Crítica amigável às teses de Rocco Buttiglione.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 16-11-2017 | Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Conheço Rocco Buttiglione há mais de quarenta anos. Nós fomos assistentes do catedrático Augusto Del Noce (1910-1989) na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade La Sapienza em Roma, mas desde então as nossas posições divergem, especialmente no que se refere ao nosso modo de julgar a modernidade. Buttiglione considerava compatível com o Cristianismo o processo histórico inaugurado pela Revolução Francesa, enquanto eu o considerava incompatível.

Apesar dessas divergências, apreciei o trabalho de Buttiglione como ministro do Patrimônio Cultural do governo Berlusconi (2005-2006), e também lhe expressei minha solidariedade quando, em 2004, não obteve sua nomeação como Comissário europeu, por ter definido o homossexualismo como sendo “um pecado”. Relembro tudo isso para mostrar minha sinceridade ao falar de uma “crítica amigável” de suas teses, do mesmo modo como Buttiglione é realmente sincero quando se refere ao Prof. Josef Seifert como seu “amigo ao longo da vida”, ao polemizar com ele em seu último livro Respostas (amigáveis) às críticas de Amoris Laetitia, com um prefácio do cardeal Gerhard Ludwig Müller (Ares, Milano 2017, p. 41).

O livro, que acaba de vir a lume, compõe-se de 200 páginas divididas em quatro capítulos. Nada há  nele que os leitores da Buttiglione não conheçam. Os capítulos são constituídos por ensaios já publicados em diferentes órgãos entre 2016 e 2017. Isso explica as muitas repetições, mas estas ajudam a compreender melhor a tese de fundo: a suposta liceidade de se admitir à comunhão os divorciados recasados, porque embora seus “atos sejam ilegítimos”, em alguns casos as pessoas “não podem incorrer em pecado mortal pela ausência de pleno conhecimento e de consentimento deliberado” (p. 172).

Já tive  ocasião de criticar essa posição, como pode ser visto neste link: (https://www.corrispondenzaromana.it/card-muller-buttiglione-confusione-aumenta/). Deve-se acrescentar que, para justificá-la, Buttiglione introduz uma distinção falaciosa entre “pecado grave”, “especificado pelo objeto (da matéria grave)”, e “pecado mortal”, “especificado pelo efeito sobre o agente (faz morrer a alma)”. “Todos os pecados mortais – escreve – também são pecados graves, mas nem todos os pecados graves são necessariamente mortais. Pode acontecer de em alguns casos a matéria grave não estar acompanhada do pleno conhecimento e do consentimento deliberado” (p. 173).

Tal tese já foi refutada por João Paulo II por ocasião do Sínodo de 1984, quando em face da proposta de alguns teólogos e sacerdotes de introduzir uma distinção tripartite dos pecados – veniais, graves e mortais – declarou, na exortação pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia, que na doutrina da Igreja o pecado grave se identifica com o pecado mortal. Aqui estão as suas palavras: A tripartição poderia pôr em realce o fato de que entre os pecados graves existe uma gradação. Mas permanece sempre verdadeiro que a distinção essencial e decisiva é a que existe entre pecados que destroem a caridade e pecados que não matam a vida sobrenatural: entre a vida e a morte não há lugar para um meio termo” (Reconciliatio et paenitentia No. 17).

É claro que nos pecados graves há uma gradação. Na crucifixão de Nosso Senhor, por exemplo, não teve a mesma gravidade a participação de Pilatos e a dos líderes do povo judeu (Jo 19, 11). Mas todos os pecados graves são mortais, e todos os pecados mortais são graves. Para Buttiglione, pelo contrário, a coabitação de pessoas não casadas é sempre uma “ferida grave” ao bem moral da pessoa, mas nem sempre uma “ferida mortal” (p. 174). Depende de “circunstâncias”, que “não alteram a natureza do ato, mas podem alterar o julgamento sobre a responsabilidade da pessoa” (p. 174). A Igreja, portanto, “pode ​​excepcionalmente dar os sacramentos se  verificar que, apesar do conflito objetivo com a moral cristã, a pessoa não se encontra em um estado de pecado mortal devido a circunstâncias atenuantes subjetivas” (197). O adúltero, por exemplo, pode “estar em estado de pecado, mas não de pecado mortal” (p. 175). “Embora a regra seja válida sem exceção, os comportamentos que diferem da regra não são todos igualmente culposos” (p.185). A exceção aplica-se ao comportamento, não à regra. Fica-se atônito: como se pode violar de outra forma a regra moral a não ser pelo comportamento?

Buttiglione nega que a posição do Papa Francisco e seu deslize para a “ética da situação” sejam condenados pela Igreja. Mas para persuadir cumpre demonstrar aquilo que se afirma ou se nega. Infelizmente, devo reiterar com Josef Seifert, Carlos Casanova, Corrado Gnerre, Claudio Pierantoni e outros excelentes críticos de Buttiglione, que a posição de Amoris laetitia coincide com a da “ética da situação”, ou, mais precisamente, com a “ética das circunstâncias”.

De acordo com o Pe. Angelo Perego, a característica própria da ética da situação é “a negação da função decisiva e constitutiva da moralidade da ordem objetiva” (L’etica della situazione, edições “La Civiltà Cattolica”, Roma, 1958, pág. 106). Na moral tradicional, a suprema regra do agir humano é o ser, e não o agente operante. Por isso, a moral tradicional é essencialmente objetiva, porque surge do ser, ao qual se reporta continuamente. A ética das circunstâncias baseia-se, pelo contrário, no acontecer subjetivo. Na ética das circunstâncias de Buttiglione e do Papa Francisco o elemento constitutivo último da moralidade é de natureza estritamente subjetiva. A lei moral torna-se uma regra extrínseca que concorre para determinar o julgamento prático, sem nunca ser o elemento determinante. Qual é o fator decisivo? O “discernimento” das circunstâncias pelo confessor, que, como um mágico, pode transformar o bem em mal e o mal em bem.

 “À ética da situação – disse Pius XII – opomos três considerações ou máximas. A primeira é que admitimos que Deus deseja, antes de tudo e sempre, a reta intenção; mas isso não basta. Ele também quer uma boa obra. A segunda é que não é permitido fazer o mal para que dele venha o bem (Romanos 3: 8). A terceira é que pode haver circunstâncias em que o homem, e especialmente o cristão, deve lembrar-se que é necessário sacrificar tudo, até a própria vida, para salvar a alma. Todos os numerosíssimos mártires, mesmo em nosso tempo, o recordam. Mas a mãe dos Macabeus e seus filhos; santas Perpétua e Felicidade, sem levarem seus filhos em consideração; Maria Goretti e milhares de outros, homens e mulheres, venerados pela Igreja, teriam, portanto, contra as circunstâncias, afrontado inutilmente ou até mesmo erroneamente uma morte sangrenta? Certamente não; e eles permanecem, com seu sangue, as testemunhas mais eloqüentes da verdade, contra a nova moral” (Discurso de 18 de abril de 1952, AAS, 44 (1952), pp. 417-418).

Por outro lado, como observou um amigo, se a doutrina de Buttiglione sobre a imputabilidade da culpa fosse válida, disso resultaria que também o aborto poderia transformar-se um pecado grave mas não imputável à mulher que aborta, tendo em vista sua situação psicológico-econômica no momento de pôr fim à sua gravidez e os problemas psicológico-econômicos que lhe proporcionariam dar à luz uma criança. O mesmo poderia ser dito da eutanásia e, a fortiori, da sodomia, que seria, sim, um pecado que clama por vingança, mas não imputável ao “sodomita” que não o seja por escolha, mas apenas por “natureza”.

O esforço intelectual de Rocco Buttiglione é, aliás, estéril, porque além das palavras permanecem os fatos. E os fatos são que, baseados em Amoris laetitia, um número crescente de sacerdotes asseguram aos penitentes no confessionário que a misericórdia divina cobre sua situação irregular e os convidam a se aproximarem tranquilamente da eucaristia. Perguntamos, então, ao Prof. Buttiglione: o número de comunhões sacrilegas e confissões inválidas aumentou ou diminuiu depois da Amoris laetitia? A noção de indissolubilidade do casamento se fortaleceu ou diminuiu? A resposta é clara. A nova “estratégia pastoral” destrói o casamento e os sacramentos, dissolve a lei natural e abre o caminho para novos erros e heresias no plano da doutrina e da prática. Nenhum sofisma pode desmenti-lo.

9 Comentários to “Crítica amigável às teses de Rocco Buttiglione.”

  1. Roque Botilhão sobe no banquinho do botequim. Ele quer dar nó no vento. Sua minissaia teológica é de fazer corar. Mas tudo que Roque Botilhão consegue é ser anacrônico. Ele desagrada quase todo mundo. Desagrada aos católicos; desagrada também aos promotores da poligamia serial que não suportam essas distinções escolásticas de “grave”, “mortal”, “moral de circunstância”: imagine pensar nisso tudo à beira da piscina ao lado de seus convivas adâmicos… Na sauna, no shopping… Quantas maneiras de gastar o dinheiro das velhinhas, dos colégios, hospitais, universidades outrora católicas…! Quantas galinhas dos ovos de ouro, de prata e de bronze.

    Roque Botilhão só consegue agradar os teólogos conservadores a la Vaticano Segundo. Fizeram-no objeto de estudo e conferências. Ouvi dizer que estão prestes a recorrer ao espiritismo, fazendo mesas pra invocar o monge Estêvão Bittencourt e o bispo Eugênio Sales pra ver se eles ensinam a dar nó no vento. Mas será em vão … Agora ficou difícil manter a impostura e a apostasia teórica e prática.

    Continuem desobedecendo em nome da obediência…

    • Depois de ler seus comentários, chego à conclusão de que o sr. é o teólogo acabado, a quintessência do saber dogmático católico.. No entanto não cometeria a temeridade de “desobedecer em nome da obediência” já que conheci pessoalmente Dom Estêvão Bittencourt e o Cardeal Eugênio Sales e eles jamais cairiam nesta presunção. Cave ne cadas ex equo.

    • Lopes,

      Não precisa ser teólogo “acabado”… basta ter o catecismo na mão (o de Pio X, naturalmente). O inacabamento teológico, in statu viae, continuará sempre.

      Aliás, o sr. levou um daqueles trancos estúpidos que o Bispo Eugênio dava quando lhe iam beijar as mãos de… bispo? Ele dava uma espécie de golpe de caratê, para se esquivar… Eu, no tempo da minha culposa idiotice e estupidez, levei o golpe acariense. Ainda bem que a Providência me livrou de render homenagem ao dito pagem de Roberto Marinho.

      Conheci também o monge radialista. Ambos não conseguiram salvar dos huguenotes a mui leal e nobre cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Sabe por quê? “Deus resiste aos soberbo”, e defender o infecto Vaticano Dois é ato de soberba ou de estupidez. Resta escolher (mas é preciso ter o catecismo e os decretos de Trento às mãos…).

  2. Respeito ao Papa é necessário, mas respeitar as besteiras que propõe bem isso é outra coisa. A mim só resta o respeito ao título e rezar por sua reconversão! Até quando este Papa temerario poderá continuar em suas propostas que tentamos abalar nossa Doutrina?
    O escândalos entre um grupo cada vez maior de fiéis, e eu sou um deles, não para de crescer.

  3. A consciência é a norma próxima do juízo moral, mas a verdade é a norma próxima da própria consciência. Diante das evidências da Revelação Divina, a consciência tem o dever de reconhecer e acatar os preceitos do Altíssimo. Se ela não o faz, perde, por assim dizer, o direito a ser ouvida e obedecida, e se torna não só uma fonte de juízos errôneos, como incapaz de excusar de culpa. Assim, alguém pode estar sinceramente convencido “em consciência” de que alguma coisa é lícita, e todavia incorrer em verdadeiro pecado formal ao praticá-la.
    Considere-se, por exemplo, o caso de um incrédulo que esteja absolutamente convicto, “em consciência”, de que Jesus Cristo não é Deus. O fato de ele estar, todavia, informado das provas objetivas da Divindade de Cristo retira da sua consciência qualquer direito a discordar licitamente da verdade que lhe é apresentada – ele pecará, pois, mortalmente, se o fizer, ainda que nisso esteja simplesmente seguindo sua errônea consciência, a qual lhe engana terrivelmente nesse caso.
    A consciência individual só é regra legítima quando ela mesma está regrada pela verdade objetiva das coisas – o que, na ordem sobrenatural, exige o acatamento à Divina Revelação.
    Outro exemplo: ainda que a consciência de um protestante lhe diga que ele deve quebrar as Imagens Sagradas que possuir, ele estará cometendo um novo pecado mortal se o fizer, porque seu juízo subjetivo nessa questão está viciado e corrompido ao não se submeter à Fé Verdadeira e, portanto, não pode inocentar o seu ato. Ele só não pecaria formalmente no caso hipotético de realmente não ter nem notícia da existência da Fé Verdadeira.
    A “advertência” necessária para se pecar gravemente não significa que a consciência deva previamente reconhecer o dever como dever, para que então se peque ao transgredi-lo – basta que a consciência esteja minimamente informada da existência objetiva do dever verdadeiro, ainda que ela ‘discorde’ de reconhecê-lo como dever.

  4. A verdade vos libertará, disse Nosso Senhor, mas para alguns teólogos o que “liberta” é a ignorância. Cria-se um circulo vicioso: não se ensina ao povo o caminho do bem e depois diz que esse povo não tem pecados porque não tem plena consciência do mesmo. A sagrada escritura nos diz: “meu povo se perde por falta de conhecimento”, repetindo, SE PERDE. Esses ilustres teólogos esquecem que a ignorância escusa de pecado mortal quando a mesma é INVENCÍVEL. Será mesmo que aqueles que vivem num segundo, terceiro ou quarto casamente nunca ouviram ( ou não tiveram a oportunidade de ouvir) que o sacramento do matrimônio é indissolúvel?

  5. O acima poderia se dar com outras reedições atualmente abundantes nas mais diversas repartições e dioceses do mundo e dentro da Igreja de mais Rocco Buttiglione da seguinte forma, a quem deseje por ex., seguir numa obediencia cega, como suposto catequista, quer numa paroquia ou mesmo nos sites católicos e, começasse por ex., a admitir doutrinando as inovações a seguirem, dentre mais similares, apregoando-as como dignas de credibilidade e, por meio de eufemismos, sofismas ou jogos de palavras melífluas tentasse as inculcar nas mentes dos incautos, descapacitados de contrargumentação e de serem facilmente manipulados por possíveis embustes, tais como em:
    1 – Lutero, testemunho do Evangelho.
    2 – “Ninguém pode ser condenado para sempre por não ser a lógica do Evangelho”, constante na Amoris laetitia nº 297.
    3 – Poder-se-ia permitir a S Comunhão sem atribuir culpabilidade àquele que, em determinadas circunstancias a criterio do confessor, julgasse não se enquadrar em pecado grave ou mortal, ambos o mesmo mal, devido a uma serie de requisitos e outros mais fatos que se a tornasse permitida naquele caso particularizado.
    4 – A admissão de parte do papa Francisco, perguntado se havia concessão anterior de seus antecessores de poder aceder à S Comunhão aos recasados com vínculos anteriores, ele teria respondido que “posso dizer que não. Ponto” – assunto encerrado, e equivaleria manifestar-se que sim, inovador, não desejaria mais falar a respeito de sua decisão e/ou dos que o assessoram.
    Tem-se impressão que os sosias do R Buttglione, cada qual de seu modo, da repartição que ocupa e até mesmo a partir de dentro do Vaticano, são os piores inimigos da Igreja, abrindo brechas cada um a seu modo até conseguirem protestantizar a Igreja, embora até o proprio papa Francisco já tenha reconhecido para seu dissabor que há um “MINORIA ORGANIZADA HÍPER ATIVA – sendo um fato incontestável, que não dá treguas, cada vez mais atenta e rigidamente anti modernista – evidentemente, que lhe causa imensos desgostos – criticam-no alguns até de forma desrespeitosa – impedindo-o de agir com plena liberdade em prosseguir com suas supostas reformas!

  6. Todo esse “malabarismo teológico” para justificar o injustificável origina-se do esquecimento ou da rejeição da primeira palavra de Jesus no Evangelho: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Agora, entretanto, procura-se um compromisso entre a vida cristã e a mentalidade mundana e chega-se ao absurdo de pensar que seria possível cometer uma ação gravemente imoral e contrária à lei de Deus sem, contudo, pecar do ponto de vista subjetivo. Ou ainda o que é pior: pensar que Deus possa pedir que uma pessoa, em consciência, desobedeça à própria lei divina, isto é, que Deus mesmo peça que a pessoa permaneça no pecado que a conduzirá à morte eterna. Jesus, ao contrário, disse claramente: “Se tua mão direita te leva a pecar, corta-a …, se o teu olho te leva a pecar, arranca-o…”. Afirma-se, ainda, que há contradições entre os mandamentos de Deus (quando, ao contrário, o Salmo afirma que “a Lei do Senhor Deus é perfeita!”) ou que, em certas circunstâncias, mesmo conhecendo a lei e a vontade divina, a pessoa não estaria em condições de obedecer. Ora, a obediência a Deus pode, sim, exigir um grande sacrifício ou até mesmo o martírio, mas nunca nos faltará, em nenhuma circunstância, a graça divina, sem a qual seria impossível viver segundo o Evangelho.

  7. Lembremo-nos que a questão da comunhão de “recasados” encontra-se na origem da Igraja Anglicana e, nem mesmo para evitar este cisma, a Igreja se permitiu fazer vista grossa sobre a ilicitude do segundo “casamento” de um monarca.