se. Este desgraçado Sacerdote ilude-se a si, para pecar livremente; abusa até da autoridade, do ascendente que lhe dá o seu estado, para abalar uma virtude, de que ele devia ser o amparo. (…)

2º) Escândalo de tibieza e negligência. – Este inspira menos horror que o primeiro; mas as consequências podem ser também deploráveis. Ai! e quão comum é ele! Se os costumes de um sacerdote não são um modelo, tornam-se um perigo; se não ensina a piedade com sua vida, inspira, autoriza, multiplica o vício. A vida do Sacerdote deve ser a censura não só das desordens públicas, mas ainda das falsas virtudes, que o mundo desejaria substituir às virtudes evangélicas. A sua separação de tudo o que é profano; sua modéstia, sua santidade devem recordar incessantemente aos seculares: que os verdadeiros cristãos são homens mortos para si mesmos, cuja vida está escondida com Jesus Cristo em Deus. Já conhecemos as exigências do mundo em matéria de santidade sacerdotal. Quer que o ministro de Deus seja um Anjo, isento de todo o defeito, adornado de todas as virtudes; se vê qualquer coisa de menos, admira-se, escandaliza-se. Se há exageração nas suas ideias neste ponto, esclareçamos os juízos do mundo, mas não os desprezemos. Relações com os seculares, funções desprezadas ou mal exercidas. Oh! quão numerosas são as ocasiões de escândalo, para um homem do Santuário, par um pastor de almas!

3º) Escândalo de leviandade e de imprudência.  É uma grande vitória para o inimigo das almas, se pode servir-se, para as perder, daqueles mesmos que Deus elegera para as salvar. Pouco lhe importa o modo como o auxiliam os ministros do Senhor; a leviandade e a imprudência servem-lhe quase tão eficazmente como o crime. Na realidade, a falta de prudência e de circunspeção nunca é inocente em um homem encarregado de interesses tão graves, e obrigado, por tantas leis, a uma vida que deve ser a mais séria e refletida. A um Sacerdote não se lhe admite, tão facilmente como a qualquer pessoa, a desculpa de que não pensava nisso; pois ninguém, tanto como ele, deve considerar atentamente o que diz e faz, quando, e em presença de quem o diz e o faz. Não basta que seja santo, é necessário que o mostre, e o mostre em tudo. Uma pergunta, uma palavra indiscreta, um gracejo, uma leviandade, em passo inconsiderado, têm sido muitas vezes semente de escândalo, desgraçadamente muito fecunda. Quantos eclesiásticos, em seu trato com o mundo, em suas viagens, mesmo no interior de sua casa, no meio das crianças e sobretudo no meio de pessoas de outro sexo, etc, porque desprezam precauções que a malignidade tornou indispensáveis, dão lugar a suspeitas, que ofendem a honra do Clero, e vêm a ser ocasião de ruína para as almas.

(Artigo extraído do livro “MEDITAÇÕES SACERDOTAIS” de autoria do R. P. Chaignon, S. J.).

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3 Comentários to “Reflexões da Sagrada Escritura: O escândalo dado pelo Sacerdote, pecado enorme por sua natureza.”

  1. *O diabo prefere perder a um só sacerdote a 100 leigos bons.
    De fato, o escãndalo causado por um só sacerdote, além de causar um impacto negativo sobre os membros de uma comunidade, especialmente nos mais mal formados ou nos pecadores contumazes, ainda que católicos, é devastador, e todos teriam uma tendencia de dizer ” se até os padres – colocariam no plural – faz isso, eu nem mais mais me preocuparei, pois sou leigo e pecador”!
    Se considerarmos o acima no presente é ainda mais contagiante pois os maus procedimentos de um só sacerdote são alardeados nas redes, causando estragos imensos à Igreja, pois além de instigados por quase a totalidade da midia que é anti católica, requenta frequentemente e de forma seletiva o caso, sempre visando vilipendiar a Igreja, a manter sob rigoroso assedio e de todas as formas possíveis relativizar seus seguidores!
    Temos os casos, por ex., de pedofilia, muito mais incidentes entre os protestantes, mas a midia dissemina apenas os dos sacerdotes, ficando de fora os pastores protestantes que, de tão chantagistas que são, ainda recomendam o fim do celibato para “acabar com a concupiscencia da carne nos sacerdotes”, mas esses fariseus ainda se acham com direitos e honestos o suficiente para julgarem, apesar de a estatística alemã apontar 3 pastores por 1 sacerdote e noutros locais ser disso para pior!
    E por falar nos cupinchas de Lutero, foram eles também via esse que abriu as portas para a maçonista Rev Francesa, daí para o nazismo(fascismo), depois ambos hoje de “cara nova” denominado comunismo, sendo os Estados protestantes alemães mais populosos que elegeram Hitler – mais de 50% em cada um deles – enquanto nos Estados católicos foi de pouco mais 20%, tendo hoje o comunismo como seu sequenciador filho do mesmo pai e mãe – nunca nada disso se nos relatam!
    Evidente que os estragos causados pelos sacerdotes – muitos ou quase a totalidade, por outro lado seriam infiltrados dentro da Igreja da maçonaria, desde Roma como do D Vincenzo Paglia, Pe James Martin etc., mais que sabido, caso da TL, obra prima da KGB – e centenas de comunistas sacerdotes afiliados a ela, ou simpatizantes, ou mesmo daqueles que não os denunciam, sendo comparsas em mais ou menos grau, causando infindas desgraças no mundo e no Brasil de hoje aqui vivermos dentro de um lamaçal de vicios e paixões á luz do dia, desde nossa midia geral, fazendo-nos de porcos dentro de um chiqueiro e eles nos cevando, como por ex., nas novelas, BBBs e afins!
    Idem, omitem-se de reprovarem os políticos malvados – citando os nomes, Lula, Dilma, Freixo, Wyllys etc., estão aí sempre se defendendo disso e daquilo de estarem sendo perseguidos e deveriam de ao menos os citar como também radicais CRISTIANÓFOBOS, nem isso em geral têm coragem, e afins, assim, um escãndalo também de os que deveriam nos alertar desses malfeitores, que pareceriam temerosos ou dopados ou anestesiados!
    * S Agostinho?

  2. Se a Igreja instituiu a absolvição aos pecadores que confessam corajosamente as suas culpas e delas se arrependem, porque razão não deverão os sacerdotes pecadores – e todos pecamos, inclusive os mais santos…- beneficiar do mesmo perdão que Deus não negará a ninguém ? Tudo tem um tempo! O nosso tempo, dispondo em simultâneo de excessiva divulgação e do apagamento de memória que resulta desse excesso, deverá conceder um período de limpeza de alma para que o que foi uma queda na censura dos homens , ainda que justíssima, da sociedade não se transforme na condenação à escuridão de um abismo de onde só poderá efervescer da humana angústia, raiva e vingança. Cabe à Igreja amparar os seus, dando-lhes tempo e oportunidade para prosseguirem no Bem o seu caminho. Na certeza de que nem todos recebemos os mesmos dons e que se Deus os concede para nos elevar pode acontecer que tenham que ser sujeitos a tristes provas e auto-avaliados perante a Verdade que os confronta para que o conhecimento de uma mais extensa realidade propicie um mais solidário desempenho. Não creio que haja castigo maior para um sacerdote do que a incompreensão dos seus pares, muitos deles com iguais ou maiores culpas e sem que tenham a coragem de um Santo Agostinho…

  3. A coragem que Santo Agostinho põe em “As Confissões” é um nobre exemplo da imensa capacidade de renovação do Homem. Assim o clima que o rodeia o permita…Por vezes a cura pode trazer associado um persistente veneno ou uma dicotomia de procedimentos.

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