A guerra religiosa do século IV e o nosso tempo.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza romana, 24-04-2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: A Igreja avança sempre vitoriosa na História, segundo os desígnios imprevisíveis de Deus. Os primeiros três séculos de perseguição atingiram o seu auge sob o imperador Diocleciano (284-305). Tudo parecia perdido. O desânimo foi uma tentação para muitos cristãos, entre os quais houve os que perderam a fé. Mas aqueles que perseveraram tiveram a imensa alegria, alguns anos depois, de ver a Cruz de Cristo brilhar sobre o  lábaro de Constantino na batalha de Saxa Rubra (312). Esta vitória mudou o curso da História. O Edito de Milão-Nicomédia de 313, concedendo liberdade aos cristãos, derrubou o senatusconsulto de Nero, que proclamava o Cristianismo como “superstitio illicita”. A cristianização pública da sociedade iniciou-se num clima de entusiasmo e fervor.

santatanasio

Em 325, o Concílio de Niceia pareceu marcar a revivescência doutrinária da Igreja, com a condenação de Ario, que negava a divindade do Verbo. Em Niceia, graças à contribuição decisiva do diácono Atanásio (295-373), mais tarde Bispo de Alexandria, definiu-se a doutrina da “consubstancialidade” da natureza das três Pessoas da Santíssima Trindade.

Nos anos seguintes, entre a posição ortodoxa e a dos heréticos arianos, fez caminho um “terceiro partido”, o dos “semiarianos”, divididos em várias correntes. Reconheciam certa analogia entre o Pai e o Filho, mas negavam que Ele fosse “gerado, não criado, da mesma substância que o Pai”, como afirmou o Credo Niceno. Substituíram a palavra homoousios, que significa “a mesma substância”, pelo termo homoiousios, que significa “de substância similar”.

Os hereges arianos e semiarianos entenderam que o seu sucesso dependeria de dois fatores: o primeiro era permanecer dentro da Igreja; o segundo, obter o apoio do poder político – de Constantino, portanto, e depois de seus sucessores, o que de fato aconteceu. Uma crise nunca antes conhecida irrompeu dentro da Igreja e durou mais de 60 anos.

Ninguém a descreveu melhor do que o Cardeal Newman em seu livro Os arianos do século IV (1833), colhendo todas as nuances doutrinárias da questão. Um estudioso italiano, Prof. Claudio Pierantoni, traçou recentemente um esclarecedor paralelo entre a controvérsia ariana e a atual, sobre a exortação apostólica Amoris laetitia (http://chiesa.espresso.repubblica.it/articolo/1351421.html). Mas, já em 1973, Dom Rudolf Graber (1903-1992), Bispo de Regensburg, recordando a figura de Santo Atanásio no décimo sexto centenário de sua morte, comparou a crise do século IV com a do Concílio Vaticano II (Athanasius und die Kirche unserer Zeit: zu seinem 1600 Todestag, Kral 1973).

Atanásio, por sua fidelidade à ortodoxia, foi severamente perseguido por seus próprios irmãos e forçado cinco vezes, entre 336 e 366, a abandonar a cidade da qual era bispo, passando longos anos de exílio e de lutas árduas em defesa da fé. Duas assembleias de bispos, em Cesareia e Tiro (334-335), condenaram-no por rebelião e fanatismo. E em 341, enquanto um Concílio de cinquenta bispos proclamava em Roma a sua inocência, o Concílio de Antioquia, com a presença de mais de noventa bispos, ratificava os sínodos de Cesareia e Tiro, e colocava um ariano no trono episcopal de Atanásio.

O posterior Concílio de Sárdica, no ano 343, terminou com uma cisão: os Padres ocidentais declararam ilegal a deposição de Atanásio e reconfirmaram o Concílio de Niceia; os orientais condenaram não apenas Atanásio, mas também o Papa Júlio I, mais tarde canonizado, que o apoiara. O Concílio de Sirmio, em 351, procurou um meio termo entre a ortodoxia católica e o arianismo. No Concílio de Arles de 353, os Padres, incluindo o legado de Libério, que sucedera como Papa a São Júlio I, assinaram uma nova condenação de Atanásio. Os bispos foram forçados a escolher entre a condenação de Atanásio ou serem exiliados. São Paulino, Bispo de Trier, foi praticamente o único que lutou pela fé de Niceia. Exilado na Frígia, ali morreu em consequência dos maus-tratos sofridos nas mãos dos arianos. Dois anos mais tarde, no Concílio de Milão (355), mais de trezentos bispos ocidentais assinaram a condenação de Atanásio, enquanto outro Padre ortodoxo, Santo Hilário de Poitiers, era banido para a Frígia por sua inflexível lealdade à ortodoxia.

Em 357, o Papa Libério, vencido pelo sofrimento do exílio e pela insistência de seus amigos, mas também impulsionado pelo “amor à paz”, subscreveu a fórmula semiariana de Sirmio e rompeu a comunhão com Santo Atanásio, declarando-o separado da Igreja romana, pelo uso do termo “consubstancial”, como o testemunham quatro cartas de Santo Hilário (Manlio Simonetti, La crisi ariana del IV secolo, Institutum Patristicum Augustinianum, Roma 1975, pp. 235-236). Sob o pontificado do próprio Libério, os Concílios de Rimini (359) e de Selêucia (359), que constituíam um único grande Concílio representando o Ocidente e o Oriente, abandonaram o termo “consubstancial” de Niceia e estabeleceram um equívoco “meio termo” entre os arianos e Santo Atanásio. A heresia desenfreada parecia ter vencido na Igreja.

Os Concílios de Selêucia e Rimini não estão computados hoje pela Igreja entre os oito concílios ecumênicos da Antiguidade, mas mesmo assim contaram com até 560 bispos, a quase totalidade dos Padres da Cristandade, além de terem sido definidos como “ecumênicos” por contemporâneos. Foi então que São Jerônimo cunhou a expressão segundo a qual “o mundo gemeu e percebeu com espanto que se tornara ariano” (Dialogus adversus Luciferianos, n°. 19, em PL, 23, col. 171).

O que é importante ressaltar é que não se tratou de uma disputa doutrinária limitada a alguns teólogos, nem um simples entrechoque de bispos no qual o Papa deveria agir como árbitro. Foi uma guerra religiosa em que todos os cristãos estavam envolvidos, desde o Papa até os últimos fiéis. Ninguém se trancou em seu bunker espiritual, ninguém permaneceu na janela como espectador silencioso do drama. Todos desceram para combater nas trincheiras, em ambos os lados do embate. Não era fácil naquele momento alguém entender se seu bispo era ortodoxo ou não, mas o sensus fidei era a bússola para se orientar.

Falando em Roma no dia 7 de abril de 2018, o Cardeal Walter Brandmüller recordou que “o sensus fidei age como uma espécie de sistema imunológico espiritual que faz os fiéis reconhecer e rejeitar instintivamente quaisquer erros. Nesse sensus fidei repousa, portanto, independentemente da promessa divina, até mesmo a infalibilidade passiva da Igreja, ou seja, a certeza de que a Igreja, em sua totalidade, jamais poderá incorrer em uma heresia”.

Santo Hilário escreve que durante a crise ariana os ouvidos dos fiéis que interpretavam em sentido ortodoxo as afirmações ambíguas de teólogos semiarianos eram mais piedosos que os corações dos sacerdotes. Os cristãos que haviam resistido durante três séculos aos imperadores resistiam agora a seus próprios pastores, em alguns casos até mesmo ao Papa, culpados, se não de aberta heresia, pelo menos de grave negligência.

         Monsenhor Graber recorda as palavras do livro Athanasius (1838), do escritor Joseph von Görres (1776-1848), publicado na época da prisão do Arcebispo de Colônia [um lance da Kulturkampf bismarckiana], mas que conserva ainda hoje uma extraordinária atualidade: “A terra treme sob os nossos pés. Pode-se presumir com certeza que a Igreja sairá ilesa de tal ruína, mas ninguém pode dizer e conjeturar quem e o quê sobreviverá. Nós, portanto, advertindo, recomendando, erguendo nossas mãos, gostaríamos de prevenir o mal mostrando os seus sinais. Inclusive os jumentos que carregam os falsos profetas encabritam-se, recuam e reprovam com linguagem humana a injustiça daqueles que os espancam e não veem a espada desembainhada (de Deus), que fecha seu caminho (Numeros, XXII, 22-35). Agi, portanto, enquanto é dia, porque à noite ninguém pode trabalhar. De nada serve aguardar: a espera não faz nada além de agravar todas as coisas”.

            Há ocasiões em que um católico é obrigado a escolher entre a covardia e o heroísmo, entre a apostasia e a santidade. Foi o que aconteceu no século IV, é o que está acontecendo hoje.

 

3 Comentários to “A guerra religiosa do século IV e o nosso tempo.”

  1. … “Os cristãos que haviam resistido durante três séculos aos imperadores resistiam agora a seus próprios pastores, em alguns casos até mesmo ao Papa, culpados, se não de aberta heresia, pelo menos de grave negligência”… O momento presente, similar à crise ariana acima, praticamente a resistencia tem vindo de um porção mínima de ótimos clérigos e de idem leigos, bastante instruídos, como varios vaticanistas, e do sensus fidei das pessoas que fá-las perceber a parecencia entre a verdade e o erro, como agora, provindo falhas clamorosas desde o Vaticano sob aparencias de verdade e instrução.
    Até tempos atrás, quem dentre o povo praticamente ousaria a se levantar contra a quantidade de infiltrados no Vaticano II, desafetos da Igreja, responsaveis pela criação e disseminação de erros que propositadamente cometeram e, para gerarem confusão, ainda maquinaram para mais confundir um tal “espírito do concilio”?
    “Há ocasiões em que um católico é obrigado a escolher entre a covardia e o heroísmo, entre a apostasia e a santidade. Foi o que aconteceu no século IV, é o que está acontecendo hoje”.
    Hoje, possivelmente seria o clímax do acima, se não procurarmos com as luzes das graças que nos são concedidas pelo Espírito Santo para distinguirmos o que é do que se parece ser, particularmente quando procedem de tantos do topo eclesiástico, mesmo de Roma, estaríamos fatalmente baqueados devido aos diversos infiltrados atuantes e solapadores da fé, embora travestidos de religiosos com seus discursos ambiguos e capciosos.
    Imaginemos, por exemplo, se submetermos às decisões todas da CNBB sem as avaliarmos no tocante a ideologias, ou seguirmos as orientações de tantas paroquias submissas à TL, aonde desembocaremos? Essas transformam a doutrina da Igreja que prioriza a vida além morte por um cristianismo imanente, fraternalista, no qual a transcendencia, quando não é totalmente extirpada, é mitigada e conduz os incautos ou desinformados para direções opostas às tradicionais da Igreja, como hoje em dia o clero quase geral ter extirpado das homilias horror ao pecado e condenação eterna!

  2. Este momento tão difícil, uma “noite escura d’alma”, pelo qual passa a Igreja, convida-nos à refletir e a questionar o concílio, mormente diante desses seus frutos fétidos e pútridos…
    Santos Atanásio, Hilário e Paulino, roguem por nós, que recorremos a vós!
    Virgem Santíssima, que esmaga a cabeça da serpente, intercedei por nós!