‘Cometi erros graves’, diz o Papa. ‘Peço perdão’.

A frase “Amar é nunca ter que pedir perdão” marcou mais do que o filme “Love Story“, no qual apareceu duas vezes. À primeira vista, as palavras pareciam belas, mas refletindo melhor não faziam nenhum sentido, principalmente para os cristãos.

IHU – O comentário é de Thomas Reese, jornalista e jesuíta, publicado por Religion News Service, 17-04-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O próprio pedido de perdão é uma expressão de amor. Pode expressar compaixão com alguém que sofre ou arrependimento por ter magoado alguém.

O que pode ser mais carinhoso?

Muitas vezes os advogados instruem seus clientes a nunca pedirem perdão para que isso não seja considerado um reconhecimento da culpa e da responsabilidade. Durante a crise de abuso sexual, bispos católicos que seguiram este conselho jurídico tiveram grandes problemas.

Figuras de autoridade muitas vezes têm medo de admitir seus erros para não prejudicar sua credibilidade. É por isso que muitos na Cúria Romana achavam que o Papa João Paulo II estava louco quando, na celebração de dois milênios do cristianismo, ele decidiu não apenas celebrar as realizações dos 2.000 anos de cristianismo, mas também pedir perdão pelos pecados da Igreja nesse período. Admitir isso, pensaram eles, enfraqueceria a autoridade da Igreja. Afinal, se a Igreja errou no passado, poderia errar também no futuro. Então por que as pessoas iriam segui-la?

Obviamente, aconteceu o contrário. João Paulo ganhou credibilidade e respeito por sua honestidade.

Em sua recente carta aos bispos chilenos, o Papa Francisco admitiu que cometeu “erros graves” em sua avaliação, ao lidar com a crise de abusos sexuais no país. Ele já havia defendido o bispo Juan Barros, que foi acusado de ter conhecimento do abuso do Rev. Fernando Karadima mas não fazer nada a respeito. Francisco disse que não havia provas. Ele mesmo acusou os acusadores do bispo de “calúnia”.

No final, Francisco tomou uma decisão acertada e enviou o arcebispo Maltês Charles Scicluna para investigar o caso. Scicluna é conhecido por ser um investigador obstinado, que persegue as evidências. Foi ele que encontrou evidências incriminatórias sobre o Rev. Marcial Maciel, um predador sexual e fundador dos Legionários de Cristo.

Scicluna é um dos poucos religiosos em quem as vítimas de abuso sexual confiam. Seu relatório de 2.300 páginas baseado em 64 entrevistas forçou o Papa a reconhecer, com “dor e vergonha”, as “muitas vidas crucificadas” dos que sofreram abuso.

Papa admitiu que estava errado e se desculpou. Não foi um “pedido de desculpas da boca para fora”, pois o Papa admitiu plenamente que tinha se equivocado.

“Cometi erros graves de avaliação e percepção da situação”, escreveu. Ele afirmou que foi por “falta de informação verdadeira e equilibrada”, mas que ainda assim o erro foi dele.

“Peço perdão a todos aqueles a quem eu ofendi”, declarou, “e espero ser capaz de fazê-lo pessoalmente, nas próximas semanas, nas reuniões que terei com os representantes das pessoas que foram entrevistadas”.

Papa convidou os bispos chilenos a irem a Roma para ajudá-lo “a discernir as medidas que devem ser adotadas a curto, médio e longo prazo para restabelecer a comunhão eclesiástica no Chile, no intuito de reparar o escândalo o máximo possível e restabelecer a justiça.”

Um papa não deve cometer erros. E se cometer, a Igreja tende a levar décadas — se não séculos — para admitir. Mas desde o início de seu papado Francisco admitiu que é pecador assim como todos os outros cristãos. Ele cometeu um erro, corrigiu, pediu perdão. Isso é ser cristão.

Os católicos devem lembrar que os sacerdotes e suas congregações começam cada Eucaristia com uma confissão de pecados: “Eu confesso a Deus Todo-poderoso e a vocês, meus irmãos e irmãs, que pequei muito em meus pensamentos e em minhas palavras, no que fiz e no que não fiz”.

Na Igreja Católica, amor significa sempre ter que pedir perdão.

Tags:

6 Comentários to “‘Cometi erros graves’, diz o Papa. ‘Peço perdão’.”

  1. Se eu disser que Bergoglio pediu desculpas somente porque a sua imagem ficou muito ruim depois desse caso do Chile e que este pedido de perdão é uma maneira de tentar salvar alguma coisa e que não foi sincero estaria pecando por não interpretar o que ele diz com o máximo de caridade. Então eu não vou dizer que é este o caso.
    Noutros casos permanece sem reconhecer os erros.

  2. Um padre errar, um bispo errar, um cardeal errar, um papa errar, tudo isto tem um significado só: o homem erra e como tal pode pedir perdão e pode obtê-lo.
    Outra coisa, todavia, é a Igreja errar.
    A Igreja errar significa que está errada. Os Evangelhos, o Magistério e a Tradição estão errados. A sua fé ou os seus dogmas estão errados.
    O Cristo, o Verbo encarnado, o Filho do Homem, o Deus-Homem estão errados.
    Isto não existe.
    Portanto, que me desculpem os papas que pedem perdão pela Igreja.
    Eles estariam certos se pedissem desculpas pelos erros de seus membros no passado e não pelos erros da Igreja.
    Eles estão completamente errados.

    • Muito bem colocado Felix. Quando pedem perdão pelos erros “da Igreja” demonstram uma ignorância (ou malícia) para assim, ir tentando destruí-la, contrariando as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo.

  3. E quando vai pedir perdão por todo o resto de absurdos? É bom se apressar, ou não terá tempo para penitenciar-se o suficiente nesta vida.

  4. Tomara que Francisco perceba os outros erros que vem cometendo, arrependa-se, peça perdão e os repare.

  5. As palavras do Papa Francisco não podem ser desconsideradas quando, além de não ter recebido as vítimas do abuso, afirmou que “não havia provas contra o Bispo Barros” e que todos os rumores nada mais são que “Calunias”.

    Bem, esta circunstância deve ensinar Bergoglio a ser muito cauteloso quando ele fala para … braço, é verdade que ele fala como “médico particular”, mas ele é sempre o papa, e muitas vezes a sua maneira de agir cria muita confusão isso já existe.