Um teólogo escreve ao Papa: Há um caos na Igreja, e o senhor é uma causa.

Por Sandro Magister, 1º de novembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – Thomas G. Weinandy é um dos teólogos mais conhecidos. Vive em Washington, no Seminário dos Capuchinhos, a ordem franciscana à qual pertence. É membro da Comissão Teológica Internacional, a comissão que Paulo VI colocou ao lado da Congregação para a Doutrina da Fé para que pudesse se valer dos melhores teólogos de todo o mundo. É membro desta comissão desde 2014, o que significa que foi nomeado pelo Papa Francisco.

No último mês de maio, enquanto estava em Roma para uma sessão da comissão, surgiu a idéia de escreveu a Francisco uma carta aberta para lhe confiar a inquietude, não só sua, mas de muitos fiéis, pelo crescente caos que há na Igreja, que considera ser causado, em boa parte, pelo próprio Papa.

Rezou muito, inclusive no túmulo de Pedro. Pediu a Jesus que lhe ajudasse a decidir escrever ou não a carta e que lhe desse um sinal… E ele chegou um dia depois, conforme o que havia pedido na oração, e que agora relata da seguinte forma:

> “There was no longer any doubt that Jesus wanted me to write…”

Ao ter sido confortado pelo céu, o padre Weinandy decidiu escrever a carta. Em meados do verão passado, enviou-a ao Papa Francisco. E hoje, festa de Todos os Santos, torna-a pública no portal americano de informação religiosa Crux e imediatamente depois, em Roma, em quatro idiomas, em Settimo Cielo [e, em português, no FratresInUnum.com, graças à gentileza de um nobre amigo].

Padre Weinandy, de 71 anos, lecionou nos Estados Unidos em diversas universidades, em Oxford durante doze anos e em Roma na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Foi, durante nove anos, diretor executivo do Secretariado para a Doutrina da Conferência Episcopal Norte-americana.

* * *

Santidade:

Escrevo esta carta com amor à Igreja e sincero respeito por vosso ministério. Vós sois o Vigário de Cristo na terra, o Pastor do Seu rebanho, o Sucessor de São Pedro e, portanto, a rocha sobre a qual Cristo construiu Sua Igreja. Todos os católicos, sejam clérigos ou leigos, devem dirigir-se a Vós com lealdade e obediência filiais fundamentadas na verdade. A Igreja se dirige a Vós com espirito de fé, com a esperança de que Vós a guieis no amor.

No entanto, Santidade, Vosso Pontificado parece estar marcado por uma confusão crônica. A luz da fé, a esperança e o amor não estão ausentes, mas muito frequentemente estão obscurecidos pela ambiguidade de vossas palavras e ações. Isto faz com que entre os fiéis haja cada vez mais inquietação, enfraquecendo sua capacidade de amor, de alegria e de paz. Permiti-me dar alguns exemplos.

O primeiro se refere à disputa em relação ao Capítulo oitavo de Amoris Laetitia. Não necessito compartilhar minhas próprias preocupações sobre seu conteúdo. Outros, não só teólogos, mas também cardeais e bispos, já o fizeram. A preocupação principal é vossa maneira de ensinar. Em Amoris Laetitia, vossas indicações parecem às vezes intencionalmente ambíguas, convidando tanto a uma interpretação tradicional do ensinamento católico sobre o matrimônio e o divórcio, como também a uma interpretação que parece levar consigo uma mudança neste ensinamento. Como Vós mesmo, com grande sabedoria, observa, os pastores devem acompanhar e animar às pessoas que se encontram em matrimônios irregulares; mas a ambiguidade persiste em relação ao significado real desse “acompanhamento”. Ensinar com uma falta de clareza pode inevitavelmente levar a pecar contra o Espírito Santo, o Espírito da verdade. O Espírito Santo foi entregue à Igreja e sobretudo a Vós, para dissipar o erro, não para fomentá-lo. Além disso, só onde há verdade pode haver verdadeiro amor, porque a verdade é a luz que liberta os homens e as mulheres da cegueira do pecado, uma obscuridade que mata a vida da alma. No entanto, Vós pareceis censurar e inclusive ridicularizar aqueles que interpretam o Capítulo oitavo de Amoris Laetitia segundo a Tradição da Igreja, rotulando-os de fariseus apedrejadores representantes de um rigorismo sem misericórdia. Este tipo de calúnia é alheia à natureza do Ministério Petrino. Parece que alguns de seus conselheiros se dedicam lamentavelmente a este tipo de atitude. Este comportamento dá a impressão de que vosso ponto de vista não pode sobreviver a um escrutínio teológico, e por isso deve ser sustentado mediante argumentos ad hominem.

Segundo. Muito frequentemente vossas formas parecem menosprezar a importância da doutrina da Igreja. Uma e outra vez Vós vos referis à doutrina como se fosse algo morto, algo útil somente para ratos de biblioteca, que estão longe das preocupações pastorais da vida diária. Aqueles que vos criticam foram acusados – e são palavras vossas – de fazer da doutrina uma ideologia. Mas é precisamente a doutrina cristã – incluindo as sutis distinções relacionadas às crenças fundamentais como a natureza trinitária de Deus, a natureza e a finalidade da Igreja; a Encarnação; a Redenção; os sacramentos – que liberta o homem das ideologias mundanas e garante-lhe que está pregando e ensinando o Evangelho verdadeiro, doador de Vida. Aqueles que subestimam a doutrina da Igreja se separam de Jesus, Autor da verdade. E o único que resta então é uma ideologia; uma ideologia que se conforma com o mundo do pecado e da morte.

Terceiro. Os fiéis católicos estão desconcertados pela vossa escolha de alguns bispos, homens que não só estão abertos àqueles que tem pontos de vista contrários à fé cristã, mas que também os apoiam e inclusive os defendem. O que escandaliza os fiéis e inclusive a alguns irmãos Bispos não é só o fato de que Vós nomeeis a estes homens como Pastores da Igreja, mas que permaneçais calado ante seu ensinamento e prática pastorais, debilitando assim o zelo de muitos homens e mulheres que defenderam a autêntica doutrina católica durante muito tempo, às vezes arriscando sua própria reputação e bem-estar. O resultado: muitos fiéis, em representação do sensus fidelium, estão perdendo a confiança em seu Pastor Supremo.

Quarto. A Igreja é um Corpo, o Corpo Místico de Cristo, e o Senhor vos encarregou a Vós a missão de promover e fortalecer sua unidade. Mas vossas ações e palavras parecem dedicar-se, frequentemente, a fazer o oposto. Alentar uma forma de “sinodalidade” que permite e fomenta várias opções doutrinais e morais dentro da Igreja só pode levar a uma maior confusão teológica e pastoral. Esta sinodalidade é insensata e na prática é contrária à unidade colegial dos Bispos.

Santo Padre, tudo isso me leva à última preocupação. Vós frequentemente falais sobre a necessidade de que haja transparência dentro da Igreja, exortando sobretudo nos dois últimos Sínodos, a que todos, especialmente os Bispos, falem francamente e sem medo ao que pudesse pensar o Papa. Mas, vós conseguistes perceber que a maioria dos Bispos do mundo estão surpreendentemente silenciosos? Por quê? Os Bispos aprendem rápido. E o que muitos aprenderam em vosso Pontificado é que vós não estais aberto a críticas, mas que vos molesta ser objeto delas. Muitos Bispos estão silenciosos porque desejam ser-vos leais e, por conseguinte, não se expressam – pelo menos publicamente; outra questão é se não o fazem privadamente – a preocupação que lhes causa vosso pontificado. Muitos temem que, se falarem francamente, serão marginalizados. Ou algo pior.

Constantemente me pergunto: “Por que Jesus deixa que tudo isso ocorra?” A única resposta que consigo dar-me é que Jesus quer manifestar quão débil é a fé de muitas pessoas que estão dentro da Igreja, inclusive de muitos – demasiados – Bispos. Ironicamente, Vosso Pontificado deu a liberdade e a confiança para aqueles que têm um ponto de vista pastoral e teológico prejudicial saíssem à luz e expusessem sua maldade, que antes estava oculta. Reconhecendo esta maldade, a Igreja humildemente necessitará renovar-se e assim seguir crescendo em santidade.

Santo Padre, rezo constantemente por Vós. E seguirei rezando. Que o Espírito Santo vos guie na direção da luz da verdade e da vida do amor, para que possais dispersar a maldade que nestes momentos está ocultando a beleza da Igreja de Cristo.

Sinceramente em Cristo,

Thomas G. Weinandy, O.F.M., Cap.

31 de julho de 2017
Festa de Santo Inacio de Loyola

 

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16 Comentários to “Um teólogo escreve ao Papa: Há um caos na Igreja, e o senhor é uma causa.”

  1. Pelo visto, é mais um que não obteve resposta. De fato, como ele salienta, os lobos estão tirando a pele de cordeiro!

  2. Interessante notar que D Thomas J Tobin de Rhode Island, EUA esclareceu que a exortação do Papa Francisco Amoris Laetitia é “marcada pela ambiguidade”, e que parece ter sido esta a intenção do Santo Padre, escreveu esse bispo nessa quinta-feira; nesse tópico, muito raros o acompanharam.
    *”Em um post no Facebook, o bispo de Providence, Rhode Island, escreveu que o documento permite uma ampla gama de interpretações e é por isso que muitos prelados e comentadores têm diferentes pontos de vista sobre que ele anotou:
    Depois de refletir, tornou-se bastante claro que o documento do Papa Francisco sobre o casamento e a família da ‘Amoris Laetitia’ é marcado pela ambiguidade, e isso é intencional por parte do Santo Padre, penso eu.
    Isso explica por que, nos últimos pares de dias, nós tivemos interpretações muito diferentes do documento a partir de dois proeminentes líderes da Igreja — o arcebispo Charles Chaput, da Filadélfia e cardeal Christoph Schonborn, de Viena. E de muitos outros comentaristas também.
    A boa notícia é que, por causa dessa ambiguidade, as pessoas podem fazer praticamente o que quiserem. A má notícia é que, por causa dessa ambiguidade, as pessoas podem fazer praticamente o que quiserem”, finalizou.
    Ideal seria que os cardeais e bispos estivessem agindo há bem mais tempo pois basta ver, por ex., em um ano de pontificado quanta turbulencia e descompasso, além de a vida pregressa do papa Francisco conteria certos procedimentos estranhos a um prelado confiável, tantos conhecidos e, mesmo em seu primeiro ano na Cátedra de S Pedro justificariam uma intervenção, ainda que fosse uma reação tenue, como em 3 situações: em 10/07/1313, o papa Francisco enviou aos muçulmanos de todo o mundo uma mensagem de felicitações pelo fim do Ramadã, assim como não estarrecer-se de espanto ao escutá-lo dizer aos adoradores da pagã deusa lua Alah que “somos chamados a respeitar a religião do outro, seus ensinamentos, seus símbolos e seus valores”?.
    Logo após eleito papa, a primeira carta oficial foi enviada ao grande rabino de Roma, dirigida a quem e seguidores não têm senão um objetivo em mente, a saber, a aniquilação do cristianismo, e isso com furia indômita há quase dois mil anos?
    Aprovação da laicidade do um Estado múlti faces inserido nos tópicos anárquicos, como: nominalismo, voluntarismo, subjetivismo, individualismo, humanismo, racionalismo, naturalismo, protestantismo, liberalismo, relativismo, utopismo, revolucionarismo socialista, feminismo, multiforme homossexualismo, abortismo e mais congêneres .
    Nesses casos, a raiz é sempre a mesma, a saber, o sujeito autônomo pretendendo emancipar-se da ordem objetiva das coisas, cujo desenlace trágico e inevitável é um projeto decadente, objetivando criar uma civilização autônoma que, depois de haver expulsado o Senhor Deus da sociedade, se fundirá exclusivamente no insano livre arbítrio soberano do caótico neo deus-homem, convertido na fonte de toda “legitimidade”.
    *Claire Chretien – LifeSiteNews | Tradução Sensus fidei: PROVIDENCE, Rhode Island, 08 de julho de 2016 (LifeSiteNews)

  3. É tipo assim… “Todas as interpretações são válidas… só que ‘segundo a Tradição de Sempre’ é caretice… o Concílio acabou mas continuamos ávidos por novidades! Então não nos venham com mesmices!”. E também… “Eu aceito críticas… construtivas! Estou aberto a ouvir os Bispos… que pensam como eu!”.

  4. Gostei muito da carta. Foi o texto mais claro e sensato que li em relação ao assunto.
    Peço-lhe a gentileza de conseguir e me informar o endereço para correspondência do autor da missiva. Desejo demonstrar a minha gratidão pelo trabalho.
    Recebi através do texto a resposta para uma pergunta que eu sempre me fazia: “Por que Jesus deixa que tudo isso ocorra?”

  5. Já foi demitido e com isso provou seu ponto:
    “Santo Padre, tudo isso me leva à última preocupação. Vós frequentemente falais sobre a necessidade de que haja transparência dentro da Igreja, exortando sobretudo nos dois últimos Sínodos, a que todos, especialmente os Bispos, falem francamente e sem medo ao que pudesse pensar o Papa. Mas, vós conseguistes perceber que a maioria dos Bispos do mundo estão surpreendentemente silenciosos? Por quê? Os Bispos aprendem rápido. E o que muitos aprenderam em vosso Pontificado é que vós não estais aberto a críticas, mas que vos molesta ser objeto delas. Muitos Bispos estão silenciosos porque desejam ser-vos leais e, por conseguinte, não se expressam – pelo menos publicamente; outra questão é se não o fazem privadamente – a preocupação que lhes causa vosso pontificado. Muitos temem que, se falarem francamente, serão marginalizados. Ou algo pior.”
    https://onepeterfive.com/dialogue-priest-who-wrote-letter-to-pope-asked-to-resign-from-usccb/

  6. Francisco pode até dormir enquanto reza (declarou isto recentemente) mas está bem desperto enquanto pune. Quando o padre Thomas Weinandy escreveu a carta, provavelmente já sabia das consequências. Agiu com a coragem e a fé que infelizmente faltam a muitos.

  7. Mais um abatido pelo ak-47 misericordiador na revolução da ternura. Hospital de campanha, às vezes, campo de batalha. Que carta bem escrita.

    • “Mais um abatido pelo ak-47 misericordiador na revolução da ternura.” rs.
      E sim, a carta do teólogo Thomas Weinandy é firme, clara, e vertida em tom cordial e autenticamente misericordioso. Cumpriu com seu dever, sem tripudiar o Santo Padre. É alentador ver um membro da hierarquia agindo assim, recusando-se a se deixar afogar na confusão. Sabia que poderia pagar um alto preço, porém, mesmo assim o fez. É assim que se está firme em Nosso Senhor Jesus Cristo e em Maria Santíssima.

  8. Podem colocar também o texto de um outro teólogo americano, John J. Strynkowski, em resposta a esta carta de Thomas G. Weinandy. Se quiserem, eu ofereço-me para traduzir.

    http://www.lastampa.it/2017/11/03/vaticaninsider/ita/vaticano/critiche-al-papa-botta-e-risposta-dallamerica-dhDrjmMhgPT4DXNEPZQXpL/pagina.html

  9. Eu gostaria de entender qual a experiência de vida de casado tem um padre que durante toda a vida foi celibatário?

    Quem é ele para corrigir a maneira como o Papa ensina?

    Ele sabe o que é acordar várias vezes a noite para pegar seu filho pequeno para que sua esposa possa dar de mamar?

    Os padres e teólogos sabem ensinar em universidades.

    Desculpe-me, mas ele não sabe nada de vida conjugal.

    Muitas vezes com arrogância de quem muito conhece de memória os detalhes do código de direito canônico, mas não se comove com o sofrimento alheio.

    Em quantas passagens do Evangelho vemos Jesus agir por compaixão. Mesmo da pecadora, que pela Lei mereceria ser apedrajada, Jesus é misericordioso.

    Como discernir uma situação sem antes acolher a pessoa ou o casal. Como ajudar uma família em dificuldades sem acolhe-la primeiro. Esse me parece ser o método de Cristo, e que luminosamente vem sendo empregado pelo Santo Padre o Papa Francisco.

    • Expandindo o raciocínio de Fernando Firmino: que autoridade tem uma pessoa que nunca usou droga de dizer que elas são danosas à saúde física e mental? que experiência tem um pai ou uma mãe que nunca mataram alguém, de dizer que o ato de matar é errado, em circunstâncias normais?

  10. Agradeço ao complemento da argumentação dado pelo Sr. Ricardo.
    1. Realmente qualquer pessoa pode pontificar: “As drogas são danosas à saúde”. Mas na vida real são ex-usuários que em clínicas de reabilitação têm a experiência suficiente para lidar com as crises diárias daqueles que estão se reabilitando. São ex-usuários que encaram o dia a dia com usuários em recuperação. Isso tem um nome: mais ama quem mais foi amado (perdoado).
    2. Também a ideia de que os pais podem educar os filhos possui uma lógica. Os pais já foram crianças… já fizeram esse caminho. Já erraram. Machucaram-se, caíram e levantaram muitas vezes. Os pais educam os filhos, não são os filhos que educam os pais, dai podemos concluir: O Santo Padre (Pai) nos ensina, não somos nós (filhos) que ensinamos o santo Padre.