Editorial – Descentralização: o golpe mortal de Francisco no papado.

Por FratresInUnum.com – 27 de outubro de 2017

Voltemos a Cesaréia de Filipe. Ali, na Cidade de César, considerado deus do império romano, pergunta Nosso Senhor a seus discípulos o que pensam os homens dEle e, para eles, quem Ele é. Num ímpeto, São Pedro responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

Essa é a primeira passagem do Evangelho de São Mateus em que Cristo é proclamado não “Filho de Deus”, mas “O Filho de Deus”.

A reação de Nosso Senhor foi imediata: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. Por isso, eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,17-18).

Simão foi o primeiro a crer e, por isso, se transforma em Pedro. Aquilo que o faz Pedra é a sua profissão de fé, a fé que a graça de Deus faz explodir em seu coração.

Sem fé, não temos acesso a Cristo. “Sem fé, é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6), pois Cristo habita em nossos corações pela fé (cf. Ef 3,17). “Quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é ‘o’ Filho de Deus?” (1Jo 5,5).

O ofício de Pedro consiste exatamente nisso: “Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos joeirar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos” (Lc 22,31-32).

Papa Francisco, porém, caminha no sentido apontado por Nosso Senhor?

No relato da confissão de Pedro, no Evangelho de São Mateus, pouco depois, o apóstolo tenta demover Cristo da Cruz. “Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!” (Mateus 16,23). Ele tinha deixado de pensar como Deus, para pensar como César.

Quem é o César dos nossos dias? Não é justamente o politicamente correto, a nova ética da elite globalista que domina a mídia e as fundações internacionais? Não é o progressismo meta-capitalista de George Soros e companhia, que subsidiam a esquerda internacional para destruir a sociedade e, junto com ela, a Igreja?

Pois bem, em sua carta ao Cardeal Sarah, Papa Francisco, ao confirmar toda a radicalidade de seu ato de descentralização promulgado em Magnum Principium, parece cometer explicitamente um atentado ao papado, à natureza do ofício petrino e, portanto, à constituição divina da Igreja.

O Cardeal africano tentou ainda atenuar a gravidade da situação, dizendo que “reconhecimento” e “confirmação” seriam, na prática, a mesma coisa e estariam a cargo da Sé Apostólica. Francisco desmentiu publicamente, mandou que se publicasse a carta nos mesmos sites e encaminhasse às conferências episcopais de todo o mundo, num ato de urgência em fazer clareza impressionante. Enquanto isso, os dubia

Doravante, às Conferências Episcopais se confere o poder de “confirmar” as suas próprias traduções dos livros litúrgicos, acrescentando, inclusive, as alterações que acharem oportunas. A Santa Sé apenas reconhecerá aquilo que for estabelecido por elas.

Aqui, porém, cabe uma pergunta: e se alguma Conferência Episcopal apresentar uma tradução que contenha alguma heresia?

De fato, Francisco estaria abdicando o ofício de Pedro e se nega a confirmar seus irmãos na fé, que é o maior serviço, o serviço essencial de sua missão como Pastor da Igreja Universal.

Não se trata, aqui, de uma mera nuance administrativa. A Igreja Católica está fundada sobre a rocha fundamental da fé conservada por Pedro, mas Francisco parece renunciar a cumprir o seu papel e mais: fê-lo de modo formal, por escrito e sem deixar dúvidas.

É a fé! É a fé que importa! O ofício petrino é um serviço à fé. É por causa da fé que existe o Papa e não para simplesmente coordenar institucionalmente a Igreja. Aprovando a tradução dos missais, a Santa Sé não estava se impondo ou retirando autonomia dos bispos ou das Conferências dos mesmos, mas apenas servindo-os em benefício da fé. Agindo deste modo, Francisco está se retirando da posição de alicerce da Igreja e, quando se remove um alicerce, o prédio cai!

Qual é nosso papel nessa hora tão dramática? Precisamos fazer como São Paulo, na epístola aos Gálatas: “quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe francamente, porque era censurável” (Gl 2,11).

Precisamos resistir e conservar a nossa fé integralmente, a despeito de toda a leviandade em matérias tão fundamentais e sérias. Pelo que geralmente se entende das palavras e gestos de Francisco, ele expressa uma concepção de fé fundamentalmente luterana: uma confiança vaga em Deus que gera um amor naturalista, tão somente filantrópico. Dizendo que não quer transformar a Igreja numa ONG, é exatamente nisso que ele a está transformando, transformando seu ofício numa mera coordenação de ações programadas.

Resistamos! Resistamos com coragem! Conservemos nossa Fé Católica e não nos desencorajemos por causa dessa pública traição, desse adultério contra a sacralidade da Igreja.

Nosso Senhor olhará a nossa fidelidade e a premiará, concedendo-nos, pelas Mãos Imaculadas de Maria, um Pastor fiel, e não alguém que se engraçou com os lobos e que passou a dispersar o seu próprio rebanho, ao invés de congregá-lo.

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11 Comentários to “Editorial – Descentralização: o golpe mortal de Francisco no papado.”

  1. Após a conclusão do Sínodo sobre a família o Cardeal Maradiaga sugeriu que o tema do próximo sínodo poderia ser a “descentralização da Igreja “, que já vem ocorrendo de certa forma como o recente decreto sobre as tradições litúrgicas, mas eu acredito que é possível que Francisco convoce um Sínodo com este tema antes de sair do pontificado.

  2. Até quando, Senhor?

  3. Palavras de solar clareza a denunciar a terrível situação por que passa a Santa Igreja no atual pontificado. Não terá Francisco incorrido em heresia formal? Não seria o caso de dirigirmo-nos ao Colégio Cardinalício, para além da ‘correctio’, e solicitar a adoção de medidas jurídico-políticas?! O caos impera.

  4. Enquanto o status quo modernista iniciado com o golpe de 1962 continuar, os sinceros e verdadeiros católicos padeceram. E não adianta buscar fábulas como hermenêutica da continuidade, espírito do concílio, concílio midiático, etc. Os papas do passado já condenaram tudo isso. Basta apenas os católicos rechaçarem tanto os lobos vorazes – progressistas – quanto os em pele de cordeiro – neoconservadorismo, que as coisas ficaram às claras, e as almas não continuarão a vagar rumo ao Inferno.

  5. “Ó Sagrado Coração de Jesus, pleno de amor e bondade! Se o mundo atual se encontra mergulhado em tais profundezas, qual será a surpresa que nos prepara vossa clemência? Apressai-Vos em intervir, Senhor! E, por meio de vossa Mãe Santíssima, fazei desse extremo de miséria mero pretexto para a manifestação de novas maravilhas, nas infinitas altitudes de vossa misericórdia!”.

  6. Se alguma Conferência Episcopal, por milagre, resolvesse adotar justamente a Missa Tridentina como liturgia própria do país, iríamos ver a fúria de Francisco contradizer “Magnum Principium” rapidinho…

  7. João 12,31
    “Chegou a hora de este mundo ser julgado, e agora o príncipe deste mundo será expulso.”

  8. Melhor comentário e pleno de Verdade.

  9. “São portanto duas as Igrejas atualmente governadas e servidas pela mesma hierarquia, a Igreja Católica de sempre e a Outra”, como dizia Gustavo Corção.

  10. S Gregório Magno, Papa e Doutor da Igreja: “A Igreja, nos últimos tempos, será espoliada da sua virtude. O espírito profético esconder-se-á, não mais terá a graça de curar, terá diminuta a graça da abstinência, o ensino esvair-se-á, reduzir-se-á, senão desaparecerá de todo o poder dos prodígios e dos milagres. Para o anticristo está se preparando um exército de sacerdotes apóstatas”.
    Nas aparições da SS Virgem em Akita, no Japäo, das raras aprovadas no século XX pela Igreja, mas seu conteúdo e aviso igualam-se aos de Fátima, recordando o que Nossa Senhora disse:
    “O Diabo se infiltrará até mesmo na Igreja de tal um modo que haverá cardeais contra cardeais, e bispos contra bispos”, ostensivamente sucedendo no dias de hoje, de forma bastante perceptível, dois posicionamentos doutrinarios bastante conflitantes e paradoxos.
    Aliás, temos dois, um de viés humanista, antropocêntrico e o outro tradicional e aqui caberia o papa Clemente XIII referindo-se a um certo promotor de mudanças ainda por vir, que abrangeria especialmente a TL e associados a ela: “O erro diabólico, quando ele colorir artisticamente suas mentiras, se veste facilmente na semelhança da verdade, e com adições muito pequenas ou mudanças corrompe o significado das expressões;” “e a confissão da fé, que leva à salvação, às vezes, com uma ligeira mudança, leva à morte.” Encíc. em Dominicana agro, n. 2.
    A l 297. “Trata-se de integrar a todos, deve-se ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial, para que se sinta objecto duma misericórdia “imerecida, incondicional e gratuita”. Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho! Não me refiro só aos divorciados que vivem numa nova união, mas a todos seja qual for a situação em que se encontrem”. Posicionamentos como esse e similares noutros contextos levam-nos a muitas reflexões onde estamos…
    Dentro os defensores do papa Francisco empenhados na Laudatio estão D Erwin Kräutler da TL, bispo emérito de Xingu, Paul M Zulehner, Irene Heineke pastores, *filósofos, advogados e mais leigos mais se pareceriam a “sacos de ossos secos” em: “Atentei para o que estava acontecendo e notei que os ossos estavam sendo cobertos de tendões e de carne, e logo em seguida, pele os cobrira; todavia eram corpos sem espírito, não havia o fôlego da vida neles” Ez 37,8.
    * Citando-se filósofos, Olavo do Carvalho há anos vem detonando irreverente e contundentemente o papa Francisco.

  11. O prof. Carlos Ramalhete passará amanhã, dia 29/10, por uma cirurgia de amputação da perna direita, consequência do grave acidente que sofreu faz algum tempo. Oremos!!