Cardeal Müller sobre o encontro acerca da intercomunhão: É preciso “mais clareza e coragem”.

O ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé vê a declaração sobre o encontro acerca da Sagrada Comunhão para cônjuges Protestantes como “muito pobre”, e conclama bispos e cardeis a “levantarem suas vozes”. 

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 4 de maio de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com: O crucial encontro de ontem foi mais curto do que se esperava, durando pouco mais de duas horas, mas o resultado não agradou a nenhuma das partes que participaram e terá consequências a longo alcance para a Igreja, informaram fontes ligadas às discussões.

O Cardeal Reinhard Marx, presidente da conferência episcopal, chegou ao encontro de 3 de maio no Santo Ofício às 16 horas, juntamente com dois bispos aliados e o jesuíta Padre Hans Langendörfer, secretário da conferência dos bispos alemães, esperando confiantemente poder influenciar os procedimentos em seu favor.

Convocado para o encontro no Vaticano pelo papa, no mês passado, o cardeal arcebispo e Munique esperava ter o apoio papal, e, assim, persuadir dois bispos opositores e os oficiais do Vaticano a apoiar uma proposta pastoral altamente contenciosa dos bispos alemães que permite a cônjuges protestantes receberem a Sagrada Comunhão em alguns casos.

O assim chamado “subsídio pastoral”, que os bispos alemães esmagadoramente votaram em favor no último mês de fevereiro, propunha que um cônjuge protestante poderia receber a Eucaristia após ter feito um “sério exame” de consciência com um padre ou outra pessoa de responsabilidade pastoral, “afirmar a fé da Igreja Católica”, desejando pôr fim “a uma séria angústica espiritual”, com o “anseio de satisfazer um desejo pela Eucaristia”.

Seus proponentes afirmaram que ele ajudaria a resolver o sofrimento de alguns cônjuges protestantes impossibilitados de receber a Sagrada Comunhão com seus respectivos esposo ou esposa católicos. Os críticos chamaram-na de um “truque retórico” que erroneamente busca redefinir os sacramentos como meios de aliviar as angústias mentais e satisfazer necessidades espirituais.

As críticas aumentaram quando sete bispos alemães escreveram ao Vaticano, em 22 de março, para protestar contra a medida, argumentando que a proposta “não está correta” quando aborda a “fé e a unidade da Igreja, que não estão sujeitas a voto”, e pedindo que quatro pontos fossem esclarecidos.

Dos sete, dois deles, Cardeal Rainer Woelki, de Colônia, e Dom Rudolf Voderholzer, de  Regensburg, chegaram para o encontro do dia 3 esperançosos que, dadas as falhas, que muitos consideravam sérias, do documento — às quais se opôs Bento XVI, segundo fontes confiáveis — a proposta seria descartada pelo Papa, ou completamente revisada.

Prefeito carteiro. 

Mas, para a surpresa de muitos, nada disso aconteceu. Após ambos os lados exporem sua visão, Dom Luis Ladaria, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, retransmitiu aos participantes que o Papa Francisco apreciava o “comprometimento ecumênico dos bispos alemães e pedia-lhes, em espírito de comunhão eclesial, se possível, um posicionamento unânime”.

Comentando o caso ao Register no dia 4 de maio, o Cardeal Gerhard Müller, prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, expressou sua decisão com o resultado, afirmando que a declaração era “muito pobre” e continha “nenhuma resposta à questão central, essencial”. Não é possível, enfatizou ele, estar em “comunhão sacramental sem comunhão eclesial”.

Para o bem da Igreja, afirmou, um “expressão clara da Fé Católica” é necessária, com o Papa “expressando a Fé”, especialmente no “pilar de nossa Fé, a Eucaristia”. Espera-se que Papa e a Congregação para a Doutrina da Fé, prosseguiu ele, “deem uma orientação muito clara”, não através de “opiniões pessoais, mas segundo a Fé revelada.”

Uma fonte próxima aos dos bispos contrários à proposta afirmou ao Register, em 4 de maio, que a “resposta oficiais é de que não há resposta”. O Santo Padre, disse ele, “falhou em cumprir seu dever como Papa a respeito de uma questão de dogma, que seu posto deve decidir”.

O Papa se “recusou” a tomar uma posição, ele enfatizou, “e a Congregação para a Doutrina da Fé foi feita de correio, não para a afirmar a Fé, mas para anunciar essa informação”. Os dicastérios, disse, “são inúteis” se todas as decisões forem deixadas a cargo das conferências episcopais. Ele reconheceu que o termo “unanimidade” não é definido adequadamente neste contexto, mas espera que o Cardeal Marx de alguma forma reduza o número de bispos contrários à proposta a fim de obter a necessária unanimidade para prosseguir adiante.

“Nosso papel agora é apoiar os sete bispos, apoiar nossos padres na argumentação”, declarou a fonte. “Será uma longa luta e pelos próximos seis meses nos dedicaremos a isso”.

Mas também o Cardeal Marx e a conferência de bispos alemães se disseram desapontados. O encontro foi realizado na Congregação para a Doutrina da Fé, indicando que o Vaticano vê o caso como uma matéria doutrinal, e não simplesmente pastoral, como tentou argumentar o Cardeal Marx (ele insistiu, em fevereiro, que se tratava de um “subsídio pastoral”, sem pretender “mudar qualquer doutrina”.

De maneira mais significativa, os apoiadores da proposta fracassaram em obter o endosso entusiasta do Papa. Pelo contrário, coerente com seu desejo expresso na primeira exortação apostólica Evangelii Gaudium, Francisco prossegue com seus esforços para descentralizar o governo da Igreja, dando mais “autoridade doutrinal” às conferências episcopais. Ele está, portanto, devolvendo a bola para o campo dos bispos alemães.

“De certo modo, isso equivale a uma recusa [da proposta]”, declarou o analista da Igreja alemã Mathias von Gersdorff. “Soa como algo assim: o senhor [Cardeal Marx] criou um grande problema. Cabe a você resolvê-lo. E, se não conseguir unanimidade, então o problema está resolvido”.

A batalha perdida de Marx

Durante o encontro, foi também desapontador para o partido do Cardeal Marx a oposição do Cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. O Cardeal suíço, que não teve ciência da proposta antes ou depois de sua votação, demonstrou-se simpático à preocupação dos sete bispos.

A desilusão por parte da conferência de bispos alemães também ficou evidente quando, após o encontro, o seu porta-voz, Matthis Kopp, declarou que não daria nenhuma conferência de imprensa, nem declarações ou entrevistas. “Foi uma batalha perdida, embora não tenha sido uma guerra perdida”, afirmou a fonte próxima às tratativas. “Kopp não quer falar sobre a batalha perdida”.

Mas os sete bispos e seus aliados têm as maiores preocupações. Embora creiam que o encontro poderia ter sido “muito pior”, segundo a mesma fonte, e a proposta não tenha sido publicada como um subsídio, como pretendia a conferência dos bispos alemães, eles vêem tudo como “revolução eclesiológica”.

“O verdadeiro problema não é o assunto em si, mas a recusa do Papa de desempenhar sua obrigação como Pedro, e isso pode ter graves consequências”, disse a fonte. “Pedro não é mais a rocha que era, pelo contrário, o pastor está dizendo às ovelhas: ‘vá e se vire para encontrar algo para comer'”.

Ele previu um processo similar sendo adotado para introduzir tais novidades como um clero casado, e que o deslocamento geral em direção à descentralização da doutrina fará a Igreja parece mais a Comunhão Anglicana.

Cardeal Müller, referindo-se à Lumen Gentium, recordou que as conferências episcopais possuem uma “importância secundária” em relação ao Papa, e que não é possível a elas votarem de maneira unânime sobre uma matéria de doutrina que contradiz “elementos básicos” da Igreja. “Devemos resistir a isso”, disse, advertindo que se o princípio da identidade Católica, que consiste tanto na comunhão sacramental como na eclesial, for destruído, “então a Igreja Católica está destruída”. A Igreja, insistiu, “não é um ator político”.

“Espero que mais bispos levantem suas vozes e façam o seu dever”, disse o Cardeal Müller. “Todo cardeal tem o dever de explicar, defender, promover a Fé Católica, não segundo os seus sentimentos pessoais, ou as variações da opinião pública, mas lendo e conhecendo o Evangelho, a Bíblia, as Sagradas Escrituras, os padres da Igreja. E também os Concílios, estudando os grandes teólogos do passado, podendo explicar e defender a Fé Católica, não com argumentos sofísticos para agradar a todos os lados, para ser querido por todos”.

Prosseguindo, o Cardeal Müller previu, com dor, que o assunto “continuará sem a clara necessidade de uma declaração sobre a Fé Católica”.

Ele afirmou que os bispos devem “continuar explicando a Fé” e que esperava que a Congregação para a Doutrina da Fé cumprirá o seu papel, não só como mediadores de diferentes grupos, mas tomando a dianteira quanto ao magistério do Papa”.

“Mais clareza e coragem devem ser encorajadas”, disse.

11 comentários sobre “Cardeal Müller sobre o encontro acerca da intercomunhão: É preciso “mais clareza e coragem”.

  1. … “Os críticos chamaram-na de um “truque retórico” que erroneamente busca redefinir os sacramentos como meios de aliviar as angústias mentais e satisfazer necessidades espirituais”.
    Essa manobra que poderia provir de maçons infiltrados na Igreja, seria mais um dos sutis atentados à S Eucaristia até nivelá-la à simbologia “eucarística” protestante da Santa Ceia, a qual é apenas de forma recordatoria nas seitas em que os protestantes adotam esse modelo, sem mais, assim como proposto pelo mentor deles, o heresiarca Lutero.
    Passaria-nos a impressão com essas ideias esdrúxulas de se conceder a S Comunhão a cônjuges protestantes visando aliviar-lhes determinados sintomas espirituais que necessitariam lenitivos, apenas atuante como um simples sedativo espiritual, sem mais comprometimentos, ou algo medicamentoso onde os fármacos convencionais são insatisfatorios.
    … “Após ambos os lados exporem sua visão, Dom Luis Ladaria, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, retransmitiu aos participantes que o Papa Francisco apreciava o “comprometimento ecumênico dos bispos alemães e pedia-lhes, em espírito de comunhão eclesial, se possível, um posicionamento unânime”… Proposta praticamente sem efeito, pois muito menos os pró protestantes cederiam em seus intentos “ecumênicos” do vale-tudo!
    Isso também é uma amostragem do relativismo hoje afetando tantas mentes desde o topo eclesiástico, assim como o papa Francisco diversas vezes sem tomar uma posição definida, deixando que os debatedores e confrontantes dessa questão que exige séria tomada de posição se arranjem uns com os outros, portanto, a ambos lados desagradando.
    As palavras de São Paulo na Carta aos Coríntios continuará sempre vigente, para esse caso que é profanante da S Comunhão, além de citar que dentro de nossas igrejas – nada ouvi que recorde até hoje – deveriam admoestar pessoas que estivessem em pecado mortal não se aproximassem da S Comunhão, e citando situações, como: amasiados, adúlteros, homossexuais em prática, corruptores, comunistas, maçons, adeptos do espiritismo e varias outras, pois: “Quem indignamente come o Corpo e Sangue de Cristo, come e bebe a própria condenação”.1 Cor 11, 28.

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  2. Não é compreensível a qualquer pessoa dotada de um mínimo raciocínio lógico entender como um protestante ou qualquer outra pessoa que professa fé diferente da católica, possa então ter feito sério exame de consciência com um padre e então afirmar a fé na Igreja Católica, o faça somente para receber comunhão?
    Quer dizer, grosseiramente, só para “comer uma hostiazinha” junto com o outro cônjuge católico?
    É assim que o papa está interpretando a comunhão, ou permitindo que se interprete?
    Quer dizer: conversão que é bom, nada?
    A Igreja está mais pervertida do que se poderia imaginar, meu Deus do Céu!
    Satanás passeia sagaz e fagueiro dentro dos muros do Vaticano.

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    1. Felix,
      Infelizmente, sou obrigado a concordar com a sua observação destes fatos. Um tipo de “jeitinho” onde todo mundo fica bem e amigo. Porque não dizer: “um obsceno politicamente correto”.
      No ano passado o Papa Francisco deu inicio a esta “inovação” quando em Lund, para comemorar os 500 anos do herege Lutero, numa das celebrações conjuntas ele deu a Eucaristia a vários protestantes presentes. No seu retorno a Italia inaugurou uma estátua de Lutero num dos jardins internos do Vaticano… Esta tática de correr fora na hora H do problema, se não me engano, qualifica os covardes. Um atributo nada apropriado a um Papa.

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  3. ‘Espera-se que Papa e a Congregação para a Doutrina da Fé, prosseguiu ele, “deem uma orientação muito clara”, não através de “opiniões pessoais, mas segundo a Fé revelada.”’
    Depois de cada investida dos modernistas contra os dogmas, cria-se mais e mais a convicção sobre a razão de os modernistas terem querido um concílio PASTORAL. Nada de dogma! O que ainda faltava, infelizmente conseguiram: um papa que entendesse esta tática modernista e a levasse a cabo, pelas ambiguidades, imprecisões, e tendência mal disfarçada a apoiar quem realmente entendeu o espírito ecumênico do Concílio Vaticano II.
    Mas não podemos perder a fé de que a Igreja é divina! Na verdade, porém, haver um papa deste jaez é um grande castigo para todo orbe.

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  4. “Francisco” não deu de presente um cálice para o “pastor” luterano (!) de Roma? Esse “gesto” já não diz tudo?

    Pra quê toda essa presepada de reunião e rasgação de seda? Os bispos alemães querem “apenas” formalizar a apostasia ampla, geral e irrestrita.

    Chega de palhaçada! Gente vil, baixa e ridícula.

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  5. Já repararam que nenhum pastor dá concessões para agradar a Igreja? Somente nosso clero herege concede, a começar pelo maior de todos.

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  6. Se livremente opta por ser herege, excomungado, também livremente opta pela proibição que a escolha suscita.

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