Coluna do Padre Élcio: Haverá mais júbilo no céu por um pecador que fizer penitência.

EVANGELHO DO 3º DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES
S. Lucas XV, 1-10
Haverá mais júbilo no céu por um pecador que fizer penitência
Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!
“Aproximaram-se de Jesus os publicanos e os pecadores paro o ouvir. Os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe os pecadores e come com eles. Jesus, propôs-lhes, então esta parábola”: a parábola da ovelha tresmalhada, a parábola da dracma perdida (como narra o evangelho seg. S. Luc. XXV, 1-10); em seguida Jesus propõe-lhes ainda a parábola do filho pródigo. Três parábolas para mostrar a misericórdia divina e como ela se exerce. Delas consta todo o capítulo XV de S. Lucas.
Representação primitiva de Cristo como Bom Pastor do terceiro século.

Representação primitiva de Cristo como Bom Pastor do terceiro século.

Caríssimos, era mui natural que os publicanos e os pecadores se aproximassem de Jesus para O ouvir. Pois, anunciava uma tão bela doutrina! Jesus pregava uma tão santa moral! Por ser pecadores, estes homens não deixavam de ser também sensíveis ao verdadeiro, ao justo e ao belo. Na verdade, esta doutrina era elevada e sublime; esta moral era grave e austera. Mas a doçura de Jesus, sua bondade, sua afabilidade temperavam tão bem o que sua doutrina e sua moral pudessem oferecer de severo! Os pecadores sabiam que Jesus era um médico que veio para curar nossas doenças, e eles não se iludiam sobre o lamentável estado de suas almas e sentiam que eram doentes; e justamente por isso vinham a Jesus do qual esperavam a sua cura. “E assim, diz Santo Ambrósio, toda alma deve aproximar-se de Jesus Cristo, porque Ele é tudo para nós. Tendes uma ferida a cicatrizar? Ele é remédio. Estais presos ao fogo da febre? Ele é uma fonte refrescante. Estais curvados sob o peso da iniquidade? Ele é a justiça. Tendes necessidade de socorro? Ele é a força. Temeis a morte? Ele é a Vida. Desejais o céu? Ele é o caminho que para lá conduz. Fugis das trevas? Ele é a Luz. Procurais alimento? Ele é um alimento” (Lib., III, de Virginibus).

Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores e Ele espera-os com paciência, procura-os com solicitude e recebe-os com alegria quando arrependidos se voltam para Ele. É justamente para justificar esta Sua conduta que Nosso Senhor Jesus Cristo propõe aos orgulhosos fariseus e
escribas as três parábolas da misericórdia. Com a graça de Deus, meditemos um pouco sobre a primeira.
“Qual de vós, tendo cem ovelhas, se perde uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto, e vai procurar a que se tinha perdido, até que a encontre? E, tendo-a encontrado, a põe sobre os ombros todo
contente; e, indo para casa, chama os seus amigos e vizinhos, dizendo;lhes: Congratulai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha, que se tinha perdido”. A ovelha é um animal simples e tímido, que, procurando sua pastagem, afasta-se facilmente do caminho que ela deve seguir e do rebanho ao qual ela deve permanecer unida; e quando se perde é incapaz de reencontrar o seu caminho. É preciso, portanto, que o pastor a ajude e procure-a com cuidado. É bem a nossa imagem.
“Todos nós andamos desgarrados como ovelhas errantes; cada um se extraviou por seu caminho” (Isaías LIII, 6). Correndo após o pecado, e levados
pelo atrativo da concupiscência, nós caímos nos abismos do mal, e não pensamos mais nem em Deus, nem na salvação, nem no céu. Eis porque
Jesus Cristo desceu do Céu. Deixou lá no alto as noventa e nove ovelhas fiéis, isto é, os anjos, para vir aqui em baixo, e correr em socorro da humanidade representada pela ovelha infiel.
“E quando a encontra, coloca-a sobre seus ombros todo contente”. Fatigado o bom Pastor, por suas caminhadas à procura da ovelha errante; tinge as estradas com seu sangue; deixa pedaços de sua carne nos espinheiros da estrada. Ele é que teria necessidade de ser levado depois dos trabalhos penosos que Lhe custaram a procura de sua ovelha.
Mas não, Ele não se importa consigo, só pensa na sua ovelha que a põe aos ombros, embora ela se tenha transviado por culpa própria. Ela merecia ser punida, e o pastor indignado teria todo direito de a
castigar com seu bastão, fazendo-a caminhar à sua frente. Mas, ao contrário, o bom Pastor além de não a repreender, toma-a amorosamente em seus braços e coloca-a aos ombros, sobre seu pescoço, e leva-a até ao redil, isto é, da terra ao céu. Esta imagem da bondade de Jesus tocou de tal modo os cristãos dos primeiros séculos, que eles não
deixaram de O representar sob este tocante símbolo, um pastor levando sua ovelha; encontra-se este símbolo entre as pinturas que ornam ainda as paredes das catacumbas de Roma.
“E Indo para casa , chama os seus amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Congratulai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha, que se tinha
perdido”. Caríssimos, observai bem esta linguagem: congratulai-vos COMIGO, e não: congratulai-vos com a OVELHA. Explica são Gregório: “A nossa vida, faz Sua alegria. Esta alegria é tão grande que não a pode conter dentro de si. É mister que ela se manifeste para fora, é preciso que ela se expanda, é necessário que dela tome parte os seus amigos, os anjos, que gozam continuamente com sua vista e são mais vizinhos d’Ele que todas as outras criaturas”.
“Digo-vos que do mesmo modo, haverá mais júbilo no céu por um pecador que fizer penitência, que por noventa e nove justos que não têm necessidade de penitência”. Portanto, lá no alto do céu, os anjos se
interessam por nós. Eles se alegram com a conversão dos pecadores. E Deus se compraz em lhes notificá-la como um bem que lhes toca de
perto. Na verdade, os anjos são amigos dos homens. Eles vêem em nós, amigos, criaturas de Deus como eles, espíritos inteligentes como eles,
embora mesclados aos corpos; eles sabem que nós somos chamados a participar um dia de sua glória, a ocupar os tronos que a deserção dos
anjos rebeldes deixou vacantes. É normal que eles fiquem felizes com o nosso retorno ao bem, com a nossa conversão. De um lado, amam a Deus
e desejam vivamente sua glória e congratulam-se com tudo aquilo que a pode procurar. E a conversão de um pecador é uma vitória alcançada por Deus sobre o mal, é uma alma arrancada às garras do demônio, é um cativo preso ao carro de Jesus  que o conduz ao céu.
A conversão dum pecador, é portanto o objeto duma grande alegria por parte dos anjos, alegria esta muito maior do que aquela sentida por eles por causa da perseverança de noventa e nove justos; não obviamente porque a perseverança de noventa e nove justos não seja em si mesma um bem muito maior do que a conversão de um só pecador; mas o retorno de um pecador é um bem novo, e por conseguinte mais sensível, mais  comovente que aquele que se tem o costume de gozar por muito tempo, e cuja doçura é por isto mesmo um pouco enfraquecida. A conversão de um pecador é de alguma maneira um novo elemento acrescido à felicidade já tão grande dos anjos.
Como esta meditação deve alentar os pecadores a se converterem e os pastores a se dedicarem inteiramente, bondosamente, incansavelmente à
conversão dos pecadores e hereges. Jesus termina a parábola da dracma perdida com o mesmo ensinamento moral com que terminou a da ovelha tresmalhada. Esta repetição e esta insistência indicam bem a verdade, a sinceridade, a vivacidade da alegria causada aos anjos e a Deus mesmo pela conversão dos pecadores.
Eis alguns lições destas reflexões que acabamos de fazer:
1- Deus não rejeita “a priori” os pecadores, mas os chama a Ele, os instrui, Ele se esforça para os tocar com a sua graça e os reconduzir à virtude, ao bem: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência”.
2- Se estas parábolas nos ensinam a misericórdia de Deus, outrossim nos faz ver claramente como e quando ela é exercida. “HAVERÁ MAIS JÚBILO NO
CÉU POR UM PECADOR QUE FAZ PENITÊNCIA”.  Os Fariseus no tempo de Jesus e os Jansenistas em nossos tempos, não pensam em misericórdia para os pecadores. Só pensam em JUSTIÇA. Por outro lado, os progressistas em nossos dias, só pensam em misericórdia e esta de tal modo deturpada que vem a ser antes impunidade e parece que para eles não há Justiça. Querem acolher e abraçar os pecadores e hereges sem conversão, sem mudança de vida, ou seja, sem penitência. A “misericórdia dos progressistas” não visa tirar o pecado mas tranquilizar o pecador no mesmo. Devemos fazer como o Divino Mestre, procurar a conversão dos pecadores com um zelo cheio de bondade e mansidão; mas acolher com alegria, e admitir à mesa eucarística apenas os que realmente se convertem e fazem penitência. A parábola do filho pródigo que Jesus contou logo em seguida a estas duas, mostra bem isto. Amém!
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8 Comentários to “Coluna do Padre Élcio: Haverá mais júbilo no céu por um pecador que fizer penitência.”

  1. Padre Élcio,
    tenho um parente meu que se recusa a crer na ressurreição dos mortos. Ele é espírita e não consegue aceitar a realidade dos novíssimos, apesar de ele rezar pelas almas toda semana. Já conversei muito com ele, mostrei trechos da carta de São Paulo, falei dos corpos incorruptos dos santos e parece que sua alma e sua vontade estão se inclinando a aceitar esta verdade, mas ainda mostra muita hesitação. O senhor tem algum conselho para me dar? Alguma leitura? Algum testemunho? Um fato histórico?
    Peço sua bênção.

  2. Elyseu
    Servo Sacerdote do Senhor Elcio.
    Queria, se possivel, uma reflexão do ultimo capitulo de Daniel, 12, vers. de 8 a 13, com passagens que inspiram ‘terror’ de fato: Sacrilégio Terrivel em substuição ao Sacrificio Diario, a meu ver A Santa Missa, enfocando ‘transubstanciação de pão em Corpo Precioso do Senhor Jesus; vinho em Sangue do Amado Mestre e Salvador. Misericordia oh Divino Pai Eterno’. Poderia nos ajudar…é muito temivel essas profecias….Grato; sua Benção.

    • Caríssimo Elyseu Aguiar Filho, que Deus o abençoe! Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
      Estou escrevendo alguns artigos para atender ao pedido do caríssimo Alcleir, e logo em seguida atenderei ao seu pedido, se Deus quiser.
      Agora só queria dizer que a maioria dos Santos Padres ensinam que estas passagens de Daniel se referem ao fim do mundo. Aliás o vers. 2 fala da ressurreição universal antes do juízo. Nosso Senhor Jesus Cristo emprega esta profecia de Daniel, ao predizer a destruição de Jerusalém e o fim do mundo, tanto sobre a ressurreição como sobre a “abominação da desolação” dentro do lugar santo, que é o Templo e também a Igreja.
      Como disse, depois darei a explicação exegética a respeito do sentido mais detalhado destes versículos do c. XII. Peço suas orações!
      Padre Elcio Murucci

    • EXEGESDE DE DANIEL XII, 8-13
      “E eu ouvi, mas não o entendi. E disse: Meu Senhor, que sucederá depois disto? Ele disse-me: Vai, Daniel, porque estas palavras estão fechadas e seladas até ao tempo determinado. Muitos serão escolhidos, branqueados e provados como pelo fogo; os ímpios procederão impiamente e nenhum ímpio compreenderá, mas os sábios compreenderão. E desde o tempo em que o sacrifício perpétuo for abolido e a abominação da desolação for estabelecida(no templo), passarão mil e duzentos e noventa dias. Bem-aventurado o que espera e que chega até mil e trezentos e trinta e cinco dias!
      EXEGESE: Segundo os Santos Padres da Igreja, esta profecia refere-se ao fim do mundo. Anteriormente o profeta fala de perseguições. Os exegetas entendem que Daniel refere-se ao tempo do terrível rei Antíoco. Podemos fazer o seguinte paralelo: Daniel fala das perseguições de Antíoco e ao mesmo tempo profetiza sobre o fim do mundo; assim Jesus falará da destruição de Jerusalém e ao mesmo tempo sobre o fim do mundo.
      Então, naquele tempo, a perseguição servirá para provar a escolha de muitos, para purificá-los e torná-los dignos da eterna felicidade; os ímpios, porém, na perseguição continuarão a agir impiamente, e por isso mesmo eles nada entenderão mesmo depois de realizada esta profecia; mas os fiéis, que têm a ciência de Deus, compreendê-la-ão. S. Paulo ao falar sobre o fim do mundo, diz que haverá uma apostasia geral e aparecerá o Anti-Cristo: “Ninguém, de modo algum vos engane, porque (isto não será) sem que antes venha a apostasia e sem que tenha aparecido o homem do pecado. o filho da perdição, o qual se oporá (a Deus) e se elevará sobre tudo o que se chama Deus ou que é adorado, de sorte que se sentará no templo de Deus, apresentando-se como se fosse Deus… E vós agora sabeis o que é que o retém, a fim de que seja manifestado a seu tempo. Com efeito, o mistério da iniquidade já se opera, somente falta que aquele, que agora o retém, desapareça. E então se manifestará esse iníquo… A vinda dele é por obra de satanás, com todo o poder, com sinais e prodígios mentirosos e com todas as seduções da iniquidade para aqueles que se perdem, porque não abraçaram o amor da verdade para serem salvos. Por isso Deus lhes enviará o artifício do erro, de tal modo que creiam na mentira, para que sejam condenados todos os que não deram crédito à verdade mas se comprazeram na iniquidade… Permanecei, pois, constantes, irmãos, e conservai as tradições, que aprendestes ou por nossas palavras ou por nossa carta” (II Tessalonicenses II, 1-15).
      Quanto à abolição “do sacrifício perpétuo”, os Santos Padres como S. Jerônimo, Teodoreto, Santo Irineu, Santo Hipólito, mártir e muitos outros não duvidam que, pelo “sacrifício perpétuo” se entende o Santo Sacrifício do Altar. Pois o Anti-Cristo fará de tudo para abolir a Santa Missa. Portanto, “Aquela Oblação Pura” de que fala Malaquias I, 11 será extinta nos últimos dias da humanidade. O mesmo profeta Daniel diz ainda no c. IX, 27, aliás são palavras de S. Gabriel: “E (o Cristo) confirmará com muitos a sua aliança durante uma semana; no meio da semana fará cessar a hóstia e o sacrifício; estará no templo a abominação da desolação; e a desolação durará até à consumação e até ao fim”.
      O Apocalipse fala de duas testemunhas de Jesus Cristo que lutarão contra o Anti-Cristo em defesa dos bons que amaram a verdade. Segundo muitos intérpretes, estas testemunhas são: o Profeta Elias (este é certo) e Henoc .
      Por “abominação da desolação”, entende-se o ÍDOLO, ou seja o próprio Anti-Cristo que quererá ser adorado como Deus. Assim estão incluídas nesta abominação, todos os sacrilégios e profanações do Santo Sacrifício da Missa. Nosso Senhor Jesus Cristo, ao falar da destruição de Jerusalém e do fim do mundo, faz referência a esta profecia de Daniel.
      Quanto aos números de dias, devemos ler também Apocalipse XI, 2 e 3. Números em profecias, sobretudo sobre o fim do mundo, são sempre muito enigmáticas. Várias são as interpretações dos exegetas, mas creio não vir ao caso.
      Caríssimo Elyseu, creio que estas reflexões tenham atendido ao seu pedido, e agradeço o ter me dado esta oportunidade de meditar estas verdades que muito nos fortalecem e instruem! Obrigado!

  3. Caríssimo Alcleir, que Deus o abençoe!
    Trata-se de alcançar a graça da conversão. E para isso, os meios são: oração e penitência feitas nestas intenções.
    Seria importante saber de seu parente por que ele reza pelas almas? A partir daí teremos um ponto de partida.
    Os espíritas creem na reencarnação. Pergunte a ele sobre isto. Tenho escritos e livros contra o espiritismo, mas, é bom antes, a gente conhecer o que a pessoa pensa; se tem alguma dúvida sobre sua seita; quais as objeções que tem contra a doutrina católica; o que mais o impede de se convencer totalmente a aceitar a Igreja Católica.
    Quanto à ressurreição dos mortos, postarei no blog ZELO ZELATUS SUM um artigo, se Deus quiser.
    Toda seita tem um ponto que a torna fácil, e no Espiritismo é a crença da reencarnação. Talvez, antes de acreditar na ressurreição e no juízo particular e final, seja melhor desfazer inteiramente a teoria central do Espiritismo, que é a Reencarnação. A teoria da reencarnação leva à negação do Inferno.
    Mas torno a repetir, o essencial é rezarmos e fazermos penitência pela conversão dele.
    União de orações!
    Padre Elcio Murucci

    • Obrigado, padre, farei isso.
      Seu conselho lembrou-me a passagem do Evangelho: “esta raça de demônios não se expulsa senão com oração e jejum”.
      Penitência é fundamental.

  4. Caríssimo Alcleir, talvez possa ser uma pequena contribuição no intuito de converter o seu parente.

    RESSURREIÇÃO DA CARNE
    Com a graça de Deus, veremos que havemos de ressuscitar, não com um corpo etéreo ou outro qualquer, mas com a mesma carne que agora temos e da qual sairá a alma na hora da morte.
    A fé na ressurreição da carne neste sentido supra explicado, existia, segundo o testemunho da Sagrada Escritura, já no Antigo Testamento: “Eu sei, diz Jó, que o Redentor vive e que no último dia ressurgirei da terra, serei novamente revestido da minha pele, e na minha própria carne verei meu Deus” (Jó XIX, 25 e 26). Também o Espírito Santo louva a Judas Macabeu, quando, fazendo menção da coleta que tinha feito e oferecido ao Templo para o sacrifício pelos que tinham caído no campo da batalha: “Obra bela e santa, inspirada pela crença na ressurreição, porque se ele não esperasse que os mortos haviam de ressuscitar, seria uma coisa supérflua e vã orar pelos defuntos” (2 Macabeus XII, 43 e 44). “A multidão dos que dormem no pó da terra, acordarão uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, que terão sempre diante dos olhos” (Daniel XII, 2).
    Esta doutrina da ressurreição foi ensinada muitas vezes sobretudo no Novo Testamento. Primeiramente pelo próprio Jesus e de uma maneira a mais clara possível: “Virá tempo em que todos os que se encontram nos sepulcros ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que tiverem feito obras boas, sairão para a ressurreição da vida; mas os que tiverem feito obras más, sairão ressuscitados para a condenação” (S. João V, 28 e 29). Refutando os saduceus, Jesus deduzia da ressurreição dos corpos de que as almas eram imortais. Pois tendo-lhe os saduceus proposto uma questão capciosa com respeito à ressurreição dos mortos, para O poderem acusar de alguma contradição ou absurdo na doutrina, disse-lhes: “Quanto à ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus falou, dizendo-vos: eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e Jacó? Não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (S. Mat. XXII, 31 e 32). É como se dissesse: Vós, saduceus, negais a ressurreição dos mortos, porque não credes na imortalidade das almas. Pois, a alma é imortal. E se morrera com o corpo então o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, que morreram segundo o corpo, seria Deus dos mortos e não, como ele é, Deus dos vivos. Portanto, se a alma vive depois da morte corporal, segue-se que ela se reunirá um dia com o corpo que ela animou, e que os mortos ressuscitarão.
    Jesus ressuscitou a Lázaro depois de quatro dias já sepultado, e, portanto em estado de putrefação. Para Deus nada é impossível. Como será impossível à Onipotência divina ressuscitar os nossos corpos convertidos em pó e cinza, sendo Ele quem os formou do nada? É porventura o mistério da ressurreição o único deste gênero que se apresenta à nossa vista? Olhai para o grão que cai na terra e se corrompe. O que sucede? Uma planta viva nasce da semente corrompida, e depois dá flores e frutos.
    A mesma doutrina ensinam os Apóstolos. São Paulo se serviu inclusive desta figura logo acima citada: “Mas dirá alguém: Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão? Louco, o que tu semeias não toma vida, se primeiro não morre. Quando tu semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas um simples grão, como, por exemplo, de trigo ou de qualquer outra coisa” (1 Cor. XV, 35-37). Com isto o Apóstolo significa precisamente que aquela corrupção e dissolução do corpo é uma condição prévia e indispensável para a ressurreição, assim como a corrupção da semente para dela brotar a planta.
    São Paulo falou da ressurreição nos seus discursos públicos diante do Grande-Conselho (Atos XIII), diante do governador Félix (Atos XXIV); nas suas epístolas: “Se os mortos não ressuscitam, então Jesus Cristo não ressuscitou” (1 Cor. XV, 16). “Porém, Jesus Cristo ressuscitou de entre os mortos com o seu próprio corpo; logo também vós ressuscitareis como Ele. Pois, aquele que ressuscitou de entre os mortos também ressuscitará os vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vós” (Rom. VIII, 11).
    Terminemos com mais um símbolo belíssimo da ressurreição: O bicho da seda, sendo verme disforme e quase asqueroso, fabrica o seu sepulcro, descansa nele largos meses, e depois rompe o seu invólucro, e levanta-se brilhante mariposa que se eleva nos ares. Porventura Deus, autor sapientíssimo da natureza, nos põe em vão diante dos olhos esta imagem viva da ressurreição? Com certeza que não. Ressuscitaremos. A fé no-lo ensina, e até a natureza visível no-lo recorda. Caríssimos, ressuscitaremos! Amém!

    • Grato, padre Élcio,
      já li o seu texto. Vou fazer um bom exercício de meditação em cima dele seguindo o método de Santo Inácio e tirar as melhores considerações para minha conversa com ele.
      Deus lhe pague.