Coluna do Padre Élcio: “Ó Jesus, que o vosso amor encha o vale de meu coração; que a humildade aplaine as colinas e os montes de meu orgulho”.

Explicação do Evangelho do 4º Domingo do Advento.

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com

S. Lucas III, 1-6
1. No ano décimo quinto do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galileia, Filipe, seu irmão, tetrarca da Itureia e da província da Traconítides e Lisânias tetrarca da Abilínea, 2. sendo pontífices  Anás e Caifás, o Senhor falou a João, filho de Zacarias, no deserto. 3. E ele foi por toda a terra do Jordão, pregando o batismo de penitência para remissão dos pecados, 4.  como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas: 5.  Todo o vale será terraplanado, e todo o monte e colina serão arrasados; os caminhos tortuosos tornar-se-ão direitos, e os escabrosos planos;  6. e todo o homem verá a salvação de Deus”.

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Observamos, em primeiro lugar o cuidado particular que o Evangelista, inspirado pelo Espírito Santo, tem de precisar a época, os lugares e as pessoas. Sua intenção é colocar os contemporâneos em condições de reconhecer a exatidão da narração evangélica, e assim, também impedir que no futuro os incrédulos  neguem os fatos aí contados.

natal - veni emannuelDevemos notar, outrossim, que S. Lucas nomeia, não somente os príncipes, os magistrados judeus, mas também os príncipes e governadores pagãos, como Tibério e Pôncio Pilatos. Porque, na verdade a religião deveria ser pregada também aos gentios e não somente aos judeus.

O Senhor falou a João no deserto: Estas palavras significam que S. João Batista recebeu positivamente de Deus, por inspiração ou pelo ministério dum Anjo, a ordem de anunciar o advento do Messias, e de Lhe preparar os caminhos, pregando a penitência. Ninguém, com efeito, pode profetizar e pregar, nem tão pouco exercer o sacerdócio, sem ter recebido de Deus um apelo positivo ou um missão especial: “Nenhum se arroga esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Aarão”. Em Jeremias XXIII, 16 e segs; em Ezequiel XIII Deus queixa-se em termos severos dos pregadores sem missão, que ousam, por sua própria e ilegítima autoridade, assumir o ministério da Palavra: “Eu não enviava
estes profetas e eles corriam; não lhes dizia nada e eles profetizavam”… “Eis que venho contra os profetas que sonham mentiras, diz o Senhor, que as contam e enganam o meu povo com suas mentiras e os seus milagres” (Jeremias XXXIII, 21 e 32).

João estava então no deserto, para onde se tinha retirado na mais tenra idade: “Ora, o menino crescia e se fortificava no espírito; e habitava nos desertos até ao dia da sua manifestação” (S. Lucas I, 80). Ali se preparou para a missão divina com uma vida de recolhimento, de penitência e de oração. A Santa Igreja  instituiu os Seminários como “desertos” abençoados com esta mesma finalidade de preparar os chamados por Deus para a pregação de Sua palavra e o exercício da administração de Seus Mistérios: “Logo, nós desempenhamos as funções de embaixadores por Cristo, como exortando-vos Deus por meio de nós” (2 Cor. V, 20).

Mas, caríssimos, que prega João Batista? A penitência. Esta é, na verdade, a primeira virtude do Cristianismo. À exemplo do divino Mestre, João primeiramente praticou e só depois ensinou aos outros: “Começou a fazer e a ensinar” (Cf. Atos I, 1). Jesus havia praticado a penitência nas intempéries duma estrebaria, na austeridade da pobreza em Nazaré e no jejum de quarenta dias no monte dentro do deserto.

Mas, por que a penitência? Qual era afinal a sua necessidade? Ah! caríssimos, nesta época,  o mundo estava cheio de iniquidade. “Toda carne tinha corrompido seu caminho”. Os pagãos adoravam em seus deuses os crimes mais revoltantes e as paixões mas ignominiosas. Os próprios Judeus, extraviados pela superstição, uniam a um rigorismo na observação exterior da lei, um extremo relaxamento na prática do bem real. Era necessário lavar estas manchas pela penitência e preparar assim as almas para recepção da graça da Redenção.

Mas que dizer da penitência nos dias atuais? Caríssimos, quem não vê que o pecado inundou o mundo? Assim, as palavras de Jesus: “Se não fizerdes penitência, todos perecereis”, valem também para nós. Nossa Senhora em Lourdes e depois em Fátima pediu penitência; e mais de cem anos depois, só vemos mais pecados e menos penitência. A cidade de Nínive teria sido destruída caso o povo não tivesse feito penitência. E esta humanidade adúltera e pecadora se não fizer penitência, será também destruída. A quantidade de crimes: impiedade, blasfêmia, sensualidade, libertinagem, vícios das drogas, doutrinas perversas, ultrajes feitos Nosso Senhor Jesus Cristo, à Santíssima Virgem Maria e aos demais santos, menosprezo pela Sagrada Tradição, deturpação das Sagradas Escrituras, menosprezo pela Santa Madre Igreja. E os crimes mais horrorosos de nosso tempo é o ódio contra Deus e os sacrilégios contra a Santíssima Eucaristia. Têm prevalecido na Igreja doutrinas que negam o queda original do homem, que legitimam os instintos perversos dos homens, que reabilitam a carne, e olham a penitência como uma fraqueza e uma loucura. Portanto, reinam soberanos no mundo o materialismo, o panteísmo, o naturalismo e o subjetivismo. Constatamos em nossos tempos pagãos os vícios, as desordens de que o Cristianismo havia libertado o homem. Se entrarmos nas clausuras dos conventos, será que, pelo menos aí, ainda encontraremos penitência? Não queremos generalizar, mas podemos afirmar sem medo de errar, que, cada dia, dilui-se o espírito de penitência. Então, caríssimos, mais do que nunca, devemos pregar como o Batista: “Fazei dignos frutos de penitência… porque o machado já está posto à raiz das árvores .Toda árvore que não dá bom fruto, será cortada e lançada no fogo” (S. Lucas III, 8 e 9).

“Que todo vale seja enchido”: Que significam estas palavras? O vale é símbolo das almas pusilânimes e dos corações relaxados e apegados as coisas baixas do mundo. Portanto, S. João Batista pregava a penitência para que as almas se tornassem corajosas e as vontades, adestradas na renúncia de si mesmas; os corações deveriam se desprender das coisas terrestres e dos sentimentos vis, e se afeiçoarem à coisas nobres e celestiais. “Sursum corda!” Corações ao alto! Os corações abatidos pelas desilusões da terra, devem se elevar para o céu. Os que estão apegados à terra como sapos, para usar a expressão de S. Luiz Grignon de Montfort, se elevem como águias para o Altíssimo. O Céu é nossa Pátria, lá devem estar nossas esperanças; lá sim, encontraremos a nossa eterna felicidade!

Caríssimos, aproveitemos o Advento para enchermos nossas deficiências com o amor de Deus e do próximo! “E toda montanha seja abaixada”: Isto é, os espíritos soberbos, os orgulhosos e ambiciosos deverão ser rebaixados e humilhados, porque o Deus que vai descer até a nossa miséria e ao nosso nada, resiste aos soberbos e dá porém, sua graça aos humildes. Na verdade, um coração cheio de amor próprio e de soberba, não pode estar cheio de Deus. “Os caminhos tortuosos tornar-se-ão retos”: Esta comparação é para indicar os corações cheios de desígnios perversos, corações que tenham sido entortados pela injustiça, pela dissimulação, pela hipocrisia, pela mentira e por toda espécie de vícios. Deverão, então, ser endireitados pelas normas da justiça, da verdade, da sinceridade e da pureza.

“Os caminhos ásperos serão aplainados”: Isto é, as almas violentas e duras, que se deixam levar da ira, do rancor, da vingança, voltarão à doçura, à mansidão e à caridade pela influência da penitência que, juntamente com a oração, atrai as graças celestes.

“E todo homem verá a salvação de Deus”: O homem assim preparado verá o Salvador e participará dos seus méritos e da sua glória. Caríssimos, se nós queremos que Jesus venha a nós, se manifeste à nossa alma, lhe faça sentir as doces influências da sua divina
presença, nos comunique verdadeiramente a sua vida e as suas virtudes, preparemo-nos seriamente para bem O receber, limpemos o nosso coração de tudo o que é indigno d’Ele, de tudo o que poderia contristá-Lo. Despojemo-nos do homem velho, e revistamo-nos do Novo, procurando assim levar uma vida digna de Jesus.

Caríssimos, coisa tristíssima, constatamos hoje: comunhões mal feitas, sem a mínima melhora na vida espiritual. Muitos comungam e temos a impressão de que não sentem Jesus, não recebem os frutos de salvação e de santidade que Ele traz consigo! Por que? É porque a sua preparação deixa a desejar; esses não trabalham na sua conversão, na correção dos seus defeitos, não se importam da recomendação de Isaías e da Santa Madre Igreja: “Preparai o caminho do Senhor…” E vejam que não me refiro aqui a comunhões sacrílegas, que infelizmente são muitas… falo das almas que comungam estando em estado de graça, mas comungam sem a devida preparação, por rotina e com tibieza.

Por isso, terminemos  voltando-nos para Jesus: Ó Jesus, que o vosso amor encha o vale de meu coração; que a humildade aplaine as colinas e os montes de meu orgulho. Destruí, ó Senhor, com a chama ardente do Vosso amor todo o meu orgulho, soberba e vaidade, arrancai toda fibra do meu coração que não seja Vossa ou que esteja envenenada pelo amor próprio. Também eu quero diminuir-me, ó Senhor, para que possais crescer em mim, para que no dia do Vosso nascimento possais encontrar o meu coração completamente vazio e livre e portanto pronto para uma total invasão do Vosso amor. Amém!

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7 Comentários to “Coluna do Padre Élcio: “Ó Jesus, que o vosso amor encha o vale de meu coração; que a humildade aplaine as colinas e os montes de meu orgulho”.”

  1. Os poderes ocultos desse mundo cada vez mais no presente indipsotos à conversão e arrastando atrás de si multidões – associados até com diversos de dentro da Igreja do topo eclesiástico – ostentando seu orgulho por meio da tecnologia que julga ser suficiente para se resolverem todos os problemas até então em desacordo com seus planos mirabolantes e ambiciosos de pleno dominio, cujos modelos anteriores vigentes até ao presente não conseguiram fazer com que o ser humano atingisse sua plenitude, enquanto esses se apresentam como tendo a solução desse impasse!
    É bom observar que esses mesmos poderes acima dessa vez atreveram-se a invadir a Igreja católica, último obstáculo resistente a ser transposto para manifestar-se e, dentro dela desde o topo, estão cada vez se apresentando ostensivamente e de forma atrevida e audaciosa, rechaçando quem desafiar tolher-lhes os caminhos!
    Como relatado no texto, comunhões mal feitas, sem a mínima melhora na vida espiritual, na mão, caindo micropartículas invisiveis nelas impregnadas por simples contacto ou sendo profanadas por pisoteio, nem verificando após a recepção, como se colocasse um biscoito à boca e nem atentando aos residuos visiveis que caem no chão e que serão calcados por pés imundos!
    … “Muitos comungam e temos a impressão de que não sentem Jesus, não recebem os frutos de salvação e de santidade que Ele traz consigo! Por que?”…
    O que se nota é que os resultados viriam por meio de artificios de mentes de seres que se julgam deuses também, parecendo terem surgido do Além, incriados, autônomos, de tão inchados de soberba e orgulho, os quais oportunamente serão subjugados á força e confinados em seus devidos lugares com o sopro de sua boca, diz o Senhor:
    “Antes, julgará com retidão e carinho todos os necessitados, com justiça tomará decisões em favor dos pobres. Usará a sua Palavra como se fosse um cajado, ferirá a terra; e com o sopro da sua boca exterminará os ímpios”! Is 11,4.
    Quem sabe estaríamos nos preludios profetizados no abaixo, por cada vez mais presenciarmos cenas dessas, de diversas modalidades, a se seguirem:
    “À Besta foi concedida uma boca para pronunciar palavras arrogantes e blasfemas, e lhe foi transmitida autoridade para realizar suas obras por quarenta e dois meses” Ap 13,5.

  2. Salve Maria! Quando a vigília do Natal cair ao domingo, diz-se a missa da vigília e não a do 4º domingo do advento.

    • Caríssimo Roosevelt Maria de Castro. Salve Maria! Eu também seu que é assim. Só que neste ano litúrgico propus-me explicar os evangelhos dominicais. Nos domingos em que a Santa Igreja já fixou alguma festa, como por exemplo, a Festa de Cristo Rei no último domingo de outubro, aí sim, se Deus quiser, explicarei o evangelho da festa e não o que seria do domingo. Obrigado e peço suas orações para que os meus artigos aqui nesta coluna do Fratres possam fazer bem às almas.

  3. domingo, 24 de dezembro de 2017
    VIGÍLIA DO NATAL

    NOTA: Quando o 4º Domingo do Advento coincide (como neste ano) com a Vigília do Santo Natal, celebra-se a Missa da Vigília sem comemoração do Domingo.

    Caríssimos, com a graça de Deus, vamos meditar sobre a VIAGEM A BELÉM. Vemos a sabedoria e bondade de Deus em ordenar esta viagem. O imperador César Augusto ordena o recenseamento de todos os seus súditos. Julga não trabalhar senão pela própria glória, e trabalha pela de Jesus Cristo, preparando provas da Sua divina missão. Para se realizarem as profecias, é necessário que o Messias nasça em Belém, que seja autenticamente reconhecido por filho de Davi. É necessário que Jesus entre neste mundo no estado mais humilde possível, pois vem fundar um reino espiritual que terá por alicerces a humildade, a paciência, a pobreza. Tudo está na mão de Deus. Ele faz concorrer tudo para o cumprimento de seus desígnios. A vaidade de Augusto contribuirá para isso, como a humildade de Maria Santíssima.

    Que tesouros de merecimentos, que consolações vão achar Maria e José neste viagem tão penosa aos olhos dos homens!

    Caríssimos, contemplemos a obediência e confiança de Maria Santíssima e S. José nesta viagem de Nazaré a Belém. Na verdade, os santos esposos tinham sólidas razões para se eximirem desta viagem ; mas seu amor à obediência não lhes permite ver senão a autoridade de Deus na do imperador. Partem. Preveem os trabalhos; mas a sua confiança é inalterável. Que tinham eles a temer? Maria levava em seu seio virginal o Senhor do universo. Nada é difícil quando Jesus está presente, tudo é bom!!!

    Caríssimos, em breve Maria Santíssima vai dar-nos Jesus. Já se ouve um canto jubiloso. Só algumas horas nos separam de tão feliz vinda. Oh! que grata não é para todos os cristãos a noite de Natal!

    Postado por Zelo zelatus sum .

  4. FELIZ E SANTO NATAL!

    Aos caríssimos e amados leitores desejo do fundo do coração um feliz e santo Natal com graças e bênçãos copiosas e escolhidas do Menino Deus e de Sua Mãe Santíssima!

    É o aniversário de Jesus. E qual o presente que Lhe vamos dar?
    Lemos o seguinte episódio na vida de Santo Antônio de Pádua: Enquanto estava atento aos seus jogos, o pequeno Antônio viu, um dia, um menino da sua idade: belo de uma beleza nova na terra. Mantinha ele o aventalzinho levantado, e girava em torno os olhinhos, como que desejoso de receber algum presente.
    Perguntou-lhe o pequeno Antônio: “De onde vens? Como te chamas? Que você quer? – De onde venho? respondeu-lhe o encantador menino: Do céu. Como me chamo? O meu nome encontra-se escrito em letras de fogo sobre uma gruta em Belém; em letras de sangue sobre uma cruz em Jerusalém; em letras de ouro sobre todos os sacrários da terra. Sou o Menino Jesus, e ando em busca dos corações dos homens”.
    “Ó Menino Jesus, que quereis de mim!” suplicou o pequeno Antônio pressurosamente.
    – “Antônio, dá-me o teu coração”.
    Hoje no Santo Natal, Jesus chama cada um de nós pelo nome e diz: “Dá-me o teu coração”.
    Mas, Menino Jesus, o meu coração não está preparado para vós, ele é muito diferente do de Antônio de Pádua. Infelizmente o pecado cavou nele tremenda voragem, um profundo poço lodoso e repelente.

    Recorramos ao exemplo de um homem de grande santidade e pureza: São Geraldo Majella.
    A São Geraldo, quando ainda menino sucedeu um caso tão belo que quase não pareceria verdadeiro, mas que é digno de fé porque foi examinado e reconhecido pela Igreja quando se tratou da sua beatificação.
    Geraldo Majella era muito pobre e servia como empregado ao Bispo de Lacedônia. O bispo, indo viajar, deixou as chaves da casa com o pequeno empregado e deixou-lhe a ordem de apanhar água no poço que ficava em frente da igreja.
    Na beira do poço, nem Geraldo saberia explicar como fora: em certo momento ele ouviu um baque na água, e eram as chaves da casa paroquial que lhe haviam escorregado dos dedos. Foi visto com a face pálida e cheia de espanto. Tendo nos olhos uma muda angústia, ele olhava para aquela escura profundeza. E agora, que fazer? Que lhe diria seu patrão que, pela idade e doenças, não era lá modelo de muita mansidão. Talvez o pusesse na rua. E para onde iria ele, sozinho, sem trabalho, sem teto? De repente luziu-lhe uma ideia. Atravessa, correndo, a praça, entra na catedral, e, do presépio apanha a imagenzinha do Menino Jesus.
    “Menino Jesus – suplica Geraldo como se estreitasse, não uma figura de gesso, ma o próprio Menino Jesus de carne, vivo e respirante. – Só tu podes ajudar-me. Tu e ninguém mais: faze-me, pois, apanhar a chave!” Em seguida, amarrou o Menino Jesus à corda do poço e fê-lo descer devagarinho. Quando sentiu dentro da água, gritou-lhe lá para dentro com toda a força de sua esperança: “Menino Jesus, traze-me para cima a chave!’ E começou a puxar a corda.
    Um grito de alegria! Qual não foi a surpresa de todos que ali estavam quando viram nas mãozinhas da imagem do Menino Jesus as chaves. Geraldo apanhou-as da imagem, e depois, impelido como por um vento de alegria e de gratidão, correu a levar a imagem do Menino Jesus de novo para a manjedoura na catedral.
    Caríssimos e amados irmãos, quando pecamos, perdemos as chaves do Paraíso, a graça de Deus. Com astúcia e mentira, o demônio fizera-as escorregar das nossas mãos, ou seja, das nossas almas. Só Jesus pode no-las restituir. Para nos arrancar do fundo do poço lodoso e repelente do pecado nos oferece a corda da Confissão. Náufragos que fomos, Jesus nos oferece esta segunda tábua de salvação.

    Agora, Jesus quer vir ao nosso coração por Ele mesmo purificado, livre das águas imundas do pecado. Com que paz, com que alegria podemos agora nos aproximar da Mesa da Santa Comunhão. Temos aí o mesmo Jesus que nasceu em Belém, morreu em Jerusalém e ressuscitou imortal e impassível.

    Na noite de Natal, São Caetano de Thiene velava em oração ardente diante do presépio, na basílica de Santa Maria Maior em Roma. Com a sua fé viva ele recompunha a história daquela noite santa, e parecia-lhe ser também ele um pastor a quem o Anjo anunciasse a grande alegria. Parecia-lhe acorrer também, pelas estradinhas rupestres, à gruta de Belém, onde com um fio de voz gemia o Onipotente, nascido menino.
    E eis que, enquanto assim meditava, apareceu-lhe deveras a Virgem Maria carregando o Menino Jesus. E veio até ele, e sobre os seus braços abertos e trêmulos reclinou o pequenino Filho de Deus feito homem. E Caetano olhava-o, e ao seu coração de pobre homem estreitava aquele Coração de Deus, e sentiu em si o Paraíso.
    Caríssimos e amados fiéis, reavivemos o nosso amor e a nossa fé para com o Santíssimo e Diviníssimo Sacramento. Que Jesus eucarístico não seja mais para nós o Desconhecido! Na Comunhão de Natal será Nossa Senhora mesma que colocará no nosso trêmulo coração de pobres pecadores, o seu pequenino Filho de Deus. Ó Maria, Mãe do Amor! Preparai meu coração para receber o Senhor!
    Que gratidão devemos ter também a Nossa Senhora que nos trouxe Jesus! No ano 2000 tive a graça de celebrar em Belém ao lado da mesma gruta em que Jesus nasceu. Depois da Consagração eu disse a Maria Santíssima: “Minha Mãe e Senhora, há 2000 mil anos a Senhora trouxe aqui neste lugar o mesmo Jesus que eu também acabo de trazer pelas palavras da Consagração. Mas eu não o poderia fazer, se a Senhora não O tivesse trazido primeiro”.
    Deus Pai quis que tivéssemos Jesus através de Maria. Por gratidão a Nossa Senhora, quero terminar com mais um exemplo da vida de um grande devoto de Nossa Senhora: São Bernardo.
    Entre as recordações que da sua infância São Bernardo narrava, a mais doce era esta. Chegara a véspera do Natal, esperada com aquela fascinação que só conhecem as crianças de alma pura. A todo custo ele quis que os seus o levassem consigo à Missa da meia-noite. Mas, quando ele chegou na igreja, embalado pelo murmúrio das orações, envolto no calor da multidão, como a Missa demorasse a começar, vencido pelo sono ele adormeceu. Teve um sonho lindo, que, embora sonho, quem não o quisera ter? Ei-lo: Viu atravessar os céus a Virgem Maria, que segurava, estreitando ao coração, o seu belíssimo Menino, recém-nascido. Curvada sobre Ele com maternal gesto, ela dizia: “Olha lá na terra, no meio daquela gente, o meu pequeno Bernardo”. O Menino abriu as pálpebras, girou os olhinhos para baixo, e viu-o. E os dois se sorriram mutuamente.
    Ó doce, ó Santa Mãe, essa palavra que um dia disseste para São Bernardo, repete-a hoje ao teu Filho Jesus também para nós! Dize-Lhe que nos olhe.
    Dize-Lhe que O revestiste de pobres panos para que Ele nos revestisse com a glória da imortalidade.
    Dize-Lhe que o acomodaste entre o hálito de dois animais para que Ele nos elevasse para entre o canto dos anjos.
    Dize-Lhe que o puseste na estreita manjedoura para que Ele nos colocasse no imenso palácio dos céus. Amém!

  5. Feliz Natal, Padre Elcio!
    Que Nossa Senhora continue a assisti-lo nessa missão preciosa de nos dar tão belos e necessários ensinamentos.
    Vossas bençãos.
    R.C.