Fraternidade São Pio X, há 30 anos da ruptura com Roma. Entrevista com Bernard Fellay.

IHU – No dia 29 de junho, completaram-se 30 anos desde que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada em 1970 pelo arcebispo Marcel Lefebvre, separou-se de Roma.

A reportagem é de Regina Einig, publicada em Tagespost e republicada em Settimana News, 01-07-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

0760d-mgr_fellay_itv_1_bisDe acordo com os dados fornecidos pela própria fraternidade (em 1º de janeiro de 2018), hoje ela está assim constituída:

– 1 casa generalícia;
– 6 seminários;
– 6 casas de formação;
– 14 distritos;
– 4 casas autônomas;
– 167 priorados;
– 772 igrejas, capelas e centros de missa;
– 2 institutos universitários;
– mais de 100 escolas;
– 7 casas de repouso;
– 4 (-1) bispos;
– 637 sacerdotes;
– 204 seminaristas;
– 56 pré-seminaristas;
– 123 frades;
– 195 freiras;
– 79 oblatos;
– 4 carmelitas;
– 19 irmãs missionárias no Quênia.

Fraternidade está presente em 37 países e atende a 35 outros, desempenhando seu apostolado, no total, em 72 países ao redor do mundo. Inúmeras ordens de rito latino e de rito oriental estão conectadas a ela.

Desde 1994, quem está à frente da Fraternidade é Dom Bernard Fellay, que espera poder chegar a uma reconciliação com Roma. Mas com quais condições?

Sobre essa questão e sobre os fatos dos 30 anos de separação, o jornal semanal católico alemão Tagespost, na quinta-feira passada, 28 de junho, publicou a seguinte entrevista.

Eis a entrevista.

Excelência Dom Fellay, como o senhor entendeu, há 30 anos, a consagração episcopal? Para o senhor, foi uma separação definitiva por parte da Fraternidade São Pio X em relação a Roma, ou uma etapa intermediária do conflito em vista de uma reconciliação?

Se tivesse se tratado de uma separação de Roma, eu não estaria aqui hoje. O arcebispo (Lefebvre) não teria me consagrado por essa razão, e eu também a teria rejeitado. De fato, não se tratava de uma separação da Igreja, mas sim de um afastamento do espírito moderno, dos frutos do Concílio. Agora, também há outros que admitem que se tratou de algo que se desenvolveu de maneira equivocada. Muitas considerações e muitos aspectos que combatemos no passado e que combatemos hoje também são confirmados por outros atualmente. Nunca dissemos que o Concílio afirmou diretamente heresias. Mas sim que foi removido o muro de defesa contra o erro, e, desse modo, permitiu-se que ele entrasse. Os fiéis precisam de proteção. Nisso consiste a luta constante da Igreja para defender a fé.

Mas nem todos aqueles que criticam o “Concílio das mídias”, incluindo o Papa Emérito Bento XVI, pensam em um conflito até a excomunhão. Por que vocês não fortaleceram as fileiras daqueles que são fiéis à tradição na Igreja e combatem pela verdade em união com Roma?

Isso se deveu em parte à história da França. A partir da Revolução Francesa, uma boa parte dos católicos franceses combate contra o erro do liberalismo. Por isso, aqui, os acontecimentos, durante e após o Concílio, foram percebidos de maneira muito mais sensível e atenta do que na Alemanha. Não se tratava de erros evidentes, mas sim de tendências, de abertura de portas e janelas. As reformas que se seguiram demonstraram isso mais claramente do que o próprio Concílio. O problema se condensou sobre a nova missa. Em Roma, disse-se ao arcebispo Lefebvre aut aut: “Se o senhor celebrar a nova missa, está tudo bem”. Os nossos argumentos contra a nova missa não importavam nada. Enquanto isso, o missal de Paulo VI foi composto com a colaboração de teólogos protestantes. Se somos forçados a celebrar essa missa, então realmente surge um problema. E nós fomos levados a fazer isso.

A recusa de vocês em relação à nova missa reforçou no senhor e também no arcebispo Lefebvre a convicção de que a separação de Roma é vontade de Deus?

Insisto em dizer: nós nunca nos separamos da Igreja.

Mas o fato da excomunhão fala por si só. Por que o Papa Bento XVI teria que removê-la?

No direito católico de 1917, a consagração episcopal sem mandato do papa não é considerada um cisma, mas apenas um abuso de poder e sem excomunhão. Toda a história da Igreja tem outra visão do problema da consagração episcopal sem mandato do papa. Isso é muito importante.

Por que é tão importante? Em 1988, já estava em vigor o novo código da Igreja – e o Código de Direito Canônico de 1917 também obriga o bispo à fidelidade à Santa Sé.

Estávamos em um estado de necessidade, porque Roma havia nomeado um bispo para nós. No encontro entre o cardeal Ratzinger e o arcebispo Lefebvre, em 5 de maio de 1988, havia-se falado da data da consagração. O arcebispo Lefebvre e o cardeal Ratzinger não conseguiram chegar a um acordo. O arcebispo Lefebvre tinha uma proposta. Tenho certeza de que se, na época, o cardeal Ratzinger tivesse confirmado o dia 15 de agosto como data, sem mudar o candidato, o arcebispo teria aceitado. Mas a data permaneceu em aberto. Quando o arcebispo perguntou ao cardeal: “Por que não no fim do ano?”, ele recebeu esta resposta: “Não sei, não posso dizer”. O arcebispo pensou que estavam brincando com ele. Certamente, foi um ponto de desconfiança. E a desconfiança permaneceu até hoje como uma palavra-chave da nossa história. Nós trabalhamos para superá-la, e então sempre surge algo – é realmente cansativo.

(Nota da redação do Tagespost: o papa emérito informou a redação do Tagespost que não se lembra mais dos detalhes, mas que tem certeza de que os problemas pessoais desempenharam apenas um papel secundário. João Paulo IItinha consentido claramente com uma consagração episcopal. Mas, acrescentou o então cardeal Ratzinger, definir uma data não era tarefa sua. Ao término do colóquio, o arcebispo Lefebvre tinha assinado o protocolo que – se tivesse permanecido no “sim” – teria significado o acordo. Um colaborador da Congregação para a Doutrina da Fé, no dia seguinte, como combinado, tinha ido ao encontro de Lefebvre em Albano para retirar o documento. Para o pânico de todos, Lefebvredeclarou que não havia dormido toda a noite e que tinha chegado à conclusão de que queriam se usar do acordo para destruir a sua obra.)

Por que o cardeal Ratzinger, grande especialista e defensor da Tradição católica e amigo da missa tradicional, não conseguiu tranquilizar a desconfiança do arcebispo?

Ele não entendeu como eram profundas as razões do arcebispo e a desorientação dos fiéis e dos padres. Muitos não aguentavam mais escândalos e desconfortos pós-conciliares, e também o modo em que a nova missa era celebrada. Se o cardeal Ratzinger tivesse nos compreendido, ele não teria agido isso. E acho que ele se arrependeu. Por isso, como papa, tentou reparar os danos com o motu proprio e remover a excomunhão. Somos-lhe realmente gratos pelas suas tentativas de reconciliação.

Mas o cardeal Ratzinger, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, também teve que ter em mente as reações dos outros fiéis. Por exemplo, irritava que os membros da Fraternidade São Pio X contradissessem pontos tão importantes quanto o problema da validade da missa. Muitos de seus membros pensam que, ao participar da nova missa, considerada por eles como “herética”, não cumprem a obrigação dominical.

Eu nego isso decisivamente. Nós já falamos da invalidez de muitas missas. Mas dizer que todas as missas são inválidas não corresponde à linha da Fraternidade. É algo que nunca dissemos. Na discussão com Roma, sempre enfatizamos que reconhecemos a validade da nova missa, se for celebrada de acordo com os livros e a intenção de fazer aquilo que a Igreja tem o mandato de cumprir. A esse respeito, é preciso distinguir entre válido e bom.

Onde está a diferença na sua opinião?

nova missa tem lacunas e esconde perigos. Naturalmente, nem toda nova missaconstitui diretamente um escândalo, mas a celebração repetida da nova missa leva a uma fé fraca e até à sua perda. Vemos como todos os dias são cada vez menos os padres que ainda acreditam na presença real. Na velha missa, a liturgia alimenta a fé. Vamos à rocha, somos fortalecidos nessa fé. Algumas ações nos levam ainda mais à fé, por exemplo, a fé na presença real, no sacrifício – somente ajoelhando-nos, através do silêncio, a atitude do padre. Na nova missa, a pessoa precisa levar a fé consigo, ela não a recebe diretamente do rito. O rito é insípido.

Mas, mesmo antes da reforma litúrgica, havia padres com uma fé fraca, modernistas e heréticos. Aqueles a quem o senhor chama de Padres conciliares liberais cresceram todos com a velha missa e foram consagrados de acordo com o velho rito. O senhor acha que as conversões que ocorrem hoje, mesmo através da nova missa – pense nos Nightfevers –, são um autoengano?

Não, não digo isso. Digo apenas isto: se você recebe o presidente de um Estado, na escolha entre um trompete de prata e um de latão, pega o de latão? Seria uma ofensa: uma coisa que não se faz. E as melhores novas missas também são como um trompete de latão em comparação com a velha liturgia. Pelo bom Deus, é preciso escolher o melhor.

Recentemente, o senhor disse em um sermão: “Como vocês podem ousar celebrar uma missa tão pobre, tão vazia e insípida? Não se honra a Deus desse modo”. Mas a nova missa para os católicos é ainda hoje o tesouro mais precioso das suas vidas, e ainda hoje a Igreja gera mártires e santos. Por que o senhor não ressalta isso na pregação?

Concordo que, na discussão teológica, é preciso distinguir. Mas, em um sermão, não se pode apresentar tudo de forma tão teológica. Também é preciso um pouco de retórica para sacudir um pouco os ânimos e para abrir os olhos das pessoas.

O Papa Francisco quer estender a mão à Fraternidade Sacerdotal para uma reconciliação. O senhor ainda pensa em um acordo ou este kairós é uma oportunidade perdida?

Eu sou otimista. Mas não posso antecipar a hora de Deus. Se o Espírito Santo é capaz de influenciar o atual pontífice, então ele também fará o mesmo com o próximo. Foi o que efetivamente aconteceu. Também com o Papa Francisco. Quando ele foi eleito, pensei: agora chegará a excomunhão. Em vez disso, um caso contrário foi o cardeal Müller, que queria que a excomunhão chegasse, mas o Papa Francisco recusou. Ele me disse pessoalmente: “Não quero condená-lo”. A reconciliação chegará. A nossa Mãe Igreja está atualmente dilacerada de maneira incrível. Os conservadores nos querem e também disseram isso à Congregação para a Doutrina da Fé. Os bispos alemães, ao contrário, não nos querem de modo algum. Roma deve levar em conta todos esses elementos – podemos entender isso. Se nós fôssemos assim, simplesmente, haveria uma guerra na Igreja. Existe o medo de que possamos triunfar. O Papa Francisco disse aos jornalistas: “Cuidarei para que não haja nenhum triunfo”.

Mas as tensões e os medos também existem entre os membros da Fraternidade São Pio X. Na França, muitos padres e leigos se separaram da Fraternidade, porque as negociações com o Vaticano já suscitaram desconfiança. Como os irmãos de São Pio X poderiam aceitar uma reconciliação com Roma?

Isso dependerá do que Roma quiser de nós. Sigamos em frente assim e demo-nos garantias – então ninguém irá embora. A desconfiança está no medo de ter que acolher o novo. Se nos pedirem para percorrer estradas novas, então ninguém vai nos seguir.

O que lhe dá tanta certeza de que todos poderão lhes seguir? Bastou o anúncio dos diálogos para despertar uma forte inquietação e para provocar saídas significativas. Que conclusão poderia tranquilizar os seus membros? Mesmo depois de um acordo, a desconfiança não desapareceria.

É verdade. Existe uma atitude amigável, existe benevolência. Há anos, trabalhamos com Roma para restabelecer a confiança. E fizemos grandes progressos, apesar de todas as reações. Se chegarmos a um acordo razoável com condições normais, serão muito poucos os que irão embora. Eu não temo uma nova cisão na tradição, se for encontrada a solução justa com Roma. Nós devemos questionar certos pontos do Concílio. Os nossos interlocutores em Roma nos disseram: os pontos principais – liberdade de consciênciaecumenismonova missa – são problemas em aberto. Trata-se de um progresso incrível. Até agora se dizia: vocês devem obedecer. Agora, os colaboradores da Cúria dizem: vocês deveriam abrir um seminário em Roma, uma universidade para a defesa da tradição. Não é mais tudo preto e branco.

Como deveria ser uma solução razoável?

Uma prelazia pessoal.

Se a forma jurídica já foi encontrada e os diálogos com Roma correram bem, por que razão faltou o passo decisivo até agora?

No ano passado, o arcebispo Pozzo nos disse que a Congregação para a Doutrina da Fé havia aprovado o texto que deveríamos assinar. Devíamos estar de acordo com uma prelazia pessoal. Um mês e meio depois, o cardeal Müller decidiu rever o texto e pedir uma aceitação mais clara do Concílio e da legitimidade da santa missa. Primeiro, tinham aberto canais de discussão para nós. Depois, foram fechados. O que realmente se quer de nós? Aqui o diabo está no meio. É uma luta espiritual.

Pessoalmente, o senhor tem confiança no Papa Francisco?

Temos uma relação muito boa. Quando lhe informamos que nos encontramos em Roma, a sua porta está aberta. Ele sempre nos ajuda através de pequenos passos. Por exemplo, ele nos disse: “Tenho problemas quando faço algo de bom para vocês. Eu ajudo protestantes e anglicanos – por que não posso ajudar católicos?”. Existem vários que querem impedir o acordo. Nós somos um fator de perturbação na Igreja. E o papa se encontra no meio disso.

16 Comentários to “Fraternidade São Pio X, há 30 anos da ruptura com Roma. Entrevista com Bernard Fellay.”

  1. “Tenho problemas quando faço algo de bom para vocês. Eu ajudo protestantes e anglicanos – por que não posso ajudar católicos?”

    Que tempos!

    • Pois é. Uma amigo meu disse uma vez sobre isso: quando a briga é entre família, tendemos a ter mais raiva do parente mais próximo ao distante. Tenho reservas a certas atitudes da FSSPX, como as sagrações de 1988 e certas críticas à Missa Nova, que, ao meu ver, passam dos limites impostos pela doutrina do Concílio de Trento (que a Igreja não pode permitir um rito pernicioso etc), fora outras secundárias. No entanto, a FSSPX é aquele irmão, meio briguento, mas que está certo, que mostra as mazelas de certas atitudes do Magistério não-infalível , que chama os outros irmãos à realidade, para que ajam como se deve agir. Ora, isso causa um ódio aos maus irmãos, que querem viver como pagãos.

      Que Deus tenha misericórdia de nós! Que Deus torne a FSSPX regular! Que alegria ter esse exército de bons católicos,lutando pela Igreja e pelo Papa, de forma regular.

    • Verdade! Que tempos e que confusão! Que o Espírito Santo venha queimar todos os erros e contaminações para que a Santidade e Esplendor da Igreja de Deus seja restaurada o quanto antes revelando ao mundo novamente a Sua própria Santidade e Poder, Amém!

  2. Então a Fraternidade não condena a Missa Nova de forma peremptória.Não a considera inválida .

    Muito importante saber disso.Muito radicalismo não é saudável.

  3. De um termo técnico bastaria fazer como tantas outras “organizações de padres e fiéis” que foram legalizados mediante uma assinatura de papéis na qual se liberava a liturgia anterior ao CVII ( sendo inseridas pequenas modificações), aceitando o CVII em todo seus termos, e evitar o máximo possível ir contra “questões complexas publicamente”. Como está a alcance de todos, já que hoje pode-se ter acesso a documentos em qualquer parte do mundo, e ao mesmo tempo lançá-los na rede e assim confrontar com outras interpretações. portanto não se pode negar que ficar em erro é aceitável hoje em dia. Aos padres não foge a responsabilidade de cura de almas, logo ele não pode negar-ser frente ao erro. A nós leigos cabe a responsabilidade conforme nosso estado, assim não somos tão responsáveis quanto o clero. Sem dúvida alguma pesa ao Superior da FSSPX milhares, porque não milhões de almas que precisam se alimentar da verdade. Da mesma forma os padres dessa sociedade sabem muita bem o quanto são responsáveis pelas almas que são confiadas em seus priorados, capelas, etc. Só nós resta rezar, rezar muito pois a cada ida e volta desse suposto acordo, muitas almas se afastam da verdade, e assim se tornam presa fácil do modernismo, que prega uma estado de convívio harmônico entre os homens, e que Deus seja colocado de lado.

  4. O acordo da FSSPX com a Santa Sé por causa do Vaticano II estava outrora difícil, supondo que doravante pareceria ainda estar mais complexo pois a parte de padres conciliares que eram anti modernistas, por causa dos aficcionados ao liberalismo que seriam infiltrados nesse Concilio exatamente ao inverso e em maior número, conseguiram se impor, daí em diante em números crescentes, permanecem até hoje.
    Outro problema sucedido foi a não condenação formal das ideologias marxistas por esse Concilio, incidente no doutrinario comunista que atualmente infesta o mundo ter ficado fora das discussões, facilitando a varios padres conciliares, como os do Pacto da Catacumbas desejarem ser os porta-vozes do Vaticano II e mais, querendo repassarem suas doutrinas liberais como seus legítimos representantes e insurgindo-se contra os tradicionais, daí forçando a separação.
    Então, com o papa Francisco, humanamente falando, pareceria mais distante um acordo pois ele beneficiaria justamente os que mais deturpam os ensinamentos de N Senhor Jesus Cristo com suas doutrinas fraternalistas, imanentistas e maus procedimentos pessoais, assim como os que detestam o catolicismo, respectivamente as esquerdas e sectarios protestantes.

  5. Nosso Senhor afirmou que a crise, nos tempos que antecederão a sua volta – em relação aos quais não temos condições de afirmar se são “estes” aqueles referidos pelo Salvador – não fossem abreviados, nem mesmo os eleitos seriam salvos.
    Para um católico, a palavra crise sempre teve um significado especial, pois, desde que Nosso Senhor fundou Sua Igreja, não houve um momento sequer na história eclesiástica onde a crise não se fizesse presente suscitando mártires, tanto entre os clérigos quanto entre os leigos. Ou seja, são os momentos de crise que as virtudes católicas sobressaem em meio as trevas paralisantes, sobretudo diante da novel concepção vaticana de igreja, com todos os desdobramentos e consequências advindos de tal atrevimento. Vale ressaltar, a propósito, que não foi o último concílio que concebeu a besta que hoje graça em seu apocalíptico agir, mas sim, abriu os portais do abismo, dando liberdade a criatura infernal (ou a um corpo organizado de criaturas infernais?).
    Pois bem, a natureza do problema que tem que enfrentar a FSSPX – manter-se apartada da Nova Igreja ou celebrar a avença ela – está vinculada essencialmente a questão da sobrevivência mesma da fraternidade, sendo esta fruto do martírio do campeão da fé chamado Marcel Lefebvre. Mas, quando as coisas se apresentam assim, somente católicos de verdade são capazes de enfrentar, e vencer. A “crise”!
    Se assim é, não existe possibilidade de acordo com a Roma modernista, não mais católica, a não ser que o CV II seja reinterpretado a partir da tradição, com a consequente e necessária retificação dos documentos dele oriundos, bem como de um radical retorno ao modelo ecumênico que busca a conversão dos hereges, cismáticos e infiéis ao catolicismo total. Data venia, não há possibilidade de síntese.
    Por outro lado, na hipótese de se levar a efeito um acordo, a FSSPX será simplesmente fagocitada pela Roma modernista, que a destruirá, resultando para a tradição católica o lugar de uma mera tonteria nostálgica, ou seja, uma opção a mais no cardápio imanentista global onde nada é.

  6. Gozado os senhores linkarem todo o texto com um site esquerdista…

    […] Fora isso, que infelicidade da manchete, hein?!!!

    Porém, saliento aqui o que uma autoridade romana disse a respeito da FSSPX quando perguntado sobre a mesma:

    “Assim, em uma carta datada de 3 de maio de 1994, o cardeal Edward Cassidy, presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos cristãos, respondia a um correspondente estrangeiro: ‘Quanto a vossa pergunta, gostaria de sublinhar de imediato que o Dicastério sobre o ecumenismo não tem uma relação direta com a Fraternidade São Pio X. A situação dos membros dessa Sociedade é uma questão interna da Igreja católica. A Fraternidade São Pio X não é uma outra Igreja ou Comunidade eclesial no sentido que esse Dicastério utiliza. Certamente, a missa e os sacramentos administrados pelos padres da Fraternidade são válidos’.”

    Sem mais,
    Graça e Paz.

    • Forneça uma tradução sua que publicaremos com muito gosto e nâo precisaremos do IHU. Sem mais, Graça e Paz.

    • Muito bom dia a todos e

      Salve Maria.

      Graças ao bom Deus deixei de frequentar ambientes como esses da FSSPX, no qual sempre me causou estranheza o silêncio sobre algus documentos da Santa Igreja.

      Deus, que é Sapienitíssimo, sabe tirar um bem a partir de um mal e, através de caminho torto, levou-me até a Sua Verdade absolutamente refulgente e inequívoca.

      Primeiramente, soa muito conveniente citar em proveito próprio um homem que, fazendo parte da “igreja conciliar”, mormente é posto sob o epíteto de “clero modernista”, na medida em que é presidente de um órgão “ecumênico” e que, sem fazer qualquer referência doutrinal, absolve a FSSPX e sua conduta.

      Depois, soa igualmente pueril o atual administrador da FSSPX referir que o CIC de 1917 seja insuficiente para resolver a questão das sagrações episcopais, como se os canos 332, 952 e 953 não estivessem lá presentes e não dissessem respeito ao Direito Público da Igreja, ou seja, aquela parte do Direito que rege a Constituição Divina da Igreja e que tem por base, portanto, Verdades de Fé e o mesmo Direito Divino, artigos esses consagrados por Concílios e pelo Magistério Infalível dos Papas, como, por exemplo, o de Pio VI na encíclica “Charitas” onde a mesma Doutrina é rotomada e ensinado explicitamente que tal Direito de nominar, eleger, consagrar, atribuir jurisdição, punir e destituir um Bispo não pertence, sequer, a um Metropolitano mas, sendo prerrogativa Papal, “reside somente na Sé Apostólica”.

      Soa de fato pueril, como se não houvesse qualquer outro parâmetro que regesse a conduta de um Católico, ainda mais de alguém que se pretende defensor da Tradição e, quanto mais, “bispo” da Igreja… lamentável… será que ele nunca leu o decreto da Congregação do Santo Ofício de 9 de Abril de 1951 ou a palavra absoluta e definitiva de Pio XII ao assunto nas encíclicas “Ad sinarum gentem” e “Ad apostolorum principis”, nas quais o mesmo santo Papa retoma, inclusive, ensinamentos infalíveis anteriores e constantes até mesmo no supra referido CIC de 1917?

      E Rom., c. X, v. 15: como justificar as sagrações, citando autores ortodoxos e o magistério infalível dos Papas e da Igreja, a partir dessa passagem da Sagrada Escritura?

      Será que ele nunca os leu?

      Poderia passar o dia inteiro a fazer citações mas serei breve e enfático: apenas duas, padre Maurel e D Gréa ( aquele mesmo de quem, de maneira bem protestante, recortam um texto sobre a “ação extraordinária do episcopado”, citando apenas a parte conveniente, tirando-lhe o início, com as premissas, e o fim, com a conclusão totalmente contrária às sagrações sem mandato ).

      Vejamos neste ponto a obra “A Igreja e o Soberano Pontífice”, de 1871, na forma de catecismo por perguntas e respostas, página 299 e seguintes, cujo autor é padre Maurel:

      “Instituição e Jurisdição dos Bispos

      Artigo 1º, Instituição.

      Q: Lembrai-nos o que definiu o Concílio de Florença a respeito do Soberano Pontífice.
      R: Ele definiu, como dogma de Fé, que o Pontífice Romano, Vigário de Jesus Cristo, Chefe de toda Igreja, Pai e Doutor de todos os cristãos, recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo, na pessoa de São Pedro, donde ele é o sucessor, o pleno poder de apascentar, reger e governar a Igreja Universal.

      Q: Dizei-nos o que definiu o Concílio de Trento a respeito dos Bispos.
      R: Ele definiu, e portanto é um dogma de Fé, que os Bispos devem ser estabelecidos pela autoridade do Pontífice Romano para serem considerados verdadeiros e legítimos Bispos.

      Q: Então, o poder de estabelecer os Bispos pertence exclusivamente ao Pontífice Romano?
      R: Sim, sem dúvida, pois como diz o mesmo Concílio de Trento, Sessão XXIV, cap. 1, De reforma “Um das principais deveres do Pontífice Romano, cuja solicitude se extende à Igreja Universal, é o de dar a cada Igreja particular ótimos e capabilíssimos pastores …”

      Artigo 2º, Jurisdição

      Q: O que entendeis por Jurisdição?
      R: Chamo Jurisdição o poder de governar os sujeitos; distingue-se jurisdição em interior, que se exerce no tribunal da Penitência, e jurisdição exterior, necessária para a conservação e governo da Igreja.

      Q: Esse artigo de Fé, de que o Papa tem sua Jurisdição direta e imediatamente de Deus, tem uma razão de ser convincente e inconstetável?
      R: Sim, pois a Jurisdição do Papa engloba toda a Igreja e, consequentemente, ela não pode ser comunicada senão por aquele que a possui em sua plenitude e universalidade. Ora, como nenhum homem sobre a Terra possui tamanha jurisdição importa, então, que o Pontífice Romano, uma vez canônicamente eleito a receba diretamente de Jesus Cristo, como definiu o IV Concílio de Latrão.

      Q: Isso sendo bem estabelecido, o que podeis dizer sobre o caráter e dignidade dos Bispos?
      R: Digo com o Concílio de Trento: 1º- que há na Igreja uma Hierarquia de instituição divina, que se compõe de Bispos, Padre e Diáconos; 2º- que os Bispos são superiores aos padres, que a eles cabe o poder de confirmar e ordenar, e que esse poder não é comum aos simples padres; essas duas verdades são artigos de Fé. É aos Bispos que é dado, pelo Espírito Santo, o poder de governar a Igreja de Deus, sob a direção e as ordens do Pastor Supremo e, portanto, seu caráter ( sacramento ) de Bispos, sua dignidade e destinação ao governo da Igreja são de Instituição Divina.

      Q: O que podeis dizer, em segundo lugar, de sua jurisdição ( dos Bispos )?
      R: No que diz respeito à jurisdição e aplicação dos Bispos ao governo de uma parte da Igreja, ou seja, o ofício pastoral ele mesmo, nos podemos e devemos dizer que os Bispos teem direta e imediatamente sua jurisdição do Romano Pontífice ( em função de seu Primado de Jurisdição, conforme definido pelo Concílio Vaticano )… daí se segue que: 1º- somente o Papa tem o poder ( por Direito Divino ) de assignalar os Bispos às suas dioceses…”

      Por fim, o texto de D Gréa, com sua conclusão em contrário às sagrações sem mandato:

      “Da instituição dos Bispos

      Após ter exposto a constituição da Igreja Universal e demonstrado nela a soberania de seu Chefe e a dependência de seus membros, nos resta explicar a doutrina concernente à transmissão do episcopado.

      Não encontramos aqui alguma dificuldade e o que vimos até o momento basta para nos fazer conhecer com toda sorte de evidências que o episcopado não tem outra fonte que Jesus Cristo e o Vigário de Jesus Cristo, em uma indivisível unidade de um mesmo Principado.

      Em efeito, como nossa hierarquia imita a sociedade divina de Deus e Seu Filho, Cristo Jesus, ela não poderia admitir menos que esse tipo augusto em ela mesma, outra ordem de pessoas que aquela da divina Processão, ou seja, da missão divina dada e recebida…

      A missão divina, já o dissemos, não é um ato posto uma única vez e que não há mais existência constatada que em seus efeitos mas, ao contrário, ela constitue uma relação permanente e fora da qual os poderes conferidos por ela não subsistem mais…

      Sua origem faz bem ver toda a sua dependência e seus poderes são por sua vez de tal modo referidos àquele que as confere, que ele somente pode retê-las, suspendê-las, moderá-las ou destruí-las, como sendo o princípio em ato delas…

      Assim, depender de São Pedro é mui claramente para o episcopado ter dele a origem de sua missão e, pela natureza mesma de sua dependência, importa que os Bispos sejam enviados e instituídos por ele somente.

      E não é por uma disposição arbitrária mas por uma necessidade mesma de ordem divina de constituição da Igreja que somente São Pedro pode fazer um Bispo e que, pelo mesmo direito, não há episcopado legítimo ou sequer possível fora desta única origem…

      Escutemos os antigos doutores:

      Inocêncio I: “Da Sé Apostólica decorrem o episcopado e toda a sua autoridade”

      São Leão: “Tudo o que Jesus Cristo deu aos outros Bispos, ele o deu através de São Pedro: dele, como o Chefe, os dons se distribuem pelo corpo”

      Tertuliano: “O Senhor deu as Chaves da Jurisdição a Pedro e, através dele , à Igreja”…

      É por efeito desta doutrina universalmente recebida que os Bispos, tendo de São Pedro sua instituição e jurisdição, nesta unidade que teem com ele,… pôde referir o Concílio de Reims, “sua potestade não é outra que a autoridade divinamente conferida aos Bispos pelo Bem-aventurado Pedro”… e essas noções são tão evidentes pelas relações delas com com os fundamentos da ordem hierárquica que não podemos negá-las ou obscurecê-las sem destruir seus fundamentos… ou rendendo incerta toda a economia divina da Igreja…

      Somente o Papa pode instituir os Bispos: este direito lhe pertence soberanamente, exclusivamente e necessariamente, pela constituição mesma da Igreja e da natureza divina da Hierarquia.”

      Até aqui, as palavras de D Gréa, palavras de D Gréa: de tão evidentes chegam a ser constrangedoras.

      Essas palavras de D Gréa desautorizam qualquer possibilidade de interpretação de seu texto no sentido de uma aquisição ilegítima e sacrílega do episcopado pois se está falando de uma prerrogativa Papal que, segundo o magistério de Pio XII, nem mesmo o Colégio Cardinalício pode suprir ( Constituição Vacantis Apostolicae Sedis, § 3, de 1945 ).

      O texto de D Gréa é por si tão importante que mereceria ser todo destacado em negrito… apenas alguns melhores momentos de um texto explêndido:

      – “doutrina concernente à transmissão do episcopado”,

      – “o episcopado não tem outra fonte que Jesus Cristo e o Vigário de Jesus Cristo, em uma indivisível unidade de um mesmo Principado”,

      – “como nossa hierarquia imita a sociedade divina de Deus e Seu Filho, Cristo Jesus, ela não poderia admitir menos que esse tipo augusto em ela mesma”,

      – “A missão divina… constitue uma relação permanente”,

      – “É por efeito desta doutrina universalmente recebida que os Bispos, tendo de São Pedro sua instituição e jurisdição”,

      – “Somente o Papa pode instituir os Bispos: este direito lhe pertence soberanamente, exclusivamente e necessariamente, pela constituição mesma da Igreja e da natureza divina da Hierarquia”.

      E trinta anos depois ainda se escondem atrás de uma argumentação tão fraca, como se uma verdade de Fé fosse tergiversável.

      Conforme o exemplo de S. José,
      Nos SS. Corações de Jesus e Maria.

  7. Dá-se impressão que ‘esquecemos’ de Cristo Jesus; Caminho antes…
    Porque não Cristãos Católicos, Igreja Santa e pecadora; Santa, JESUS é a cabeça do ‘corpo’ que é a igreja, toda igreja, pecadora…São Paulo disse que não tem um só que não peca né…
    E a ‘Santa Igreja’ manda…como isso é possível…?
    …todo resto deste corpo é igreja…como pode mandar em si mesma?
    Oremos por muita Luz Divina em nosso proceder, como Igreja Cristã Católica, Santa e Pecadora, Serva humilde da Santa Trindade…
    Pequenas atitudes dizem muito mau…como se ‘mostra’ a Santa Cruz numa Bênção de mãos Sacerdotais ungidas…de ‘cabeça para baixo’…não é errado, em um significado não Cristão então!

    • Elyseu etc.. Leia um catecismo católico de verdade e você verá que lá não existe isso de santa e pecadora. A única, a verdadeira igreja é SANTA, pecadores somos nós. Vá lá no blog Alexandria católica que você encontrará bons arquivos em pdf.

  8. “Também é preciso um pouco de retórica para sacudir um pouco os ânimos e para abrir os olhos das pessoas.”

    A era das fake news entrou até na FSSPX…

  9. O título não é da autoria do Fratres, Helga.
    Concordo que é uma má-fé imensa de quem o compôs, até porque Monsenhor Fellay fala eloquentemente na entrevista inteira que não há ruptura. Papel aceita tudo, dizia o ditado do tempo do papel.

    Hoje em dia toda a escória do mundo liberal está dentro da Igreja. Até maçons não sofrem mais excomunhão lata sentença. No entanto, a Fraternidade, ah, pois sim! Excomungada, cismática, sem estatuto, rebelde, desobediente, sem comunhão plena, e etc. Até protestante é irmão, só nós que não.

    É de rir, esquecer e seguir em frente.
    Que venha a próxima difamação, que essa foi muito barata.

  10. Excelente entrevista!

  11. Salve bela obra de dom Lefebvre! Prova de que a providência nos socorre em meio aos frutos fétidos liberais do mundo e do concílio Vaticano II.