Coluna do Padre Élcio: “A semente é a palavra de Deus”.

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas, 8, 4-15.

“Naquele tempo, tendo-se reunido uma grande multidão, como tivessem ido a Jesus os habitantes de várias cidades, propôs-lhes Ele esta parábola: Saiu o semeador a semear sua semente; e ao semeá-la, parte caiu junto ao caminho e foi pisada, e as aves do céu a comeram. Outra parte caiu sobre a pedra, e quando nasceu, secou logo, por não haver umidade. Outra parte caiu entre espinhos, e os espinhos, nascendo com ela, a sufocaram. E outra parte caiu em boa terra, e depois de nascer, deu fruto, cento por um. Dito isto, clamou: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Seus discípulos perguntaram-Lhe, pois, que significava essa parábola. E Ele lhes respondeu: A vós é dado conhecer o Mistério do Reino de Deus, porém aos outros se fala em parábolas, para que olhando, não vejam, e ouvindo, não entendam. Este é, pois, o sentido da parábola: A semente é a palavra de Deus. Os que estão ao longo do caminho, são os que a ouvem, mas vindo depois o diabo, tira-lhes a palavra do coração, para que se não salvem, crendo nela. Os de sobre a pedra, são os que recebem com gosto a palavra, quando a ouviram, porém, estes não têm raízes: até certo tempo creem, mas, no tempo da tentação, desviam-se. A que caiu entre os espinhos: são estes os que ouviram, porém indo, afogam-se com cuidados, riquezas e deleites da vida, e não dão fruto. E a que caiu em boa terra: são os que, ouvindo a palavra, guardam-na com o coração bom e perfeito e dão fruto na paciência”.

Caríssimos e amados leitores em Nosso Senhor Jesus Cristo!

É a parábola do semeador. De todas as parábolas de Nosso Senhor Jesus Cristo, é uma das mais importantes e instrutivas; porque contém em figura o mistério da Encarnação, a obra da pregação evangélica e toda a economia da nossa salvação.

001163_1Faz-nos ver, de um lado, a bondade inefável de Deus abaixando-se até nós, e semeando a sua palavra e a sua graça com uma liberalidade sem limites; e, do outro lado, a dureza e ingratidão dos homens, dos quais a maior parte são infiéis e inutilizam os dons de Deus. Mostra ainda a sua importância o cuidado caritativo de Nosso Senhor em explicá-la por si mesmo aos seus discípulos, o que só fez com esta e com a parábola da cizânia.

Quem é o semeador? É o próprio Verbo, o Filho de Deus. Desceu à terra para semear em nossos corações e fecundá-los, para lançar neles a semente do seu Evangelho, isto é, para  revelar-nos os mistérios do reino dos Céus, para derramar em nós as suas graças e as suas misericórdias e para transformar os homens, de terrenos estéreis que eram, em homens celestes, capazes de produzirem frutos de santidade dignos da vida eterna.

Qual é a semente? Jesus no-lo diz: É a palavra de Deus. É Nosso Senhor, pois que o Verbo de Deus é, ao mesmo tempo, semeador e semente depositada nos sulcos das nossas almas. Ele se semeia por assim dizer a si mesmo em nós, pela sua doutrina divina, pelas suas santas inspirações, pelos seus Sacramentos, sobretudo pela adorável Eucaristia. Nosso Senhor é ainda semeado pela pregação dos Apóstolos e de todos os seus sucessores legítimos de todos os tempos e de todos os lugares, isto é, pelo ensino, legislação e Liturgia da Igreja Católica; pelos bons livros e pelos exemplos dos santos. Quem poderia exprimir o preço e a virtude desta divina semente? que graça e que força íntima e oculta ela possui para regenerar o mundo e santificar os homens! foi por esta palavra que Deus tudo criou do nada. Foi ela que extirpou os vícios grosseiros do paganismo e que fez florir por toda a parte as belas virtudes do Cristianismo. Ela conserva sempre a mesma eficácia soberana; e, se é mais ou menos frutuosa, isso provém das nossas disposições.

Justamente os diferentes terrenos significam os corações dos homens que recebem a palavra divina, com muito diversas disposições. A semente que cai ao longo do caminho, segundo explica o próprio Jesus, designa aqueles que ouvem a palavra; mas em seguida vem o demônio e lhes retira essa palavra do coração.

Essa classe de pessoas é a das almas dissipadas, levianas, frívolas, preguiçosas; corações indiferentes, semelhantes a uma estrada larga, onde o ruído é  ensurdecedor, o terreno muito batido e endurecido sob os pés dos viandantes que passam em todos os sentidos. A palavra de Deus depressa é calcada e esmagada pelas paixões más, o orgulho, os ressentimentos, os ódios, etc… Ou não é acolhida por essas almas dissipadas e endurecidas, ou só é ouvida com desdém e indiferença. O demônio rouba esta semente, semelhante nisto às aves do céu, que, no tempo das sementeiras, comem os grãos que não ficam cobertos pela terra.

A semente que cai sobre terreno pedregoso, explica Jesus, designa aqueles que, tendo ouvido a palavra de Deus, a recebem com alegria; mas, como não têm raízes, não creem senão por algum tempo e, no momento da tentação, retiram-se e sucumbem.

Essa classe de homens é a das almas superficiais que, ouvindo a palavra de Deus, a recebem com alegria, isto é, começam a converter-se, formam as mais belas e úteis resoluções, e parecem prontas a tudo para Deus. Mas falta-lhes vontade firme e séria: não há nelas senão veleidade, presunção e inconstância; não têm raízes bastante profundas; não são bem arraigadas na fé. Não têm suficiente fundo de humildade, de desconfiança de si mesmas e de confiança em Deus. Por isso, a mais pequena tentação as abala; as cruzes desta vida, as tribulações, algumas leves perseguições pela justiça e pela fé, as prostram e fazem perecer a sua virtude sem raízes; sucumbem, deixam o caminho direito, e acabam por se afastar miseravelmente.

A semente que cai entre os espinhos, explica Jesus, figura aqueles que ouviram a palavra, mas indo, em pouco tempo esta palavra é abafada pelos cuidados e embaraços do mundo, pela ilusão das riquezas, pelos prazeres do mundo e pelas outras paixões, de sorte que não produzem fruto nenhum.

Esta categoria é a das almas divididas, embaraçadas pelos prazeres e pelos cuidados excessivos dos bens da terra; que quereriam servir ao mesmo tempo a Deus,  ao prazer e ao  dinheiro. Esta sede insaciável das riquezas, das honras e dos prazeres abala a boa semente nestes corações carnais ou terrestres, isto é, destrói neles todos os bons sentimentos, a vontade de trabalhar na salvação, e mesmo todos os pesares ou remorsos que a palavra de Deus faz brotar neles.

A semente que cai em terra boa, segundo a explicação de Nosso Senhor Jesus Cristo, são aqueles que tendo ouvido a palavra, a conservam num coração bom e excelente, e produzem frutos pela paciência.

A esta categoria pertencem as almas bem preparadas, as almas humildes e piedosas, libertas dos laços do pecado, cheias de generosidade, desapegadas das coisas do mundo e ávidas de agradar a Deus, de O servir e de O glorificar. Estas almas ouvem a palavra de Deus com atenção, respeito e amor.

Produzem frutos pela paciência, isto é, são obrigados, para se santificarem, a vigiar, trabalhar, sofrer, combater sem cessar, porque esta é a nossa condição neste mundo.

Umas  produzem trinta por um, outras sessenta, outras cem, segundo a proporção dos talentos e das graças recebidas, ou segundo a perfeição da cultura, ou segundo os diversos graus da sua caridade para com Deus.

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo! Tomemos a resolução de ler e escutar doravante a palavra divina sempre com mais atenção e devoção a fim de que nos guarde, nos santifique e nos torne dignos da recompensa do Céu. Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática! Amém!

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3 Comentários to “Coluna do Padre Élcio: “A semente é a palavra de Deus”.”

  1. Pe. Elcio, agradeço ao senhor pela homilia rica em ensinamentos e que nos ajudam a identificar melhor os diversos tipos de corações que recebem a palavra de Deus. Dentre esses tipos, gostaria de chamar a atenção para aquele que recebe a semente da palavra divina, mas o demônio a rouba, como uma ave de rapina. Acredito que, diante do crescimento vertiginoso das várias formas de culto pagão entre aqueles que foram um dia batizados e, com o consequente aumento dos pecados contra a religião (pecados contra o 1º mandamento), o tipo de coração ou de pessoa que prevalece hoje em dia na sociedade são os daqueles que tiveram a palavra de Deus roubada pelo demônio, e não só a palavra de Deus, mas também a graça de Deus, a dignidade humana, a paz e muito mais. Não é a toa que os exorcistas experientes, normalmente padres com certa idade, e bastantes anos de experiência no exorcistado, não se cansam de denunciar a situação espiritualmente calamitosa em que se encontram tantos batizados. Recentemente um exorcista irlandês, o Pe. Pat Collins, dirigiu um apelo aos bispos da Irlanda para que estes nomeassem mais exorcistas para aquele país europeu. Não menos grave, acredito que seja a situação espiritual do Brasil.

  2. Todos os tempos anteriores jamais se pareceriam com o atual na era tecnológica, por os três primeiros terrenos, pedregoso, espinhoso e duro, em resumo, terem maior impacto negativo em incremento, enquanto tende o frutífero em render menos devido à proposital subversão praticada em larga escala, como tão sutilmente propagandeado: “vivemos noutra época da religião foi substituída pelo moderno, pelo conforto e prazer, pela bajulação do ego, etc. e, quem não se enquadrar, é tachado de antiquado, fora da realidade, senão um troglodita
    Dessa forma, forjaram-se novas divindades em nosso tempo, argumentam que nos trarão os sonhos de nossos ancestrais em os possuir, agora realizáveis, doutrinando que doravante temos de viver a vida, pois após ela nada restará; assim, trocando a fé por bens desse mundo transitorio cooptando imensas multidões, distraindo-as nos incontaveis festejos, fitness, projeção social, ser um ídolo etc., desviando as mentes do sagrado para o profano, abolindo a transcendencia, procurando a todos lançar no relativismo.
    Dessa forma, convém ressaltar: “Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos desejos insensatos e nocivos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição”. 1 Tm 6,9.
    Nessa passagem Jesus nos exorta sobre o poder das preferencias guardadas no coração, pois a Palavra de Deus deve ser vivida para não tropeçarmos, sendo os obstáculos as riquezas e ambições mundanas se priorizarmos as condições de vida sob o materialismo, tomando maior ou todo o espaço do coração, sufocando a fé, por se dividir em aderir a ela e à vaidade, ou preferencia em mais às coisas vãs.
    Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente; quem ama as riquezas, nunca se sentirá em paz e feliz com seus rendimentos. Certamente, isso também é ilusão, vaidade. Ecle 10-11; 1-14.

  3. Meditando sobre as virtudes e a graça compreendo que me assemelho mais à terra com espinhos. Quanta dificuldade para fazer crescer a semente da Palavra em meio a tantas preocupações mundanas…mesmo as justas preocupações afastam-me da piedosa devoção.