Coluna do Padre Élcio: “O que é de Deus ouve a palavra de Deus”.

Reflexão sobre o Evangelho do Domingo da Paixão (S. João VIII, 46-59).

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com, 17 de março de 2018 

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Limitar-me-ei a considerar apenas algumas palavras do evangelho de hoje: as mais importantes e mais próprias para nos instruir.

“Quem de vós me pode acusar de pecado? Se eu vos digo a verdade, por que não me credes? O que é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso vós não as ouvis porque não sois de Deus”. No episódio da mulher adúltera, Jesus havia lançado aos escribas e fariseus este desafio: “Aquele, dentre vós, que é sem pecado seja o primeiro a atirar-lhe pedra”. Ouvindo isto, retiraram-se um após outro, a começar pelos mais velhos, até os últimos”. Agora Jesus lança a eles e a todos presentes este desafio: “Quem de vós me argüirá de pecado?” E ninguém ousa abrir a boca contra Jesus. Logo fica provada a santidade perfeita de Jesus e isto, por sua vez é prova inconteste de que Ele fala a verdade. Mas aqueles homens estavam cheios de pecados e, portanto não eram de Deus e é justamente por isso que não queriam aceitar a Verdade, a Palavra de Deus, que era o próprio Jesus Cristo, o Messias, o Salvador.

“Quem de vós me pode acusar de pecado?” Realmente, caríssimos, trata-se de uma palavra audaz, de um desafio audacioso. Quem, senão um Deus, pode falar assim? Quem, portanto, senão um Deus pode lançar em face de inimigos figadais este desafio? Era preciso realmente estar muito seguro de si, para falar assim a inimigos tão sagazes! Jesus
Cristo, com efeito, por esta palavra e outras sobre as quais vamos abaixo refletir, tem por finalidade provar aos judeus sua divindade, e é com uma profunda razão, com uma inteligência perfeita do tempo em que estamos que a Igreja coloca neste domingo a leitura deste evangelho. Na verdade, já lobrigamos num horizonte próximo o grande sacrifício que resgatou o gênero humano; já se eleva aos nossos olhos sobre o Calvário a Cruz na qual Jesus morreu por nós. Na epístola deste dia (Hebr. IX, 11-14), o Apóstolo S. Paulo lembra, exalta esta grande Vítima e, ao mesmo tempo, este grande Sacrificador. Ele representa Jesus Cristo entrando no tabernáculo, não mais como o Sumo Sacerdote outrora, com o sangue de animais, mas com seu próprio sangue. Para entendermos  o poder infinito deste Sangue é necessário provar que a Vítima era bem aquela que reclamava a Justiça divina. Em outras palavras: para que Jesus Cristo pudesse oferecer a Deus uma reparação infinita por uma ofensa infinita, era mister mostrar que Ele era Deus. E para tanto a Santa Madre Igreja coloca para nossa meditação exatamente este evangelho da Missa do Domingo da Paixão. Em se proclamando sem pecado, evidentemente Jesus Cristo se declara Deus. Que homem, com efeito, é sem pecado? Os escribas, os fariseus pareciam ter sido os homens que levaram mais longe o orgulho da santidade. “Eu vos dou graças, dizia o fariseu em sua oração soberba, por não ser com os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros”. Pois bem, malgrado esta alta estima que tinham de si mesmos, os escribas e fariseus não ousavam acreditar que eram isentos de pecado, como já mostramos acima no episódio da mulher adúltera. Na verdade, há no homem um tal fundo de corrupção, uma inclinação tão acentuada para o mal, que se dizer sem pecado, é dizer-se mais do que um homem, ou seja, é dizer-se um Deus-Homem.

“Se glorifico a mim mesmo, minha glória nada é. Quem me glorifica é meu Pai, o qual vós dizeis que é vosso Deus. Vós não O conheceis, mas eu o conheço”. Não é somente por sua inocência e sua inculpabilidade que Jesus Cristo prova sua divindade, mas também a estabelece pelas obras de que Deus O faz glorioso instrumento, pelos milagres que tem tão frequentemente já excitado a seu respeito a admiração e o reconhecimento dos povos. Lá estão os doentes curados, os mortos ressuscitados, a multidão alimentada no deserto e tantos outros prodígios que encheram sua vida pública e que têm tido por finalidade provar aos povos a divindade de sua missão.

“Em verdade, em verdade vos digo: Eu existo antes que Abraão fosse gerado”. Assim, Jesus estabelece também a sua divindade pela sua preexistência a Abraão e aos profetas. Foi exatamente isto que o Precursor S. João Batista já havia dito: “Depois de mim vem um homem que é superior a mim, porque existia antes de mim” (S. Jo. I, 30).Sim, Jesus Cristo existiu antes de Abraão, antes de João Batista, isto é, antes de nascer, Ele era portanto Deus. Os judeus reagiram, não com argumentos, mas com injúrias: “Não temos razão para dizer que és um samaritano e que tens demônio?  Um insulto atroz para um filho de Israel; e um terribilíssimo para o Filho de Deus! Jesus não faz caso do primeiro; mas não pode deixar correr impunemente aquele outro lançado a seu respeito pelos inimigos:

– “Eu não estou possuído pelo espírito mau. Honro o meu Pai, e vós a mim desonrastes-me. Mas eu não busco a minha glória; há quem vele por ela e julgue”. Caríssimos, a uma tal injúria Jesus responde com uma mansidão sobre-humana e, não contente com isso, repete aquele apelo repleto de piedade: “Na verdade, na verdade vos digo: aquele que guarda a minha palavra não verá a morte para sempre”. E então com toda fúria, os fariseus confirmam o horrenda injúria de possesso e perguntam: “Por quem te tomas?”  Jesus Cristo responde: “Meu Pai é que me glorifica, aquele que vós dizeis que é vosso Deus e não o conheceis, mas eu o conheço. Se disser que não o conheço, serei um mentiroso, semelhante a vós. Mas eu o conheço e guardo sua palavra. Abraão, vosso pai, exultou de alegria, desejando ver o meu dia. Viu-o e alegrou-se”.  –  Certamente com grande gargalhada, gritaram esta frase irônica: “Ainda não tens cinquenta anos, e vistes Abraão?” E contundente, explícita e solenemente Jesus afirma sua existência antes do tempo: “Na verdade, na verdade vos digo que, antes de que Abraão fosse, eu Sou”. Deus é aquele que é, ou seja, Jahvé. Era a revelação de um mistério sublime! Mas os Judeus, soberbos e incrédulos, tomaram-na como uma blasfêmia e, por isso, deitaram mãos em pedras no intuito de O matar. Como não era chegada ainda a Sua hora determinada pelo Pai para morrer e morrer crucificado, Jesus, então, ocultou-se e saiu do Templo.

Terminemos com aquela palavra citada no início deste artigo, palavra esta digna de nossa meditação tanto mais por se aplicar a todos e em todos os tempos: “O que é de Deus ouve a palavra de Deus”. O justo verdadeiramente coloca suas delícias na palavra santa; procura ouvi-la, medita-a, saboreia-a; faz dela seu pão, seu sustento, o pão e sustento de sua alma.  Ouve com amor a palavra de Deus porque empenha-se ardentemente em colocá-la em prática, consciente que está de nela encontrar a Vida eterna. O pecador, ao contrário, foge dela, rejeita-a, não encontra nela nem sabor nem encanto. A palavra de Deus é enfadonha ao espírito do pecador, importuna às suas paixões. A palavra de Deus derramaria luz na sua consciência; mas é exatamente isto que o pecador receia, pois ama as trevas. A palavra de Deus excitar-lhe-ia os remorsos, perturbando assim sua alma. Na verdade, o pecador se esforça por viver em paz e sem remorsos. A palavra de Deus despertaria o pecador de seu sono de morte, mas ele quer dormir, dormir na sua iniquidade.

Eis porque, caríssimos, malgrado a terna solicitude da Igreja, que multiplica no tempo da quaresma e da Paixão suas exortações maternais, um grande número de cristãos permanecem frios, insensíveis, indiferentes. Eis porque aqueles que justamente mais fome deveriam ter do pão da palavra de Deus, são precisamente os que durante todo ano
dele se afastam. Por que acontece isto? A resposta que Jesus dá é terrificante: “Não ouvem a palavra de Deus porque NÃO SÃO DE DEUS”. O pai de tais pessoas é o Espírito das Trevas, o pai da mentira, o maligno, o adversário homicida e invejoso das almas remidas por Jesus. Caríssimos, sejamos mais sábios que os judeus, sejamos mais lógicos. Creiamos na palavra do divino Mestre, obedeçamos às suas leis, e não morreremos jamais, mas teremos a vida eterna. Amém!

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