Coluna do Padre Élcio: “Solvite et adducite”.

Reflexão sobre o Evangelho do Domingo de Ramos (S. Mateus XXI, 1-10).

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com, 24 de março de 2018

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Durante três anos Nosso Senhor Jesus Cristo enchera toda Palestina com seus ensinamentos e milagres, esclarecendo as almas e curando os corpos, em uma palavra: passou, por toda parte, fazendo o bem.

Assisi-frescoes-entry-into-jerusalem-pietro_lorenzettiUm ano antes, quando a gente da Galileia O quisera fazer rei, Jesus havia-se escondido. Agora aceita a homenagem que O há de revelar como o Messias esperado. Para que os judeus não possam alegar que Ele não é o Messias esperado, tudo nesta festa vai ter um caráter expressamente messiânico. Assim Jesus escolhe a hora e adota a atitude descrita pelo Profeta. Na verdade, era o derradeiro chamamento ao coração de seus inimigos; era a demonstração irrefragável de que, se caminhava para a morte, não era nenhuma violência ou necessidade que a isso O levava.

Os povos arrebatados pela sua doutrina e tocados pelos seus benefícios, se apressam em multidão no intuito de conceder-Lhe o título mais augusto, o mais elevado segundo o juízo dos homens, isto é, rei. Se Jesus já havia recusado esta honra, foi porque o reinado que Lhe queriam dar não era o que Ele desejava e merecia. Verdadeiramente o Seu reino é mais alto, mais durável, mais vasto, um reino espiritual, sem limite no tempo como no espaço; e os Judeus pretendiam fazer dele um rei temporal, com um reinado limitado seja pela duração, seja pela expansão.

No entanto, para mostrar aos seus discípulos que Ele reconhecia somente aquele título de rei que os profetas tinham dado ao Messias, para lhes oferecer uma imagem deste reinado poderoso e respeitado que vai conquistar pela sua morte, Ele consente nestas homenagens de uma entrada triunfante na cidade santa, na Jerusalém. Estava próximo o dia em que seria colocada em sua cabeça uma coroa de espinhos, em sua mão uma cana como cetro, um manto de púrpura derrisório sobre os ombros, quando iria ser colocado no trono da cruz, para aí receber a investidura de seu reino eterno.

O triunfo de hoje é o prelúdio daquele que terá lugar dentro de cinco dias no Calvário. A entrada em Jerusalém neste domingo que inicia a semana na qual Jesus vai morrer está em perfeita harmonia com o retrato que os profetas traçaram d’Ele. É um rei pacífico, um príncipe boníssimo que não quebrará a cana trincada, nem apagará a mecha que ainda fumega: “Dizei à filha de Sião: eis que teu Rei vem a ti manso” (S. Mat. XXI, 5). O que faz a beleza do triunfo de Nosso Senhor Jesus Cristo, não é, portanto, nem o  brilho vão de uma pompa exterior, nem o aparato do poderio e da grandeza, nem os cativos que leva atrás de si; não! O que provoca o regozijo e o desvelo dos povos  é  a vivacidade de seu amor, o ardor do seu reconhecimento, é a sinceridade de suas homenagens, é a espontaneidade dessas aclamações por ninguém ordenadas, pois espontâneas  brotam  de seus corações. Eis o que enaltece o triunfo de Jesus Cristo e o coloca bem acima dos triunfos faustosos dos conquistadores, cuja glória consiste no derramamento de sangue dos inimigos, na ruína das cidades e na miséria dos povos vencidos. Jesus Cristo, não é um conquistador nestes moldes humanos. Não, absolutamente não! Se Ele faz conquistas, é por amor que as faz; se ganha vassalos, é através de benefícios e para os fazer felizes.

Aqueles que acompanham o seu triunfo são os doentes por Ele curados, os cegos aos quais deu a visão, os mortos que ressuscitou, é esta multidão faminta que Ele nutriu no deserto, é a multidão infinita de infelizes que Ele aliviou.

Caríssimos, vejamos agora o significado alegórico da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém: é a figura da entrada de Jesus na alma pela graça e pela comunhão. Embora brevemente, consideremos ambas. Primeiramente a entrada de Jesus na alma pela graça: É um santo mistério que deve penetrar de reconhecimento aqueles em que Jesus Cristo já entrou, e de piedosos desejos e até de amorosa impaciência naqueles que se preparam para a entrada de Jesus em suas almas. Refiro-me aos pecadores tocados pela graça e que se convertem. Desculpem-me a comparação: o que Jesus mandou que seus discípulos fizessem com a jumenta e o jumentinho, aplica-se num bom sentido e alegoricamente aos pecadores: “solvite et adducite”, “desprendei-mos e trazei-mos”. Desligar primeiramente estas almas dos liames do erro e do pecados a que estão amarradas; desprendê-las pelo poder que Jesus deu aos seus ministros, isto é, os sacerdotes, de os absolver de seus pecados, logo após sinceramente os confessarem com arrependimento verdadeiro. E, quando por efeito de piedosas instruções dos verdadeiros ministros de Jesus, as cadeias do erro que retinham estas almas, caírem; quando, com tocantes exortações fizerem-nos detestar o vício e amar a virtude,  então as conduzirão das trevas para a luz, das trevas da mentira e das paixões para a luz da verdade e da virtude; conduzi-las-ão do pecado ao arrependimento, da indiferença ao amor, da tibieza à devoção; é mister desprender os pecadores do mundo onde se perdem e conduzi-los à Santa Igreja onde eles encontram a salvação.

Mas os ministros zelosos de Jesus Cristo fazem ainda mais: cobrem-nos das vestimentas, ou melhor, dos méritos de Jesus Cristo, dos quais os padres são os depositários, cobre-os com a vestimenta radiosa da inocência recuperada. Pelo sacramento da penitência, que os padres lhes concederá, são-lhes dadas a graça e virtudes, e Jesus vindo então a eles pela Santíssima Eucaristia, encontram estes convertidos sua alegria e suas delícias ao entrar  em seus corações regenerados  o Seu Rei boníssimo e manso, Nosso Senhor Jesus Cristo.

E justamente a outra maneira pela qual Jesus entra numa alma é pela santa comunhão. Nisto está o extremo da bondade misericordiosa do Salvador. Há, na verdade favor altíssimo e o mais dignificante do que este prodigalizado à alma por Jesus? E assim terei necessidade de mostrar as disposições que esta alma deve apresentar para receber o seu Deus? A alma de fé, terá dificuldade em se despojar dos velhos hábitos, de seus hábitos de pecado para os lançar sob os pés do Salvador? Não arrancará ela de seu interior estes ramos luxuriantes, estes ramos vivais de suas paixões insuficientemente subjugadas? Não apresentará ela ao modesto triunfador as palmas de suas vitórias, nos combates repetidos que ela teve que travar em se preparando para receber um tal hóspede? Não fará ela sair do seu mais íntimo com todas as suas veras os mil gritos de sua admiração, de seu amor e de suas ações de graças: HOSANNA FILIO DAVID!?

Mas, caríssimos, por nada deste mundo façamos o que muitos dos judeus fizeram: no Domingo receberam  em triunfo o Salvador e na sexta-feira da mesma semana pediram a sua morte: “Tira-o, tira-o de nossas vistas, crucifica-o!!!… Não, pela graça de Deus, jamais faremos isto, e com S. Pedro, mas com um coração mais humilde e não presunçoso, devemos dizer: “Mesmo que seja necessário morrer convosco, ó Jesus, não vos
negarei”. Amém!

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One Comment to “Coluna do Padre Élcio: “Solvite et adducite”.”

  1. Caríssimos, devemos estar lembrados que Jesus chorou ao avistar do alto do Monte das Oliveiras, a cidade de Jerusalém. E esclareceu o motivo de sua tristeza: “Se pelo menos hoje, este povo recebesse de verdade Aquele que lhe pode trazer a verdadeira paz!

    Na verdade, havia ali naquele dia, uma multidão de gente simples e pobre não só da cidade como de toda a Palestina. Quando souberam que tinha chegado Jesus, o grande profeta, o Taumaturgo, aproximaram-se e caminhavam à sua frente estendo no caminho ramos de árvores e as próprias capas para Jesus passar por cima, e em sinal de regozijo e de gratidão vão cantando: “Hosana ao filho de Davi! Bendito seja o que vem em nome do Senhor! Mas Jesus, sendo Deus conhece o coração de cada um e vê o futuro. Assim chorava porque sabia que muitos daqueles, passados cinco dias, estariam em torno dele, agora, clamando: Crucifico-O! Jesus sabia que os seus próprios discípulos O abandonariam.

    Havia também um grande número de indiferentes e de curiosos que perguntavam: quem é este novo rei? para que é este triunfo?

    E contudo eles deviam conhecer bem a Jesus depois de tantos e tão estrondosos milagres!… Sem dúvida havia os que se guiavam pela máximas do mundo, unicamente preocupados com os seus negócios e com as coisas do século… havia pessoas prudentes, políticos hábeis, que receavam comprometer-se diante dos grandes da nação.

    Havia os Príncipes dos Sacerdotes, Anciãos, os quais tinham jurado a morte de Jesus. Mistério de malícia, de injustiça, de endurecimento que fazia derramar lágrimas ao coração misericordioso do Salvador!…

    Caríssimos, é natural que perguntemos: e hoje?… Hoje mesmo os ministros de Nosso Senhor Jesus Cristo recordam aos fiéis que, a partir de Quinta-feira Santa já é o tempo útil para se fazer a Páscoa. “Eis o vosso Rei que vem a vós cheio de doçura!…

    Falamos com lágrimas, também hoje há inimigos figadais que renegam a Jesus, e fazem, tanto a Ele como à sua Igreja, uma guerra contínua, ao mesmo tempo declarada e secreta.

    Há perseguidores, blasfemos, sacrílegos… homens como Caifás e como Judas! e se há coisa que lhes pese é que não tenham desaparecido já Jesus Cristo e a sua Igreja para erguerem em seu lugar, os ídolos de suas paixões.

    Há também pessoas cobardes e indiferentes, que conhecem a Jesus, mas procedem como se O não conhecessem… desprezam ou têm em pouco os seus mandamentos e os seus sacramentos, não querem desligar-se dos seus prazeres, ou comprometer-se diante de Caifás ou de Herodes, por se declararem seus discípulos, irem diante d’Ele, saudarem-nO e receberem-nO!… São egoístas e mudos.

    É verdade que um grande número de cristãos ouvem o apelo do divino Mestre e da sua Igreja, vêm confessar-se e comungar pela Páscoa. Mas terão eles todos as disposições que se requerem, e estão verdadeiramente resolvidos a converter-se para assim realmente serem perdoados e poderem comungar?