A Correctio filialis e a Laudatio do Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 19-10-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comTrês semanas após a Correctio filialis (http://www.correctiofilialis.org), surgiu a primeira resposta organizada: uma Laudatio publicada na web, assinada por um grupo de sacerdotes e intelectuais oriundos principalmente da  área austro-germânica (http: // www.pro-pope-francis.com/).

Quem são os signatários da Laudatio? Um deles, o prelado alemão Fritz Lobinger, bispo emérito de Aliwal (África do Sul), é o “pai” da expressão “presbíteros comunitários”, exposta no livro Teams of Elders. Moving beyond Viri probati (20017) [Equipes de Anciãos. Indo além dos Viri probati], no qual ele preconiza a introdução na Igreja de dois tipos de sacerdotes: os diocesanos e os comunitários, os primeiros celibatários em tempo integral, e os segundos casados, com família, à disposição da comunidade em que vivem e trabalham.

Outro signatário é o Pe. Paul Zulehner, discípulo de Karl Rahner, também conhecido por uma fantasiosa “Futurologia Pastoral” (Pastorale Futurologie, 1990). Em 2011 ele apoiou o “apelo à desobediência” lançado por 329 sacerdotes austríacos a favor do casamento dos sacerdotes, da ordenação sacerdotal de mulheres, do direito dos protestantes e dos divorciados recasados de receber a comunhão, e dos leigos de pregar e dirigir paróquias.

Martin Lintner é um religioso servita de Bolzano, professor em Bressanone e presidente do Insect (International Network of Societies for Catholic Theology). Ele é conhecido por seu livro La riscoperta dell’eros. Chiesa, sessualità e relazioni umane (2015) [A redescoberta do eros. Igreja, sexualidade e relações humanas], no qual se declara favorável à homossexualidade e às relações extraconjugais, bem como à aceitação entusiástica de Amoris laetitia, que marca, segundo ele, “um ponto de não retorno” na Igreja. Com efeito, “não podemos mais afirmar que hoje haja uma exclusão categórica de se aproximar dos sacramentos da Eucaristia e da reconciliação para aqueles que, na nova união, não se abstenham das relações sexuais. Não há nenhuma dúvida sobre isso, a partir do próprio texto da AL” (www.settimananews.it, 5 de dezembro de 2016).

Fica claro a esta altura que a profunda divisão que percorre a Igreja não é entre opositores e fãs do Papa Francisco. A linha de fratura ocorre entre quem é fiel ao Magistério imutável dos Papas e quem apoia o Papa Bergoglio por almejar  o “sonho” de uma igreja nova diferente daquela fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não é preciso ser historiador para entender que estamos vivendo uma página absolutamente incomum na vida da Igreja. Não estamos no fim do mundo, mas à  nossa época se podem aplicar as palavras que com tristeza disse Nosso Senhor sobre o Seu retorno no fim dos tempos: “Quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a Terra?” (Lc 18, 8).

A perda de fé, até mesmo pelos homens da Igreja, é hoje uma evidência. Em 27 de janeiro de 2012, dirigindo-se à Assembleia Plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, Bento XVI afirmou: “Estamos diante de uma profunda crise de fé, de uma perda do sentido religioso que constitui o maior desafio para a Igreja de hoje. Por conseguinte, a renovação da fé deve ser a prioridade no compromisso de toda a Igreja nos nossos dias.”  Essa perda da fé tem hoje as características de uma apostasia geral.

O cardeal Robert Sarah, intervindo num encontro das Conferências Episcopais da Europa, realizada em Trieste em 4 de novembro de 2013, afirmou que “mesmo entre os batizados e os discípulos de Cristo, existe hoje uma espécie de ‘apostasia silenciosa’, uma rejeição de Deus e da fé cristã na política, na economia, na dimensão ética e moral e na cultura pós-moderna ocidental”. O cardeal Raymond Leo Burke, por sua vez, em uma homilia pronunciada em 13 outubro de 2017 na Abadia de Buckfast, lembrou que a Mensagem de Fátima “trata das forças diabólicas desencadeadas sobre o mundo em nosso tempo, entrando na própria vida da Igreja, conduzindo as almas para longe das verdades da fé e, portanto, do amor divino que flui do glorioso Coração transpassado de Jesus”.

As almas se perdem porque a linguagem é ambígua e enganosa, e erros e heresias são espalhados todos os dias no povo fiel. O pontificado do Papa Francisco representa o êxito e a culminação de um processo de autodestruição da Igreja cujas origens são remotas, mas que  atingiu hoje uma velocidade vertiginosa.

Nas trevas em que as almas estão imersas, a Correctio filialis de 24 de outubro de 2017 foi como um raio de luz que rasgou a escuridão. A denúncia das heresias apoiadas e propagadas pelo Papa Francisco ressoou de um canto ao outro da Terra, invadindo a mídia e constituindo o tema dominante das conversas particulares de numerosos católicos. Nessas conversas, poucos negam a veracidade dos fatos denunciados pela Correctio. As divergências são mais sobre “o que fazer” diante de uma situação que não tem precedentes na História.

Não falta quem pratique a dupla  linguagem: critica em privado  e homenageia em público os que conduzem a Igreja ao desastre. Essa atitude foi chamada de “nicodemita” por Calvino, para indicar aqueles protestantes que dissimulavam sua doutrina homenageando publicamente a fé e os ritos católicos. Mas a própria Igreja Católica sempre condenou a dissimulação, prescrevendo a confissão pública da fé e o martírio como modelo de vida.

Confessar a fé significa denunciar os erros que se lhe opõem, ainda que os mesmos sejam propostos por bispos e inclusive por um Papa, como aconteceu com Honório I (625-638). Não importa muito saber se Honório foi herege ou favens haeresim [favorecedor de heresia]. O fato de ele ter sido condenado solenemente pelo VI Concílio de Constantinopla (681), presidido pelo papa Leão II, e de sua condenação ter sido confirmada por dois Concílios ecumênicos subsequentes, mostra que a hipótese teológica de um Papa herege, admitida por todos os canonistas medievais, é possível, independentemente do fato de ter-se verificado historicamente.

Mas quem tem autoridade para resistir a um Papa e corrigi-lo? Em primeiro lugar, tal dever incumbe aos cardeais, que são os conselheiros do Papa no governo da Igreja; depois aos Bispos, que constituem, em união com o Papa, a Igreja docente; por fim, aos sacerdotes, religiosos e freiras, e até mesmo aos simples fiéis leigos, que, como batizados, têm aquele aprimoradíssimo sensus fidei que lhes permite discernir a fé verdadeira da heresia.

Eusébio, antes de se tornar bispo de Dorilea, era advogado em Constantinopla quando, em 429, interrompeu em público uma homilia do sacerdote Nestório, que colocava em dúvida a Maternidade divina de Maria. Eusébio teria feito o mesmo se naquele dia, em lugar do Patriarca, estivesse falando o próprio Papa. Seu espírito católico não podia tolerar que a Santíssima Virgem fosse insultada diante do povo fiel.

Hoje a Igreja não precisa de nicodemitas, mas de confessores da fé da  têmpera de Eusébio ou de Máximo o Confessor, um simples monge que não hesitou em desafiar o Patriarca de Constantinopla e os imperadores bizantinos. Para aqueles que queriam obrigá-lo a comungar junto com os hereges monotelitas, ele respondeu: “Ainda que todo o universo comungue com eles, eu não comungarei”. Aos oitenta anos, após sofrer três processos por causa de sua lealdade, Máximo foi condenado à mutilação da língua e da mão direita, os dois órgãos mediante os quais, por palavras e escritos, ele havia combatido erros e heresias.

Ele teria podido repetir as palavras de São Paulo: Ninguém me assistiu na minha primeira defesa, antes todos me desampararam. Não se os impute por isso. Mas o Senhor me assistiu e fortaleceu-me, para que fosse por mim cumprida a pregação e todos os gentios a ouvissem; e fiquei livre da boca do leão” (2 Timóteo 4: 16-17).

O fato de serem poucos, incompreendidos e perseguidos aqueles que dão testemunho da fé católica é permitido pela Divina Providência para aumentar o mérito deles e fazer com que sua conduta não seja apenas legítima e necessária, mas santa e heroica. O que é o exercício heroico das virtudes senão cumprir o próprio dever em circunstâncias excepcionais, apoiado não nas próprias forças, mas na ajuda de Deus?

 

9 Comentários to “A Correctio filialis e a Laudatio do Papa Francisco.”

  1. Os signatários do documento são gente da pior espécie. Vão muito além dos hereges do tempo de Lutero.

  2. Só a nata do progressismo modernista. Enfim, como não faço parte de nenhum dos dois lados modernistas – progressistas e conservadores – só assisto esse espetáculo cacofonico draconiano que se tornou o Novus Ordo.

  3. Eu sei que um papa deve ser tratado com o máximo de caridade quanto a suas intenções mas vamos ser sinceros aqui, ele sabe exatamente o que está fazendo.
    Todos nós sabemos o que ele quer promover mas só não defende abertamente porque é heresia e se o fizer os católicos (que ainda são católicos) não vão mais reconhecê-lo como papa.

    Não é possível mais ver a situação como está e acreditar que este papa tenha boas intenções.

  4. Os sacerdotes acima que tentaram responder aos 62 leigos da Correctio Filialis e a diversos que se inscreveram posteriormente em mais, fizeram-no via Laudatio, sendo nossos velhos conhecidos progressistas, procedentes de gerações homiziadas em catacumbas ante Vaticano II, apenas esperando o tempo oportuno para ressurgirem e, com a eleição do papa Francisco ao pontificado, ressurgiram exultantes das tumbas, assim como comemoraram os ferrenhos inimigos da Igreja, como as esquerdas globalistas e material-ateístas que também se regozijaram!
    Interessante notar que o papa Francisco, quando ainda cardeal de Buenos Aires possuía determinados procedimentos intrigantes como, distribuiria a S Comunhão a recasados, participava do culto judaico, *celebrava de forma ruidosa e dissipante, permitindo o estilo *”Missas auês”!
    Ainda: ajoelhou-se aos pés de hereges protestantes, pastores de cabritos, aceitado-lhes imposição das mão e suas “bênçãos” e, após uma celebração, ao fundo assistiu a uma profanante exibição de *”Tango Mass” exibida por um casal aos pés do altar como se estivesse ali numa boite etc.
    Cardeal Burke: **Um Papa que professa uma heresia formal deixaria de ser Papa. É um pensamento assustador, e espero que não testemunhemos isso em breve.
    CWR: O Espírito Santo não nos protege de tal perigo?
    Cardeal Burke: O Espírito Santo habita a Igreja. O Espírito Santo está sempre vigiando, inspirando e fortalecendo a Igreja. Mas os membros da Igreja e, de forma preeminente, a hierarquia devem cooperar com as inspirações do Espírito Santo. Uma coisa é que o Espírito Santo esteja presente conosco, mas, outra coisa é sermos obedientes ao Espírito Santo.
    Declarou o Papa São Félix III: “Não se opor a um erro é aprová-lo. Não defender a verdade é suprimi-la”.
    *https://www.youtube.com/watch?v=HIaI666yUYg&t=11s
    **Por Steve Skojec – OnePeterFive | Tradução Sensus Fidei. 22/12/2016. Catholic World Reporter

  5. “Pelos seus frutos os conhecereis…”
    São Roberto Bellarmino, valei-nos!

  6. Uma correção no texto: “Para aqueles que queriam obrigá-lo a comungar junto com os hereges MONOTELITAS”.
    Que “insect” seria o do desservita Martin Lintner…?
    O nome já diz tudo…
    Quando ele divulgar que “insect ” é esse, poderá recomendá-lo para enfeite dos brasões episcopais. Antigamente havia leões, leopardos, espadas,lírios. Na heráldica aggiornata do cômico vaticano segundo cabem as baratas voadoras.

  7. A brevíssima Laudatio não faz contraposição alguma, nem apresenta qualquer argumento em resposta à Correctio. Francisco, como bom tirano que é, está cercado de bajuladores cegos e fãs inconsequentes, e gosta disso.

  8. Lamentável o estado da hierarquia católica…
    Peçamos aos Sacratíssimos Corações de Jesus e Maria que abreviem esta triste provação!